Concordância

Ai que confusão

      A falta de concordância é recorrente em muitos textos da imprensa. Vejamos este caso surgido no Expresso: «Depois de ter anunciado — na comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros — que delegara a reestruturação consular no subsecretário de Estado-adjunto, Bernardo Ivo Cruz, Freitas do Amaral resolveu consultar directamente embaixadores e outros chefes de missão, solicitando-lhes que se manifestassem quanto à importância das respectivas Embaixadas, bem como ao número de trabalhadores adequados às tarefas de cada posto», «Freitas quer “ranking” de Embaixadas», Isabel Oliveira, 29.4.2006, p. 12.
      Como se vê, o sujeito é o substantivo «número», que se encontra no singular; logo, o adjectivo «adequado» tinha de estar no masculino singular. É verdade que existem muitos tipos de concordância, mas no caso em apreço esta é a única admissível.

Léxico: levirato

Cunhados e ferros de arado debaixo da terra são logrados

      Numa conversa informal, surgiu a história, que merece um romance, de grandes proprietários brancos que, em Angola, quais régulos, são intocáveis precisamente porque respeitam a cultura local, o que se manifesta, por exemplo, no facto de acolherem as viúvas e os filhos de trabalhadores seus que tenham falecido. Embora haja aqui algo semelhante a uma organização baseada na escravatura, não falta também um sentimento de humanidade, pelo que me lembrei imediatamente da instituição chamada levirato, que existiu entre os Judeus* e que persiste em África, entre certas tribos. Levirato provém do latim, língua em que se formou a partir de levir, «cunhado, irmão do marido». Vejamos o que diz a Bíblia:
      «Quando dois irmãos residirem juntos e um deles morrer sem deixar filhos, a viúva não irá casar com um estranho; o seu cunhado é que se unirá a ela e a tomará como mulher, segundo o costume do levirato» (Deuteronómio, 25,5). Na Vulgata: «Quando habitaverint fratres simul et unus ex eis absque liberis mortuus fuerit uxor defuncti non nubet alteri sed accipiet eam frater eius et suscitabit semen fratris sui.»

* Entre os quais também existia o rito designado Halitzah, através do qual uma viúva cujo marido tivesse morrido sem descendência seria desobrigada do vínculo do casamento de levirato.


Léxico: «enfarna»

Imagem: http://www.cuyamaca.net
Verde-prateado

      «Depositei a minha esperança na linguagem ― daí o pânico quando uma simples palavra me escapa, quando olho para um pedaço de material florido em frente a uma janela e não sei que nome lhe dar. Cortinado. Graças a Deus. Consigo controlar o mundo desde que possa dar-lhe um nome.» Quem escreveu este texto? Podia ter sido eu, mas não: trata-se de um excerto da obra, vencedora do Booker Prize, Anel de Areia, de Penelope Lively, e foi publicado pela editora Civilização recentemente.
      Vamos então controlar o mundo. Agora que o pólen da oliveira irá aumentar, segundo o Diário de Notícias de anteontem, no decurso da semana, podendo atingir níveis elevados, é altura de falar da flor da oliveira. Quase todos sabemos que ao conjunto da flor, à floração, da oliveira se dá o nome de candeio. Pois, e a própria flor? Essa tem o nome de enfarna.

Ortografia: «volte-face»

Vira-casacas

Quer queiramos quer não, o termo «volte-face» é um estrangeirismo: vem do italiano «voltafaccia», através do francês «volte-face». Com o significado de mudança brusca de opinião ou de atitude, reviravolta, tem um uso relativamente alargado no português, e, apesar de o Dicionário da Academia o registar como vocábulo aportuguesado, a verdade é que só a semelhança fonética com o português permitiu que tal acontecesse. Deverá ser grafado como estrangeirismo, das formas habituais: ou itálico ou aspas.
«O volte-face aconteceu em 2003, quando o líder líbio, Muammar Khadafi, renunciou ao seu programa de armas de destruição maciça e aceitou entregar os responsáveis por Lockerbie e pagar as indemnizações às famílias das 203 vítimas do atentado» («EUA restabelecem relações com a Líbia», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 16.5.2006, p. 16).

Etimologia: oleoduto

Vamos olear a máquina

Comparando com a actualidade, a frequência com que nos anos 80 e 90 se usava, em Portugal, a palavra inglesa pipeline era muito maior. Contudo, ainda há quem a use, desnecessariamente, como Nicolau Santos: «Não deu grande importância a uma breve sobre o ataque dum tal de Movimento da Libertação para o Delta do Níger a um “pipeline” da Shell. […] Por isso, no dia 12 de Janeiro, não deu conta de uma nova acção do Movimento da Libertação para o Delta do Níger, desta vez contra um petroleiro e um “pipeline”» (Expresso, «Conspiração contra o sr. Silva», 6.5.2006, p. 12).
E já que falo de petróleo, é interessante ver como em espanhol o vocábulo «aceite» serve para tudo, mesmo para os óleos minerais, derivados do petróleo. Isto traz, como era de prever, dificuldades aos nossos tradutores menos experientes, que não raro tomam uma coisa por outra. A língua portuguesa, pelo contrário, reservou o vocábulo «azeite» unicamente para o óleo extraído da azeitona. «Óleo», vocábulo que nos veio do latino oleum, tomado do grego elaion, com o mesmo significado, serve para o resto. Em espanhol, por sua vez, «óleo» é palavra de escasso uso no sentido de óleo alimentar, estando o seu uso praticamente restringido à expressão «santos óleos» e para designar a pintura.
Apesar de tudo isto, também no espanhol se formou a palavra «oleoducto» e não outra que tivesse tomado por base a palavra «aceite», provavelmente por razões de eufonia. A sua formação, já se vê, é o latim oleum mais ducto, particípio passivo do verbo ducere (conduzir), como acontece, por exemplo, com a palavra aquaeductus (aqueduto).

Tradução

Actos e actas

Falava-se do cardeal Richelieu (1585-1642): «Falsificou o seu acto de baptismo para poder ser nomeado bispo aos 22 anos» («O país das punhaladas», Ferreira Fernandes, Sábado, n.º 106, 11 a 17.5.2006, p. 70). Ferreira Fernandes é um dos jornalistas que eu mais admiro; tanto que compro jornais e revistas que não aprecio nem um pouco só para ler artigos escritos por ele. Neste caso, estamos perante uma má tradução do francês «acte de baptême». Em português, diz-se correntemente «certidão de baptismo» ou «assento de baptismo».
«Comme elles tardaient à venir, le jeune prélat, impatient, alla lui-même trouver Paul V; il est faux qu’il ait à cette occasion falsifié son acte de baptême; le pape l’ordonna avant l’âge, en considération de son mérite, à Pâques 1607» (L'Encyclopédie de L’Agora).

Estrangeirismo: «expertise»

Prós e Contras

Como é possível que Fátima Campos Ferreira, que vejo insistir muitas vezes com os entrevistados para serem claros, pôde usar duas vezes seguidas, no Prós e Contras de ontem, a palavra «expertise»? A dúvida dela era sobre se o Hospital de Barcelos teria a «expertise» necessária para realizar partos. «Perícia» ou «capacidade técnica», entre outras palavras e expressões, não ocorreram à jornalista?
Quanto aos telespectadores, como diz um amigo meu, «por uma tiram as outras», porque na verdade o telespectador comum, médio, não sabe realmente o que é «expertise». E talvez não precise de saber — os jornalistas é que precisam de se exprimir melhor.

Leituras


O Código de S. Paulo

Um leitor recomenda-me que eu aborde aqui «essa obra incontornável» (ou será «incontrolável?) que é O Código Da Vinci, de Dan Brown. Pronto, já abordei.
Já agora, aproveito o ensejo e digo mais qualquer coisa. Mais do que uma vez Jorge Luis Borges usa a metáfora do espelho, presente na Primeira Carta aos Coríntios, 13,12: «Videmus nunc per speculum in enigmate tunc autem facie ad faciem nunc cognosco ex parte tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum.» O que é que S. Paulo nos quis dizer? Tem razão: talvez a tradução nos ajude. Lanço mão da versão dos Capuchinhos: «Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido.»* A colocação sistemática, pese embora a génese do texto, dos versículos e o espírito do texto sugerem-nos que se trata do conhecimento que os homens têm de Deus, que agora (presente) é imperfeito; depois (futuro) será perfeito, pleno, graças à fé que nos permitirá contemplar Deus directamente. Enigmática embora, a metáfora do espelho sugere, pois, essa forma imperfeita, mediada, de conhecer a realidade. Nem sempre, porém, é assim. Lembremo-nos da palavra «ambulância» escrita — ao contrário — nos referidos veículos. Porquê ao contrário? Porque o retrovisor, um espelho, do nosso carro nos restitui, de forma perfeita, uma realidade pretendida e não enunciada.


* Tenho à minha frente uma preciosa edição, que comprei na Salvation Army, em Cambridge, do início do século XX da obra The New Testament, a New Translation, de James Moffatt (1870-1944), cuja versão diz: «At the present we only see the baffling reflections in a mirror, but then it will be face to face; at present I am learning bit by bit, but then I shall understand, as all along I have myself been understood.»

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