Artigos com topónimos

Opções

«Português pode ser extraditado para o Omã», lia-se no Diário de Notícias (3.4.2006, p. 19). Não há em português, já sabemos, regras sobre o uso do artigo com topónimos. É, pois, a situação ideal para os desleixados, os troca-tintas e os tanto-me-faz. Vejamos com outros topónimos:

Pode ser extraditado para a Alemanha/para a Bélgica/para a Rússia/para o Japão/para a Tunísia.
Pode ser extraditado para Israel/para Cabo Verde/para Marrocos/para Moçambique.


Parece-me que Omã se integra neste segundo grupo — casos em que é obrigatório não usar o artigo a anteceder o topónimo. Infelizmente, a regra de perguntar aos naturais, aos Omanianos, neste caso é impraticável (ainda se se tratasse do Dubai, tenho lá um amigo). O uso faz lei e a analogia serve de auxiliar.

Ortografia: nuvem/nuvens

Mau tempo na Focus   

      Já aqui o afirmei uma vez: quando julgo tratar-se de uma gralha, não perco tempo. «Se não houver núvens escandalosas pelo meio, Sócrates arrisca-se a um lugar na galeria de notáveis» («Montanha-russa», Pedro Barros Costa, Focus, n.º 337, 29.3 a 4.4.2006). Se PBC fosse jornalista do Público, já teria tido oportunidade de ler no Livro de Estilo daquele jornal:

«Não são acentuadas as palavras com a mesma terminação [em ou ens], mas graves: nuvem (ou nuvens), jovem, imagem, outrem, ontem, comem, mandem, vissem, puserem

Léxico: «canábis»


Tanta é a emoção…


      O anúncio foi feito pelo Diário de Notícias (4.04.2006, p. 38): «Pastilha de ‘cannabis’ chega a Portugal.» Fosse pela perturbação fosse por um princípio inabalável do jornalista, não se usou o vocábulo português (aportuguesado, na verdade), canábis. Ou cânabis, como também regista o Dicionário Houaiss. «Cannabis», claro, parece mais exótico, mais proibido. Se eu me atrevesse, impudente e imprudente, a sugerir ao jornalista cânhamo-indiano, isso aí era contar como certa com uma embaixada homicida aqui a casa.

Figura: Antanáclase

Tudo muda

A Academia Francesa publica, com cada nova edição do seu dicionário, uma lista das palavras suprimidas. Com a 8.ª edição, foi suprimida, entre outras, a palavra «antanáclase», que tinha entrado no léxico francês no século XVIII. E agora?
A antanáclase (do grego antanáklasis, «repetição») é uma figura de estilo que consiste na repetição de uma palavra (significante) em diferentes sentidos (significados). É já clássico dar como exemplo uma frase de Pascal: «O coração tem razões que a própria razão desconhece.» («Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point», Pensées.) A polissemia está, muitas vezes, no cerne desta figura. A definição de Quintiliano (Institutio oratoriae, IX, 3) passou para os manuais:
«Cui confinis est quae antanaklasis eiusdem verbi contraria significatio. Cum Proculeius queretur de filio, quod is mortem suam expectaret, et ille dixisset, se vero non expectare: Immo, inquit, rogo expectes.» (Uma figura vizinha [da paronomásia] é a antanáclase, um sentido contrário de uma palavra. Como Proculeio reprovasse a seu filho esperar a sua morte, este respondeu que não esperava. Bem ― responde ele ―, peço-te que esperes.) Neste caso, tomaram-se os dois sentidos do verbo expectare: desejar, desejar e ter paciência.
Outro exemplo sempre citado de antanáclase é a perícope de Mateus 16,18: «Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam» (Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja). Na literatura portuguesa há variadíssimos exemplos de antanáclase, sendo o que se segue, de D. Francisco Manuel de Melo (Feira de Anexins, I, 1), um dos mais interessantes:
«Meus amigos, digo que me pelo por ouvir quatro equívocos. Se eles caem a pêlo, têm a sua galantaria; não já como muitos, que vêm pelos cabelos; apelo eu, que os dissesse.»

«Glubit» catuliano

Lésbia, a Nonária

      Há dias, os meus colegas franceses do Le Monde estava enfronhados na magna questão de saber se o glubit de Catulo era uma operação manual ou oral. Explico melhor: numa composição, este poeta latino usa a forma verbal «glubit» para descrever um acto sexual que hoje não sabemos qual seja. Há, naturalmente, muitas traduções, em várias línguas, mas umas vão para o calão mais puro, outras para formas eufemísticas ou metafóricas. Vejamos o original (Catulo, Carmen LVIII):

Caeli, Lesbia nostra, Lesbia illa
illa Lesbia, quam Catullus unam
plus quam se atque suos amauit omnes
nunc in quadriviis et angiportis
glubit magnanimi Remi nepotes.


      Percebe-se que a desavergonhada da Lésbia não era nenhuma Heidi Fleiss, já que andava por in quadriviis e angiportis, ou seja, às claras e pela cidade, a satisfazer a luxúria dos decadentes e promíscuos romanos. De facto
Célio, a minha Lésbia, a Lésbia aquela
Aquela Lésbia, a quem só Catulo
Amou mais que a si mesmo e a todos os seus
Agora nas esquinas e nas vielas
Desnuda os netos do magnânimo Remo.

      «Desnuda» digo eu, mas eu não sou latinista (ou não quero beliscar a pudicícia dos meus leitores?). Esta é uma forma metafórica de traduzir o «glubit» (de glubo, is, ere, psi, ptum), que significava na linguagem comum «tirar a casca de uma árvore», «desfolhar». A maioria dos tradutores crê, contudo, que se trata de uma obscenidade. Claro que desta última acepção facilmente passamos para a de «descobrir», «arregaçar», e está tudo dito. Em calão temos as expressões «debulhar a espiga» e «esgaçar o pessegueiro», de bom sabor telúrico, para designar esse acto sexual. Alguns franceses, imaginosos, quiseram ver ali um verbo onomatopaico (influenciados, confessadamente, pela banda desenhada), o som de algo a sair de uma vagem, de uma bainha… com um som algo molhado. Quem sabe? O certo é que sem recorrer ao calão o poema é muito sugestivo da actividade de Lésbia.

Léxico: «jilaba»


Oxalá estude mais



      «Eles deram razão a uma escola local que proibira uma jovem de usar uma capa islâmica (jilbab). […] E observaram que a jovem — que foi defendida pela mulher do primeiro-ministro britânico, a advogada Cherie Blair — podia ter escolhido três outras escolas locais, onde o “jilbab” era permitido», escreveu João Carlos Espada na última edição da Actual (Expresso, n.º 1744, 1.4.2006, p. 70). Na transcrição do árabe, sem dúvida, está correcto: jilbab, a pluralizar em jalabib. Mas em português, caro JCE, escreve-se «jilaba». A jilaba, pois que é do género feminino.

Leituras


A escrita de Saramago

Num excelente artigo sobre a escrita de José Saramago, Fernando Venâncio (Actual, n.º 1744, 1.4.2006, pp. 16-17) aponta alguns das centenas de espanholismos usados pelo autor de As Intermitências da Morte. A determinada altura, afirma: «Há circunstâncias biográficas a explicarem isto e mais? Decerto. José Saramago escreve, como sempre escreveu, um português portentoso, mas deixou de distinguir os dois idiomas. O que espanta não é isso, é outra coisa. Ou duas. Primeiro, que nenhum revisor lhe faça reparo. E, se faz, imagine-se o manuscrito. Segundo, que nada disto pareça preocupante a ninguém ou sequer assinalável.» Como argumento, é algo canhestro. Vejamos: como sabe Fernando Venâncio que nenhum revisor lhe faz reparo? Claro, o crítico previu esta objecção e acrescentou «e, se faz, imagine-se o manuscrito». Aqui, esperávamos ver: «E, se faz, imagine-se quão mal preparado ele está.» Ou: «E, se faz, decerto que o autor (ou o editor) lhe passa por cima.» Quem acha Fernando Venâncio que venceria o diferendo: o revisor ou o autor? Se nem alguns tradutores ineptos aceitam muitas vezes serem corrigidos, imagine-se um autor nobelizado! E, por outro lado, até que ponto um revisor pode alterar um estilo, uma particular maneira de um autor se exprimir?

Etimologia: precário

Chora que logo bebes

No meio da convulsão social em que a França está mergulhada, os meus colegas do Le Monde arranjaram ânimo para descobrir, a propósito do CPE, que a etimologia de precário, do latim precarius, remete para aquilo que é obtido pela oração (de precari, «orar, pedir através da oração»). Empregos vacilantes como a chama de uma vela, rematam.

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