Fonética: ourives

Ourives e pratives
 
      Para um leigo, o vocábulo «ourives» parece ter origem árabe, não é? Mas não: vem do latim «aurifice-». A primeira alteração fonética ocorrida, e que é comum na passagem do latim para o português, foi a fricativa surda (f) passar a sonora (v), e depois o c converter-se em z, com queda do e final, o que deu ourivez. E assim se escreveu durante muito tempo, até que a ortografia oficial instituiu o actual «ourives». Mais tarde, entrou na língua o culto «aurífice» (a par de aurificia, aurificina, aurifício, etc.). Alguns dicionários registam a locução «ourives de prata», no que ficaríamos em desvantagem, poderia parecer, em relação ao espanhol, que tem o «platero». Contudo, a nossa língua regista também o vocábulo «pratives», que há poucas semanas sugeri a alguém que usasse numa tradução. Se temos as palavras, para quê tê-las a ganhar pó e caruncho nos vetustos dicionários?


Léxico: faloa

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Vai falando

      A criatividade no campo linguístico é espantosa. José Pedro Machado registou no concelho da Maia o vocábulo «faloa» para designar o instrumento de latão, em feitio de corneta, para se falar por ele. Claro que foi formado a partir do verbo falar, nada mais simples.

Género e sexo

O que se diz

      Amélia Pais escreveu-me: «Amigo: oiço sistematicamente falar de igualdade de géneros (homem-mulher) quando se discute a lei de paridade. Ora, parece-me que o que está em causa é a igualdade de sexos ou a não discriminação de sexos... Ainda agora ouvi Manuel Alegre falar de igualdade de géneros... Que me diz?» Pois digo que devíamos deixar os géneros para a gramática e para a mercearia. Sempre se disse e escreveu «igualdade entre homem e mulher», para quê complicar agora? Ainda ontem li no jornal Público: «“Como é que um Presidente há seis meses não tinha nada a dizer [sobre questões de género] e agora tem uma doutrina inteira?”» («BE acusa Cavaco de insultar as mulheres», 8.06.2006, p. 9). Repare que o acrescento parentético é da autoria do jornalista. Que também há-de ser um ser humano, bem entendido, e como tal permeável aos modos de dizer da sociedade em que se insere — mas devia policiar mais a escrita. O sermo vulgaris para a plebe e os chavões políticos para os políticos.


Léxico: «arça»

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Brinco a sério


      Também eu queria, como Bocage disse de si, afamar-me por mais alta empresa. Pode ser que tenha criado um hápax com o termo «enfarna», mas não queria ficar por aqui. A palavra que abordo hoje não a vejo registada em muitos dicionários. Designa a parte do brinco que o prende à orelha — a arça.

      Hápax s.m. 2g. palavra ou expressão de que só existe uma única abonação nos registos da língua.


Léxico: cadava

Só para lembrar

      A parte das plantas lenhosas que fica de pé depois de uma queimada ou incêndio tem o nome de «cadava» (origem do nome do topónimo Cadaval, ao que parece.) A palavra veio-nos do espanhol cádava, que o dicionário da Real Academia Española diz ser um «tronco seco o chamuscado de árgoma o tojo», ou seja, dois arbustos.

Utilidades: glossário de enxadrismo

Saber mais

      Lembram-se do texto que aqui publiquei sobre o escaque («Léxico: escaque; figura: catacrese»), o nome dado a cada uma das casas do tabuleiro de xadrez? Está agora disponível na Internet uma Terminologia dels escacs que contém 133 denominações em catalão próprias do jogo de xadrez, definidas e com as suas equivalências em castelhano, francês, inglês e alemão. Toda a informação procede do Diccionari general de l’esport que o TERMCAT está a elaborar e que prevê editar no próximo ano.

Estrangeirismo: «media»

Algum dia

      Aguardo com expectativa benévola o momento em que o Diário de Notícias se decida a escrever o estrangeirismo media como deve ser: como estrangeirismo que é, devendo destacá-lo como tal. O uso do itálico é de regra, parece-me. O jornal Público, pelo contrário, tem uma prática consistente de o grafar em itálico: media. O Expresso, por sua vez, grafa-o entre aspas: «media». Como alternativa, o Diário de Notícias pode aportuguesá-lo, como eu já faço: «os média».
      Um dia, no programa Acontece, Carlos Pinto Coelho, politicamente incorrecto, corrigiu um entrevistado: «Ó senhor professor, não diga “mídia”, diga “média”!» Esse é um dos problemas: como recebemos a palavra do inglês, há quem não veja nela um latinismo, tão puro como «curriculum» o é. Ora, sendo um plural, não podemos — mas ouvimos, meus senhores! — dizer «um media», sob pena de nos julgarem uns grunhos pouco lidos. Devemos dizer e escrever «um medium» (exactamente: como se estivéssemos a falar do professor Karamba), como o Público também faz: «Os blogues surgiram em massa, como um “medium rebelde”, sem regras e ao alcance de qualquer um» (Público, «Criada agência de blogues para fornecer conteúdos para jornais», Catarina Homem Marques, 11.4.2006, p. 47.) Tal como curriculacurriculum. Logo, o curriculum, os curricula; o currículo, os currículos; o medium, os media; o médium; os média. Claro, já sei: o português não tem plurais terminados em -a. Por outro lado, temos um plural de «médium»: «médiuns». Tudo visto, creio que é claro para todos que não podemos alterar o latim, isso é puro disparate, mas podemos e devemos moldar o termo em português.

Traduções

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A calzón quitado

      Por uma qualquer razão misteriosa, mas que decerto fará parte dos arcanos do ministro Mário Lino, em Portugal toda a gente se acha habilitada para traduzir do espanhol. De vez em quando, vou, modestamente, aconselhando alguma prudência e muito estudo, mas ninguém me ouve. Ontem mesmo, chegou-me uma tradução em que se lia o seguinte:
      «Los científicos dudan sobre la existencia de una especie de transición, Homo habilis, antes del Homo erectus de la cultura pebble de Olduvai, olduviense o de cantos rodados.» O tradutor não conhecia as palavras de lado nenhum, é claro, e desconhece a existência dos chamados falsos cognatos. A polissemia passou-lhe também, em anos mais tenros, ao lado. Traduziu, pois, assim: «Os cientistas duvidam sobre a existência de uma espécie de transição, Homo habilis, antes do Homo erectus da cultura pebble de Olduvai, olduviense ou de cantos rodados

«Cantos rodados: Los ríos en su curso alto tiene una pendiente elevada por lo que el agua circula a gran velocidad empujando a las piedras y haciéndolas deplazarse rodando sobre sí mismas. Esto hace que se vayan redondeando las aristas con los golpes que reciben al rodar, de manera que todas terminan por tener una forma redondeada de donde les viene el nombre de cantos rodados.»

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