Neologismo: inumeracia

Vamos inventar

      Tenho andado, suspeito, um pouco distraído. José Júdice, cuja crónica n’O Independente tento nunca perder, por considerar que estamos perante um dos grandes cronistas do nosso tempo, escrevia numa das últimas edições deste semanário: «O sr. Taheri revela, claro, além de uma presunçosa inumeracia, uma abominável ignorância.» A polémica era, percebe-se, as afirmações irresponsáveis e estúpidas do embaixador iraniano em Portugal a propósito de quantos judeus tinham sido assassinados no Holocausto. José Júdice, acutilante, designou por «inumeracia» esta ignorância, palavra formada por analogia com «iliteracia».
      A pergunta que se impõe é: fazia falta este vocábulo? Em termos latos, a iliteracia abrange a falta de domínio das operações aritméticas fundamentais*, e nesse sentido talvez não faça falta. Claro que, sendo um termo mais específico, faz falta, objectar-me-ão. A outra pergunta é: e a língua não tinha já um vocábulo que veiculasse o mesmo conceito a que José Júdice pudesse ter recorrido? A pergunta é longa, a resposta, curta: sim. Está dicionarizado: «inumerismo». «Inumeracia» quase só na Internet se deixa ver.

* Não confundir com discalculia, que é a perturbação, semelhante à dislexia, relativa a uma dificuldade na simbolização dos números e na capacidade aritmética.


Pronúncia: medíocre

Aleluia

     Esquadrinho na memória em busca da última vez que ouvi alguém pronunciar correctamente a palavra «medíocre»; em vão, porém. Hoje, nas notícias das 7h00 na TSF, a repórter Cristina Laimen pronunciou de forma correcta, enfática, a palavra: com a vogal tónica no i: medíocre (à semelhança de «período»). E se etimologicamente «medíocre» é aquele que fica a meio (medius) da montanha (ocris), com jornalistas como Cristina Laimen chegamos ao topo.

Nomenclatura dos seres

Moderna e um pouco burra

      Já aqui falei da nomenclatura e classificação dos seres («Nomenclatura dos seres/dengue»), e eis que surge uma oportunidade de voltar a abordar esta matéria. Na edição n.º 887 da revista Mulher Moderna, podia ler-se a seguinte frase: «O staphylococus aureus é uma das bactérias mais resistentes e pode ser encontrada em ambiente hospitalar.» (p. 45). Como referi então, a designação binominal científica é, de facto, em latim. No entanto, o primeiro termo do nome da espécie (o nome genérico) deverá sempre ser escrito em maiúscula. O segundo termo (o epíteto específico), por sua vez, escrever-se-á em minúscula. Além disso, correctamente é Staphylococcus, com dois cc (claro, também pode escrever cês).
      Para os que graduam a gravidade do erro em função do meio, aqui fica um exemplo no institucional, sólido e igualmente descuidado Expresso (Única, n.º 1739, 25.2.2006, p. 73): «Estas propriedades despertaram o interesse da comunidade científica e têm sido realizados inúmeros estudos com o óleo de orégão, nomeadamente sobre a sua capacidade em combater e destruir bactérias como a E. coli, salmonella e staphylococus aureus.» (Como quase sempre, apenas focarei este problema, abstraindo de outros que a frase tenha — e tem mesmo.)

Sociedade: o revisor

      
      Com autorização expressa do autor, o escritor Màrius Serra, divulgo hoje um texto que foi originalmente publicado no diário espanhol La Vanguardia (23.2.2006). O apelo para a valorização do papel do revisor de texto, essa figura obscura, é tão necessário em Espanha como em Portugal. Pensar que aqui se publicam, por exemplo, manuais escolares sem revisão ― com os dislates que todos conhecemos, e eu conheço dezenas de manuais de várias disciplinas ― é revoltante. E sobre isto não vejo nenhum membro do Governo perorar ou alertar para os direitos dos consumidores. Sim, porque é disso mesmo que se trata: produtos com defeito. Perante este, os consumidores podem exigir a reparação do bem, a sua substituição, a redução do preço ou a própria resolução do contrato. Acho notável que seja um escritor a escrever tal texto, coisa impensável em Portugal.

Otra corrección es posible

NO ES LÓGICO prescindir de los lingüistas y quejarse del empobrecimiento de la lengua

Màrius Serra

      Entre los sobresaltos que provocó la manifestación del sábado hubo uno más bien colateral. En su flamante diario digital, Pasqual Maragall publicó el domingo un post que empieza «Considero raonable que milers i milers de ciutadans expressin la seva actitud» y acaba recordando el bombardeo de Gernika. El presidente rubrica sus reflexiones con un topónimo (es lógico) y la fecha (redundante tratándose de un diario digital). Este domingo debió de escribirlo desde Rupià, porque se leía: «Al Baix Empodrà (sic), diumenge, 19 de febrer del 2006». El error de tecleo en el nombre de la comarca produjo una metátesis espectacular, digna de figurar en los manuales de retórica junto a los clásicos «àguila-àliga, egua-euga o xicallaquitxalla». Al desplazar la R de Empordà, Maragall construyó sin querer una frase inquietante, homófona de «el baix em podrà». Este desliz tipográfico propició un hilarante juego especulativo por parte de los sagaces humoristas del espacio Alguna pregunta més? de Catalunya Ràdio. A las ocho, Carles Capdevila ya se preguntaba por la identidad de esa persona de baja estatura que podría con Maragall. Las hipótesis más verosímiles apuntarían hacia el ministro Montilla, aunque podría haber más candidatos. Descartados por el centímetro tanto Zapatero como Rajoy y apartados de la primera línea Pujol y Aznar, la discusión se centraría en comparar estaturas entre Maragall y sus rivales: ¿Mas? ¿Bono? ¿Carod? El equipo APM volvió a la carga a eso de las diez en su repaso de la prensa. Y entonces, por arte (digital) de magia, la metátesis ampurdanesa se deshizo y «Al Baix Empodrà» devino «Al Baix Empordà».
      Ésa es la grandeza de ambos medios. La radio, por su trascendencia social; internet porque, a diferencia de los medios impresos, permite corregir erratas sin dejar rastro. Sin embargo, no se puede corregir con garantías sin contratos dignos para los lingüistas, unos profesionales cada vez más arrinconados que son básicos en el tan cacareado fomento de la lectura. Para que los textos de periodistas, novelistas, ensayistas, traductores, crucigramistas e incluso poetas nos lleguen dignamente los correctores deben ser más valorados. No es lógico prescindir alegremente de ellos en nombre de los costos de producción y luego quejarse del empobrecimiento de la lengua. De cualquier lengua. Debemos exigir el máximo dominio del instrumento a los profesionales del lenguaje, pero nadie es infalible. Un texto debe ser siempre revisado por más de una persona. El lenguaje verbal es un instrumento demasiado complejo. ¿No exigimos controles de calidad en otros ámbitos? ¿No se revisa el trabajo de arquitectos, juristas e ingenieros? Resulta paradójico que, mientras se lava la imagen de los cuerpos policiales, los correctores aún carguen con el sambenito de ser la policía (represiva) de la lengua. Y no. O no siempre. Una buena corrección juega a favor de cualquier texto.

      Aparte del weblog presidencial y de las hilarantes antologías de erratas que proliferan en la red, deberíamos visitar más a menudo un weblog que reivindica la figura del lingüista como http://addendaetcorrigenda.blogia.com/. Ya verán que es un espacio combativo, a cuyas críticas por fortuna nadie escapa, como este columnista ha podido comprobar.

Léxico: «xivor»

Imagem: http://www.infotravelromania.ro

Coca-bichinhos


      Talvez nenhum povo esteja tão obcecado com nomes colectivos como os Brasileiros. Nos mais diversos meios onde há consultórios sobre a língua, se houver uma pergunta sobre qual é o colectivo de mosca ou de casa ou de arara, quase de certeza será de um brasileiro. Há umas semanas, vi uma dessas perguntas numa coluna de um jornal brasileiro. «Qual é mesmo o coletivo de coco?» O colunista, coitado, não sabia e disse… que não sabia e que a leitora devia saber que nem todos os substantivos têm colectivo. A resposta, sobretudo a parte final, ponderei então, estava certa; quanto a não haver colectivo para coco, sei-o agora, a leitora foi enganada.
      À primeira vista, o recurso a uma catacrese — «cacho de cocos» — parece-me satisfatório. Um cacho de uvas, um cacho de bananas… Mas como a leitora não me perguntou a mim — fiada, decerto, no provérbio «Coco velho é que dá azeite» —, ficou sem saber nada, quem sabe se com o Carnaval estragado. Cara leitora do colunista rival: no léxico português há uma palavra de origem asiática (concani?) que designa o cacho de cocos: xivor.


Concordância

Passivos&Activos

      «Na clausura fabrica-se hóstias para vender à diocese, mas também se faz dinheiro com terços e pagelas desenhadas a esferográfica pelas carmelitas.» A frase é da jornalista Cândida Pinto na revista Única (n.º 1738, 18.2.2006, p. 42). Embora não pareça, a construção é a típica da voz passiva, mais concretamente, passiva de -se, pronominal ou reflexa. Naturalmente, a concordância, questão nuclear na nossa língua (sim, é verdade que há diversos tipos de concordância, um dia lá chegaremos), deverá ser respeitada, devendo escrever-se: «Na clausura fabricam-se hóstias.» Se não queria escrever assim, ou porque não lhe apetecesse ou porque pressentisse que no Universo iria surgir uma criatura, eu, que a contrariaria, à jornalista restavam várias alternativas, e uma delas era escrever «Na clausura são fabricadas hóstias».

«Na clausura fabricam-se hóstias.»
«Na clausura fabrica-se a hóstia.»
«Na clausura são fabricadas hóstias.»
«Na clausura é fabricada a hóstia.»
«As hóstias fabricam-se na clausura.»
«A hóstia fabrica-se na clausura.»
«Fabricam-se hóstias na clausura.»
«Fabrica-se a hóstia na clausura.»

Curiosidade: escala musical

Cantemos

      Todos os cruzadistas sabem, com a frequência com que surge nos problemas que resolvem, qual o «antigo nome da letra dó». Até eu, que não sou cruzadista, sei a resposta de cor: ut. Esta era a primeira palavra do hino a S. João Baptista, a partir do qual o monge beneditino Guido d’Arezzo (990-1050) construiu a escala musical. Guido d’Arezzo verificou que na primeira estrofe, com sete versos, cada uma das sílabas iniciais subia um grau na escala em relação à primeira sílaba do verso anterior. Assim, reflectiu que toda a gente que soubesse esse cântico saberia logo de que nota se tratava. A nota si apenas foi acrescentada no princípio do século XVII, a partir das iniciais de Sanctae Ioannes, que está aqui no vocativo. Eis a primeira estrofe desse hino:
Ut queant laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum
Solve polluti
Labii reatum
Sancte Ioannes.

Uma tradução livre — o padre António Carmo, meu saudoso professor de Latim e tão excelente como desconhecido poeta, não iria achar completamente mal empregadas as horas que despendeu comigo a ensinar-me a traduzir as fábulas de Esopo, o De Bello Gallico, as Metamorfoses… — poderia ser a seguinte: «Para que os teus servos possam, a plena voz, celebrar tuas acções maravilhosas, purifica nossos lábios conspurcados, ó São João.»

Ortografia: «hobby»

Passa muito tempo     

      Marcos Cóias e Silva, leitor habitual deste blogue, escreveu-me a dizer que leu no Expresso Economia uma entrevista ao armador George Potomianos em que se usava a palavra «hóbi». Pergunta-me se este vocábulo é correcto ou se é preferível usar o anglicismo «hobby». Caro amigo: entre «hóbi» e «hobby»… prefira «passatempo».
      Repare que, a não ser que tenha sido uma entrevista por email, como a que a prioresa Maria Celina deu à revista Única (Expresso, n.º 1738, 18.2.2006), a palavra é do jornalista e não do entrevistado. E depois, pergunta-me? Bem, é que a tendência do Expresso para aportuguesar os estrangeirismos é bem conhecida de todos nós. Por vezes, parece ir à frente do tempo, outras, atrás do tempo, e outras ainda, a destempo.
      Tentemos a analogia, esse poderoso instrumento do raciocínio. Até há pouco tempo, a ninguém ocorreria aportuguesar a palavra «lobby», e veja como agora em muitos jornais se escreve «lóbi», «lobista» e «lobismo». Até já estão dicionarizadas com estas roupagens portuguesas. Eu, que sou um pouco conservador (o que será deformação profissional, digo eu), não apenas escrevo, como recomendo que se escreva «ateliê», «dossiê», «tricô», etc.
      Voltando a «hobby», deixo-lhe aqui as «Seis regras de Orwell», para ver como até um inglês — e eles não têm preconceitos: o que tocam é deles — prefere usar o que é nacional.

Orwell’s Six Rules

1. Never use a metaphor, simile, or other figure of speech which you are used to seeing in print.
2. Never use a long word where a short one will do.
3. If it is possible to cut a word out, always cut it out.
4. Never use the passive where you can use the active.
5. Never use a foreign phrase, a scientific word or a jargon word if you can think of an everyday English equivalent.
6. Break any of these rules sooner than say anything outright barbarous.
George Orwell, Politics and the Eng­lish Language


Arquivo do blogue