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Imagem: http://www.code7r.org/Bintoons/bt8.htmCara de Páscoa
Recentemente, falei aqui da Quaresma, tendo referido os termos correspondentes noutras línguas. Entretanto, lembrei-me que temos algumas expressões conotadas com estes termos — à semelhança do que acontece noutras línguas. Os Franceses têm várias, algumas com correspondente em língua portuguesa. Por exemplo: «face de carême», que é um rosto emagrecido, macilento. Nós temos «cara de quarta-feira de trevas» (por oposição a «cara de Páscoa», que é a cara alegre). O francês tem «tomber comme mars en carême», que significa acontecer inevitavelmente, ser fatal como o destino. Nós temos «tão certo como à Quaresma se seguir a Páscoa». Boa Páscoa!
Um baldio é um lugar comum
A Pública recusa-se terminantemente a escrever o vocábulo «lugar-comum» com hífen, erro que, de resto, vejo repetido por muita gente. Em duas edições diferentes, duas jornalistas escreveram como se pode ler a seguir.
«É lugar comum, o que quer dizer que é verdade: as mulheres sempre se sujeitaram às coisas mais incríveis em nome da beleza», «Cem anos de caracóis», Ana Gomes Ferreira, Pública, n.º 513, 26 de Março, p. 66.
«Sei que isto é um lugar comum, mas estou na câmara porque quero fazer alguma coisa pelo progresso desta terra onde só não nasci por acaso [nasceu em Lisboa]», «Santiago Macias, viajante da história», Lucinda Canelas, Pública, n.º 514, 2.4.2006, p. 18.
Imagem: http://www.japaoonline.com.br/pt/saque.htmCritérios e falta deles
Embora esteja registada em vários dicionários de língua portuguesa, a palavra «saqué» (ou «saquê», variante) é olimpicamente ignorada por tradutores e jornalistas. Sirva de exemplo a revista Flash! Num artigo em que usa com profusão e deleite termos da culinária japonesa — sushi, sashimi, hodachi, nigiri, uramaki —, nunca «sushi» e «sashimi» aparecem grafados em itálico ou entre aspas, ao contrário de «saké». Dá que pensar.
Deixemo-nos de complacências: no que se refere à ortografia, nunca se viu tanto desmazelo no jornal Público. Tomemos como exemplo a edição n.º 5842, do dia 26 de Março. No artigo «Low cost crescem em Portugal à custa dos turistas estrangeiros» (pp. 50-51), usa-se 25 vezes a expressão «low cost» e apenas em três delas se grafa como um estrangeirismo, entre aspas. Por outro lado, nunca, a não ser na chamada da primeira página, se explica o conceito («As companhias aéreas de tarifas reduzidas (low cost) são um fenómeno crescente na Europa; o seu peso tem crescido em Portugal, mas os portugueses ainda recorrem pouco a elas»).
Curiosamente, nesta mesma edição, a coluna do provedor (auspiciosamente chamada «Calinadas») transcreve a carta de uma leitora que se insurge por, num mesmo texto, o nome do dirigente da Aliança Patriótica Iraquiana ter sido grafado de três formas diferentes: Al-Kubasy, Al-Bukasy e Al-Busaky. Pior ainda, o próprio subdirector responsável da revisão do texto em causa (escrito por uma jornalista estagiária), Paulo Ferreira, reconhece que «parece existir, pelo menos, uma relativa unanimidade em “Kubaysi”».
«Segundo o inventor da iguaria, Scott McDonald, a sandes é confeccionada com o famoso bife japonês wagyu, que é retirado de vacas a quem é dado tratamento de luxo» (24 Horas, «Uma rica sandes», 11.3.2006, p. 56). Ora vamos lá ver: o senhor jornalista não aprendeu na escola primária que o pronome relativo invariável «quem» apenas se usa com pessoas? Com animais ou seres inanimados deverá usar-se o pronome «que».
Perder a tramontana
Num mundo paralelo, é como se existisse um Livro de Estilo da Pública que recomendasse o contrário do Livro de Estilo do Público. São as regras compendiadas nessa (hipotética) obra que vemos aplicadas nas frases que se seguem, todas registadas na edição n.º 514, 2.4.2006:
«Há uma grande afinidade entre o sul de Portugal e o norte de África.» (p. 22)
«Este código nasceu numa região do sudeste de Hunan em que a vida era relativamente idílica.» (p. 25)
«Muitos chineses visitam o sul para ver as poucas, mas cada vez mais numerosas mulheres de Hunan cantar, escrever e coser.» (p. 27)
«Este combate de oito anos para eliminar as cabras, os burros selvagens e os javalis das ilhas Santiago, Pinta e do norte da ilha Isabela está a anos-luz de estar completo.» (p. 55)
O Livro de Estilo do Público, por sua vez, na página 211, afirma que se emprega a maiúscula inicial «nos nomes dos pontos cardeais e dos pontos colaterais, quando designam regiões: gente do Sul, o Leste da Europa, os portos do Sudoeste».
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