«Amor a...»

Sintaxe histórica

      «Ainda naquele dia [Urbano Tavares Rodrigues] falou também do amor por Ana Maria, a actual mulher. E de um ou outro amuo com Cunhal, da desilusão com o actual estado do país, do desprezo aos políticos, da noção de que esta esquerda pode pouco. Cruzou o presente com o passado» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, p. 3).
      Bom e mau em duas curtíssimas frases, e tudo, estranhamente, sobre a mesma questão: regências, e a mesma regência, aliás, sobre disposições de ânimo. O § 206 (p. 158, ou 157 na 2.ª ed.) da Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio da Silva Dias, diz tudo.
[Texto 3165]

«Responsável deste crime»

Novas do Brasil

      Chegou-me do Brasil o segundo volume do Regime de Verbos de José Stringari (Niterói: Escolas Profissionais Salesianas, 1937). Sobre o verbo responsabilizar (ver aqui), escreve na página 97: «Dizemos também responsabilizar alguém de alguma coisa: “Firme no proposito de não recordar o passado, de não queixar-se de ingratidões recebidas, de não responsabilizá-lo da sua desgraça” (Camilo: Um Homem de Brios, 178, 3.ª ed.).» Fui confirmar na 2.ª edição, a que tenho mais à mão: «— É, se a minha amiga entrar n’este melindroso acto, segura de si, e firme no proposito de não recordar o passado, de não queixar-se de ingratidões recebidas, de não responsabilisal-o da sua desgraça» (Um Homem de Brios, Camilo Castelo Branco. Porto: em Casa de Cruz Coutinho, 1862, 2.ª ed., p. 200).
[Texto 1753]

Regência de «inspirado»

Quando há escolha

      «Por estes dias, estreou-se em Telavive um espectáculo de dança inspirado pelo Diário e pela vida de Anne Frank. O facto, aparentemente trivial, torna-se notícia quando se sabe que o espectáculo começou por ser concebido na Venezuela para exibição local e foi proibido por ordem de Hugo Chávez, que “sugeriu” aos coreógrafos a troca do tema pelo do “sofrimento palestiniano”» («A segunda morte de Anne Frank», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 1.07.2012, p. 55).
      As regências verbais e nominais já aqui causaram alguma polémica. Quando há várias regências, o uso de uma em particular, mesmo que pouco habitual, apenas decorre do bom gosto. Como é o caso: eu não teria escrito «inspirado pelo», mas «inspirado no». Mas diz-se, consoante o contexto e o que se pretende significar, inspirado de, em, para e por.
[Texto 1751]

Regência nominal

Relações fortes     

      «Logo depois, a mulher do médico (Carla Chambel), provocadora, recria Ele e Ela de Madalena Iglésias, abrindo primeiras feridas numa noite que será cortada por um violento ataque inimigo, assassinatos acompanhados por obscuras frases tiradas da Bíblia (sem quaisquer relações aos “códigos” e “mistérios” que hoje inundam as livrarias, sublinhe-se), medos e outras revelações» («A morte saiu à rua», DN/6.ª, NG, 22.12.2006, p. 40).
      A regência nominal é a relação existente entre um nome e os termos regidos por esse nome. Neste campo, não há, propriamente, regras, mas sim usos consagrados. Quando pensamos no substantivo «relação», vêm-nos imediatamente à mente as preposições de (relação disto com aquilo) e entre (relação entre isto e aquilo). Logo, esperávamos ler algo como «sem quaisquer relações com os “códigos” e “mistérios” que hoje inundam as livrarias».

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