Iliteracias

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Era bom que fosse anedota

Recepcionista num consultório médico:
— E o nome da rua para a factura?
— Rua Ary dos Santos.
A profissional, por assim dizer, escreve:
«Aridos Santos»
Esboço um sorriso de resignação, que ela vê.
— Está mal escrito, é?
— Falta o acento no a.
A profissional, por assim dizer, escreve:
«Áridos Santos»
— Assim está bem, apesar de a ordem canónica em português ser nome, adjectivo.
— Como!?

Léxico: magérrimo

Sempre a desaprender!

Almoçar tarde tem destas vantagens: ouvi na Antena 1, às 15.15, o Jogo da Língua. A publicidade que é feita ao programinha é abundante e louvaminheira: divertido, didáctico e por aí adiante. O jornalista, Augusto Fernandes, bem avisou: «Hoje o problema é mais difícil.» Minutos depois, lá veio o «desafio» do dia: «Qual é a forma do superlativo absoluto sintético do adjectivo magro?» Uns instantes de suspensão e lança as hipóteses:
«Magrito, maguérrimo ou magriço?»
Um ouvinte de Portimão, talvez também a almoçar tarde, arrisca: «Magrérrimo
É pena, pois claro: erraram o ouvinte e o jornalista. Fica para a próxima. É mesmo divertido, didáctico e por aí adiante. E paupérrimo.

Ortografia: Monsaraz

Imagem: http://de.wikipedia.org/wiki/Reguengos_de_Monsaraz


Arre!

Felizmente, a pronúncia incorrecta, e tão vulgar, do topónimo «Estremoz» não passa para a escrita. Já quanto a Reguengos de Monsaraz, estamos mal. Já várias vezes ouvi jornalistas na televisão e na rádio pronunciarem «Monsarraz», como se tivesse dois rr. Agora, passou mesmo para a escrita: «O Menir do Barrocal, o maior monumento pré-histórico existente no distrito de Évora, localizado em Reguengos de Monsarraz, está a ser estudado pela primeira vez» («Maior menir do distrito vai ser estudado», Diário de Notícias, 15.4.2006, p. 33).

Neologismo: «deslocalizar»


Vá para fora cá dentro


      Não me restam dúvidas sobre a utilidade do neologismo «deslocalizar». A globalização trouxe muita coisa, e esta é apenas mais uma. Usada com propriedade, é — passou a ser — legítimo português. O que já não me parece bem é usar-se, só por estar em voga, a torto e a direito. Vejamos, hoje, o torto: de manhã, a TSF anunciava que o «Governo vai deslocalizar os estabelecimentos prisionais de Lisboa, Coimbra e Pinheiro da Cruz». Eu sei, bom Deus, que nesta última prisão se faz um vinho que até já foi premiado, mas não exageremos, não se trata propriamente de uma unidade de produção. Acresce que, entrevistado o presidente da Câmara de Grândola, este afirmou que quer «deslocalizar» sim, mas para os limites do concelho. Não quererão, afinal, apenas «deslocalizar» Tróia mais para sul?

Relativo a…


Imagem:
http://www.baptisthealth.net/

Hã?


Uma conhecida minha ficou muito admirada quando lhe disse que alguém tinha lábio leporino. Riu-se (já sabem: a ignorância é sempre risonha) muito e só ao fim de uns bons minutos é que estava em condições de ouvir a explicação. É para ela este post.

Leporino, adj. Relativo à lebre.│Semelhante à lebre.│Pat. Fenda congénita de um dos lábios, vulgarmente o superior.

Falemos então de adjectivos relativos a

abutre → vulturino
águia → aquilino
andorinha → hirundino
aves de rapina → accipitrino
bode → hircino
burro → asinino
cabra → caprino
cão → canino
carneiro → arietino
cavalo → equino
cervo ou veado → cervino
cobra → anguino
corvo → corvino ou coraciano
crocodilo → crocodilino
elefante → elefantino
ganso ou pato → anserino
gato (felídeos) → felino
javali → javalino
leão → leonino
lebre → leporino
lobo → lupino
marta-zibelina → zibelino
pombo ou rola → turturino
porco → porcino ou suíno
raposa → vulpino ou raposino
rato → murino
touro → taurino
urso → ursino
víbora → viperino
zebra → zebrino

Ortografia: «crude»

Crudelíssima língua

Seguindo a lição do Dicionário da Academia, o Diário de Notícias escreve sempre «crude» como se de uma palavra portuguesa se tratasse:
«A petrolífera, que é uma das dez maiores a nível mundial, colocou a tónica nos preços dos produtos refinados e na alta do crude, embora tenha frisado que “o preço do petróleo tem um reflexo mais indirecto nestas subidas”» […] «António Saleiro, presidente da Associação de Revendedores da Petrogal, disse que as subidas não se devem apenas à alta do crude ou ao imposto — que fez os preços aumentarem em Janeiro», «Gasolina atinge o preço mais alto de sempre», Diana Mendes, 14.4.2006, p. 23.
O Público, por sua vez, não está convencido e grafa-o como estrangeirismo:
«Por exemplo, em termos reais, os preços actuais do crude estão ao nível de 1981, quando o petróleo disparou devido à guerra Irão-Iraque» […] «A escalada do preço do petróleo é muito penalizadora para Portugal, uma vez que 62 por cento da energia consumida no país é produzida através de crude importado», «Petróleo e metais disparam nos mercados internacionais», Anabela Campos e Tiago Trovão, 12.4.2006, p. 34.
A verdade é que a palavra é inglesa: crude, de crude oil. (do lat. crudus) Designa o que não está refinado, o que é imperfeito, bruto, rude. É vulgar ver-se na imprensa a expressão «petróleo em bruto» ou «petróleo bruto» para designar o mesmo — e mais correctamente. Creio que, neste caso, a pronúncia semelhante em ambas as línguas muito contribuiu para alguns a acharem portuguesa ou facilmente apropriável.

Pronúncia

Imagem: http://www.maniadeintimidade.blogger.com.br/galinhas.jpg

Cacarejos

Alguns leitores deste blogue têm a amabilidade de me chamar a atenção para determinados factos. Nas últimas semanas, as mensagens incidem na forma como o professor Marcelo Rebelo de Sousa, no programa que tem na RTP1, pronuncia o vocábulo «senhor». Um leitor escreve-me que dizer «xô» em vez de «senhor» é, «modismos à parte», um «arremedo da pronúncia correcta». «O “xô” Blair para aqui, o “xô” Bush para ali.» Que posso eu dizer? Pois

, interj. Voz que serve para enxotar galinhas ou outras aves.

Ortografia: tâmil/tâmiles

DN, o Relapso


      No Diário de Notícias (14.4.2006, p. 36) ainda não sabem escrever «tâmil»: «Em 2000, Rajkumar [actor indiano muito popular, falecido na quarta-feira passada, 12] e três familiares seus foram raptados pelo bandido e activista tamil Veerepan.» A palavra «tâmil» é grave e tem na sílaba tónica um acento circunflexo.


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