Imprensa estrangeira

Ignorância sem fronteiras

      As leis nazis proibiam, escrevia recentemente o respeitabilíssimo The Guardian, o casamento de judeus com aliens. Este e outros desconchavos, que nos fazem voltar retemperados e gratos ao seio da imprensa indígena, podem ler-se no magnífico Regret the Error. Recomendável.

Léxico: cambão

Dr. Moscambilha

      Embora a acepção do vocábulo «cambão» mais conhecida seja, porventura, a de «conluio prévio entre marchantes, em leilão de gado ou compradores em quaisquer leilões, com o fim de rebaixar ou altear preços, açambarcando a praça e dividindo depois entre si os lucros», a verdade é que, entre muitas outras acepções, também se encontra a de «reunião de indivíduos abusivamente instalados nos corredores e dependências dos tribunais e aí exercendo corretagem de serviços forenses ludibriando os pleiteantes». Para esta última, temos uma abonação do Público:
      «José António Barreiros, causídico experiente, confirma as suspeitas do “agenciamento de clientela”, vulgarmente conhecido por cambão praticado naquele tribunal [da Boa-Hora]. Resumindo o esquema, os advogados pagam generosas gratificações aos funcionários que lhes arranjem clientes», «Os advogados “com a devida vénia…”», Paula Torres de Carvalho, 15.06.2006, p. 10.

Estrangeirismo: «blink»

Lampejos

      Inauguro com este post um outro tipo de olhar sobre a imprensa: o de recensear, dentro do meu horizonte de observação, os termos estrangeiros que vão sendo propostos para designar novas realidades. Se é verdade que muita da inovação da nossa língua passa pela adaptação dos estrangeirismos que vão surgindo, não deixa de se lamentar as escassas propostas de criação de vocábulos ou a adopção de vocábulos equivalentes. Isto deve-se também, ao que suponho, às abstrusas criações do passado e ao escárnio a que foram sujeitas.
      «A Clear Channel, a maior rede de rádios dos Estados Unidos, está a estudar, com markteers e anunciantes, a possibilidade de vir a lançar spots publicitários de um segundo. Os chamados blinks, que significa algo como “clarão” ou “piscadela de olho”, podem ser usados entre as músicas e até já há quem arrisque a ideia de os colocar entre as notícias» («Rádio americana estuda spots de um segundo», Público, 15.06.2006, p. 47).

Léxico: salangana

Imagem: http://www.kiushun.com/
Andorinha?

      Há quem pense que a sopa de ninho de andorinha dos restaurantes chineses é só um nome, como bacalhau à Brás ou amêijoas à Bulhão Pato. A andorinha, ave tão simpática, estaria ali apenas para atrair os clientes. Há quem, por outro lado, à simples evocação do nome pense logo em canja de galinha ou de pombo. Bem, na verdade não é exactamente de uma andorinha que se trata, mas da salangana (Collocalia esculenta), palavra que provém do malaio. Quanto ao conteúdo — desiludam-se os poucos portugueses que ainda não foram a um restaurante chinês —, é debalde que se procurará naquele caldo espesso uma coxa rotunda ou o peito carnudo da referida ave. O que nós comemos é mesmo o ninho, isto é, uma amálgama de algas, que serve para construir o ninho, normalmente em zonas alcantiladas na costa, com a saliva da salangana. Não é uma maravilha? Os devoradores de caracóis e caracoletas que se abstenham de comentários.

Léxico de época

Estas palavras que nos couberam…

Na recensão crítica do romance Camilo Broca, de Mário Cláudio, escreve Eduardo Pitta: «Do mesmo passo, certo pendor [de Mário Cláudio] para o léxico “de época” (quantas vezes actual, simplesmente omisso do português corrente pela cada vez maior rarefacção da fala e da literatura) empresta adequada tonalidade à intriga» (Mil Folhas/Público, 10.06.2006, p. 5). O melhor de tudo — e apenas surpreendente na medida em que os críticos nos habituaram a esperar outra coisa — é que o léxico do próprio crítico é rico, multiforme, adequado ao que pretende descrever, e a própria escrita é clara. Mesmo quando tem de usar um termo técnico, Eduardo Pitta é pedagógico: «[…] controlo da narrativa autodiegética, aquela em que o narrador se coloca num tempo ulterior ao da história que conta […]». Alguns exemplos de vocábulos e locuções usados pelo crítico, que também é escritor e co-autor de um blogue: inconcluso, «defensores estrénuos», querela, «autor consumado», avoengos, «de viés», interstícios, estúrdia, corrécio, truculência, lampejo, etc. Palavras, algumas, que já estamos desacostumados de ler na nossa imprensa. Um exemplo a seguir pelos críticos.

Português antigo

A língua à mesa

      Nessa altura eu não media 1,81, como agora. Ela sim, era a mais alta da turma; fazia, parecia-me então, duas de mim. Mas tinha um problema notório: até à 2.ª classe, foi incapaz, quer sob o efeito de blandícias quer sob a ameaça de sevícias, de pronunciar a palavra «mesa». Só muito depois é que eu soube que até ao século XVI o povo nasalava a palavra: mensa. Tal como ela. Nunca mais tive notícias da Amélia, mas quem sabe se não é agora professora de Linguística?

Tradução

Mais equívocos

      Sempre houve e sempre haverá erros de tradução. Recuemos um pouco. O uso do vocábulo «testamento» para designar o Antigo e o Novo Testamentos provém de um erro monumental dos tradutores latinos, que traduziram por testamentum o grego diatheké, que na realidade significa «convénio», acordo», «vontade». Refere-se ao antigo e ao novo «convénios» de Deus com os homens e não a um qualquer testamento. Quantos equívocos destes não farão parte da nossa cultura? Quem se importa com isso?

Maçã: fonética e tradução

Una manzana en La Gran Manzana

      O vocábulo português «maçã» e o espanhol «manzana» provêm do mesmo étimo latino: mattiana, que era inicialmente um adjectivo. Na passagem do latim para o português, o grupo -ci- ou -ti- transformou-se ora em z ora em ç, e mesmo em -ch-, quando o -ti- é precedido de s, pelo que tivemos primeiro, no português arcaico, o vocábulo mançãa. Para infelicidade dos tradutores portugueses, porém, o espanhol «manzana» é polissémico, e não é raro ver a palavra, usada na sua acepção de «quarteirão» («Espacio urbano, edificado o destinado a la edificación, generalmente cuadrangular, delimitado por calles por todos sus lados.»), traduzida como maçã. O que dá que pensar: então o contexto não ajuda a perceber que não se trata do fruto? A ignorância tem razões que a própria razão desconhece.

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