Léxico: «dramaturgista»

Profissão inexistente?


      «Uma das suas profissões não vem no dicionário e talvez por isso a confundam tantas vezes com dramaturga. Vera San Payo de Lemos, de 54 anos, também professora universitária e tradutora, é dramaturgista», «Vera San Payo de Lemos, germanista em viagem», Joana Gorjão Henriques, Público, 2.04.2006, p. 42. De facto, o vocábulo «dramaturgista» não está registado em nenhum dicionário de língua portuguesa que eu conheça. Nem o tão abrangente Houaiss acolhe o termo, o que é uma falha importante. Para quando outro dicionário — desta vez sem as lamentáveis falhas, mesmo de revisão de texto!, que o maculam — da Academia das Ciências de Lisboa? Melhor ainda: para quando novas atribuições à Academia para a equiparar, no campo linguístico, à Real Academia Espanhola?


Ortografia: «suíte»

Pois é

      No Diário de Notícias, os jornalistas ainda não viram que são já vários os dicionários que registam o aportuguesamento da palavra suite: «suíte». Por acaso, desta vez nem foram incoerentes: grafaram-na como estrangeirismo: «Após a cimeira, as obras prosseguirão para dotar o futuro Palace Hotel de, pelo menos, 9 quartos e 25 suites presidenciais, precisou o proprietário, que encomendou de Portugal todos os materiais de construção para a remodelação da antiga sede do Parlamento, no bairro de Brá [em Bissau].»



Expressões populares

Imagem: http://www.code7r.org/Bintoons/bt8.htm

Cara de Páscoa

Recentemente, falei aqui da Quaresma, tendo referido os termos correspondentes noutras línguas. Entretanto, lembrei-me que temos algumas expressões conotadas com estes termos — à semelhança do que acontece noutras línguas. Os Franceses têm várias, algumas com correspondente em língua portuguesa. Por exemplo: «face de carême», que é um rosto emagrecido, macilento. Nós temos «cara de quarta-feira de trevas» (por oposição a «cara de Páscoa», que é a cara alegre). O francês tem «tomber comme mars en carême», que significa acontecer inevitavelmente, ser fatal como o destino. Nós temos «tão certo como à Quaresma se seguir a Páscoa». Boa Páscoa!

Ortografia: lugar-comum

Um baldio é um lugar comum

A Pública recusa-se terminantemente a escrever o vocábulo «lugar-comum» com hífen, erro que, de resto, vejo repetido por muita gente. Em duas edições diferentes, duas jornalistas escreveram como se pode ler a seguir.
«É lugar comum, o que quer dizer que é verdade: as mulheres sempre se sujeitaram às coisas mais incríveis em nome da beleza», «Cem anos de caracóis», Ana Gomes Ferreira, Pública, n.º 513, 26 de Março, p. 66.
«Sei que isto é um lugar comum, mas estou na câmara porque quero fazer alguma coisa pelo progresso desta terra onde só não nasci por acaso [nasceu em Lisboa]», «Santiago Macias, viajante da história», Lucinda Canelas, Pública, n.º 514, 2.4.2006, p. 18.

Ortografia: saquê

Imagem: http://www.japaoonline.com.br/pt/saque.htm


Critérios e falta deles


      Embora esteja registada em vários dicionários de língua portuguesa, a palavra «saqué» (ou «saquê», variante) é olimpicamente ignorada por tradutores e jornalistas. Sirva de exemplo a revista Flash! Num artigo em que usa com profusão e deleite termos da culinária japonesa — sushi, sashimi, hodachi, nigiri, uramaki —, nunca «sushi» e «sashimi» aparecem grafados em itálico ou entre aspas, ao contrário de «saké». Dá que pensar.

Ortografia

O Público tem errado
     


      Deixemo-nos de complacências: no que se refere à ortografia, nunca se viu tanto desmazelo no jornal Público. Tomemos como exemplo a edição n.º 5842, do dia 26 de Março. No artigo «Low cost crescem em Portugal à custa dos turistas estrangeiros» (pp. 50-51), usa-se 25 vezes a expressão «low cost» e apenas em três delas se grafa como um estrangeirismo, entre aspas. Por outro lado, nunca, a não ser na chamada da primeira página, se explica o conceito («As companhias aéreas de tarifas reduzidas (low cost) são um fenómeno crescente na Europa; o seu peso tem crescido em Portugal, mas os portugueses ainda recorrem pouco a elas»).
      Curiosamente, nesta mesma edição, a coluna do provedor (auspiciosamente chamada «Calinadas») transcreve a carta de uma leitora que se insurge por, num mesmo texto, o nome do dirigente da Aliança Patriótica Iraquiana ter sido grafado de três formas diferentes: Al-Kubasy, Al-Bukasy e Al-Busaky. Pior ainda, o próprio subdirector responsável da revisão do texto em causa (escrito por uma jornalista estagiária), Paulo Ferreira, reconhece que «parece existir, pelo menos, uma relativa unanimidade em “Kubaysi”».
      Por um infausto acaso, na edição deste dia, até o cartoon de Vasco (p. 8) saiu com uma gralha! «Primavera… outra vez?! «Tomates a vacina?»


Que e quem

Vacas sagradas

«Segundo o inventor da iguaria, Scott McDonald, a sandes é confeccionada com o famoso bife japonês wagyu, que é retirado de vacas a quem é dado tratamento de luxo» (24 Horas, «Uma rica sandes», 11.3.2006, p. 56). Ora vamos lá ver: o senhor jornalista não aprendeu na escola primária que o pronome relativo invariável «quem» apenas se usa com pessoas? Com animais ou seres inanimados deverá usar-se o pronome «que».

Regiões: Norte, Sul

Perder a tramontana

Num mundo paralelo, é como se existisse um Livro de Estilo da Pública que recomendasse o contrário do Livro de Estilo do Público. São as regras compendiadas nessa (hipotética) obra que vemos aplicadas nas frases que se seguem, todas registadas na edição n.º 514, 2.4.2006:

«Há uma grande afinidade entre o sul de Portugal e o norte de África.» (p. 22)
«Este código nasceu numa região do sudeste de Hunan em que a vida era relativamente idílica.» (p. 25)
«Muitos chineses visitam o sul para ver as poucas, mas cada vez mais numerosas mulheres de Hunan cantar, escrever e coser.» (p. 27)
«Este combate de oito anos para eliminar as cabras, os burros selvagens e os javalis das ilhas Santiago, Pinta e do norte da ilha Isabela está a anos-luz de estar completo.» (p. 55)

O Livro de Estilo do Público, por sua vez, na página 211, afirma que se emprega a maiúscula inicial «nos nomes dos pontos cardeais e dos pontos colaterais, quando designam regiões: gente do Sul, o Leste da Europa, os portos do Sudoeste».

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