Estrangeirismo: «rendez-vous»

Com a língua na maca

      Há dias, ouvi na Antena 1 um bombeiro de Óbidos a falar a propósito das dificuldades de acesso ao casco antigo da vila, dizendo que os bombeiros têm de fazer o «rendez-vous» das vítimas. Confirmo agora na Internet que também o INEM usa o termo rendez-vous para designar o transbordo de uma ambulância para outra. Tranchons le mot(1): é mesmo preciso usar o francesismo ou estão somente a armar-se? Afinal não é mesmo de um transbordo que se trata? Ça me dépasse(2).

(1) Falemos com franqueza.
(2) Isto ultrapassa-me.

Ir de encontro/ir ao encontro

Como disse?

      No Diário de Notícias de ontem (12.1.2006), uma jornalista escreveu que, no seu périplo pelo País, as «queixas das pessoas vão de encontro às questões que Louça levanta». A verdade, intuímos pela frase e concluímos pela leitura de todo o artigo, é que os cidadãos não discordam do candidato, pelo que as suas queixas vão ao encontro das questões que Louça levanta, isto é, harmonizam-se com estas. Este é um dos erros mais frequentes, tanto na escrita como na oralidade. O pior é que, como nem sempre acontece, o sentido das expressões se opõe.

Maldisposto

Prof. Diabo

      Já o padre António Vieira dizia, no «Sermão dos Cativos», que até com o Diabo se tem de aprender. Lembro isto a propósito da crónica de Vasco Graça Moura no Diário de Notícias (11.1.2006), absolutamente virulenta, ácida, desproporcionada — mas dada numa escrita muito vernácula, sobrecarregada, retorcida — contra Mário Soares. Tudo sem nunca o nomear. A verdade é que, sendo VGM um grande escritor, por vezes um autêntico prestidigitador verbal, também desliza para as inépcias, pois escreve várias vezes, ou não fosse o título «A má disposição», «mal disposto». «Ele acordou muito mal disposto», escreve. Erro o dele: a começar pelo Vocabulário de Rebelo Gonçalves, todos os dicionários registam «maldisposto», que é o particípio passado do verbo maldispor.
      Claro que, nos jornais, os revisores se genuflectem perante o mestre, acatando-lhe mui respeitosamente os sagrados erros. Imbuídos da filosofia de Ortega y Gasset, que definiu o estilo como «la peculiar manera que en cada autor hay de desrealizar las cosas», suspeitam que é ou uma liberdade poética ou uma busca de sentido que lhes escapa inteiramente, escapando à gramática. Ajoujados pelo peso da estarem a rever um texto do génio, nunca suspeitam que o homem não é perfeitamente infalível. Sacrificam a ortografia à humildade, prestando assim um péssimo serviço à língua e aos leitores.

Vírgula nos numerais

É mais ou menos isso

      A Câmara Municipal de Lisboa andou cá no bairro a distribuir um folheto intitulado «Segurança e Bem-Estar Comunitário ― a Responsabilidade de Todos». Tirando a publicidade, desde cangalheiros a empresas de catering (e estas últimas, no aspecto da segurança, são imprescindíveis em caso de guerra ou catástrofe, pois não dá jeito sair à rua), os conselhos sobre segurança é o que menos avulta, e mesmo assim com muitos erros gramaticais, que por ora não me ocuparão. Excepto a afirmação, na Introdução, de que «este livrete abrange 259,000 domicílios e organizações públicas de Lisboa». Serão mesmo só 259?! Mas isso é apenas uma rua, e das mais pequenas, aqui de Benfica!

Governadora vs. governanta

Governess ≠ governadora
      
      Ainda o Público (edição de 31.12.2005): na sinopse que fez do filme Música no Coração, põe o capitão Georg von Trapp a procurar «uma governadora para cuidar dos seus sete filhos». Governadora da ínsula prometida por D. Quixote de la Mancha ao seu escudeiro Sancho Pança, deve ser.

Léxico: galheteiro

Mais uma para o galheiro

      Neste momento difícil que o galheteiro está a atravessar no nosso país, queria deixar aqui umas palavras sobre este tão útil e antigo objecto. Claro, nunca pensamos muito no que as palavras significam. Sendo o galheteiro o «utensílio de mesa em que se põem as galhetas do azeite e do vinagre», é manifesto que a palavra primitiva é «galheta», o pequeno vaso de vidro com gargalo usado para diversos fins. E «galheta» vem do espanhol «galleta», não a galleta comestível, isto é, a bolacha, porque essa provém do francês gallete, mas de origem desconhecida. Pouco faltará para, à menção da expressão «servir de galheteiro», o nosso interlocutor encolher os ombros, ignorante. Isso constitui algum problema, perguntar-me-ão? Também ninguém sabe o que são os escarpes e olha como as pessoas parecem felizes, vão aos saldos, comem hambúrgueres e estão sempre agarradas ao telemóvel. E com razão — os escarpes não são coisa digna de evocação.

Léxico: espectatório

Espectatório

      Há poucos anos, vi num anfiteatro do Hospital de Santa Maria a inscrição «espectatório». Mais uma palavra perdida para a vida. Quantas gerações de estudantes a terão pronunciado? Tem razão: é uma palavra feia e talvez desnecessária, além de lembrar coisas tétricas ou desagradáveis (ora deixem-me cá ver entre as mais de 500 palavras portuguesas terminadas em -ório…), como vomitório, espulgatório, crematório, dejectório, entre outras.

Léxico: estouvado

Entomologia política

      A propósito de uma questão que não interessa para aqui, o primeiro-ministro usou há dias a palavra «estouvado», que sempre achei deliciosa. Registada na língua portuguesa quase no início do século XIX, já se usava antes sob as formas «estabanado» e «estavanado». Esta última ajuda-nos a ver melhor ali o étimo, que estará ligado à palavra «tavão», que é o moscardo que persegue o gado, o tabanus latino. «Estavanado» é o que foi mordido, aguilhoado pelo tavão, e por isso age irreflectidamente, de forma leviana ou inconsequente.

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