«Solução de continuidade»

Críticos mas justos


      Na emissão de ontem do programa Directo ao Assunto, na RTPN, Emídio Rangel, que defende o Governo e Sócrates como ninguém (nem os socialistas) no País, ainda teve tempo de elogiar o discurso em que Paulo Rangel anunciou a candidatura à liderança do PSD. Pois a mim não me pareceu nada de memorável, bem pelo contrário. Com os adjectivos, previsíveis e bem-comportadinhos, a ampararem, simples ou aos pares, os substantivos, parecia uma composição das alunas da minha mulher — que têm 10 anos!
      Para ser justo, porém, ilibo-o da acusação de ontem: afinal, caro Francisco, o homem conhecerá a definição de solução de continuidade, que, de resto, nem sequer usou. Veja-se: «Só há um candidato no terreno e eu já tinha dito que não o apoiava. A solução que ele [Pedro Passos Coelho] apresenta é de continuidade, apesar de ter usado no seu livro o título “mudar”» («“A ruptura de que o país precisa é libertar o futuro”», Leonete Botelho, Público, 11.2.2010, p. 8).

[Post 3127]

Figura de retórica: paralipse

Não dizer dizendo

     Uma vizinha minha (não, não é a do «estendedal») usa, inconscientemente, uma figura de retórica de magnífico efeito, que é a paralipse. Esta figura consiste em fingir-se querer omitir o que todavia se vai dizendo. Como fala pelos cotovelos, diz-nos amiúde (isto não é um plural majestático: é, mais precisamente, no sentido de dizer a todos os presentes) «não querendo interromper, mas já o fiz…», o que irrita um pouco toda a gente. Nem quero falar, porque é mais privado, da mania que esta senhora tem de se pretender colega de faculdade de vários ministros, de gerações muito distantes entre si… Viram? Comecei por escrever «nem quero falar», mas falei: isto é uma paralipse.
      Também referida nos antigos manuais de retórica como paraleipsis, paralepsis, preterition e occupatio, a palavra chegou-nos através do latim paralipsis, mas o étimo é grego, de para, «lado», e leipein, «deixar». Entre nós é também conhecida como preterição.

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