Sobre «desafio»

Desafiante

      «— E ela vai sempre aos desafios da escola e farta-se de gritar, não é, João? — interpôs-se Maria da Luz» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 45).
      Qualquer jornalista da secção de desporto sabe que deve usar de vários sinónimos para «jogo» como forma de evitar repetições. Jogo, encontro, partida e desafio são os principais. A verdade, porém, é que a palavra «desafio», nesta acepção, está a ser pouco usada actualmente.
[Post 4595]

Sobre «epistolário»

É impressão

      Outra vez o documentário Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um Geógrafo. Luís Raposo, director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA), disse no seu depoimento: «Posso dizer que Leite de Vasconcelos é o maior epistolário português conhecido. […] São milhares de correspondentes e mais de duas dezenas de milhares de cartas e cartões, etc.» Há-de parecer lapso, mas não é. Além de compilação, colecção de epístolas, epistolário também significa epistológrafo. Se quisermos apoucar o feito, dizemos epistoleiro.

[Post 4444]

Fato branco da PJ

Também pode ser

      «Com forte sotaque russo, vestida com um fato branco usado pela PJ em cenários de crime, a mulher que ficou sem roupa e sem documentos no incêndio dá uma passa no cigarro e continua a explicação» («“Estava meio a dormir a ver um filme e a vela deve ter caído”», Luís Fontes, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 20).
      Já aqui vimos: são os fatos de tyvek ou fatos de protecção descartáveis.

[Post 4425]

Ter e possuir

Proprietário de arranhões


      Passa pela cabeça de alguém substituir em todos os contextos o verbo ter pelo verbo possuir? Sim, pela cabeça de um jornalista: «Segundo fonte policial, saiu ao início da manhã, uma vez que apenas possuía “alguns arranhões na cara”» («Atacam polícia à pedrada antes de bater em agente», H. A., Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 14). Os revisores deixam estar, pois supõem que é indiferente.

[Post 3327]

Avanços e adiantamentos

A bem do leitor


      «Quando Wallace e eu nos encontramos no pátio do Savoy, o fumo dos nossos charutos espesso como ectoplasma ao sol primaveril, Wallace diz que está ansioso pelas negociações: pretende estabelecer um novo padrão de referência para o adiantamento pago por um livro de crítica literária» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 138).
      No meio editorial, não se fala em adiantamento, mas em avanço. Contudo, não propugno o seu uso numa obra literária. Um dia, fiz esta emenda, tendo-se seguido um debate com o editor, cioso do seu jargão. O meu objectivo é sempre que o leitor compreenda sem esforço — sem ter de recorrer a um dicionário, que pode nem sequer registar a acepção.

[Post 3248]

Influir e influenciar

Não desta vez

      Um leitor diz-me que na edição de hoje do jornal Público se lê o seguinte título: «Vera Jardim diz que caso pode influir nos resultados». E pergunta, como outros leitores perguntaram antes a propósito de outras frases: «Terá sido só para caber no título da caixa?» Mas não: nesta acepção de exercer influência, influir é sinónimo de influenciar. Ainda que o espaço da caixa do título tenha pesado na escolha deste verbo, não há nenhum atropelo.

Arquivo do blogue