Léxico: questiúncula

Questiúnculas

      Vamos lá arejar o vocabulário. A palavra «questiúncula», se é pouco usada em português, é geralmente conhecida, mas já não é assim com outras acabadas em -úncula, que aqui deixo.

— ambiciúncula
— fracciúncula
— historiúncula
— patriúncula
— porciúncula
— reformúncula
— religiúncula
— revolunciúncula
— sentenciúncula.

Erros ortográficos

Além-Atlântico

      Na cidade de Bauru, no Brasil, os moradores passam a vida a reclamar da grafia errada das placas toponímicas. De acordo com o responsável municipal por esta área de actuação, em média são trocadas por mês 12 placas por causa dos erros de grafia. Tendo em conta que este serviço é responsável por cerca de oito mil placas, e admitindo que estão quase todas erradas (nunca fui optimista acerca destas coisas…), só daqui a mais de 50 anos estarão todas corrigidas, isto se entretanto não atribuírem nomes errados a novos arruamentos.
      Só a grafia dos nomes derivados do tupi-guarani dá volta à cabeça dos responsáveis pelo «emplacamento»: Ipauçu ou Ipaussu? O Dicionário Aurélio, porém, resolve a questão de uma penada: estes vocábulos grafam-se sempre com ç e não com ss. Também não seria má ideia terem uma comissão municipal de toponímia, digo eu. Ou um exemplar do dicionário.
      Fundada no fim do século XIX por dois garimpeiros, e antes dominada pelos índios Caigangs, Bauru vê também a etimologia do seu nome envolta em controvérsia: de «Upaú-r-ú», sim, mas com o significado de «cesta de fruta» ou de «lagoa escura»?

Advérbios e adjectivos

É o entusiasmo (3)
 
      A propósito da formação dos advérbios de modo, um leitor diz-me que me esqueci de que há em português advérbios de modo em -mente derivados de adjectivos masculinos, e cita «portuguesmente», que se formou de «português». Para lhe chamar alguma coisa, é uma falsa excepção, pois que no português antigo o adjectivo «português» era comum. Logo, a excepção é constituída somente pelos adjectivos uniformes: comum+mente; feliz+mente; liminar+mente; ruim+mente; salutar+mente, etc.
      A propósito destes adjectivos uniformes quanto ao género — o português, a português —, devo mencionar o fenómeno contrário, que é o de adjectivos, hoje uniformes, que até ao século XVIII tinham duas formas (biformes), como é o caso de comum e comua (ou comûa, como variante), ainda hoje em dia presente, como substantivo, na língua. No Alentejo ainda se ouve o ofensivo «Fecha essa comua!» (Fecha a boca, não digas asneiras) e noutras zonas do País também se usa na acepção de latrina, retrete. O Grande Dicionário de Língua Portuguesa e o Dicionário Houaiss registam este vocábulo.

Advérbio, novamente

É o entusiasmo (2)

      Caro amigo F. V. Ramos: cita bem, é isso justamente que diz o dicionário online da Priberam. O contexto da minha afirmação era, porém, claro: falava de advérbios de modo de sufixo em -mente, pois que o advérbio em apreço era «liminarmente», lembra-se? Mantenho, pois, o que afirmei nesse post. Por outro lado, nunca a definição que cita poria em causa a minha afirmação, já que nada refere sobre a formação dos advérbios. Como sabe, a fonte mais produtiva dos advérbios em português é a derivação por meio do sufixo -mente, e na base desta está sempre um adjectivo feminino: pura → puramente. Mas com excepções, pois há adjectivos que não têm feminino, e nesse caso o sufixo -mente é acrescentado ao adjectivo uniforme: liminarmente.


Tratar-se de

Bem me parecia

      Leio na página 74 revista Única de 14.1.2006: «Tratam-se de duas salas, sendo que uma delas está preparada para provas de vinho e a segunda para almoços ou jantares.» Tratar-se, na acepção de «estar em causa», é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa: «Trata-se de duas salas.» Trata-se de um erro muito comum, mas já vai sendo tempo de todos o sabermos conjugar. Claro que me importa muito menos que as peixeiras do Mercado de Benfica não o saibam fazer do que um jornalista, mesmo que se trate de um estagiário.

O testemunho da testemunha

Imagem: http://www.actimel.pt

Ah, pois é…

      Eu posso dar o meu testemunho dos dislates que se escrevem em publicidade, se quiserem. A Danone, contudo, pede outra coisa: «Seja o próximo testemunho Actimel.» E como é que isso pode ser, querem fazer o favor de elucidar-me? A testemunha é que dá o testemunho, este se dá alguma será dar de si. Explicado aos pequeninos: o testemunho é a declaração feita pela testemunha, é o depoimento que esta faz. O substantivo «testemunha» é sobrecomum, isto é, um substantivo uniforme, pertencente a um único género (masculino ou feminino), apesar de referir entidades de um e outro sexo, tal como a criança, a pessoa, o algoz, o apóstolo, o carrasco, o cônjuge, o ídolo, o indivíduo, o músico, etc.


Léxico: «mupi»

Quem diria

      Uma consulente (sim, porque eu também já tenho consulentes) pergunta-me o que são «mupis», porque não vê o vocábulo registado em nenhum dicionário. Sim, tem toda a razão: não se encontra dicionarizado, e seríamos tentados a afirmar que é uma palavra do tupi-guarani, designando algum animalejo da Amazónia, mas não. «Mupi» é o acrónimo de «mobiliário urbano para informação». São os expositores, iluminados, de publicidade que vemos espalhados pelas nossas cidades, ultimamente providos de um motor para mostrar mais do que um anúncio.



Advérbio: «liminarmente»

É o entusiasmo

      Notícias do meio-dia da Antena 1 (14.01.2006): «A Procuradoria desmente limiarmente o jornal 24 Horas.» Cai-me a pena da mão… o rato, digo. Amigo, em português os advérbios são formados a partir dos adjectivos, deveria ter dito «liminarmente», isto é, de forma total, absoluta, sem mais exame. O étimo é o mesmo, é verdade, é o latino liminaris, que é a nossa soleira da porta. Logo, quem faz qualquer coisa liminarmente fá-la logo à entrada, logo no começo e, daí, de forma total.

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