História

Os pães de Deu-la-Deu

      Sempre gostei muito do nome Deu-la-Deu, talvez por me fazer lembrar lengalengas que me embalaram. Deu-la-Deu Martins — de quem só os concorrentes de programas televisivos nunca ouviram falar — figura no brasão de armas de Monção e era a mulher do capitão-mor desta praça, Vasco Gomes de Abreu. Estando este ausente, a fortaleza fronteiriça é sitiada pelas tropas de Henrique de Castela, comandadas pelo avançado da Galiza, D. Pedro Rodrigues Sarmento. Deu-la-Deu, que remédio, tomou o comando da defesa da praça, tentando repelir os sitiantes. A determinada altura, já o cerco durava há dias e as provisões eram escassas e a fome cercava os monçanenses, mandou recolher toda a farinha que existia na praça, com a qual fez pães que lançou aos inimigos, gritando-lhes que se precisassem de pão, de que eles, sitiados, estavam bem providos, era só dizerem. Como os sitiantes também já sofriam as agruras da fome, decidiram, pensando que pela fome não conquistariam a praça, levantar o cerco e seguir para Castela.

O elemento compositivo não-

Questões não-essenciais?

      Nunca me ocupei aqui da questão do uso do hífen depois do elemento não (não-beligerante, não-cumprimento, etc.). Contudo, como o meu interlocutor privilegiado neste blogue me chama a atenção para o facto de ter sido tratada no Ciberdúvidas, referi-la-ei hoje. Começo por concordar que o mais inteligente é a resposta — ou parte dela, para ser mais rigoroso — que é dada. Creio que o realce deve ir para o trecho em que se afirma que «o usuário é árbitro para se fixar em a não valorização ou a não-valorização, o lexicógrafo, porém, não se sentirá compelido a dar tratamento de verbete autónomo a cada ocorrência desse tipo». Carta branca, pois, para o falante? Talvez. Ainda é cedo, dirão os lexicógrafos, para dicionarizar todas estas formas. Pelo meu lado, o que sei é que algumas editoras portuguesas dão instruções precisas para que se evite o uso do hífen nestes casos, o que, tendo em conta a língua de partida da maioria das traduções, me parece no mínimo avisado. O que se segue é citado — vou pensar se devo pedir desculpa por me citar a mim próprio — de uma obra minha, inédita, Manual de Normas de Edição e Revisão:
      «Com efeito, em inglês, é habitual o uso do hífen nestes casos. Apesar de mais restrita, a regra do francês é semelhante à inglesa: «On met un trait d’union entre les préfixes non et quasi et le nom ou l’infinitif qui suit, ex.: La non-ingérence, le non-paiement d’une dette, une fin de non-recevoir, la quasi-totalité. On ne met pas de trait d’union entre les préfixes non ou quasi et l’adjectif qui suit, ex.: – Une somme non payée, une date non prévue, un travail quasi parfait (1).» Entre nós, contudo, há opiniões contrárias bem formuladas, como a de Miguel Magalhães, da Direcção-Geral de Tradução da Comissão Europeia, que num texto da publicação A folha (boletim da língua portuguesa nas instituições europeias), n.º 16, Primavera de 2004, apresenta a questão de forma muito clara, concluindo que em muitos casos se trata mais de uma questão estilística do que gramatical (como também faz o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa).»
      A língua, sabemos, é um organismo vivo, que evolui, se transforma, adopta novas soluções, se mostra permeável às línguas com as quais está em contacto e é feita pelos seus falantes. Pessoalmente, apenas não me agrada o uso abusivo que em certos textos é dada a esta solução, quando o contexto permitiria soluções muito mais de harmonia com as idiossincrasias da nossa língua.

Etimologia: mártir

Antes a morte

      A vida humana não é — vemo-lo quase cada dia que passa com cada bombista suicida que decide matar-se e matar alguém — um bem absoluto. É controversa esta afirmação? Lembremo-nos dos mártires (e mártires se autodenominam estes bombistas suicidas), de uma Santa Maria Goretti, por exemplo, que, ameaçada de violação, preferiu entregar a sua vida. Lembremo-nos do exemplo de Jan Palach, o checo que se imolou pelo fogo como protesto contra a invasão soviética da Checoslováquia, em 1969. «Mártir», que provém do grego «martyr», através do latim, e significa etimologicamente «testemunha». O mártir é aquele que, podendo escapar, não o faz. É testemunha da sua própria entrega. É o que antepõe determinados valores — a honra, a liberdade, o patriotismo... — à vida. Contraditório?

Uso das maiúsculas

Olhe que não

      Diz bem: ser-se coerente na maneira como se escreve é de uma importância inestimável. Além disso, todavia, convém ir reflectindo na utilidade das opções. No caso que nos divide, parece-me que fazer-se graficamente a distinção entre Estado federal e Estado autónomo não tem qualquer utilidade nem contribui para maior clareza. Antes pelo contrário, diria.
      Quando me refiro a Portugal, também escrevo «País», sem pejo nem remorso, e vejo que Daniel Ricardo (1) também o recomenda na obra Ainda bem Que me Pergunta (Editorial Notícias, 2003, p. 208). E lá está, curioso, ao lado de «Nação» e «Pátria»…
      Nunca o impedirei de exprimir neste blogue a sua opinião, sempre tão esclarecida, quer concorde com ela quer não. Aliás, só a pluralidade de opiniões me fará — nos fará — progredir no conhecimento de uma matéria tão fascinante, mas ao mesmo tempo tão complexa, como é a língua. Seria mais provável impedi-lo de aqui escrever se concordasse (pelo menos sempre…) comigo.

(1) Ou, entre outros, Edite Estrela et alii in Saber Escrever, Saber Falar, Lisboa, Dom Quixote, 2003, p. 45.

Etimologia: «semáforo»

Por aí

      A palavra «semáforo» vem de «sem(a)», elemento grego que significa «sinal», e «phorus», também grego, que significa «que carrega», «que transporta», «que leva». Há já muitos anos que julgava saber onde surgiu o primeiro semáforo: na berlinense Potsdamer Platz, em 1924. Ainda hoje lá está, diz-se, uma réplica do original. A Internet veio (?), contudo, desmoronar esta certeza: num site afirma-se categoricamente que «o primeiro semáforo de trânsito, alimentado a gás, foi instalado em Londres, 1868». Noutro, não menos peremptoriamente, diz-se que «o primeiro semáforo do mundo foi instalado em Boston, nos Estados Unidos, em 1840». Só não fiquei completamente desmoralizado porque num terceiro site se pode ler que «em 1926 a Siemens instalava na Praça Potsdam de Berlim o primeiro semáforo totalmente automático». Vendo bem, e tirando o pormenor da data, não é desta que ficarei desconvencido que foi mesmo em Berlim, na década de 20, que surgiu o primeiro semáforo. Muito à semelhança, aliás, do que escreve Cesare Pavese na obra Ofício de Viver: «Quando lemos, não procuramos ideias novas, mas pensamentos que já nos passaram pela mente e que adquirem, na página impressa, o selo da confirmação.»


Uso das maiúsculas

O estado do Estado (2)

      Caro amigo: é bem verdade que se pode ler no Livro de Estilo do Público isso que citou no seu comentário. E na 2.ª edição, que tenho à minha frente, publicada em Março de 2005, pode ler-se o mesmo. Mas talvez não seja para levar a sério. Repare o que diz o texto a seguir à parte em que interrompeu a sua citação: «[…] quando seguidos de complementos toponímicos: condado de Barcelona, estado de Nova Iorque, província do Ribatejo, concelho da Maia.» Ora, o que a jornalista do Público escreveu foi: «E os candidatos a pais adoptivos vieram de vários estados brasileiros.» A regra que inventaram parecia impor-lhes que escrevessem aqui «Estados brasileiros», ou não? Não nego que há regras ortográficas (talvez fosse melhor dizer tipográficas) semelhantes, mas que se trata de um preciosismo é inegável. E se, por outro lado, me diz que as maiúsculas são uma «seca», recomendo-lhe vivamente que, neste particular, tenha paciência e escreva sempre com maiúscula, esquecendo o que diz o Livro de Estilo do Público.

Controlo: grafia e etimologia

Imagem: http://www.tana.fr
De Veneza para o mundo

      Uma amiga pergunta-me como deverá escrever: «controle» ou «controlo»? Quer ainda saber a etimologia da palavra. Bem, apesar de ambas serem galicismos, eu prefiro a última forma, por me parecer mais afeiçoada ao nosso idioma. Claro que sempre podemos substituir estes termos por outros equivalentes em português, como domínio, fiscalização revisão, verificação e outras que se adeqúem mais ao contexto. De qualquer modo, e ao contrário do que já se verificou, parece estar a usar-se mais a forma «controlo». Quanto à etimologia, a palavra veio-nos, como já ficou dito, do francês contrôle. Esta forma, por sua vez, provinha, através de um fenómeno designado haplologia, do vocábulo contrerôlle, cujo étimo era o latim medieval contrarotulus (contra+lista). Qual a razão da origem na Idade Média? Quando os mercadores venezianos criaram o método da contabilidade por partida dobrada, ainda hoje usado, com os registos de deve e haver, perdas e ganhos, activo e passivo, passaram a usar dois rolos de papel: um deles, o devedor, que em latim vulgar da época tinha a designação de rotulus, e o credor, a que chamavam contrarotulus, que era o rolo de verificação. Este último, que passou ao francês como contrerôlle, mais tarde tomou a forma contrôle.

Uso das maiúsculas

O estado do Estado

      «E os candidatos a pais adoptivos vieram de vários estados brasileiros.» A frase podia ler-se numa edição da semana passada do Público («Muitos querem ficar com bebé retirado de lagoa», p. 25). Claro que podia tê-la lido noutra qualquer publicação, pois que quase sempre está mal grafada. Ora, a palavra «Estado», no sentido de nação politicamente organizada, deve grafar-se com maiúscula. Trata-se de um dos tais «elevados conceitos religiosos, políticos ou nacionais». Respeitinho e gramática, se faz favor.

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