Peru

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Santa mas falível

      A possidente Santa Casa da Misericórdia anda agora a propinar dislates ao bom povo. Em doses homeopáticas, é certo. Nos bilhetes da 4.ª extracção da Lotaria Popular (26 de Janeiro de 2006), lê-se: «Sabia que o perú selvagem consegue voar a 50 km/h?» E a Santa Casa sabia que existem uns livros em que se encontram por ordem alfabética ou por outra convencional todas ou a maior parte das palavras de uma língua com a respectiva significação na mesma língua ou noutra?
      Quem escreveu desconhece a palavra e a respectiva regra da acentuação. Para o que interessa, acentuam-se as palavras agudas ou oxítonas que terminam em i e u, seguidos ou não de s, e precedidos de vogal com que não formem ditongo, tais como baú, Esaú, Luís, país, saí, etc. Onde se encaixa aqui o vocábulo «peru», não querem dizer-me?

Acento circunflexo

Altos voos

      Sempre considerei a banda desenhada do Calvin & Hobbes, de Bill Watterson, de grande qualidade e mais do que uma vez a recomendei a pais e avós que queriam ver os netos a ler mais. Mesmo sem recomendação, é óbvio que para uma criança poderá ser dos poucos motivos de interesse num jornal generalista. Em Portugal, tem sido publicada pelo jornal Público, que, se está bem traduzida, está mal corrigida. Na tira publicada na edição de 31.12.2005, num balão de fala estava escrito: «Sim, decidi curtir os meus vôos e ver o que acontece.»
      O Acordo Ortográfico em vigor, datado de 1945, estabeleceu «a omissão do mesmo acento [circunflexo] nas formas verbais e nominais que têm o hiato oo: abençoo, voo, Aqueloo, Eoo».

Colocação dos pronomes átonos

As intermitências da gramática

      Já me ocupei aqui («Todos se estatelam. Estatelam-se todos.») da colocação do pronome pessoal reflexo em frase começadas por pronomes indefinidos, como alguém, todos, muitos, etc. Desta vez, o erro é do Diário de Notícias (18.1.2006), na página 34, que escreve: «Ambos dedicavam-se à apanha da amêijoa.» Nestes casos, em que o numeral «ambos» inicia a frase, a gramática obriga a pôr o pronome «se» em próclise, isto é, a antepô-lo à forma verbal: «Ambos se dedicavam à apanha da amêijoa.»


Provedoria da Língua Portuguesa

Algo de novo

      Nunca vi nenhum político a defender a criação de uma Provedoria da Língua Portuguesa e, escusado será dizê-lo, a sua existência não carece de grandes justificações. Deveria ser uma entidade pública constituída por personalidades de reconhecido mérito e independência com competência para fazer recomendações a entidades públicas e privadas sobre o uso da língua portuguesa, dedicando especial atenção a todos os meios de comunicação social e aos manuais de todos os níveis de ensino. Deveria manter relações privilegiadas com outros organismos que se dedicam ao estudo da língua, tendo assim condições para contar também entre as suas competências a fixação da ortografia de centenas de vocábulos que são escritos ao sabor da vontade e do acaso, assim como o estudo de alternativas viáveis para alguns estrangeirismos. Não lhe faltará trabalho nem razões para existir.
      Talvez o futuro presidente da República, que será, provavelmente, eleito hoje, tenha sensibilidade e vontade para sugerir ao Governo a criação deste organismo. Afinal, está em causa um património intangível mais maltratado e incompreendido do que as próprias tradições nacionais.

Estrangeirismo: «body language»

Hey, people! Eu também sei inglês

      Laurinda Alves entrevistou, numa edição de antes do Verão (n.º 308, de 14.5.2005) da revista Xis, o comunicador Paulo Carvalho, que anda por empresas a ensinar a comunicar e a falar em público. Numa das respostas, quando o entrevistado afirmou que «o acto de falar não envolve só as palavras que se usam mas toda a linguagem corporal», Laurinda Alves sentiu-se irresistivelmente impelida a acrescentar: «A chamada body language.» Ainda bem que há quem se preocupe com as minorias linguísticas no nosso país. Estou mesmo a ver: na modorra pós-prandial, um incauto reformado americano, no Clube Americano, folheia ― a fazer tempo sabe-se lá para quê ― a revista Xis, e, azar, é logo ali, naquela «linguagem corporal», que vai tropeçar. «Damn!»

Antropónimos



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Todos os nomes

      Certamente por ter um apelido tão singular (estultamente impronunciável para alguns professores universitários), não sou nada dogmático em relação à escrita dos nomes próprios. Lembro isto a propósito de um comentário deixado num dos posts, em que se lê «Hélder». Tenho em muito boa conta o pároco que exarou o meu assento de baptismo, o padre Vinagre, que aceitou o nome escrito sem acento agudo. Sendo um nome estrangeiro, não me repugna que se grafe como no original. Já não acharia bem que tivesse aceitado «Juão» ou «Miguele», por exemplo. Por outro lado (há sempre outro lado, como nas moedas), as pessoas que tão heroicamente pugnam pela pureza da língua não levam a sua coerência até ao fim. Vejamos. O diplasiasmo está banido da nossa norma linguística actual. O diplasiasmo consiste, e lanço mão da definição, insuspeita nesta questão, de um dicionário, na «injustificada duplicação de letras». Ora, tirando o caso de alguns advérbios — que por coincidência já foram referidos neste blogue —, como «comummente», «ruimmente» e possivelmente outros que agora não me ocorrem, e vocábulos que, por razões etimológicas, se escrevem com duplicação de letras, vogais ou consoantes, como «ecciese», por exemplo, e muitos outros, só encontramos exemplos inequívocos de diplasiasmo em apelidos: Mello, Motta, Netto, etc. Atrever-se-ão esses puristas a alterar estes apelidos para Melo, Mota, Neto? Não me parece.

Iliteracias

Igualdade

      O outro administrador do condomínio deixou-me um recado ― um post-it numa folha branca! ― a comunicar-me que, depois de uma pesquisa que fizera sobre empresas de limpeza, faltava apenas «chegarmos a contra-senso». Os serviços da empresa serviriam para substituir a empregada de limpeza, que se despedira, e que um dia me dissera, sempre achacosa nos seus 29 anos, que tinha uma «dor asiática» e que, por causa de o marido pretender abandoná-la, só se tinha de pé com «acalmantes». O administrador, bem-parecido e ultraperfumado, que arrasta atrás de si o olhar (maldito!) de algumas mulheres, tem a mesma idade da ex-empregada.

Léxico: paralelepípedos

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Falemos de pedras…

      Outra consulente quer saber se se pode dar o nome de «paralelepípedos» às pedras da calçada. Eu diria que sim — se o forem. Para nos certificarmos que estamos a falar da mesma coisa, suponha que estamos a falar da calçada à portuguesa da placa central do Rossio. Não se trata de paralelepípedos, mas sim de pedra calcária, branca, rosa ou preta, a que se dá o nome de vidraço. Os paralelepípedos, também conhecidos como paralelos, são blocos de granito com essa forma geométrica, muito usados na pavimentação das ruas e das estradas. Realcei as palavras «granito» e «essa forma» justamente porque essas são as características que definem o que é um paralelepípedo. Se reparar, as pedras da calçada não apenas habitualmente não são de granito, como a forma não é a do sólido com seis faces paralelas duas a duas e cuja base é o paralelogramo. Têm antes formas irregulares, pelo menos no aparelhamento conhecido como «malhete», pois que há também o aparelhamento a «quadrado» e a «sextavado». Contudo, estas formas, regulares ou irregulares, referem-se sempre à face que servirá de pavimento, pois que a face cravada de todos estes tipos de aparelhamento é sempre irregular.

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