Etimologia: «placebo»

Talvez não me agrade…


      A tentativa canhestra de o 24 Horas explicar o que é um placebo fez-me rir um bom bocado. Leia-se: «No ensaio participaram oito homens, mas dois deles tomaram um placebo — um produto inofensivo. Foi essa a razão pela qual não sofreram quaisquer efeitos» («Até parecia o Homem-Elefante», 16.3.2006, p. 55). Tinham espaço e a oportunidade de explicar do que se tratava, mas não o fizeram. Fiz um périplo pelos meus dicionários: poucos registam o vocábulo, para meu espanto. A definição que mais me agrada é a do Houaiss (e pensar que nos anos 80 mandei uma carta ao académico a desancá-lo! Bem fez o homem em não me responder).

placebo s. m. MED preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição de um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reacções, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.


      A notícia refere-se, lembrar-se-ão, aos seis voluntários ingleses que decidiram, a bem da humanidade e da sua própria conta bancária, participar num ensaio clínico de um medicamento contra a artrite reumatóide e a leucemia, conhecido como TGN 1412. «Placebo» é a primeira pessoa do singular do futuro do verbo latino placere: agradarei.

Júri e jurado

Só ouvido


      Este é um erro já muito enraizado, mas que denota bem a ignorância de quem o comete: Daniel Oliveira, apresentador do programa Só Visto!, da RTP1, na apresentação do seu entrevistado, João Baião, disse que este era «júri do programa Dança Comigo». Não é este o grande comunicador — tsch, tsch — que já publicou um livro? Claro que João Baião é uma criatura solidária, e mais à frente afirmou que era uma honra ser «júri do programa». Ver televisão é, eu bem ando a avisar, deletério. E não podemos trocar esta gente por marroquinos ou turcos?
      No caso, o júri é a comissão encarregada de classificar os concorrentes; os jurados são cada um dos membros que integram o júri.

Derivação imprópria

Além-Pirenéus

Lembram-se do texto sobre a derivação imprópria («Um porto no Porto»)? Pois hoje encontrei no blogue dos revisores do jornal francês Le Monde (http://correcteurs.blog.lemonde.fr/correcteurs), que recomendo, um texto que podia ter sido escrito por mim.

«calicot
De Calicut, ville de la côte de Malabar, dans le sud-ouest de l’Inde. Beaucoup de tissus ont reçu le nom de la ville qui les produisait. Ainsi la mousseline (Mossoul, dans l’Irak actuel), la cretonne (Creton, dans l’Eure), le vichy, le tulle ou l’oxford. Cette toile de coton assez grossière, aussi appelée indienne, a fini par désigner les banderoles des manifestations, dont elle sert souvent à la confection. Les calicots n’habillent pas les top models, mais ils sont de tous les défilés.»

Alice no País das Maravilhas


So she was considering, in her own mind (as well as she could, for the hot day made her feel very sleepy and stupid), whether the pleasure of making a daisy-chain would be worth the trouble of getting up and picking the daisies, when suddenly a White Rabbit with pink eyes ran close by her.


Então, ela considerava para si mesma (tão bem quanto podia, porque o dia quente a fazia sentir muito sonolenta e estúpida) se o prazer de fazer um colar de margaridas seria mais forte do que o esforço de ter de levantar-se e colher as margaridas, quando subitamente um Coelho Branco com olhos cor-de-rosa passou a correr perto dela.

Etimologia e semântica: professor

Uma questão de fé

Este texto é uma homenagem aos muitos professores que lêem este blogue. Quem não ouviu alguma vez um professor afirmar que a sua profissão, pela entrega que exige, é um sacerdócio? Pois a verdade é que os primeiros cristãos foram também os primeiros professores da História, porque «professavam», isto é, declaravam publicamente a sua fé, ainda que lhes pudesse custar a vida. A palavra formou-se a partir do latim profiteri, com o mesmo significado, formada por fateri (confessar), com o prefixo pro- (diante, com o sentido de «diante de todos, à vista»). A partir de certa época, um professor passou a ser aquele que «professava», ou seja, que declarava publicamente que possuía conhecimentos em determinada área do saber e que podia transmiti-los.

Elemento -cídio

Morrendo e aprendendo

      Todos sabemos que o elemento -cídio vem do latim, língua em que significa assassínio, morte, e, nesta língua, deriva do verbo caedere, que significa matar. A seguir enumero alguns dos vocábulos portugueses que contêm este elemento. Alguns têm um sentido claramente burlesco, mas o interesse em conhecê-los é o mesmo.
  • animalicídio
  • animicídio
  • apicídio
  • avunculicídio
  • bovicídio
  • burricídio
  • canicídio
  • ciganicídio
  • conjugicídio
  • cristicídio
  • culicídio
  • deicídio
  • democídio
  • etnocídio
  • excídio
  • femicídio/feminicídio
  • feticídio
  • filhicídio
  • filicídio
  • formicídio
  • fratricídio
  • gaticídio
  • genocídio
  • gnaticídio
  • homicídio
  • infanticídio
  • insecticídio
  • liberticídio
  • magnicídio
  • mariticídio
  • matricídio
  • mulhericídio
  • occídio
  • parricídio
  • patruicídio
  • raticídio
  • regicídio
  • regnicídio
  • republicídio
  • sororicídio
  • suicídio
  • tauricídio
  • tiranicídio
  • tçarricídio ou tzarricídio
  • uxoricídio


Sociedade: suicídio

Imagem: http://www.dreambox.com


Mortes

«Então, Saul tomou a sua espada e atirou-se sobre ela» (I de Samuel, 31,4) Este é apenas um dos exemplos bíblicos de suicídio, que, sendo uma das grandes tragédias da vida, fascina certas sociedades, como a japonesa. Só em 2004, mais de 32 mil japoneses cometeram suicídio.
Há pouco tempo, o jornal Público abordou este tema e o reflexo, inevitável, que tem na língua japonesa. Vejamos. Hara kiri (tradição dos samurais, que cortam a barriga com um punhal ou um sabre, para escapar às mãos do inimigo) todos nós conhecemos. A palavra até já está aportuguesada: haraquiri. Seppuku designa aproximadamente o mesmo. (Em 1970, o escritor japonês Yukio Mishima cometeu seppuku.) Com a Segunda Guerra Mundial, os infames kamikazes tornaram-se conhecidos no Ocidente. Além destes termos, o japonês tem ainda o shinju (suicídio de dois amantes, originalmente para provar a genuinidade do amor mútuo), o oyako (suicídio de uma família), o obasute (quando é cometido por idosos), o jusui jisatsu (morte por afogamento), o dokuyaku jisatsu (morte por envenenamento ou barbitúricos), o tooshin jisatsu (morte por salto de um despenhadeiro), entre outros.
Perante tantos suicídios, alguns colectivos agora combinados pela Internet, as autoridades japonesas apenas dizem: shoganai. (Não podemos fazer nada.) O suicídio não constitui um crime no Japão.

Expressão popular

Ria-se, está na TV

Entrevistado para o jornal 24 Horas, o apresentador do programa Desprevenidos, da Sic, Alexandre Ovídio, afirma*: «Algumas pessoas têm reacções hilariantes e riem-se a bandeiras desbragadas.» («Atenção aos distraídos», 16.3.2006, p. 52.) Ainda não vi o programa, nem tenciono ver, na verdade — pela amostra já estou satisfeito. O programa, lê-se no jornal, «mistura apanhados com perguntas de cultura geral». Há-de misturar alguma coisa mais, em especial se o homem falar. «A bandeiras despregadas» é como deveria ter dito, isto é, alguém que ri muito, de forma exagerada. Porque vêm as bragas ao caso? Desbragado é o que não observa as conveniências; metaforicamente, pois que o sentido original é o daquele que se desfaz das bragas, que são os calções largos, que serviam de roupa interior (do lat. braca, com o mesmo sentido). Ainda há quem use — sem se rir — a palavra «bragas» para designar a roupa interior do homem. Bem, eu também uso de vez em quando — mas no gozo.

* Não sabemos até que ponto é que a transcrição da entrevista foi feita conscienciosamente. No caso, é de desconfiar, já que o texto é da jornalista da «Toscânia». Por estas e por outras é que eu não dou entrevistas a ninguém. Tem sido um princípio fácil de manter, é verdade — ainda ninguém me pediu para ser entrevistado.

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