«Palestino» ou «palestiniano»?

Pormenores importantes

      Nos anos 80, lembro-me, pelo menos as pessoas que gravitavam à minha volta diziam «palestino» e se alguém dizia «palestiniano» era olhado como um excêntrico. Mas agora? Há dias vi com satisfação que o jornal 24 Horas escrevia «Autoridade Nacional Palestina» (edição de 22 de Fevereiro, p. 20). Mas deve ter sido, o que é pena, por distracção, pois em sucessivas edições escreve «palestiniano». Embora ambas as formas estejam registadas no Vocabulário da Língua Portuguesa, do Prof. Rebelo Gonçalves, por exemplo, prefiro a forma «palestino», tanto mais que sei que é por influência do inglês que se impôs a forma «palestiniano» (embora talvez seja decalcado do francês palestinien, como há quem defenda). Para compensar um pouco este unanimismo acrítico ou mesmo acéfalo, dá gosto ver Álvaro Vasconcelos, presidente do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, provavelmente o português que mais fala destas questões, dizer sempre «palestino». «Questão palestina», «autoridade palestina», «territórios palestinos», etc. Acresce que é mais fácil pronunciar «palestino», parece-me.

      Deitemos uma quase escusada olhadela à imprensa:

«Nome do moderado Ismail Haniyeh será comunicado amanhã ao líder da Autoridade Palestiniana.» O Independente.

«O Hamas anunciou ontem a nomeação para primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana de Ismail Haniyeh […].» Público, 17.2.2006.

«O Presidente da Autoridade Palestiniana (AP), Mahmud Abbas, convidou, ontem, Ismail Haniyeh a formar governo.» Diário de Notícias, 22.2.2006, p. 15.

«O presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, rejeitou o programa de governo do Hamas, afirmou ontem um alto responsável palestiniano», Correio da Manhã, 12.3.2006, p. 40.

«Os dirigentes israelitas ameaçaram deixar de pagar impostos à Autoridade Palestiniana (AP) após a tomada de posse do Hamas no Parlamento e ameaçaram também acabar com os financiamentos à AP em todo o mundo árabe.» Expresso, 18.2.2006, p. 24.

«Os EUA suspenderam as ajudas e Israel insiste em não enviar os 42 milhões de euros mensais a que a Autoridade Palestiniana tem direito», Visão, 2.3.2006.

Tenho à minha frente a 21.ª edição (2001) do Diccionario de la Lengua Española, da Academia Espanhola, e lá está:

«palestino, na. (Del lat. Palaestīnus). adj. Natural de Palestina. 2. Perteneciente o relativo a este país de Asia.»
Não regista «palestiniano», até porque os Espanhóis não usam esta variante (bem, talvez alguns espanhóis, ignorantes também, o façam). Compulsando o incompletíssimo e inçado de erros Dicionário da Academia, comprovamos, com raiva e desgosto, que não regista «palestino».

Siglas

Estão perdoados

      Ena, ena, na Antena 1 já sabem que as siglas não têm plural! Até na oralidade já sabem dizer: «João Salgueiro tem dúvidas sobre as duas OPA.» (Notícias das 17 horas, 27.3.2006.) Nesta matéria, o 24 Horas, que muitas pessoas têm vergonha de mostrar que compram, está muito melhor do que um jornal de referência como é o Diário de Notícias. Famas!

Gostaste e gostastes

Velhas glórias, velhos erros

      Na sexta-feira, num infausto momento de irreflexão, liguei a televisão. Caí na RTP1, na homenagem ao fadista João Braga. Num ambiente intimista, calmo, eis que aparece o realizador Luís Andrade a conversar com o fadista. «Eu não mudei assim muito e tu sei que também não mudastes.» E é a ele que o sítio da televisão pública se refere como «uma das figuras mais sólidas e importantes da RTP»?
      Em 2004, foi publicado pela Bizâncio um livro intitulado Gostastes? Contos de um país real, da autoria de João Viegas. Na altura, o editor viu-se na contingência de apor a seguinte nota na obra: «O erro intencional do título Gostastes?, que causou algum desconforto ao editor e muita satisfação ao autor, pretende ilustrar a falta de qualidade e exigência dos tempos que vivemos. Contudo, convém lembrar que esta palavra é a 2.ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo do verbo gostar, mas nunca, como muitas vezes é empregue, a 2.ª do singular, cuja forma correcta é gostaste.»


Léxico: alface-de-cordeiro


Imagem: http://www.directoalpaladar.com

Questões canónicas

      Numa das últimas edições, a revista Grazia (n.º 9, 16 a 22 de Março de 2006, p. 89) propunha uma «salada de canónigos e ovos de codorniz». No Mercado de Benfica, perguntei, como quem não quer a coisa, à D. Adosinda que «raio é isso de canónigos». Não tive, porém, a satisfação de lhe dizer, no fim: «Obrigado por estar desprevenida.» «Ai filho, essas estrangeirices não aparecem por cá.» Vejam: «essas estrangeirices». Só o jornalista da Grazia (que nome!), menos xenófobo mas mais ignorante, é que não percebeu que a Valerianella locusta devia ter um nome comum português. E, de facto, alface-de-cordeiros ou alface-do-campo são designações correntes.
      Já sei: Maria de Lurdes Modesto, na sua excelente crónica gastronómica no Diário de Notícias, escreveu «erva-dos-canónigos». Deve reportar-se ao conhecimento que tem do rótulo, já que acrescenta: «É frágil e actualmente vê-se durante todo o ano no mercado, lavada e pronta a usar, em embalagens de 400 g.» Por outro lado, não é por eu perceber de gastronomia que Maria de Lurdes Modesto percebe necessariamente de questões linguísticas. Digo eu.

«Com certeza»

Escrever como quem fala

      «Vou ficar melhor concerteza do que estar a lavar a loiça e a fazer comida para aquela cadelagem toda», podia ler-se no 24 Horas («A artista do escândalo», 21.03.2006, p. 51). «Cadelagem» acho um prodígio de criação vocabular (a autora da frase, Natália de Sousa, esteve casada com José Vilhena, o homem da Gaiola Aberta). Quanto ao «concerteza», é uma asneira que só os alunos até ao 6.º ano de escolaridade cometem (também chegam ao 7.º a escrever «derrepente», uma das predilectas). Pelo menos, era o que eu julgava, porque afinal a jornalista Lina Santos, do 24 Horas, também escreve pérolas destas. Com tantas invenções, quando é que os construtores de computadores inventam um sistema que dê um valente choque eléctrico nas polpas dos dedos de quem escreve assim? Fica a proposta.
      Se é uma locução verbal, é óbvio que não se pode escrever como se de uma só palavra se tratasse. Para isso temos «certamente», por exemplo, que é um advérbio.

Desestabilizar

Está mal

      «No trajecto entre o aeroporto de Bejaia e a Praça Lumumba, onde Jorge Sampaio inaugurou um busto de Manuel Teixeira Gomes (Portimão, 1860-Bejaia, 1941), centenas de pessoas olhavam, quedados nos passeios ou debruçados nas janelas, a passagem de uma caravana de automóveis que veio desestabilizar a calmaria daquela cidade costeira» («Bejaia recebeu Sampaio com honras de festa», Maria José Oliveira, Público, 5.3.2006, p.17). Agora, está em voga dizer e escrever «desestabilizar». Mesmo a literatura não escapou a este afã de usar as palavras da moda. Na frase que cito, tenho muitas dúvidas sobre a propriedade do uso da palavra «desestabilizar», mas, seja como for, quanto melhor não ficaria a frase se a jornalista tivesse escrito «perturbar». Acresce que ultimamente, sancionado por três dicionários, pelo menos, o uso de «destabilizar» (to destabilize?) está a impor-se.


Ênfase

MEC escorrega e cai

      Na última crónica — «A língua caníbal» — de Miguel Esteves Cardoso na revista Única (Expresso, n.º 1742, 18.3.2006, p. 14), podia ler-se: «Talvez possamos prescindir da masculinidade de algumas palavritas e passar a dizer “a silicone”, “a ênfase”, “a ioga” e “a hamburguesa” se eles desistirem de aleivosias como “el pétalo” e “el análisis”.»
      Caro MEC: não precisamos de passar a dizer «a ênfase», pois é assim mesmo que se diz. «Ênfase» é do género feminino, e já no latim, de onde provém, era feminina.

 

Léxico: «trangla»

Imagem: http://www.tringles.com
Trangla

      Não sabe de que se trata? Também eu não sabia, até que me pus afincadamente a ler um dicionário de língua portuguesa ― ainda não havia Internet e eu tinha tempo para isso ― para descobrir que nome tinha uma «barra de metal própria para prender passadeiras aos degraus das escadas». Agora sei que vem do neerlandês tingel, através do francês tringle, língua onde foi registado o seu uso pela primeira vez, segundo o Petit Robert, em 1459. Ingenuidade? Talvez, mas como faria ainda hoje quem, vendo um objecto, quisesse saber que nome lhe é atribuído? Há vocabulários específicos, dicionários de ideias, mas nenhum que satisfaça completamente as nossas necessidades. Bem podiam os editores portugueses apostar nesta área.
      Na foto, vê-se uma das extremidades da trangla, que é fixada ao degrau por dois parafusos: um que prende a peça ao espelho do degrau e o outro ao cobertor do degrau.

Actualização em 18.04.2010

      Quando se desconhece o vocábulo, é claro que se tem de usar uma locução: «No terceiro degrau faltava a vara de metal» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 373).



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