Sobre «campa»

Era assim


      «Quase todas as cidades estão fundadas ao longo de rios. Nos rios que não são muito altos e impetuosos têm estas cidades para serviço pelo rio pontes de pedra mui nobres e mui bem lavradas, e não vão os pegões feitos em arcos se não depois de bem fundos e postos em boa altura. São cingidos uns com outros por cima de mui grandes e mui grossas campas» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 124). Embora, actualmente, os dicionários apenas registem que campa é a laje sepulcral e, por extensão de sentido, a própria sepultura, a verdade é que no tempo do nosso dominicano Fr. Gaspar da Cruz, no século XVI, campas eram simplesmente lajes, e, em nota, Rui Manuel Loureiro dá conta do significado.


[Post 4010]

Semântica: «fenómeno»

Veja bem

      Uma leitora, professora de Português reformada, diz-se indignada por ter ouvido na Antena 1 que o PSD quer constituir uma comissão parlamentar eventual para acompanhar o fenómeno da corrupção. «Fenómeno, tanto quanto sei», argumenta, «só se aplica à Natureza; a corrupção é um acto voluntário do Homem.» Lamento contrariá-la, mas uma das acepções do vocábulo «fénomeno» aplica-se inteiramente no contexto: «tudo o que a nossa consciência ou os nossos sentidos podem apreender».

[Post 2840]

Semântica: «mongolismo»

Uma controvérsia


      A leitora M. A., em conversa com um amigo, usou o termo «mongolismo», tendo sido censurada por o ter feito, pois, na opinião desse amigo, era termo «popularucho», querendo com isso significar que era próprio dos ignaros usá-lo. M. A. quer saber a minha opinião. Bem, é verdade que algumas, pouquíssimas, publicações e sites se vêem forçados a explicar que é termo «popular» ou usado pelo «vulgo». Contudo, é bom ver mais longe. Assim, só em 1964 é que a revista médica The Lancet deixou de usar o termo; a Organização Mundial de Saúde (OMS) fê-lo em 1965 e o Index Medicus só em 1975 o expungiu. Aliás, se é pejorativo é para os Mongóis, pois foi a representação da Mongólia junto da OMS a primeira a apresentar um protesto formal pelo uso do termo em medicina. À luz da teoria da evolução, parecia o termo adequado, e a designação síndrome de Down, que é uma homenagem ao médico inglês John Langdon Haydon Down (1828-1896), que em 1866 descreveu algumas crianças com esta síndrome internadas num asilo em Surrey, só mais tarde foi adoptada. Somente em 1958, com a descoberta do Dr. Jérôme Lejeune (1927-1994) de que esta síndrome é provocada pela existência de um cromossoma 21 supranumerário, é que se passou a designar por trissomia 21. Nenhum dos dicionários que consultei dá conta do facto de ser vocábulo pejorativo, excepto o Dicionário Médico de L. Manuila et al., publicado pela Climepsi, que diz que é «termo actualmente rejeitado», embora não se abstenha de, no verbete «síndrome de Down» (e, significativamente, não deixa de ter o verbete «mongolismo»), referir os «Mongóis» e o «fáceis mongólico».

Semântica: «montepio»

Tontinas

      Agora que o Montepio Geral está a fazer uma grande campanha publicitária, na qual mostra em que difere de um banco tradicional, surge a oportunidade de analisar o vocábulo «montepio». Parece ser composto por aglutinação — será? Segundo consta, foi Francisco de Assis que, corria o ano de 1674, fundou a primeira casa que concedia empréstimos aos pobres com garantia de roupas, móveis e outros objectos de casa, que em italiano adquiriu o nome de monte di pietà — monte de piedade. Claro que este monte não é como o monte Santo, Monsanto, mas um monte de dinheiro, disponível para emprestar aos pobres. A ideia foi copiada em toda a Itália e até noutros países da Europa. Em França deu-se-lhe o nome de mont-de-piété; em Espanha, monte pío ou montepío; em Portugal, montepio. Há igualmente uma outra espécie de associação mútua com alguma semelhança (e que nos modernos dicionários constitui uma segunda acepção do vocábulo), que são as tontinas, concebidas pelo banqueiro napolitano Lorenzo de Tonti, nas quais cada sócio deposita certa quantia, para constituir uma renda vitalícia que, em data determinada, deverá ser repartida pelos sócios sobreviventes. A demonstrar que não é um conceito ultrapassado, vejo que no Decreto-Lei n.º 28/2000, de 28 de Dezembro, publicado no Diário da República de… São Tomé e Príncipe, foi regulamentada uma tabela de ramos de seguro em que figura o seguro de tontina.



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