«Viste-la/viste-a»

A todos os reinícolas

      Na última emissão do programa Hotel Babilónia, a propósito de uma canção de Chico Buarque que foi censurada nos idos de 1975, disse João Gobern: «A parte instrumental passou; a parte da letra, viste-a.» Corte abrupto e de entono pedagógico de Pedro Rolo Duarte: «Viste-la
      Já sabemos que a conjugação dos verbos transitivos, seguidos do pronome o, a, os, as, obriga a substituir esta forma do pronome pela forma lo, la, los, las sempre que a flexão verbal termine em r, s, ou z. Ora, só pressupondo que João Gobern se estava a dirigir a várias pessoas é que seria essa a forma do pronome. Mas o programa é quase sempre um diálogo, um tu cá, tu lá que deixa os ouvintes de fora, não raro com piadas que só os próprios entendem.
      Leio em Sousa da Silveira (Obras de Casimiro de Abreu: revisão do texto, escorço biográfico, notas e índices. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1955, p. 3): «Bocage, em vez de vós viste-los, que corresponde a vós vistes-los, usou vós viste-os, suprimindo a vistes o -s final.»
      Vejam este texto de Vasco Graça Moura sobre o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa: «Fui também aos autores que constam das fontes. O Garrett escreveu “cordura ousada” (Camões, I, VI). A “cordura” evaporou-se. Do Camilo, ocorreram-me “reinícola”, “tabardão”, “gasofilácio”, “às canhas”, “regambolear”. Nicles. Do Aquilino, foi a vez de “coitanaxa”. Salvo erro, é o Malhadinhas quem diz, às tantas, que da coitanaxa fez dona. Pois a coitanaxa tinha-se posto ao fresco, a ingrata. Procurei “mátria”, termo tão prezado por Natália Correia.  Viste-la. Mário de Carvalho emprega “ergástulo”. Ó Mário, a palavra evadiu-se...»
      «Gasofilácio» não está em nenhum dicionário recente — nem devia estar. A etimologia obriga-nos a escrever «gazofilácio» (lugar onde se recolhiam as esmolas para o culto, no Templo de Jerusalém), e é esta a grafia que se vê em todos os dicionários.

[Post 4728]

«Que/quem»

Está na hora


      «“É uma segunda família.” A afirmação é de Alexandra Lencastre referindo-se à Central Models, a agência com quem trabalha e que comemorou anteontem 20 anos com um jantar no restaurante BBC, em Lisboa» («Central Models assinala 20 anos com megafesta», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 69).
      A Ana Lúcia Sousa alguma vez leu que o pronome relativo e interrogativo quem se usa sempre em relação a uma pessoa? Claro que não. E nota-se muito.

[Post 4082]

Pronomes

Ninguém viu nem sabia


      Verbos e pronomes não é com eles: «Henrique Monteiro abandonará, a 1 de Janeiro de 2011, o cargo de director do semanário Expresso, posição que ocupou durante os últimos cinco anos. A sucedê-lo, estará Ricardo Costa, que ocupa desde Novembro de 2008 o cargo de director adjunto da mesma publicação» («Ricardo Costa será o novo director do ‘Expresso’», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 46).

[Post 3880]

Pronome pessoal «si»

«Isto é para si»!?


      Escreveu João de Araújo Correia na obra A Língua Portuguesa (Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959]): «A troco de evolução, desculpa-se a corrupção e a má-criação. — Esta fita é para si — diz o caixeiro à senhora» (p. 83). «Será lógica esta maneira de pensar, mas, não abona amor de raiz à verdadeira língua portuguesa. Em bom Português, só se admite si referido ao sujeito da proposição. O figo cai por si; o homem caiu em si; a menina voltou a si» (p. 86).

Abuso do pronome relativo «qual»

Qual qual!


      Não há mesmo nada de novo sob o Sol. «Ultimamente, chegou à Imprensa, para substituir o que, grande reforço de qual. Já repararam? Não há período em que não entre o qual cozido ou frito. Um rapaz, o qual trabalhava na serralharia. A mãe, a qual lhe trouxe o almoço. A namorada, a qual tinha ciúmes» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 72). Aqui há tempos conheci um militar constrangedoramente ignorante — agora talvez apenas um indivíduo constrangedoramente ignorante, pois já não há empregos para a vida — que em cada frase cometia a proeza de encaixar pelo menos um «do qual». Mais estranho ainda: só por acaso havia concordância em género com o antecedente. Podia dizer: «Esta vida estúpida e vazia que levamos, do qual nos arrependeremos no fim, afasta-nos da leitura.» Não, não, a estrutura era essa, mas mais despropositada, e o conteúdo assemelhava-se mais a isto: «O jogo do Benfica, no sábado, foi o máximo, da qual comemorei com cinco bejecas.»


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