Cultura: Homero

Ignorância clássica

      Conhecemos, dos estudos de cultura clássica, a Questão Homérica*, que, em poucas palavras, versa sobre a autoria dos poemas homéricos, Ilíada e a Odisseia. Da análise destes, os especialistas concluíram que a linguagem apresenta não apenas marcas de diversas épocas, como elementos de quatro dialectos: arcado-cipriota, ático, eólico e iónico. Este facto, a juntar às dúvidas sobre a data de composição e à descoberta de que assentam numa técnica de improvisação oral, determinaram a opinião de que os poemas homéricos, afinal, não podem ter tido apenas um autor. De resto, de Homero nada se sabe: talvez tenha nascido em Quios, ou em Cólofon, ou ainda em Esmirna. Até a etimologia do nome, provavelmente não grega, é incerta: derivará de ho mè horôn, isto é, «o que não vê» (a lenda descreve-o efectivamente como um aedo cego), ou significará «refém», ou «recolector»?
     Este texto foi-me sugerido por Amélia Pais, que me chamou a atenção para o facto de José Bandeira ter afirmado ter visto na televisão «Héliada» em vez de «Ilíada». Para troçar, José Bandeira escreve por baixo: «(esse best-seller de Hemero)

* A Questão Homérica, de resto, tem raízes na época alexandrina. Só em finais do século XVIII Wolf fundamentou de forma científica estas dúvidas.

Ortografia: «mundanidade»

Já soube

      Na revista Actual (n.º 1739, 25.2.2006, p. 24, artigo «Eutanásia passiva», da autoria de L. M. Faria), podia ler-se: «Mundaneidades e alcoolismo à parte, seria um crime menor — o da indiscrição em relação às personagens que concediam dar-se com ele — a arrumá-lo de vez.» Vá-se lá perceber! Uns escrevem «precaridade», quando deviam escrever «precariedade»*, outros, devendo escrever «mundanidade», escrevem «mundaneidade». Claro que estes erros se vão instilando insidiosamente na mente de quem lê. Se mesmo um jornal como o Expresso, com os meios de que dispõe e a influência que exerce, trata assim a língua, o que podemos esperar? Para emigrar talvez seja tarde.

* Eis uma mnemónica: se o adjectivo do qual deriva o substantivo abstracto (isto é, os que designam acções, noções, estados e qualidades) termina em -io (tais como -ário, -ório ou -úrio), o substantivo terá um e entre o i e o d, regra que já vem do latim:
acessório — acessoriedade
aleatório — aleatoriedade
arbitrário — arbitrariedade
binário — binariedade
contrário — contrariedade
discricionário — discricionariedade
espúrio — espuriedade
executório — executoriedade
hereditário — hereditariedade
impróprio — impropriedade
notório — notoriedade
obrigatório — obrigatoriedade
peremptório — peremptoriedade
perfunctório — perfunctoriedade
precário — precariedade
primário — primariedade
próprio — propriedade
provisório — provisoriedade
sedentário — sedentariedade
sério — seriedade
sóbrio — sobriedade
sócio — sociedade
solidário — solidariedade
subsidiário — subsidiariedade
temporário — temporariedade
transitório — transitoriedade
unitário — unitariedade
vário — variedade
vicário — vicariedade
visionário — visionariedade
voluntário — voluntariedade
etc.
 

Revés/reveses

Resvés

      «Traições da linguística», pp. 114-117, Focus, edição n.º 333. Embora o título do texto me parecesse logo enfermar de um grave erro, que não vou hoje comentar, o conteúdo afigurou-se-me útil e prometedor. Para além do «f*da-se» (leia-se fod*-se…) de Mário Crespo, em directo, e de situações que não encaixam, nem de perto nem de longe, no que o título pretendia classificar, Paula Simões às banalidades acrescentou alguns erros. Apontarei apenas dois:

«Mas os revezes da profissão revelam, por vezes, pessoas talentosas que, apesar de todas as contrariedades, tentam fazer da melhor forma possível o seu trabalho.»

« uns anos atrás, aquando da estreia do filme Branca de Neve de João César Monteiro […].»


      «Revezes» existe, claro, não quero desmotivá-la, mas significa outra coisa. O plural de «revés» — contrariedade, etc. — é «reveses» (à semelhança de convés >conveses). Quanto ao «years ago», perdão, ao «há anos atrás», está tudo dito.


SIDA ou sida?

Evoluções

      Luís Soares, leitor deste blogue, pergunta-me porque se deixou de escrever «SIDA» para se passar a escrever, pelo menos na maioria dos meios de comunicação escrita, «sida». O termo começou por ser a abreviatura de «síndrome de imunodeficiência adquirida». No início, ora se lhe atribuía o género masculino, ora o feminino. (Era um tempo incerto, esse, em que quase toda a gente dizia «Cavaco e Silva»; como ainda há, hoje em dia, quem hesite, ele voltou para mais dez anos.) Estabelecido, com o tempo, que o género devia ser o feminino (a síndroma ou a síndrome), passou a usar-se de uma forma crescente, infelizmente. Decorridos estes anos todos, a sigla foi lexicalizada, isto é, é como se fosse um vocábulo como qualquer outro. É a gramática a seguir a pragmática. A marca da sigla — o emprego das maiúsculas — desapareceu. Ora dê uma olhadela ao Dicionário da Academia. Já viu? Está dicionarizada como substantivo feminino.
      A propósito, devo dizer que no Brasil a sigla que se preferiu foi «AIDS», tal como em inglês, porque, sendo «sida» homófona de «Cida», hipocorístico de Aparecida, nome próprio muito comum no Brasil, não seria lá muito auspicioso, pois que se prestaria facilmente a trocadilhos.





Utilidades: blogue

Saber mais

      Um grupo espanhol de profissionais da edição, da linguagem e da educação que se dedica à revisão de textos criou um excelente blogue — «Addenda & Corrigenda» — que poderá visitar em http://addendaetcorrigenda.blogia.com/. Se estou distraído? Claro que não é português, mas estou certo de que podemos aprender muito lendo-o. A ignorância só nos envergonha e os preconceitos nacionalistas, para lhes dar algum nome, são abomináveis.

Regência: verbo «pensar»

Pensa devagar e obra depressa

      «Queremos mostrar às pessoas coisas que elas não pensam» (jornal 24 Horas, 3.3.2006, p. 52). A autora da frase é Vanessa Oliveira, que começa hoje a apresentar, com Pedro Mourinho, o Programa da Manhã na SIC. A jornalista, que parece saber quem é e o que é («Acho que sou uma mulher muito sexy», Mulher Moderna, n.º 887, 27 de Fevereiro a 5 de Março), ignora a regência do verbo pensar. Sem preposição, pensar é dar penso. «Ó ti Manel, já deu penso ao burrico?» Em algumas zonas do Alentejo ainda se usa referido a crianças, no sentido de tratar, alimentar, etc. Quem pensa, acho eu, pensa nisto ou naquilo. Leia mais, vai fazer-lhe bem.

Pensar em (v. intr.) — ter presente no pensamento, aspirar.
Só pensa em viajar.
(Nunes, Carmen, Sardinha, Leonor, Vocabulário — Regime Preposicional de Verbos, 1.ª ed., Lisboa, Didáctica Editora, 1999, p. 92)


Etimologia: profeta

Da Pitonisa a Maomé

      Quando hoje se fala de profeta, é quase sempre a Maomé que nos estamos a referir. Na Antiguidade, porém, os profetas eram os intérpretes das pitonisas, eram os que sabiam decifrar os gritos e gemidos destas e os seus avisos expressos em versos enigmáticos e ambíguos (para não se lhes assacar depois a falsa profecia, à semelhança dos actuais horóscopos, que invadem as publicações periódicas). Mais tarde, profeta era o portador da mensagem de Deus aos homens e, como tal, podia revelar factos futuros. Quando a estrutura hierárquica da Igreja começou a tomar corpo, os profetas, fenómeno totalmente individualista e, logo, arredios a normas institucionais, associado ao carisma, os profetas desapareceram. Resta-nos — ou, em termos de credo, resta aos muçulmanos, com o nosso respeito e o respeito deles pela nossa liberdade de expressão — Maomé.
      Por fim, um apontamento sobre a palavra. Provém do latim propheta, tomada do grego prophetés, que por sua vez derivou de prophanai (o que fala antes, o que prognostica), formada com o prefixo pro- (que está antes no tempo ou no espaço) e phanai (falar, dizer), proveniente do indo-europeu bha* (falar).

* Esta raiz indo-europeia tem dois significados: fala ou voz e luz. Assim, tiveram origem a partir dela, intermediadas pelo grego ou pelo latim, duas séries. A partir do primeiro significado, chegaram-nos palavras como afamar, afasia, afásico, afável, difamar, eufemismo, fábula, fabuloso, facúndia, facundo, falar, fama, famoso, fático, inefável, infâmia, infância, infante, infantil, prefácio, profecia, profeta, profético, profetizar, profissão, profissional, etc. A partir do segundo significado, temos vocábulos como diáfano, ênfase, enfático, epifania, fantasia, fantasma, fantástico, fase, fenómeno, fenótipo, etc. Curiosamente, por vezes os dois campos semânticos, já tão próximos, entrelaçam-se, como na locução «esclarecer uma dúvida», «fez-se-lhe luz na mente», «ideias claras», «ter umas luzes sobre alguma matéria», «com a razão ofuscada», «com o juízo toldado», etc.

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