«Bordar considerações»

Bordar ou tecer

      «Bordou ainda outras considerações, a respeito da presença de espírito, as quais fizeram Diana corar novamente, mas, desta vez, por um motivo muito diverso» (Acampamento no Bosque, David Severn. Tradução de José da Natividade Gaspar. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1949, p. 187).

[Texto 3202]

Quádruplo, desta vez

A língua da abundância

      O português é, lembra-nos de vez em quando Montexto, duplo. Pelo menos, mas por vezes pode ser quádruplo: avantesma, abantesma, aventesma, abentesma. Talvez a mais usada seja a primeira variante, mas agora, num texto que estou a rever, o autor usou várias vezes «aventesma».
[Texto 3181]

«Falsear»/«falsificar»

Não esperava

      Para mim, foi o caso do dia: «O Ministério das Finanças diz que o documento em que consta o nome de Joaquim Pais Jorge foi falseado» (José Rodrigues dos Santos, Telejornal, 7.08.2013).
      Os dicionários dão falsear e falsificar como sinónimos, pelos menos parcialmente, mas eu esperava ali o segundo, não o primeiro. Para mim, a ideia de fraude é transmitida por falsificar. Vejo, contudo, que não é assim tão claro. «Não creio que valha a pena, eu mesmo invento uma assinatura, Ao menos, que se pareça um pouco com a minha, Nunca tive jeito para imitar caligrafias, mas farei o melhor que puder, Tem cuidado, vigia-te, quando uma pessoa começa a falsear nunca se sabe até onde chegará, Falsear não seria o termo exacto, falsificar era o que deves ter querido dizer, Obrigado pela rectificação, meu querido Máximo, o que eu estava era a manifestar apenas o desejo de que houvesse uma palavra capaz de exprimir, por si só, o sentido daquelas duas» (O Homem Duplicado, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 2002).
[Texto 3160]

Léxico: «tramo»

Pode ser

      O maquinista do acidente de Santiago de Compostela saiu em liberdade condicional. O repórter Manuel Meneses, da RTP, foi ouvir o cidadão comum nas ruas de Compostela. «Acho bem porque, além disso, li hoje no jornal que ele terá dito que julgava que estava noutro tramo da linha.» Em todas as outras ocorrências, foi o vocábulo «troço» que se usou, mas em português «tramo» também é a secção de uma estrada ou via férrea.

[Texto 3119]

«Camisa-de-sete-varas»

Parece que é igual

      «Muito menos a sua irmã, embora achasse que ela se podia meter numa camisa de sete varas se por acaso voltasse a encontrar o dito homem» (Tiro e Queda, Mafalda Belmonte. Lisboa: Bertrand Editora, 2002, p. 60).
      É a primeira vez que vejo assim. A medida tradicional é onze: camisa-de-onze-varas, hifenizado, como aparece, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. A alva dos condenados a autos-de-fé era feita de pano de varas, um tecido antigo de lã, áspero. Talvez haja aqui relação com o termo «vara» no sentido de circunscrição judicial. Quanto a serem sete ou onze varas, e vara aqui é uma antiga medida de comprimento, talvez seja, como alguns aventam, indiferente, pois são ambos números meramente simbólicos.
[Texto 2968]

«Bagagem de cabina»

Tragam a fita métrica

      Então e sabiam que «50 cm por 40 cm e 20 cm é o novo limite que os passageiros da companhia aérea [easyJet] terão de cumprir para a bagagem de cabina»? («EasyJet tem novo limite de tamanho para as malas de cabina», «Liv»/i, 25.05.2013, p. 3).
      Mero pretexto, este, para lembrar que talvez seja mais habitual usar-se «bagagem de mão», que significa o mesmo. Também salta à vista que a frase não saiu lá muito bem.
      «Eles entravam no avião carregados de bagagem de cabina, sentavam-se nos seus lugares com o chapéu preto enfiado na cabeça, comprimiam os sacos e saquinhos, com chouriços e queijos para presentear os familiares que os aguardavam ansiosos num moderno aeroporto dum mundo desconhecido, entre as pernas, e o guarda-chuva no colo» (A Deriva dos Continentes, Clara Pinto Correia. Lisboa: Relógio D’Água, 1997, p. 159).
[Texto 2889]

«Tiborna/tibórnia»

É uma delícia, isso sim

      «Termina hoje a mostra gastronómica do Fundão, “Aqui Come-se Bem – Tibórnia 2012”, que reúne 15 restaurantes da região» («Gastronomia no Fundão», José Carlos Marques, revista «Domingo», Correio da Manhã, n.º 12 551, p. 64).
      Creio que apenas conhecia «tiborna», mas parece que é o mesmo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, estranhamente, não regista nenhum dos vocábulos, quando já estava em Morais: «pão quente embebido em azeite novo para se comer». E está na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 31, p. 619): «Pão quente embebido em azeite que os lagareiros costumam comer depois de findos os seus trabalhos.»
[Texto 2474]

Sobre «demão»

Sinónimo de «ajuda»

      Sim, «demão» também significa «ajuda». É verdade que as acepções mais usadas e conhecidas são outras: camada de tinta, cal, etc., que se aplica numa superfície e cada uma das vezes que se retoma um trabalho ou um assunto.
      «Aliás, não fosse querer dar uma demão na venda dos livros ao velho camarada e grande amigo Alberto Pratas e Isidro Pacheco que aquele lançamento promovera, não estaria ali» (O Autógrafo, Dias de Melo. Lisboa: Edições Salamandra, 1999, p. 77).
[Texto 2185]

Sinónimos, essa riqueza

É usá-los

      Podemos escrever solho, ou soalho, ou assoalho. São os três sinónimos. Podemos escrever cuspe ou cuspo. Como podemos escrever vergasta ou verdasca. Gole ou golo. São milhares. A grande riqueza de sinónimos é um tesouro da nossa língua que não podemos desperdiçar.
[Texto 2172]

«Creche/infantário»

Creche e aparece

      «Seja creche ou infantário», escreve o autor. Pergunto eu: não são sinónimos? Pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o chegamos a saber bem. Creche, que começou por ser o estabelecimento para asilo diurno de crianças pobres e já foi um galicismo bárbaro (mas hoje já ninguém fala disso), é o «estabelecimento de educação destinado a crianças com idades compreendidas entre os 3 meses e os 3 anos de idade». Perfeito. Agora só falta ter, de preferência no mesmo dicionário, uma definição de infantário tão precisa. Mas não: «estabelecimento que se ocupa de crianças em idade pré-escolar; jardim-escola; creche». Para mim, são sinónimos, mas dizem-me aqui, sem mais argumentos, como tantas vezes, que não.
[Texto 1968]

«Necessidades biológicas»

Isto está a mudar

      «Uma mulher de 77 anos viveu durante quase um ano fechada numa garagem de uma habitação em S. Cosme, Gondomar. Era a própria filha que a mantinha retida no espaço, onde dispunha apenas de um sofá velho onde dormia e de uma lata que usava para as suas necessidades biológicas» («Fechou mãe na garagem durante um ano», Pedro Sales Dias, Público, 10.02.2012, p. 23).
      Não está errado, não, senhor, mas dantes só se ouvia e lia necessidades fisiológicas.
[Texto 1087]

«Jura/juramento»

Bem, mas

      «O primeiro-ministro britânico, David Cameron, elogiou-lhe [a Isabel II] “a dignidade e a autoridade tranquila” e o arcebispo de Cantuária destacou o “serviço generoso” prestado ao país. A monarca, que ontem manteve uma agenda discreta, declarou-se “comovida” com as homenagens. “Consagro-me hoje de novo ao vosso serviço”, anunciou, repetindo uma jura antiga e deixando claro que o trono será seu enquanto for viva» («Reino Unido. Isabel II, a serena, subiu ao trono há 60 anos», A. F. P., Público, 7.02.2012, p. 18).
      O jornalista não deveria ter escrito «juramento»? Sim, são sinónimos — jura e juramento —, mas neste contexto é mais adequado «juramento».
      «Ali estavam “todos os grãdes, titulos & Fidalgos destes Reynos”, com um cerimonial não sumptuoso, embora digno, para o juramento do novo monarca» (História de Portugal: a Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), Joaquim Veríssimo Serrão. Lisboa: Editorial Verbo, 1997, p. 24).
[Texto 1072]

Sobre «coevo»

E depois?

      Uma professora de História quis saber se podia usar o termo «coevo» (que, contudo, disse ser um «arcaísmo») numa construção como «estas pedras tumulares são coevas dos reis da nossa primeira dinastia». Quis saber — mas tinha as suas ideias. «Vendo bem», concluiu, «não, porque misturamos coisas com pessoas. Melhor será usar “contemporâneo”.» E depois?
      «Dominando sobre esses mesmos campos e olivais, coevos de tantas gerações anteriores, etc.», leio nas memórias de Luz Soriano. Está bem, Luz Soriano não é a melhor autoridade. Cá está: Alexandre Herculano nos Opúsculos: «Alli sempre os nossos bispos foram tidos em grande consideração: eram membros do tribunal de mathematica, um dos seis tribunaes coevos com a fundação da monarchia, empregados em altas commissões, etc.»
[Texto 679]

«Interceptar/intersectar»

São da mesma opinião?

      «Eram celas de tijolo interceptadas por vielas», escreve a autora. Interceptadas ou intersectadas? O étimo é o mesmo, parecem sinónimos puros, mas há alguma especialização de sentidos. O verbo interceptar é mais usado no sentido de apoderar-se do que vai dirigido a outrem — «interceptar uma carta», por exemplo. Intersectar, por sua vez, é mais usado no sentido de interromper o curso de algo — «caminhos que se intersectam», por exemplo.
[Texto 671]

«Deprimido/depressivo»

Antidepressivos e ansiolíticos

      No Telejornal de hoje: «No corre-corre da incerteza, mais de 700 mil portugueses sofrem da doença. O País regista assim a maior taxa da Europa, e no mundo, só mesmo os Americanos andam mais depressivos.» São sinónimos, «deprimido» e «depressivo»? Parece que sim. Pelo menos é o que se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «indivíduo com tendência para a depressão».

[Texto 540]

Léxico: «canastro»

Coisas antigas

      «As eiras tradicionais e os canastros, ou espigueiros, são outro ponto de interesse, porque estas estruturas ainda hoje servem para o armazenamento de espigas e outros produtos que a terra, fértil e ribeirinha, brota» («Ciclo do linho em Várzea de Calde», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 20.07.2011, p. 49).
      Sim, canastro é sinónimo de espigueiro, o que todos os dicionários registam. O que poucos registam é caniceiro, o nome por que na serra do Soajo são conhecidos os espigueiros, aqui não de granito mas de vergame das carvalheiras.
      N’A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós fala num espigueiro: «Ao fim da vinha, junto aos milheirais, uma figueira brava, densa em folha, alastrara dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado.»
[Texto 334]

Sobre «evento»

Já chega

      Não se abre hoje um jornal sem que encontremos uma ou duas dúzias de ocorrências da palavra «evento». Apesar de os dicionários mostrarem o contrário, quem escreve e quem revê parece ter desistido de encontrar sinónimos. Neste caso, João Lopes encontrou a palavra certa, «certame»: «Seja por vocação cultural, seja por mero gosto da agitação mediática, a expectativa do “escândalo” faz parte da dinâmica tradicional do Festival de Cannes. Para o interior do próprio certame, porque alguns participantes anseiam pela sua revelação; e também para o exterior, já que essa imagem de marca parece satisfazer muitos dos que nunca lá puseram os pés» («Festival de Cannes expulsa Lars von Trier», João Lopes, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 44). É verdade que o mérito é relativo, pois o termo há muito se usa quando se fala sobre concursos ou acontecimentos públicos desta natureza. Virá de outros séculos, dos certames poéticos, desafios entre poetas (o étimo latino, certāmen, significa precisamente «debate, disputa, desafio»).
[Texto 87]

 

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