Léxico: «arruada»

Escreva quem quiser, leia quem souber

      É impressão minha ou, pela primeira vez numa campanha eleitoral, a comunicação social está a usar a palavra «arruada»? Claro que só alguns candidatos têm direito a «arruada», enquanto outros se ficam com arruaças ou arremedos disso. Noutras campanhas, usava-se e abusava-se do mais hiperbólico «banho de multidão».
      Leio no Diário de Notícias: «[…] durante a concorrida arruada de Cascais». Afigura-se-me que há aqui uns fumos de pleonasmo. Então a «arruada» não é o tal «banho de multidão»? Bem, a verdade é que não vejo dicionarizado o vocábulo. Vamos esperar.
      Afinal, a coisa é mais antiga, pois leio no fabuloso corpus CETEMPúblico: «a arruada, como a CDU gosta de chamar às acções de campanha junto das populações».


Hífen: extrema-direita

Sai uma palete de hífenes para o DN!
      
      O renovado Diário de Notícias (9.1.2006) escreveu, duas vezes no mesmo texto, «extrema direita». Mas não; se consultarmos, e é bom que o façamos com alguma regularidade, um dicionário de língua portuguesa, lá está: «extrema-direita» e mesmo, que nisto são iguais, «extrema-esquerda». Para terminar a questão, ministro-lhe (usurpando funções?) um dos sete sacramentos da Igreja Católica: a extrema-unção.

Siglas: TAC

aTACar
      
      Na TSF, há dias, uma jornalista dizia que «Ariel Sharon irá hoje fazer novos exames médicos, um TAC». Hoje, o renovado Diário de Notícias também escrevia «após ter sido analisado o TAC». Sendo TAC acrónimo de Tomografia Axial Computadorizada, deveria ter dito «uma TAC». Há linguistas que consideram aceitável atribuir-se-lhe o género masculino, quando se subentender que está a ser feita uma referência ao exame complementar de diagnóstico que é a TAC, mas tal argumentação não me convence. Com subentendidos ou sem eles, diz-se e escreve-se «a CIA», «a SIDA», «a OPEP», «a NATO», «a ONU», etc.

Há anos

Défice de dicionários
      
      O Diário de Notícias está, sem qualquer dúvida, muito melhor. E não é só o aspecto gráfico que mudou. Contudo, ainda se aninham nele, quais insidiosos parasitas, erros. Num texto da autoria da jornalista Paula Martinheira, lá vem, entre outros erros que me ocuparão mais tarde, o malfadado «há anos atrás», imitação do «years ago» inglês: «[…] emigrantes que há algumas décadas atrás partiram para a Venezuela […]». Se é compreensível no discurso de um político, já não o é num texto de um jornalista, cuja ferramenta de trabalho é precisamente a língua.

Escolha do léxico

Fora dos eixos

      Leio num texto publicado no Expresso (17.12.2005): «Luís é o inventor do Mundo T, um mundo que se materializou numa campanha publicitária eixada na figura de Cristiano Ronaldo […].» Eixada? O afã de ser-se diferente leva por vezes a estas barbaridades. Para o jornalista, «centrada» era demasiado banal, correndo mesmo o risco de ser compreendido por toda a gente.

Apóstrofo



The idiot box

      Num documentário, emitido ontem, sobre os vários filmes King Kong, na 2:, numa legenda podia ler-se «nas décadas de ’60 e ’70». O apóstrofo está ali para quê? Escreva-se: «décadas de 60 e 70» ou «décadas de 1960 e 1970».


Símbolo @

Arrobas de razão      

      Madalena Balça, que apresenta o programa 1001 Escolhas na Antena 1, acaba sempre por apelar para a participação do ouvinte através do correio electrónico, dizendo: «Mil e Uma Escolhas, em dígitos, 1, 0, 0, 1, at, rdp, ponto, pt.» Porquê a preposição inglesa «at»? Causa estranheza, tanto mais que já entrou nos hábitos portugueses o uso da palavra «arroba» para o símbolo @. Sendo puramente convencional, é muito mais natural que tenha o nome «arroba», porque é esse o nome do símbolo que já conhecíamos. Os Italianos dão-lhe o nome chiocciola (caracol), os Suecos, snabel (tromba de elefante), os Holandeses, apestaart (rabo de macaco), os Israelitas, shtrudel, os Austríacos, strudel, os Franceses, arobase, etc. Deixemo-nos de subserviências e macaqueações, já basta todo o manancial de palavras inglesas a que não podemos escapar.

Elemento ciber-

Cibertudo


      No suplemento Mil Folhas, do jornal Público, há uma rubrica intitulada «Ciber-escritas», da autoria da jornalista Isabel Coutinho. Contudo, a forma correcta seria «ciberescrita», à semelhança de «ciberespaço», abundantemente utilizado e já dicionarizado. Recomendo a leitura de um excelente trabalho sobre o elemento ciber na formação de palavras portuguesas, da autoria de Manuel Leal, do Conselho da União Europeia («a folha», números 16 e 17, «Cibernologia (1.ª parte» e «Cibernologia (2.ª parte)»).


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