Meia dúzia

Estranhas estranhezas

Duarte Calvão, crítico gastronómico do Diário de Notícias, está no Brasil. «Por falar em boas fórmulas para almoço, não podia deixar de visitar o Bistrô 66. Lê-se “meia-meia”, já que os brasileiros, por motivos misteriosos, tratam o seis por meia-dúzia. Como consideram a palavra comprida, abreviam para “meia”» (11.5.2006, p. 33). Não percebo a estranheza: do lado de cá do Atlântico não se «trata» também assim, ocasionalmente, o seis? Com mais razão teria escrito ser estranho dizer «meia» em vez de «seis». Mas a isto já Duarte Calvão respondeu: «Como consideram a palavra comprida, abreviam para “meia”.» Vamos ver o que dizem os dicionários.

Houaiss:
meia num. n. card. B red. de meia dúzia. Uso empr. esp. no discurso oral para diferençar o som da pal. seis do da três, como, p. ex., na frase: o prefixo dois-meia-três (263) é dos telefones da zona central do Rio.

Aurélio (2.ª ed. revista e ampliada):
meia. Num. O número 6, usado na fala, para evitar confusão com o número três: O ônibus da linha quatro-três-quatro (434) e quatro-meia-quatro (464) unem o Grajaú ao Leblon.

Entretanto, ficou resolvida outra confusão: nem lá, nem cá, nem pelo caminho se escreve «meia-dúzia» com hífen. Consultados o Aurélio referido, a 6.ª edição do minidicionário Aurélio (2004) e o libérrimo Dicionário da Academia, não se vê a locução registada com hífen. O que se verifica é precisamente o oposto: dicionários como o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, ter, à cautela, um verbete autónomo para
Meia dúzia, s. f. Colecção de seis.│Pequena quantidade; pequeno número.

Gralhas místicas

Acautelem-se

«Entre os cabalistas e os hassidianos crê-se que o mal se infiltrou no nosso mundo através da frincha minúscula de uma simples letra errada», George Steiner.

Ortografia: autocaravana

Senhores revisores do DN

Cuo amentiae progressis estis? Perdão! Não vão alegar que não corrigem «auto-caravana» só porque o Dicionário da Academia o não regista, ou vão? É verdade que abrimos esta obra e ficamos a patinar entre a «autobomba» e o «autocarro», sem resolvermos a vida. De permeio, o Houaiss conseguiu enfiar mais quatro verbetes, um desnecessário aquém-Atlântico: «autobonde». Pois, sim, e a «autocaravana»? Bem, enquanto não é registada — e se falta espaço no Dicionário da Academia, eliminem verbetes absolutamente inúteis, resultado de precipitações pouco louváveis —, socorramo-nos da analogia: se se escreve «autocarro», por exemplo, está mesmo a ver-se que não se pode deixar de escrever «autocaravana».

«Com receitas de 11,6 milhões de dólares (9,2 milhões de euros), United 93 foi batido apenas pelo mais recente filme de Robin Williams — RV, comédia sobre uma família que decide passear no campo com uma auto-caravana problemática», «”United 93” obteve bons resultados na estreia», 2.5.2006, p. 30.

Léxico: flictena

Bolhas

É preciso vir um membro da Equipa Coordenadora da Assistência aos Peregrinos a Pé para a palavra «flictena» ser usada. Sem peregrinos deixaremos de ter flictenas, pelo menos nas plantas dos pés (palmas das mãos, pelmas dos pés, sabia?*). Também existe o diminutivo «flicténula».


Flictena s. f. Pequena ampola vesiculosa, transparente, formada pela epiderme descolada da derme, por hemorragia ou por serosidade.


* «Ser português é fingir que se sabe tudo mas querendo saber umas coisinhas ao mesmo tempo», «Estava-se mesmo a ver», Miguel Esteves Cardoso, Expresso/Única, 22.4.2006, p. 14.

Etimologia: peregrino

Imagem: http://www.marianistas.org

A caminho de Fátima

Agora que temos muitas centenas de peregrinos a caminho de Fátima, pus-me a pensar e a investigar. Ora vamos lá ver: porque é que alguns peregrinos são atropelados nas estradas? Pois simplesmente porque, etimologicamente, peregrino vem de peregrinus, a contracção latina de per (através) e ager (terra, campo), que originou o adjectivo pereger (viageiro, viandante) e o advérbio peregre (no estrangeiro), que por sua vez deu origem a peregrinus (estrangeiro) e peregrinatio (viagem ao estrangeiro). Para evitar maus encontros, os peregrinos iam pelos campos, atalhando caminho *. O mesmo étimo originou no francês peligrim, que evoluiu para o actual pélerin, e no inglês, inicialmente pilegrim e depois pilgrim.
Quem fala de peregrinos não pode deixar de referir os lugares santos, e entre eles Roma. E do nome desta cidade se formou romeiro, um sinónimo de peregrino. Os poetas também usavam romípeta.


* Como passavam semanas e meses no caminho, tinham de estar atentos às condições atmosféricas. Há mesmo um provérbio francês que diz: Rouge soir & blanc matin, c’est la journée du pélerin. Que é como quem diz: o céu avermelhado à tarde e esbranquiçado de manhã é presságio de bom tempo. Temos algo semelhante: «Vermelho no poente, no outro dia bom tempo.» Aliás, já que falo neste aspecto, devo dizer que as próprias gabardinas têm algo que ver com os peregrinos. De facto, a palavra «gabardina» vem do francês galvardine, «capa de peregrino», que veio do germânico wallevart, «peregrinação», de walle, «errar, vagabundear, andar sem destino», mais fahren, «jornadear, viajar». É verdade que alguns dicionaristas portugueses não concordam, afirmando que a nossa «gabardina» vem do espanhol gabardina (gabán + tabardina). Tal argumentação não me convence, pois que ficaria por explicar a proximidade do vocábulo francês gabardine, que consabidamente não provém do espanhol. A maioria das palavras começadas por w em alemão começa por g em francês, como acontece com esta, que anteriormente se grafava gaverdine. Em italiano fixou-se com a forma garvardina. Em inglês, temos Shakespeare, por volta de 1590, n’O Mercador de Veneza, a escrever gaberdine, para designar uma espécie de sobretudo ou capa usado por pobres, pedintes e, como estereótipo, pelos judeus. Numa fala de Shylock, lê-se: «You call me misbeliever, cut-throat dog,/And spit upon my Jewish gaberdine,/And all for use of that which is mine own.» Voltarei a este assunto.

Pronúncia: número


Alegrias

      Numa fila, ouço, extasiado, uma miúda com cerca de dez anos confessar para outras duas colegas ou amigas que andava a arranjar coragem para dizer à professora de Inglês que não se diz «númaro», mas «número». Eu nem quero saber como é que essa professora escreve a palavra. Até talvez a escreva correctamente, mas pronunciá-la como fica escrito é lamentável.
      Na universidade, também tive um coleguinha, menino bem, que hoje deve ser juiz severo e inflexível, que pronunciava «númaro», até que um assistente perdeu a paciência e lhe apontou o erro em plena aula.

Ortografia: Beijing ou Pequim?

Chinesices? Não!

Um leitor pergunta-me se deve «escrever-se Pequim, como sempre escreveu, ou Beijing, que actualmente lhe recomendam». Bem, caro amigo, para nós, Portugueses, como para todos, a cidade é a mesma, pelo que nada deverá mudar. Repare como também agora já se escreve com grande frequência Mao Zedong em vez de Mao Tsé-tung. Embora, na verdade, não se trate exactamente de um caso semelhante, já que estes últimos são dois nomes chineses, ao passo que «Pequim» é um nome português.
O que deve saber é que o Governo chinês adoptou, em 1979, uma transliteração oficial — conhecida como «Pinyin» — para caracteres latinos, baseada no dialecto de Pequim. Anteriormente, usava-se outro sistema de romanização, o de Wade-Giles, desenvolvido no final do século XIX por dois sinólogos britânicos, que continua, porém, a ser largamente usado.
«Beijing» e «Mao Zedong» são os nomes resultantes da utilização da transliteração pelo sistema Pinyin. Por isso, escreva como sempre escreveu, mas saiba mais sobre Pinyin.

Será brent, «brent» ou Brent?

Pluralidade

«O preço do petróleo atingiu ontem novos máximos em Londres com o barril de Brent a ser transaccionado a 69,97 dólares», «Petróleo faz subir preços dos voos», Correio da Manhã, 13.4.2006, p. 19.

«O brent do mar do Norte acabaria por corrigir perto do final da sessão e, à hora do fecho desta edição, negociava nos 69,4 dólares por barril», «Petróleo atinge novo máximo com queda de “stocks” de gasolina nos EUA», Diário de Notícias, Caderno Economia, Pedro Ferreira Esteves, 13.4.2006, p. 8.

«Os preços spot tanto do West Texas Intermediate (petróleo de referência no mercado de Nova Iorque) como do Brent (referência para o mercado europeu) ultrapassaram 67 dólares, e é possível que atingam [sic] os 70», «Preços do crude aproximam-se dos 70 dólares o barril», Público, 4.4.2006, p. 34.

«De uma média de 30,7 dólares por barril em 2004, o preço do barril de brent (o crude extraído do mar do Norte, que serve de referência para a economia portuguesa) passou para 41,3 dólares em 2005, tendo saltado para os 64,11 dólares desde o início do ano até agora», «Novos recordes no petróleo», Público/Dia D, 24.4.2006, p. 7.

Estamos perante um exemplo de derivação imprópria. Brent é o nome de uma jazida petrolífera descoberta ao largo de Aberdeen, em pleno mar do Norte. Por derivação, passou a designar uma mistura da produção de 19 campos de petróleo situados no mar do Norte. Logo, por essa razão e por se tratar de um estrangeirismo, o correcto é brent.

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