TLEBS

Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS)

      Ainda hoje não compreendo a necessidade de se ter concebido uma nova terminologia linguística para o ensino. Passados meses, ainda nem sequer compreendo a nova terminologia. Como não sou professor, posso viver bem sem isso até ao fim dos meus dias, podem contrapor-me. Pois, mas vejo muitos professores que nem querem pensar que existe uma nova terminologia. Prosaicamente, diria que se estão a borrifar. Não foi — lembrar-se-ão estes professores e todos nós — Sócrates que afirmou que inaugurava uma nova prática política, não desprezando iniciativas de governos anteriores, antes aproveitando o que era de aproveitar? Se chegaram à conclusão de que a terminologia anterior precisava de ser revista, melhorada, adaptada, era isso que faziam. Faz lembrar os casais de novos-ricos que deitam para o lixo as mobílias de carvalho que herdaram e as substituem por móveis da Ikea. Há muitos professores que já não vão assimilar a nova terminologia, porque, afinal, não nos deixemos enganar, não se trata de palavras, mas de conceitos. Só uma nova geração de professores irá dominar este novo instrumento, mas com um custo considerável: o corte com o passado e com o que este tinha de bom. Por outro lado, os 48 % de jovens com 15 anos cuja competência de leitura é mínima não vão beneficiar nada com esta medida — eles serão os futuros professores. Como escreve Vasco Graça Moura, faz falta uma varredela.

Más traduções

O poder letal das palavras


      O Diário de Notícias de ontem mostrou-nos bem como uma tradução incorrecta pode ter consequências desagradáveis. Leiamos:

      «A declaração que Xanana Gusmão fez, na terça-feira à noite, diz que o Presidente tem a “responsabilidade principal” pela condução da defesa e da segurança no país, indiciando a sua partilha. Mas a versão inglesa aponta noutro sentido, aludindo à “responsabilidade exclusiva” (sole responsability). O que explica que os media de língua inglesa retirassem conclusões erradas do discurso» («Declarações de Xanana com traduções distintas», p. 18).

      Este episódio lembra-me a némesis que os jornais espanhóis têm no autor do site Malaprensa, que denuncia em especial os disparates jornalísticos que envolvem percentagens, verbas e más traduções.

Léxico: chambaril

Imagem: http://alentejanando.weblog.com.pt/arquivo/chambaril.jpg

Porcos (com sua licença…)

      Um leitor pergunta-me se sei o nome do pau curvo que se enfia nos jarretes do porco morto, quando se pendura para o abrir. Talvez saiba que ao pernil também se dá o nome de chambão. Pois o pau chama-se chambaril.

Tradução

Eu, noctâmbulo da Dor e da Saudade*

      A língua portuguesa tem poucas palavras terminadas em -âmbulo. Tanto quanto sei, apenas «anteâmbulo», «funâmbulo», «noctâmbulo», «preâmbulo», «sonâmbulo» e «vigilâmbulo». «Anteâmbulo», que é um sinónimo de preâmbulo, ninguém a usa, nem eu; «funâmbulo» é usada com alguma frequência, no âmbito das artes circenses; «preâmbulo» é muito usada, sobretudo nas faculdades de Direito; «sonâmbulo» é a mais usada e conhecida; «vigilâmbulo» ninguém, a não ser poetas, a usam — com a ressalva de que há um grupo teatral com esse nome, Vigilâmbulo Caolho. Parecia que me tinha esquecido de «noctâmbulo», mas não. Na verdade é a que, de momento, mais me interessa. Constou-me que recentemente um leitor enviou uma carta (terá sido email, decerto) a um editor que tinha publicado um livro em que aparecia o vocábulo «noctâmbulo». E a mensagem era, ao contrário do que se poderia supor, de protesto por se ter usado tal vocábulo. A obra, em prosa poética, era, repare-se, uma tradução do francês, e o original dizia «noctambule». «Les trottoirs sont envahis de noctambules.» José Saramago tem razão: ler sempre será uma coisa de minoria. Pelo menos ler bem. Não há Plano Nacional de Leitura que nos valha.


* Verso do poema «Plenilúnio», da autoria do poeta brasileiro Augusto dos Anjos (1884-1914).


Léxico: poterna

Imagem: http://www.grodzisko.pl/
No castelo

      Uma leitora pergunta-me qual a designação que se dava às portas secretas dos castelos e fortalezas. Essa porta tinha o nome de poterna*, e a imagem mostra uma, de um castelo algures na Polónia. Era uma porta traseira, habitualmente elevada e de difícil acesso, muitas vezes bastante afastada, por uma galeria, da fortificação. Era através da poterna que, em caso de assédio, se entrava e saía da praça fortificada.

* Do latim posterala, «porta posterior».

Uso do itálico

Ah, isso…

      Decerto que há aspectos bem mais graves nos jornais — a começar na pontuação, desleixada ou ignorante. Hoje, porém, quero abordar o uso do itálico. Os casos que apresento são diferentes: no primeiro, o jornalista (ou o revisor) poderia ter usado a palavra portuguesa, evitando assim o itálico. Embora seja uma forma de destaque, perturba a leitura. No segundo caso, o jornalista (ou o revisor) não deveriam usar o itálico.

O caso. «A colecção, que abrange brinquedos das mais variadas origens, materiais e temas da última metade do século XIX e do século XX, tem como ex-libris um triciclo em ferro, madeira e couro», «Museu de (a)brincar de Arronches candidato a prémio europeu», Hugo Teixeira, Diário de Notícias, 13.05.2006, p. 44.

A solução. ex-líbris s.m.2n. vinheta desenhada ou gravada que os bibliófilos colam ger. na contracapa de um livro, da qual consta o nome deles ou a sua divisa, e que serve para indicar a posse. (Dicionário Houaiss)

O caso. «Apesar de ter conseguido o tempo mais rápido nos treinos disputados ontem, o piloto da Ferrari foi considerado culpado por ter atrasado deliberadamente os adversários», «Schumacher é o último no Mónaco», 28.05.2006, p. 48.

A solução. De facto, Schumacher conduz um Ferrari, mas a equipa é a Ferrari, isto é, só as marcas é que são destacadas a itálico. É uma boa prática, mas não é seguida por todos os jornais.

Tradução de «polipasto»

Imagem: http://www.proyectosfindecarrera.com/
Desunião ibérica

      Não duvido, caro Luís Ramos, que tenha lido num dicionário que a tradução do espanhol «polipasto» é… «polipasto». Não apenas não conhecia a palavra como portuguesa como confirmei em todos os dicionários que tenho *. Pelo que posso ver no Diccionario de la Real Academia Española, «polipasto» ou «polispasto» provém do latim polyspaston, e este do grego πολúσπαστον. Pela definição — «aparejo de dos grupos de poleas uno fijo y otro móvil», o que corresponderá à imagem —, creio que se pode traduzir por guincho ou cadernal.

* No Brasil sim, usam a palavra, mas só a vejo na Internet. Em inglês, existe o vocábulo polyspaston, que provém do mesmo étimo: «Weight-lifting machine typically composed of a pair of pulley-blocks (one fixed, one mobile) housing sheaves, with a rope running in their grooves. The polyspaston performs the same function as the tackle, but the sheaves are arranged end-to-end in two parallel rows instead of rotating on a common axle as in a standard block.»

Expressão: «cutelo da mão»

Se não sabe, invente

      Recentemente, um consulente do Ciberdúvidas perguntava como se designa a parte carnuda da mão, acrescentando que em inglês é heel *, pelo que em português poderia ser «calcanhar da mão». Isto fez-me lembrar outra coisa relativa à mão. Embora a primeira vez que vi a expressão tenha sido numa tradução, não consigo localizá-la, mas em meu auxílio vem uma anotação que fiz a Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho, em que se pode ler: «com o cutelo da mão». É com o cutelo da mão, por exemplo, que se mata um coelho. Trata-se de uma muito engenhosa e perspicaz catacrese, como asa do nariz, perna da mesa, nariz do avião e de outras. Catacrese que já devia estar dicionarizada. Na língua, a analogia é um filão inexaurível.

* Por exemplo, na frase «Place heel of hand nearer victim’s head on breastbone next to index finger of hand used to find notch».

Arquivo do blogue