Tamanho dos caracteres

Gros caractères

      Recebi há dias em casa a programação da Culturgest para o primeiro trimestre de 2006. Em termos estéticos, nada a opor. Erros, há-os. O que me preocupa, desta vez, é o tamanho da letra. Não é para toda a gente ler, e o facto de os textos em inglês estarem grafados num azul cerúleo piora tudo. Atenção: nada de discriminações baseadas nas dioptrias.

Acento circunflexo

Imagem: www.samnorkin.com/
Coco simples

      Não é raro encontrar a palavra «coco» mal escrita, mas recentemente (2.1.2006) num cartaz no hipermercado Feira Nova, vi-a escrita com dois acentos circunflexos! «Côcô», nem mais. Mais parece um emoticon, tão na moda. Talvez uma expressão de espanto, as sobrancelhas de Groucho Marx a arquearem-se sobre os óculos. Se naquele hipermercado, como em todos, só desmancha os porcos quem sabe, só faz a contabilidade quem sabe, só concebe campanhas de marketing quem sabe, porque é que todos escrevem, se poucos sabem?
      Se tivesse acento, seria apenas um. Todavia, pelo Acordo Ortográfico de 1945, foi eliminado o acento circunflexo em homógrafos heterofónicos (isto é, palavras com fonia diferente, mas com as mesmas letras), «como cerca, substantivo, com e fechado, e cerca, verbo, com e aberto; força, substantivo, com o fechado, e força, verbo, com o aberto. Há excepções, nas formas verbais, mas para o caso em apreço não interessa.

Todo-poderoso

Renda-se. Está cercado

      Isto é o que exige a prestigiada Bang & Olufsen num anúncio que se pode ver na imprensa. Não devemos, porém, ter qualquer receio, porque afinal é para apresentar «o todo poderoso BeoVision 7 & Beolab 5». Admito: na Dinamarca não abundarão os dicionários de língua portuguesa ou sequer um mero prontuário. Mas, caramba, e na agência criativa onde foi concebido o anúncio ninguém ainda vira a palavra «todo-poderoso» escrita? Não usam dicionários? Não lêem nada? Se se obstinarem a usar armas destas, não me rendo.
      Escreva-se: todo-poderoso, todo-poderosos, todo-poderosa, todo-poderosas. Uma fonte online fiável é a Base de Dados Morfológica do Português.


Hífen

A bem-dizer, dispenso os dicionários

      Ao traçar o perfil de David Cameron, o carismático líder do Partido Conservador britânico, a Pública (edição de 31.12.2005) chama-lhe posh, que traduz por «menino bem». Ora, tal como «menino-prodígio» e «menino-bonito», deveria ter escrito «menino-bem». Curiosamente, as palavras inglesas que a jornalista escreveu estão todas correctamente grafadas.

Verbo haver

Madalena Iglésias
      
      Numa entrevista ao Diário de Notícias, em 11 de Dezembro, o ícone do nacional-cançonetismo afirmou que nos anos 60 «todas as estações de televisão eram mais ou menos iguais, haviam três ou quatro câmaras que serviam para quinhentas mil coisas». Mas talvez Madalena Iglésias não tenha dito exactamente assim, porque afinal a jornalista Paula Mourato é que escreve «meio termo» e «nacional canconetismo», entre outros erros menores. Dizem-me que os jornais já não têm revisores.

Sob e sobre: a batalha continua

O mundo às avessas

      O Público (edição de 31.12.2005) inventou uma «ponte pedonal sob o rio Clark Fork». O erro oposto, que consiste em trocar «sob» por «sobre», é muito mais comum. Não tem conta o número de vezes que já li e corrigi «sobre a égide», «sobre escolta», «sobre os auspícios» e «sobre a tutela» para «sob a égide», «sob escolta», «sob os auspícios» e «sob a tutela».

Superego

Era um belo mito

      Em entrevista à revista Pública, de 11 de Dezembro, Helena Abreu, perita em orientação escolar e profissional, com currículo internacional, reconhece que se escreve pouco na escola portuguesa, em todos os níveis. Reconhece ainda que a geração a que pertence (tem 61 anos) tem tendência a considerar que saía da escola a saber escrever bem. Mas não é assim, acrescenta, porque só se aprende a escrever escrevendo. A jornalista, vergada ainda ao peso do lugar-comum, diz-lhe que «pelo menos não davam erros ortográficos». Realista, Helena Abreu afirma que «isso é outro mito». O que a geração dela tinha era uma «espécie de superego ortográfico», que actualmente não existe. A prová-lo, a jornalista escreveu duas vezes «super-ego». Afinal, talvez se justificasse a genuflexão.

Léxico: camauro

Fonte: http://news.bbc.co.uk
Chapéus há muitos

      O Papa Bento XVI retomou o costume, interrompido pelos últimos três papas, de usar um barrete chamado camauro, que o Grande Dicionário de Língua Portuguesa dá como tendo etimologia latina e significando «barrete usado pelos papas e que chega a cobrir as orelhas». De alguma maneira, devemos a palavra a Bento XVI, pois que sem a realidade a palavra de pouco valia. Na imagem em que o vi com o camauro, de veludo vermelho-púrpura, o papa parecia um doge.

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