Ortografia: Otava

Boa pergunta

Os jornalistas andam sempre de candeias às avessas com os topónimos. Desta vez, foi Joaquim Letria, que escreveu: «O que aconteceria se tem exigido alguns telefonemas ao embaixador português em Ottawa ou, para não perder o show-off, se tem chamado ao ministério, para explicações, o embaixador do Canadá em Lisboa» (24 Horas, 3.4.2006, p. 56). Há quantos anos se escreve Otava em português? Ou Joaquim Letria também escreve «London», «New York», «Tokyo»?

Ortografia: antiaborto

Anti…

«Sioux do Dakota contra lei anti-aborto», titulava o Diário de Notícias (4.4.2006, p. 24). Deveria ter-se escrito «antiaborto», à semelhança de «antiamericano». De acordo com a regra, ao prefixo anti- segue-se hífen se o elemento seguinte tiver vida própria e começar por h, i, r ou s. Logo, contrariu sensu, antiacadémico, antibolor, anticalcário, antidepressivo, antiespasmódico, antifascista, antiguerrilha, antijudaico, antiliterário, antimatéria, antinazi, antioxidante, antipirético, antiterrorismo, antiveneno…
Valha a verdade que actualmente os meios de comunicação, e talvez mesmo todos os falantes, abusam deste prefixo. Quantas vezes não seria preferível reescrever a frase e usar «contra», por exemplo! Tanto mais que em relação a nomes próprios não temos regra.

Chefe de família?

O rico come e o pobre alimenta-se

      Há dias, ouvi Joe Berardo afirmar numa entrevista a uma rádio: «Felizmente, a minha mulher e os meus filhos suportam [to support] as loucuras do seu chefe de família.» Tendo em conta o percurso de Joe Berardo, não é do «suportam» que pretendo falar, mas do «chefe de família». Deixemo-nos de histórias: quando se tem um determinado estatuto, parece que tudo se pode fazer ou dizer. Quando o ouvi, a primeira imagem que me veio à memória foi a de Tomás Taveira, num sábado de manhã, há uns anos, a estacionar o seu flamejante Ferrari no Saldanha e entrar ― de roupão e chinelos! ― numa perfumaria que hoje já não existe.
      Chefe de família, Sr. Comendador, é uma figura já extinta. Com a reforma do Código Civil (Decreto-lei n.º 496/77, de 25 de Novembro), a mulher deixou de ter um estatuto de dependência para passar a ter um estatuto de igualdade com o homem. Com a consagração da igualdade de direitos e deveres dos cônjuges na Constituição de 1976, impunha-se esta alteração na lei civil. Para a interpretação de leis anteriores à Constituição de 1976 que ainda estejam em vigor, deverá ver-se este «chefe de família» como um representante ― que pode ser o marido ou a mulher ― da família perante terceiros.

Ortografia: «brócolos»

Imagem: http://courrierinternacional.clix.pt/

Matusalém analfabeto

      O Courrier Internacional, magnânimo, prescreveu-nos a «Dieta para a eternidade»: «Vegetais com baixo teor de amido, frescos e ligeiramente cozinhados, em particular espinafres, couves, bróculos, couve-flor, alface, aipo, pepino, couves-de-bruxelas, abóbora e outros legumes verdes» (n.º 53, 7 a 13.4.2006, p. 14). Embora o étimo seja italiano (broccolo, que pluraliza em broccoli, diminutivo de brocco, brocchi, rebento, broto), basta saber português para escrever correctamente a palavra. Brócolos.
      Por outro lado, atentemos na lógica: se se trata de uma «dieta para a eternidade», porque é que o artigo tem como título «Viver 150 anos»? Tínhamos o «eterno» e o «sempiterno»; com o Courrier, passámos a ter o «eterno a prazo». Haja honestidade e gramática!

Uso da vírgula

As vírgulas tajiques

«Os autores de um crime racista foram absolvidos em São Petesburgo [sic]. As agressões a estrangeiros são cada vez mais frequentes na Rússia. O cineasta tajique, Davlat Khudonazarov, manifesta o seu desgosto» (Courrier Internacional, 7 a 13.4.2006, p. 28). Em tajique não sei, mas em português a frase está incorrecta. Vejamos. O Tajiquistão tem apenas um cineasta? Certamente que não. Logo, o nome do cineasta não pode estar isolado por vírgulas. Deveria ter-se escrito «O cineasta tajique Davlat Khudonazarov manifesta o seu desgosto». E eu, Helder Guégués, manifesto o meu.

Léxico: «seminivérbio»

Sementes de vida

Chegam-me ecos do agrado que causou a algumas pessoas o meu texto sobre a Quaresma. Relendo algumas das parábolas bíblicas (ainda há pouco li algures que ninguém diz que está a ler os clássicos, mas a reler…), vejo como sempre esteve na minha mente o esquema de algumas parábolas: parábola → pergunta → explicação (embora, certamente por inépcia, nem sempre o consiga seguir). E só não avanço mais na comparação para não parecer blasfemo. Mas sim, também eu sou um seminivérbio, um semeador de palavras.

Parábola do semeador (Mateus, 13,3-9)

«Jesus falou-lhes de muitas coisas em parábolas: “O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho: e vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra: e logo brotaram, porque a terra era pouco profunda; mas, logo que o sol se ergueu, foram queimadas e, como não tinham raízes, secaram. Outras caíram entre espinhos: e os espinhos cresceram e sufocaram-nas. Outras caíram em terra boa e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; e outras, trinta. Aquele que tiver ouvidos, oiça!”»

Ortografia: trilogia


Aparências

É preocupante a frequência com que vejo, ultimamente, escrita a palavra «triologia». Se não existisse o termo «trilogia», que é o correcto, o único que existe, podíamos estar perante uma criação que iria vingar. Como, de resto, vingaram outros exemplos de falsa etimologia, tais como «triálogo» e «monoquíni». Julgando ver no elemento «dia» uma referência a dois (quando, de facto, significa entre, como em diarreia), os falantes criaram um desnecessário «triálogo» — uma conversa entre três pessoas. Ora, a verdade é que um diálogo tanto pode ser entre duas, três ou cem pessoas. Com «monoquíni» sucedeu o mesmo: os falantes acreditaram que «bi» era o elemento que designa «dois», como em bilingue, mas não é assim. Os caminhos da ignorância são insondáveis. E, às vezes, desembocam em interessantes criações, pois claro.

Ortografia: luso-descendente

Eu cá sei…

      «De dentro de realidades literárias, culturais e colectivas, ainda hoje agredidas, devemos agradecer o esforço para a inteligibilidade de uma escrita em português levada a cabo por este francês lusodescendente», escreve Joaquim Manuel Magalhães na revista Actual (Expresso, n.º 1744, 1.4.2006, p. 69). O Dicionário da Academia é dos poucos que registam este neologismo, e não é assim que o faz, mas com hífen: luso-descendente. Tratando-se de dois elementos de natureza adjectiva, é de regra usar-se o hífen.

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