Uso da vírgula

Imagem: http://www.language-museum.com/n/nushu.htm

Pública, a Virgulófoba

«A Nushu pertence exclusivamente às mulheres. Terá sido inventada pela concubina de um imperador? Pouco importa. Forjada às escondidas dizem que está a morrer. Mas há uma aldeia onde [o] poder passou a ser feminino», escreve Joana Amaral Cardoso («As escribas secretas da China», Pública, n.º 514, 2.4.2006, p. 24). Onde está o problema, é o que está a perguntar? Apesar de o uso da vírgula ser bastante flexível e subjectivo, há, contudo, regras que condicionam o seu emprego. Assim, as orações de gerúndio, infinitivo ou particípio passado independente separam-se da oração principal por vírgula: «Forjada às escondidas, dizem que está a morrer.»

Léxico: «gambito»

O nome explica o carácter

      Por vezes, aprendem-se palavras novas nas traduções. Na semana passada, foi a palavra «gambito». No inglês estava «gambit» e, como não gosto de empobrecer o já tão empobrecido léxico dos meus concidadãos, achei que podia ficar. Em português, claro, também existe e tem o mesmo significado. Provém do italiano gambetto, que é literalmente o acto de rasteirar alguém. Gambetto, por sua vez, provém de gamba*, perna. Artimanha é, pois, uma boa tradução.
      Perguntei a doze pessoas se conheciam a palavra. Uma disse-me que sim. É o alter ego de Rémy Etienne LeBeau, uma personagem da banda desenhada, dos X-Men, respondeu-me. Expliquei a este português culto o significado da palavra. Ah, o nome explica tudo: Gambito, também conhecido por Diabo Branco, é um ladrão, nascido em Nova Orleães.

* Em português, temos igualmente, derivada desta palavra, «gâmbias», usada na expressão «dar às gâmbias», que significa fugir, e «de catrâmbias», que significa de pernas para o ar.

Sigla: rap

Camões contemporâneo

Em espectáculos itinerantes pelo País, Gisela Cañamero canta Camões em versão rap. Se é a única maneira de os nossos jovens conhecerem um pouco que seja do nosso poeta maior, porque não? E mesmo que não seja a única, pois claro. «Camões é um poeta rap» é o nome do espectáculo.
Aproveito a oportunidade para esclarecer que «rap» é a sigla inglesa de «rhythm and poetry», «ritmo e poesia». De facto, este género musical consiste numa fala ritmada. Ora, ritmo e poesia já Camões tem, só faltava mesmo que alguém pusesse os nossos jovens a apreciar.

Caribe ou Caraíbas?

Por esses lados

Já se vai vendo na imprensa escrita, sem escândalo nem estranheza, o vocábulo «Caribe». Escusado será dizer que nem todos os leitores percebem que se pretende dizer o mesmo que «Caraíbas». Aliás, quando se trata de traduções do espanhol, alguns tradutores também não sabem se e como traduzir. O 24 Horas (7.4.2006, p. 44) é que não se mostra muito sensível em relação a estas questões e titula: «O veterano do Caribe» (refere-se ao futebolista Russell Latapy, natural de Trindade e Tobago). Os folhetos das agências de viagens também terão aqui a sua responsabilidade.

Léxico: «noosténico»

Mais uma



      «A cafeína aumenta o nosso desempenho mental.» Embora recentemente a revista Visão (edição n.º 677, «Medir o QI pela chávena») se tenha debruçado sobre a questão, não referiu uma palavra que há muito conheço e que define muito bem os efeitos do café. Essa palavra é «noosténico». O café é uma substância noosténica, isto é, activa acidentalmente a inteligência (para quem bebe todos os dias várias bicas, não sei, talvez já não sirva de grande coisa). Por simples curiosidade, fiz uma pesquisa na Internet e só uma vez surge num sítio de língua espanhola! Também não é visita habitual de dicionários de língua portuguesa. (Digo isto apenas agora porque sei que estou a salvo de ser condecorado com a Medalha de Mérito Cultural.) Em grego, nóos significa «inteligência, mente, pensamento»; sthénos, por sua vez, significa «força, potência, vigor».


Léxico: tipi

Imagem: http://www.naturzelte.de

Tempos de mudança

Ontem, nas notícias da Antena 1, às 13h00, foi entrevistado um responsável do parque de campismo da Ericeira, que anunciou que o referido parque vai dispor, dentro em breve, de tipis, as tradicionais tendas cónicas de peles dos índios Sioux. Ah, Portugal está mesmo a mudar. Só falta ver sanzalas pelos campos do Alentejo, palafitas no Alqueva, iglus na serra da Estrela… Já não precisamos de emigrar.

Léxico: ázimo

Páscoa

      Agora que estamos na quadra pascal, uma palavra a propósito. O pão ázimo (em hebraico mazza, pl. mazzot) é o pão não fermentado. Em português também se escreve «asmo». (Não confundir com aqueles simpáticos animais retratados por Oliviero Toscani em exposição no Castelo de S. Jorge até finais de Janeiro.) Na Festa dos Ázimos, que coincide com a Páscoa, havia a prescrição de comer durante sete dias pães sem fermento. No livro do Êxodo, 12,15, lemos: «Durante sete dias comereis pães sem fermento. No primeiro dia, fareis desaparecer o fermento das vossas casas, pois todo aquele que comer pão fermentado, do primeiro dia ao sétimo dia, será eliminado de Israel.»

Pão asmo — Pão feito sem fermento que era comido durante a Páscoa e outras festas. O fermento era símbolo do pecado. (Êxodo 12:17-20, I Coríntios 5:7,8)

Onagata

Imagem: http://concise.britannica.com/ebc/art-6182

Do Japão, com magia

Embora parecesse estar fora do âmbito deste blogue, resolvi responder à pergunta da leitora Paula Ribeiro («Que nome têm os actores japoneses que se vestem de mulher?»), porque comprovei entretanto que o vocábulo está registado no Dicionário Houaiss. Sendo assim, afinal, a questão enquadra-se nos objectivos deste blogue. Pois é isso mesmo, já viu a resposta a encimar este texto: os actores japoneses que representam papéis de mulher são os onagatas (de onna, «mulher» + kata, «forma»).
Na primeira metade do século XVII, por determinação do xógum Tokugawa Iyeasu (cuja descendência esteve no poder até à Restauração Meiji), que considerava imoral a presença de mulheres no palco, os actores passaram a representar também os papéis femininos no teatro Kabuki. De resto, kabuki, que é o teatro popular e urbano, significa «extravagante».

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