Orações coordenadas

Dependência ou igualdade?

      Uma leitora pergunta-me se se pode designar como «coordenante» a primeira oração nas frases coordenadas. Começo por dizer que não é a primeira vez que alguém me faz esta pergunta, pelo que já reflecti algumas vezes na matéria. Quando me perguntaram da primeira vez, o argumento de quem perguntou era o de que não há orações coordenantes porque o termo nem sequer existe, do que discordei parcialmente. O termo «coordenante» existe (o Dicionário Houaiss, v.g., regista-o), o que não me parece que exista são orações coordenantes. Pois se justamente se trata de orações coordenadas, de natureza e funções idênticas, não há nem pode haver uma relação de dependência. Poderá haver relações que qualificarei, à falta de melhor designação, de precedência, como, por exemplo, na frase «Vai depressa e volta», cujos termos, em determinados contextos, não são intermutáveis. Não ignoro, contudo, que há quem defenda que existem orações coordenantes, como a Prof.ª Helena Mateus Montenegro, da Universidade dos Açores, na obra Glossário de Termos Gramaticais, em que se pode ler: «A caracterização das frases coordenadas como frases que não desempenham uma função de dependência entre si leva a que, geralmente, não se distingam em termos de nomenclatura uma da outra. Isto é, a maioria das gramáticas fala de frases coordenadas sem atribuir uma distinção entre coordenante e coordenada. A identificação de uma frase coordenante e de uma coordenada torna-se pertinente, se analisarmos a sua estrutura.»
      É verdade que aprendemos que numa frase como «O João vê televisão e a Luísa lê o jornal» a primeira oração é a principal e a segunda, coordenada à principal. Creio, porém, que se trata de um problema de nomenclatura e não tanto de compreensão. Talvez a confusão, se confusão é, advenha do facto de também à oração subordinante se chamar principal, pelo que se terá entendido que designar como «coordenante» a «principal» no período coordenado seria o mais correcto, para evitar equívocos. Do que discordo, como afirmei, porque se pretende ver dependência onde a não há.

Prender e deter

É pouco mais ou menos isso

      É impressão minha ou de vez em quando há, na Ordem dos Advogados, cursos sobre matérias jurídicas para jornalistas? Não os frequentam, garantidamente, todos os jornalistas que deles precisam. Vejamos esta frase, da autoria do jornalista Armando Rafael, no Diário de Notícias: «As tropas australianas renegociaram os termos da sua intervenção em Timor-Leste, de forma a poderem prender e interrogar todos os timorenses que forem apanhados em distúrbios, confrontos ou saques» («Australianos já podem prender timorenses», 30.05.2006, p. 12).
     Prender, os militares? Nem em Timor-Leste nem cá, graças a Deus. O poder que eles têm é — o jornalista chega a usar a palavra, mas as duas anteriores referências a «prender» inquinam o texto — de procederem a detenções. Deter, interrogar, julgar, prender e, nos casos aplicáveis, executar, são poderes que têm de pertencer a instâncias diferentes, não é? Mesmo nos tempos que correm, quando se encontram reunidos nunca é para poupar dinheiro.

Semântica: sabotagem

Sabot: http://valledaosta.starnetwork.it
Tamancos

      Há dias tive de emendar um texto em que a palavra «sabotador» aparecia mal escrita: «saboteador» (que, na verdade, é como se escreve em espanhol). O termo «sabotagem» vem-nos do francês sabotage, e este de sabot («Chaussure de bois faite touted’une pièce et creusée de manière à contenir le pied. Sabot de bois d’aulne, de hêtre, de noyer. Une paire de sabots»). Conta-se, e esta é apenas uma das versões, que, no século XIX, os operários franceses grevistas atiravam, como forma de protesto, os seus tamancos para o interior das máquinas, provocando assim avarias que obrigavam a suspender a laboração das fábricas. Depois, por extensão de sentido, passou a aplicar-se o termo «sabotagem» a todo e qualquer acto de terrorismo ou acção ofensiva em situações de guerra ou guerrilha.

Neologismo: «brifar»

Não me diga

      No último Câmara Clara, programa semanal de Paula Moura Pinheiro na 2:, que começo a apreciar, um dos convidados, Paulo Varela Gomes, disse que não tinha dúvidas de que o presidente dos EUA, George W. Bush, «tem historiadores que o brifam sobre as guerras dos Romanos». «Brifam», meu Deus! É o abstruso e completamente desnecessário aportuguesamento do inglês «to brief». Mesmo para quem chispa estrangeirismos por todo o lado, num cosmopolitismo muito à frente de tudo e de todos, custa a acompanhar, tanto mais que não é inglês nem português.

Língua-mãe

Olha que não

      Os estudantes portugueses, cerca de mil, que pretendem frequentar o ensino superior espanhol fizeram exame na sexta-feira e ontem, tendo a RTP1 feito uma reportagem, que passou no Telejornal. O repórter entrevistou uma jovem que quer frequentar Medicina. Em Espanha, há 40 faculdades de Medicina e muitas vagas, esclarece uma voz off. As razões para a jovem entrevistada querer ir para Espanha são também claras: lá, as notas de acesso são mais baixas e, com a presença espanhola no mundo, será vantajoso dominar uma segunda língua-mãe. Quanto às notas, parece não haver dúvidas; já quanto à língua-mãe, receio não ser possível. Com cerca de 20 anos, como pretende dominar uma segunda língua-mãe? Segundo o Dicionário Houaiss e o bom senso, língua-mãe ou língua materna é a primeira língua aprendida por uma pessoa na infância. Já não vai a tempo. Suponho que não era a estas ilusões que H. Stein se referia quando escrevia que «devemos ter esperanças elevadas, expectativas moderadas e necessidades reduzidas».

Léxico: zesto

Imagem: http://www.erlacher.it/
As coisas e os nomes

      Se alguém quisesse saber como se chama a membrana que divide interiormente a noz, o que poderia fazer? Deitar-se a adivinhar, talvez. O problema, já aqui o disse mais do que uma vez, é que não temos em português dicionários e vocabulários específicos que nos levem de um conceito aos conceitos correlacionados. Aliás, temos um, mas é claramente insuficiente, um mero subsídio para um dicionário completo que tarda a aparecer no mercado editorial. Talvez também falte autor que esteja à altura da empresa, que demorará anos*. Quase tudo tem nome — ou devia ter. A membrana ou película dura que divide o interior da noz em quatro partes chama-se zesto, palavra que vem do francês zeste.

* É caso para dizer, com os Romanos: «Frangat nucleum qui vult nucem» (Quem quiser comer noz que parta a casca). Claro que por vezes também diziam «Nucleum qui esse vult, frangit nucem» ou «Qui e nuce nucleum esse vult, frangit nucem» ou «Qui vult esse nucleum, frangat nucem» ou «Qui vult nucleum, frangat nucem». Foi Plauto (Titus Maccius Plautus, 245–184 a. C.) quem nos legou este provérbio (Curculio, I, 1, 55).

Plebeísmos

Peregrinatio ad loca infecta

      Nunca aqui abordei a questão dos plebeísmos na linguagem (sim, porque há plebeísmos no comportamento, que para aqui não interessam): frases ou palavras que só usa a plebe*. Parece ser uma coisa má — e é mesmo. Sinónimos de plebe: gentalha, populacho, arraia-miúda, ralé… O que se pretende dizer é que não se espera que alguém, em determinadas circunstâncias, diga ou escreva certas palavras, os plebeísmos. Pois anteontem mesmo Pedro Mexia usou, numa recensão a livros de crítica literária de Jorge de Sena, reeditados recentemente, o termo «plebeísmo». Leiamo-lo:
«E comparecem também os habituais excessos de plebeísmo: termos como “pessegada” ou “esterco” não são exactamente exemplos de subtileza crítica», «Contra a imortalidade», Pedro Mexia, DN/6.ª, 2.06.2006, p. 29.

* A definição do Dicionário Houaiss parece-me a mais completa: «vocábulo, locução ou expressão típicos do dialecto das classes populares ou dos registos distensos da fala culta, e tidos freq. pela comunidade falante como grosseiros, vulgares ou triviais, mas que não chegam a ser tabuizados [São plebeísmos, em Portugal, p.ex., avacalhar, porra, e no Brasil, de saco cheio, bunda-suja]».

Ortografia: mais-valia

Mais valia estar calado

      O vocábulo «mais-valia» leva, como acabei de escrever, hífen, e é pena que ainda não tenha entrado nos hábitos de todos, e em especial dos jornalistas, que assim é. O plural é «mais-valias», como é de regra em compostos formados por uma palavra invariável e outra variável. Naturalmente, só esta última irá para o plural:
abaixo-assinado/abaixo-assinados;
auto-elogio/auto-elogios;
ave-maria/ave-marias;
ex-governador/ex-governadores;
infra-estrutura/infra-estruturas;
grão-mestre/grão-mestres, etc.

      Há menos de dois meses ouvi a jornalista Conceição Lino, no Jornal da Noite, da SIC, dizer «abaixos-assinados».
      «O presidente da Câmara de Mirandela acredita que “a carta pode ser uma mais valia na comercialização das marcas” que existem no concelho transmontano, podendo os produtores tirar daqui dividendos através das características de qualidade do azeite», «Mirandela lança lista de azeites», Sandra Bento, Diário de Notícias, 2.06.2006, p. 31.

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