Conceito: gralha

Rigor faunístico

      A leitora Luísa Coelho, que participa regularmente neste blogue com questões e dúvidas, pede-me que esclareça o conceito de gralha, que considera envolto em alguma mistificação. «Para o erro mais grosseiro», escreve-me, «há agora a desculpa de que é uma gralha. E então a ignorância, já não existe? Os computadores, essas máquinas estúpidas, vieram substituir outros bodes expiatórios.»
      Lanço mão da definição que encontrei na obra Correcção de Provas Tipográficas, de Manuel Pedro (Pai), cuja oferta agradeço ao meu amigo João Costa:
      «A “gralha”, verdadeiramente dita, consiste na troca de uma letra por outra, na repetição ou falta de uma palavra, na omissão de um vocábulo, ou nas palavras mal ortografadas ou por grifar» (p. 14).
      Como se concluirá, fica de fora do conceito muita ignorância, muita estupidez confrangedora que se vê plasmada diariamente em livros e na imprensa escrita.

Ortografia: «militar-industrial»

Da boca para o papel

      Não é a primeira vez que vejo este erro na imprensa, mas eis que surgiu a oportunidade de falar sobre ele. «Num livro publicado em 2002, o jornalista francês Thierry Meyssan garante que o ataque ao Pentágono não passou de uma encenação elaborada por um grupo militaro-industrial próximo do Presidente Bush», «EUA divulgam vídeo do 11-S», 17.05.2006, p. 48.
      «Militaro-industrial»? De onde vem aquele «o»? Sim, porque «militaro» não é um elemento de formação de palavras que exprima a ideia de militar ou referente à vida militar, como acontece com outros: euro, luso, etc. Também não é — ainda é menos, ia escrever — um adjectivo reduzido, como em corto-perfurante («Empunhando um objecto corto-perfurante, presumivelmente uma faca ou navalha, que trazia consigo, o arguido desferiu com o mesmo golpes em B., atingindo-o do modo descrito nos autos.»), luso-descendente, herói-cómico, afro-americano, israelo-palestiniano, entre muitos outros primeiros elementos de adjectivos compostos. Parece, na verdade, ter origem na oralidade, como vogal de ligação. Na escrita, é completamente espúrio. De qualquer modo, vou voltar a este assunto, que me parece suficientemente importante para pensar melhor nele.

Abreviatura: Dr.

Dr. Quem

      É infelizmente muito comum — o que o não torna menos grave — escrever com minúscula inicial a abreviatura de «doutor», como se pode ver nesta frase, que serve de exemplo, de Mário Bettencourt Resendes: «O dr. Jardim tem o particular talento de ostentar, por norma, uma ausência gritante de senso comum» («As armas e os barões de Alberto João», Diário de Notícias, 18.05.2006, p. 11). Nos substantivos, adjectivos e locuções pronominais, escritos por extenso ou abreviadamente, que constituem formas corteses de tratamento deverá usar-se a maiúscula inicial, como preceitua, e bem, a Nova Terminologia Linguística, quando antepostos a nomes de pessoas. Logo, Dr. Jardim, Mons. Johann Geisler, Fr. Georg Angst, etc.

Verbo haver

Camarada linguagem

      O desventurado verbo haver nasceu para ser maltratado, está visto. Hoje foi o camarada Jerónimo de Sousa que lhe deu uns sopapos: «E se dúvidas houvessem […].» Claro que não ignoro que Jerónimo de Sousa não foi condiscípulo do Dr. Álvaro Cunhal na Faculdade de Direito, mas a verdade é que estava a ler o discurso, que alguém terá escrito ou revisto. O redactor é, pois, o responsável por erro tão grosseiro. Também eu já escrevi, noutros avatares, muitos discursos para políticos, e por vezes em circunstâncias pouco propícias, mas nunca ninguém me pôde apontar erros de tal gravidade.

Ortografia: Estugarda

Sem comentários

      «Nascido em 1922, em Stuttgart, numa família de ricos industriais, Rau começou por estudar ciências económicas, mas interrompeu o curso em 1942 para ingressar no exército alemão» («O bom doutor», Alexandre Pomar, Expresso/Actual, 13.05.2006, p. 35).

      «Problema cardíaco fora a causa aparente da morte de Gustav Rau, a 3 de Janeiro de 2002, perto da sua cidade natal de Estugarda, na Alemanha» («A misteriosa vida e morte do Dr. Rau», Paula Lobo, Diário de Notícias, 18.05.2006, p. 37).

Lógica

O Dilema do Prisioneiro

      Já ouviram falar no Dilema do Prisioneiro? Está explicado com clareza meridiana na obra O Universo, a Nossa Casa, de Stuart Kauffman, com tradução de Carlos Sousa de Almeida, publicado pela Editorial Bizâncio em 2005.
      «A ideia mais simples de um jogo é exemplificada pelo conhecido “Dilema do Prisioneiro”. O leitor e eu fomos detidos pela polícia. Fomos presos em celas separadas. A polícia diz-me que se eu o denunciar a si e você não me denunciar a mim, serei libertado. A si, dizem-lhe a mesma coisa. Se me denunciar e eu não tiver confessado nada, libertam-no. Seja como for, o vigarista leal, um dos que tiver ficado calado, apanha 20 anos de prisão. Se ambos nos denunciarmos um ao outro, temos ambos sentenças duras, mas não tão duras se um falar e o outro não confessar. Digamos que ambos apanhamos 12 anos. Se ambos nos calarmos e não confessarmos, apanhamos os dois sentenças mais leves: 4 anos. Está a ver o dilema. Chamemos «cooperação» ao facto de não se falar, e ao de se delatar à polícia, “traição”. Um comportamento natural é ambos denunciarmo-nos um ao outro. Acho que é melhor denunciá-lo, visto que se você não o fizer, sou libertado. E mesmo que me denuncie, cumprirei uma pena inferior do que se não confessar e você me delatar. Você pensa a mesma coisa. Ambos nos traímos um ao outro e apanhamos 12 anos de prisão.»


Semântica: jacobino

Alma Nostra

      Falando hoje sobre a questão das hierarquias protocolares nas cerimónias de Estado, Carlos Magno e Carlos Amaral Dias suspeitavam, quem sabe se com razão, que as pessoas não sabem o que significa «jacobino». Cumprindo a minha função e, quem sabe, a minha missão, quero esclarecer aqui o conceito.
      Jacobino, que hoje em dia é uma formidável injúria na boca de alguns partidários da direita, mas atirada de forma inexacta, é um termo que nasceu com a Revolução Francesa. Em determinada altura desta, surgiu o chamado Clube dos Jacobinos, também conhecido como Sociedade dos Amigos da Constituição. Ora, este clube instalou-se num convento de frades dominicanos. E «jacobins» era uma alcunha que se dava em Paris aos frades dominicanos, porque ocupavam o convento de Saint-Jacques, que em latim — sempre o latim! essa forma mentis desgraçadamente proscrita do ensino — se diz Jacobus.
      Não deixa de ser irónico que um grupo que ficou conhecido pelas suas atitudes de sectarismo contra toda a religião tenha tomado o nome de um santo.
      Aos Jacobinos opunham-se os moderados Girondinos, porque a maioria dos seus chefes provinha da região francesa da Gironda.

Etimologia: miopia

Um míope no Paraíso

      Tal como os rajás e os marajás da Índia tinham enxota-moscas, o emir Isoarre, que era míope, dispunha de um solícito porta-óculos que o acompanhava até nas batalhas. Como os óculos eram de vidro, era quase inevitável que em cada recontro um par se partisse. Numa batalha, porém, a última para o emir, a lança cristã de Rambaldo foi cravar-se no peito de Isoarre — não sem antes ter quebrado o novo par de lentes que o porta-óculos pedia para entregar ao seu senhor. Morto este, o porta-óculos, que era solícito, lembremo-nos, já não tinha razões para não se mostrar inteligente, pelo que afirmou: «Agora a sua vista já não tem necessidade de lentes para contemplar as huris do Paraíso.» Esporeou o cavalo e foi-se embora. (Il Cavaliere Inesistente, Italo Calvino; usei a versão portuguesa, O Cavaleiro Inexistente, tradução de Fernanda Ribeiro e Herberto Helder, Portugália Editora, 1965.)
      A palavra «miopia» provém do grego myops, formada pelo grego myein (semicerrar os olhos) e ops (olho), como em «piropo», «hipermetropia» e em «presbiopia», por exemplo.

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