Léxico: «suavizar-se»

Também pronominal


      «Fácil coisa é dominar a imaginação de uma noviça. Bastam a comovê-la vivamente a poesia e majestade do culto católico; depois a religião suaviza-se-lhe, rodeando-a de poderosos atractivos; uma cândida vaidade, certas porfias piedosas, prefiguram-lhe nas perspectivas do Céu um trono a conquistar» (A Freira no Subterrâneo, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Marujo Editora, 1986, p. 58). O verbo suavizar, Porto Editora, não é apenas transitivo, sabes isso. Sabes? Tens de o dizer.

[Texto 22 331]

«Eu saibo»

Porque eu saibo-te a pouco

      O empregado de uma empresa têxtil (hum...) errou: «A 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo saber com o significado de ter o sabor ou gosto de é “sei”, ou “saibo”, ou não existe essa forma verbal?» «A resposta correcta é “eu saibo”. Ora, o verbo saber, como os nossos caríssimos ouvintes sabem, pode significar duas coisas. É um verbo que tem dois significados. Ou ter conhecimento ou ter sabor. É curioso que no paradigma de conjugação deste verbo, só nesta 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo é que nós temos diferença nas formas. Se se trata de ter sabor, se se trata de ter conhecimento. Se for ter conhecimento, como nós sabemos, a forma que corresponde à 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo é “eu sei”. Se for o saber de ter sabor, é efectivamente “eu saibo”. “Eu saibo” é a forma do presente do indicativo do verbo saber com o significado de ter sabor» (Sandra Duarte Tavares, Jogo da Língua. Antena 1, 16.09.2011).
      Perante a estranheza, a absoluta anomalia desta forma verbal, faltou dizer o principal: que se formou por analogia com caibo, do verbo «caber».

[Texto 484]

«Pôr em causa»

Mudança de paradigma

      Jornalista Nuno Rodrigues, no noticiário das 8 da manhã na Antena 1: «Tudo isto numa altura em que a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, fala da necessidade de combater a dívida, mas sem colocar em causa o crescimento económico, Teresa Correia.»
      «Não obstante as liberdades concedidas pelo Decreto, era exigido ao matador deixar o chão bem limpo e sem sinais de violência, tanto quanto o necessário para não pôr em causa a moral ou a aparência de alguns costumes» (Entre Pássaro e Anjo, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1993, p. 18).
[Texto 400]

«Pôr a leitura em dia»

Agora é assim, Filomena Araújo?

      Lá ficámos a saber, mesmo sem nos interessar minimamente, que Luís Marques, director-geral da SIC, voltou a escolher o Algarve para uns dias de férias em Agosto. As páginas dos jornais têm de aparecer escritas, seja lá com o que for. Isto, todavia, já nos interessa: «Nas férias, Luís Marques aproveita sempre “para colocar a leitura em dia”, o que não consegue fazer durante o resto do ano» («Luís Marques dedica-se à lavoura», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 51). Ainda virá alguém lembrar-nos que o giro tem consagração legal.

[Texto 360]

Infinitivo pretérito

Quando, exactamente?

      «Relendo o número 13 [de A Bem a Língua Portuguesa], de Janeiro-Fevereiro de 1972, lembrei-me de lê-lo e comentá-lo com o meu pai. Como jovem arquitecto naval, ele tinha desenhado vários cacilheiros e fascinava-o a dificuldade de arranjar palavras portuguesas para ferry-boat. Cacilheiro era uma solução engraçada mas desgraçadamente local. Como chamar as ferribotas com outros destinos que não Cacilhas?» («O canal da Manga», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.07.2011, p. 31).
      Quando é que Miguel Esteves Cardoso leu o boletim da SLP ao pai? Em 2011, tempo da escrita, ou antes? A dúvida levou-me a pesquisar na internet. Cá está: Joaquim Carlos Esteves Cardoso † 1994. A crónica começa assim: «A Bem da Língua Portuguesa: assim se chama, com justiça, o Boletim [sic] da Sociedade de Língua Portuguesa. Esta semana um amigo nosso deu-nos uma dúzia deles.» (Se escreveu a crónica no domingo, 24, quer dizer que lhos tinham oferecido nesse mesmo dia, porque a semana começa no domingo. Logo, em princípio, se não é ficção, terá sido na semana anterior. Mas a questão não é esta.) Como está escrito, o leitor é levado a pensar que, relendo agora, em Julho de 2011, o boletim n.º 13, se lembrou de o ler ao pai — o que sabemos ser impossível porque este já faleceu. Ora, só podemos concluir que o tempo verbal não é o correcto. Correcto seria ter usado o infinitivo pretérito impessoal: «lembrei-me [então] de o ter lido e comentado [antes] com o meu pai».
      «Lembrei-me de ter lido nos jornais locais que o grande ator e sua companhia davam espetáculos em Lima» (Solo de Clarineta, Érico Veríssimo. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1984, p. 334).

[Texto 357]

Infinitivo

Área crítica da língua

      «Líderes europeus sob pressão para arranjar uma saída para a crise» (João Francisco Guerreiro, Diário de Notícias, 21.07.2011, p. 4).
      O sujeito não está claríssimo? Nestes casos não é obrigatório flexionar o infinitivo? Ou, porque se trata de uma construção indirecta, com preposição, não se pode flexionar o infinitivo? Terceira regra: na dúvida, não se flexiona o verbo.
[Texto 337]

Ortografia: «maldisposto»

Nem a copiar, caramba

      «O dicionário de Inglês-Português reza assim: “Taciturno, melancólico, carrancudo, rabugento, mal-disposto, sorumbático.” Enfim, mal-humorado. Diz também que é um adjectivo. A expressão inglesa “to be moody” vem descodificada como “ter caprichos de comportamento. Por exemplo, apetecer a alguém atirar com tudo para o lixo. Se falarmos no nome próprio Moody’s (bastante adequado ao desempenho), percebe-se imediatamente a má disposição generalizada dos portugueses por estes dias. Alguns até padeceram de problema de estômago. Para “mal-humorado”, o dicionário de Português-Português regista as seguintes explicações: “Que tem humores mórbidos”, “agressivo”, “intratável”. Os “mal-dispostos” de que aqui se fala já em Abril tinham atirado para o “lixo” (grau de investimento equivalente a junk bonds) a Parpública, a Refer, a RTP e a CP» («Palavras. Moody», Rita Pimenta, Pública, 10.07.2011, p. 11).
      Que bons dicionários que a jornalista anda a consultar e que bem que ela conhece a ortografia da língua portuguesa.
      A propósito de maldispor e de dislates. Ainda na sexta-feira passada li uma convocatória redigida por uma professora de Português e um derivado de «pôr» tinha o infinitivo com acento circunflexo. Uma professora de Português! Quando é que aprendem de uma vez por todas, professores, jornalistas, tradutores, revisores, toda a agente, que, no infinitivo, o verbo pôr é acentuado, porque se convencionou distingui-lo da preposição por, mas os derivados de pôr já não são marcados com acento? Antepor, apor, compor, contrapor, contrapropor, decompor, depor, descompor, dispor, entrepor, impor, indispor, interpor, justapor, maldispor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobpor, sobrepor, sotopor, subpor, supor, transpor, etc.
[Texto 283]

Verbo «haver»

Deslizes latinos

      Lapsus linguæ, «erro da língua», não tem que se lhe diga. Já quanto a lapsus calami, «erro da pena», Júlio Moreira sentiu-se na necessidade de explicar que «é apenas uma forma de dizer, para minorar a culpa de quem escreve». Neste caso não houve lapsus linguæ mas mero solecismo bem enraizado já na escrita e na oralidade: «Recuperar câmaras nas autárquicas, dentro de dois anos, é um dos objectivos. O Porto surge como exemplo no topo da lista, onde têm de haver coligações de esquerda, PS, CDU e Bloco juntos» (Noticiário das 10 da noite, Alexandra Madeira, Antena 1, 18.06.2011). Talvez seja um lapsus memoriæ: a repórter esqueceu-se da regra.
      Ainda recentemente o escrevi: é aconselhável voltar, de vez em quando, a referir aqui estes erros, que conspurcam toda a comunicação social, como já tivemos oportunidade de apontar mais de uma vez. Até para não dar o sinal, errado, de que tudo está melhor. Pergunto a mim mesmo o que há de tão complexo para que os jornalistas não percebam o que é a impessoalidade do verbo haver no sentido de existir. Mesmo nos tempos compostos. Mas a democracia é isto: qualquer dia, que não virá longe, as gramáticas vão acolher, como «variante», este erro.
[Texto 178]

Sobre «irradiar»

Lançar raios de luz

      Acabei agora mesmo de ler três vezes o verbete, e por isso posso garantir: o Dicionário Houaiss não regista a acepção «afastar» do verbo «irradiar». E o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa também não. José Pedro Machado também desconhecia a nupérrima acepção, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolheu-a no seu seio despreconceituoso.
[Texto 176]

«Ter» e «possuir»

E «haver» e «existir»

      «O autor do vídeo, com 18 anos, por já possuir antecedentes criminais, poderá ser confrontado com uma pena de prisão efectiva» («Jovem agredida com violência já foi submetida a exames», Ana Rita Duarte, Público, 27.05.2011, p. 11).
      Só as poucas leituras e o escasso conhecimento da língua poderão explicar que os jornalistas não sintam diferenças de sentido entre possuir e ter, haver e existir.
[Texto 66]

Pôr/colocar/meter

Também eles mereciam

      Em Northampton, Inglaterra, uma senhora idosa impediu que uma joalharia fosse assaltada, pois atacou os ladrões. Mas ouçamos a jornalista Teresa Nicolau, no Telejornal de ontem: «Sem medos, e apenas com a carteira de mão, atacou, e até se pode dizer, violentamente, os seis assaltantes, que se meteram logo em fuga.» Para evitar estes disparates, ainda não há cursos na RTP. No rodapé, lia-se: «Super-avó». Baralham-se com pouco: metem, põem e colocam onde menos se espera.

[Post 4416]

Verbos

Agora são sapos


      Deixem-me cá ver algo que interesse a implumes e a passarões... Ah, sim. Ofereceram à minha filha um exemplar da obra Janela Mágica — Contos de Fadas, de Savior Pirotta (Porto: Civilização Editora, 2010, com tradução do Departamento Editorial da Civilização Editora). Esteticamente, para lá do que é esperável. Quanto ao resto... O melhor é darem uma olhadela: «— Estais aí, princesa? — chamava o sapo. — Lembrai-vos do que prometesteis!» Contrariada, a princesa queria pôr um prato no chão para o sapo. «— Ah, não, Alteza, prometesteis que eu me sentaria convosco à mesa, que comeria do vosso prato adornado e beberia do vosso copo de prata — declarou o sapo.» A princesa amuou — novo erro na forma verbal ofendeu-a, decerto, mas o sapo insiste: «— Alteza — disse ele à princesa —, dissesteis que eu poderia deitar-me na vossa almofada.»
      Acham que isto são maravalhas ou maravilhas? Como foi um presente, não posso devolver o livro.

[Post 4289]

Dizer-se

Maldita obsessão


      «Cândida Almeida e os dois magistrados, Vítor Magalhães e Paes Faria, assinaram uma nota conjunta em que se disseram alvo de uma “campanha insidiosa”» («Documento falso no caso Freeport», Eduardo Dâmaso, Correio da Manhã, 10.09.2010, p. 28). É uma legenda de duas fotografias daqueles magistrados, e o revisor antibrasileiro virou a página para mim e apontou-a. «Veja bem: “se disseram”!» Apresentou logo alternativas de redacção. Encolhi os ombros. Para quê? No Dicionário Houaiss, dizer-se: «declarar-se; qualificar-se. Exs: diz-se um grande orador. Dizia-se incapaz de assumir o cargo». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, dizer-se: «intitular-se; chamar-se; considerar-se».

[Post 3868]

Particípios passados de verbos abundantes

Uma língua em erosão


      «Três cavalos atravessaram ontem a cidade de Faro. Os animais ter-se-ão solto de um acampamento instalado no terreno para onde está projetada [sic] a Cidade Universitária de Faro e percorreram a capital algarvia» («Cavalos à solta lançaram caos na cidade», Diário de Notícias, 4.08.2010, p. 21).
      Os verbos abundantes, já aqui o lembrei meia dúzia de vezes, nas formas do particípio passado apresentam uma forma reduzida ou irregular (absorto, solto, disperso) a par da forma regular que termina em -ado ou -ido (absorvido, soltado, dispersado). A regra geral, que sofre diariamente machadadas por quem mais consciência devia ter, indica que a forma regular se utiliza na constituição de tempos compostos da voz activa juntamente com os auxiliares ter ou haver. A forma irregular ou reduzida ocorre acompanhada do verbo auxiliar ser ou estar e é usada na formação da voz passiva. Será difícil reter esta informação?

[Post 3761]

Conjugador de verbos

A explorar


      Surgiu agora um conjugador verbal para o espanhol com características únicas. Chama-se Onoma e conjuga qualquer verbo em espanhol, existente e reconhecido ou inventado, com a única condição de que a palavra seja reconhecida como um infinitivo. Informa sobre as irregularidades que o verbo contém, com uma explicação pormenorizada sobre as mesmas, e, dada uma forma verbal, informa a que verbo pertence e indica o modo, tempo, pessoa e número. É um projecto da empresa Molino de Ideas, que tem outros projectos relacionados com o processamento da linguagem natural. Claro que não temos muito a invejar, pois temos o Lx Conjugator.

[Post 3189]

Particípio passado duplo

Cuidado com os temas!

      Apesar de considerar que os diversos temas, seis ou sete, tratados em cada emissão não têm muita articulação entre si, no que o telespectador perde, pois retém menos informação, acho que o programa Cuidado com a Língua! cumpre bem com o que deve ser um serviço público. De lamentar é as outras televisões não terem programas semelhantes, de divulgação e defesa da língua portuguesa. O meio, contudo, tem limitações. Pergunto a mim mesmo que utilidade pode ter tratar em televisão um aspecto da língua como o do duplo particípio passado. Não nos esqueçamos que o público-alvo não são os especialistas da língua. O ritmo a que tudo é tratado — e não estou a falar da voz off de Maria Flor Pedroso, que é excelente, bem colocada, que não nos deixa cansados como a de certos colegas seus da rádio, que falam a mata-cavalo — não é o mais adequado para falar da língua. É, ainda assim, de aplaudir, pois põe ao alcance de todos, quase imperceptivelmente, uma solução para dúvidas de sempre que nunca se preocuparam em resolver.
      Bem fariam os responsáveis da RTP se mandassem publicar nos principais jornais, semana a semana, a transcrição das várias emissões do programa. Entretanto, deixo aqui a transcrição do tema relativo aos particípios passados duplos.

      «Será que se diz morrido ou morto? E, da mesma forma, matado ou morto? Matar e morrer são dois bons exemplos de verbos com duplo particípio passado. Matar, ter, haver matado; ser, estar morto; e morrer, ter, haver morrido; ser, estar morto. A diferença está no verbo auxiliar com que se conjugam. Nós tínhamos matado o cordeiro quando… e não Nós tínhamos morto o cordeiro quando. Foi morto por uma bala e não Foi matado por uma bala. Se não tivesse morrido tão jovem e não Se não tivesse morto tão jovem. Apareceu morto na praia e não Apareceu morrido na praia. Existem muitos outros verbos com duplo particípio passado, ou seja, com um particípio passado regular e um irregular:

Acender: acendido/aceso
Dispersar: dispersado/disperso
Dissolver: dissolvido/dissoluto
Empregar: empregado/empregue
Encarregar: encarregado/encarregue
Ganhar: ganhado/ganho
Imergir: imergido/imerso
Imprimir: imprimido/impresso
Pagar: pagado/pago.»

Regência do verbo precisar

Está certo no Brasil

      «Não precisa correr para garantir chegada a Castro Verde a horas de visitar o Tesouro da Basílica Real, sendo que Beja (a menos de 30 quilómetros pelo IP2) pode ser o local ideal para pernoitar» («À descoberta de tesouros alentejanos», Roberto Dores, Diário de Notícias, 20.09.2006, p. 34). O verbo precisar, pelo menos em Portugal, é regido da preposição de: «preciso de comer», «preciso de bons dicionários», etc. No Brasil, é comum e tida como correcta a forma não preposicionada. Como o Diário de Notícias se publica somente em Portugal, deve ater-se — e dar formação aos seus jornalistas que aborde estes aspectos — às normas vigentes.

Verbo haver, de novo

Será que ouvi bem?...

      Quem estava ao meu lado assegurou-me que ouviu o mesmo: numa emissão do programa televisivo Portugal no Coração, a fadista Ana Moura cantava «nos meus versos poderão haver medidas». Ora, já é tempo de se ir sabendo que o verbo «haver» é impessoal quando exprime existência e vem acompanhado dos auxiliares ir, dever, poder, etc.:
      Nos meus versos poderá haver medidas.
      O erro é tanto mais grave quanto se sabe que a fadista, à semelhança de outros fadistas, actua nas comunidades lusófonas dispersas pelo mundo, que, de maneira geral, estão mais afastadas da língua materna, apresentando por isso mais vulnerabilidade a estes erros.
      Reitero: talvez eu não tenha ouvido bem, e se assim for peço desculpa a Ana Moura, cujo talento muito aprecio. Até desejo ― isto é que é humildade* ― estar enganado. Pelo menos num caso como este.

* Deve ser porque «a humildade precede a glória», como se lê na Bíblia (Provérbios, 18,12).

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