Legendas

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«Devisa», deveras?

      Judite de Sousa perguntou a Mr. Bill Gates qual era o seu «motto». Na legenda apareceu escrita duas vezes traduzido como «devisa». Quem o fez pensou na condenação da pronúncia afectada de palavras com o chamado e mudo em vez de i, como «ministro», «Filipe», «vizinho», etc., e vá de pôr de acordo a ortografia, que é sempre muito conservadora, com a pronúncia correcta destes vocábulos. Estou a brincar (mas não muito): quem escreveu assim desconhece a ortografia da palavra «divisa».

Ringue e rinque

Também eu

      Enquanto Gabriel García Márquez não ultrapassa o bloqueio criativo de que se queixa (por enquanto eu, na casa dos trinta, só me queixo de reumatismo nas articulações…), vou aqui deixando uns textos. Hoje vou falar da diferença entre «ringue» e «rinque». Serão sinónimos, como o uso parece indicar? Vejamos como se usa na imprensa. No Diário de Notícias, de há dias, podia ler-se: «Quatro pessoas continuavam ontem desaparecidas entre os escombros do rinque de patinagem de Bad Reichenhall, na Alemanha, mais de 24 horas depois de o tecto do edifício ter desabado.» Por sua vez, no jornal Público, do dia 31.1.2006, podia ler-se: «[…] cobertura de um ringue de patinagem caiu […]».
      Sabendo que o Grande Dicionário da Língua Portuguesa define ringue como «tablado alto e cercado de cordas, onde se travam lutas de boxe, jiu-jitsu, luta romana, luta livre, etc.», não está correcto. A jornalista do Público deveria então ter escrito «rinque», que, segundo o mesmo dicionário, é o «lugar onde se patina». O Dicionário Actual da Língua Portuguesa, das Edições Asa, apresenta as mesmas definições, tal como o Dicionário Houaiss. A 6.ª edição do Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora não regista nenhum dos vocábulos, vá-se lá saber porquê. Já a Diciopédia 2004 dá a definição dos dois vocábulos, em tudo concorde com o que diz o Grande Dicionário de Língua Portuguesa. A pesquisa que fiz na Internet também não é muito desanimadora: de uma maneira geral, faz-se a distinção entre um e outro conceito. A consulta do corpus CETEMPúblico confirma igualmente esta distinção. Com a afirmação de Cesare Pavese a ecoar-me na mente — «Quando lemos, não procuramos ideias novas, mas pensamentos que já nos passaram pela mente e que adquirem, na página impressa, o selo da confirmação» — fui ainda mais escrupuloso do que habitualmente. Assim, creio que poucas vezes se dirá que o ringue sirva para outra prática que não o boxe ou desportos como os referidos, mas já o rinque não serve apenas para a patinagem, ao contrário da definição.

Mal-estar

Agora sim

      No noticiário das 8 da manhã, na Antena 1, o locutor revelou-nos que a «eleição directa para o líder está a causar mau estar no PSD». Deveria ter dito, já todos sabemos, mas alguns ainda continuam a errar, «mal-estar». Agora que a RTP e a RDP têm um protocolo com o Ciberdúvidas, mediante o qual os jornalistas podem expor as suas dúvidas por telefone ou email, ainda é mais imperdoável. De qualquer modo, só esporadicamente aqui darei conta dos erros que lá vejo e ouço — tantos são e tão volátil é o meio. Por estratégia, o meu campo de análise será a imprensa escrita, por duas razões: primeira, na escrita, os erros são de longe muito mais indesculpáveis; segunda, há, para quem o quiser comprovar, a possibilidade de ler o texto alvo da minha análise. Quer-me parecer, contudo, que com esta parceria entre a equipa do Ciberdúvidas e a rádio e a televisão públicas as coisas vão mudar um pouco: pela minha parte, serei menos complacente.

Pontuação

Ai, a minha cabeça

      «A editora Campo das Letras, acaba de publicar o seu milésimo título — O Sentimento de um Ocidental, de Cesário Verde.» A notícia, repetida noutros órgãos de comunicação, é da revista Actual (28.1.2006), página 7. Parabéns à Campo das Letras! Cuidado, caro jornalista! Aquela vírgula depois do sujeito é erro grave. Nunca se separa por vírgula o sujeito do predicado, nem este dos seus complementos, terá decerto aprendido. Quer ali a vírgula à viva força? Então terá de querer mais qualquer coisa. Tentemos de novo: «A editora Campo das Letras, a trabalhar no Porto, acaba de publicar o seu milésimo título — O Sentimento dum Ocidental, de Cesário Verde.»

Idiotismo

Ou idiotice?
  
    Porque é que a ignorância é sempre tão risonha? Quando disse, certa vez, a um conhecido meu, que é professor de Português, que a expressão «mandar às urtigas» é um idiotismo, fartou-se de rir. Ainda hoje, passados três anos, deve estar a rir. Eu bem lhe disse ainda que «idiotismo» é sinónimo de «expressão idiomática», mas os estertores do riso não o deixaram ouvir. Contorcia-se, gemia, lacrimejava, ululava. Claro que tenho pena dele, mas ainda tenho mais pena dos alunos dele.


Regência do verbo gostar

Já soube, em Novembro, agora esqueci-me

      «Matemática e a Física eram, obviamente, as disciplinas que mais gostava.» Assim se escrevia no Diário de Notícias no dia 27.1.2006. Talvez seja já um caso perdido, mas não desisto de lembrar que a sintaxe do verbo gostar exige o uso da preposição de. Gostar de. Logo, a jornalista deveria ter escrito: «[A] Matemática e a Física eram, obviamente, as disciplinas de que mais gostava.» Claro que, se se tratasse do Sr. Comum, eu não estranharia nem exigiria mais; mas como se trata de uma jornalista, devemos ser todos mais exigentes. Admite-se apenas a omissão da preposição antes de oração integrante, porque frases como «Gostaria de que aprendesse um pouco mais de gramática» não soa lá muito bem, convenhamos, sendo preferível dizer «Gostaria que aprendesse um pouco mais de gramática». Gostaria, a sério.

Glacial/malcheiroso/vírgula

Três erros no DN (29.1.2006)

«Temperaturas glaciares». Texto inserto na última página. «Desabamento na Polónia faz 12 mortos e 100 feridos». «As temperaturas glaciares que tem [sic] assolado desde há dez dias a Polónia poderão agravar a situação dos feridos.» «Glaciar» é substantivo. A qualificar o substantivo «temperaturas» deveria estar um adjectivo. «Glaciais» ou «polares», por exemplo, como se lê na página 23 também a propósito da vaga de frio que assola a Europa.

«Mal cheiroso». Pode ler-se no texto «Burros de Miranda levam animação à Baixa de Lisboa», na página 32. Vá-se lá saber porquê, há uma obstinada tendência de se escrever incorrectamente a palavra «malcheiroso». Sim, o Mal também é cheiroso: a enxofre, ao que parece.

Pontuação incorrecta. «Como coordenador, Vítor Encarnação, veio hoje acompanhar apenas a campanha durante umas horas.» É a frase, mal pontuada, do texto da página 22. Nunca se separa por vírgula o sujeito do predicado, nem este dos seus complementos. A não ser, é claro, que exista, entre o sujeito e o predicado, uma oração intercalada. Apesar da liberdade que a língua portuguesa nos dá, não podemos mudar tudo a nosso bel-prazer. O segmento «como coordenador» tem a função de aposto (1), pelo que deve ter aquela vírgula a separá-lo do sujeito, «Vítor Encarnação». A vírgula que se segue ao sujeito é que está incorrecta. Se pospusermos o aposto ao sujeito, como é mais habitual, vemos logo que não podia estar ali aquela vírgula:
«Vítor Encarnação, como coordenador, veio hoje acompanhar apenas a campanha durante umas horas.»
«Vítor Encarnação veio hoje acompanhar, como coordenador, apenas a campanha durante umas horas.»

(1) O Prof. Cláudio Moreno, a quem agradeço, lembrou-me que Celso Pedro Luft, na sua Moderna Gramática Brasileira, escreve: «O aposto pode vir precedido de como, a saber ou expressões parecidas (=pré-apositivas): O mestre, [como guia da juventude], deve levar vida exemplar. Convém reter duas coisas, [a saber: as causas da revolução e suas conseqüências]. O resto, [isto é, a cabeça, os olhos e o nariz], foi ela quem pintou.»

Hipérbole

Oooops!

      No último Herman Sic, Herman José disse, duas vezes e de forma enfática, «hipérbola». As Produções Fictícias têm de começar a escrever os «improvisos» do mestre, sob pena de o programa descambar ainda mais.


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