Contracções

Descontraia, Vítor

      «As causas da morte da cantora Amy Winehouse, anteontem encontrada sem vida no seu apartamento londrino do bairro de Camden, continuam por apurar, apesar dos tablóides britânicos referirem que o motivo poderá ser overdose de álcool e drogas» («Reacções emocionadas a uma morte “mais do que triste” que continua por apurar», Vítor Belanciano, Público, 25.07.2011, p. 12).
      Não seguem os conselhos da «nossa especialista em língua portuguesa», e dá nisto, não descontraem. É claro que não leu ou não se lembra do Livro de Estilo do jornal: «apesar de + verbo no infinito — Nestes casos não se pode fazer a contracção da preposição de com o artigo ou pronome que se lhe segue».

[Texto 346]

Sobre «sob»

Sob pena de


      Ainda não ficou tudo dito sobre o doido das distopias: «O atirador identificou-se como Jared Lee Loughner, de 22 anos, está sob interrogatório» («Ataque a congressista acende debate sobre o ódio na política», Dulce Furtado, Público, 10.01.2011, p. 10).
      «Sob interrogatório»... Leiam o que João de Araújo Correia escreveu sobre esta preposição na obra A Língua Portuguesa: «Sabe-se, nesta enfermaria, que o celebérrimo sob, não obstante o instinto popular, que o sacode, não deixa de ser preposição portuguesa. Veio do Latim, sem passar pelo estômago do povo, mas, veio… Veio porque seria precisa esta preposição. Tanto, que bons escritores a empregaram. Mas, honra lhes seja, não abusaram dela. Foram, no seu manejo, tão cautelosos como elegantes. Quase se pode dizer que limitaram o sob à expressão abstracta, em frases como as seguintes: sob reserva, sob caução, sob custódia. Fora dessas frases, que se tornaram fixas, e à parte a discreta liberdade de algum estilista, o uso do sob é arriscado. Não abusemos dele, sob pena de o tornarmos ridículo» (Lisboa: Editorial Verbo, p. 75).

[Post 4305]

Sobre preposições

Não sobre, mas no


      «Então notei que ela — o simulacro — tinha rugas finas sobre o rosto. Pequenos pés-de-galinha, e não apenas quando sorria, uma vez que eu os estava a distinguir sem ela sorrir» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 47).
      Embora sobre também signifique «ao longo de; na superfície de», não é a preposição que esperamos ver no contexto. Se fosse uma teia de aranha, sim, poderia estar sobre o rosto. Rugas, pés-de-galinha, estarão no (em + o) rosto. Não me interessa saber como está no original.

[Post 3563]

Uso das preposições

Pára, pára, pára!

      «Depois de nos juntarmos aos dirigentes da nossa delegação, para concluir a nossa apreciação das eleições, que era globalmente positiva, fui para Ramallah, para me reunir com Abbas e com os seus principais conselheiros» (Palestina: Paz sim. Apartheid, não, Jimmy Carter. Tradução de Pedro Garcia Rosado e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Quidnovi, 2007, p. 156). Três vezes a preposição «para» na mesma frase? Quando leio uma frase destas, lembro-me sempre do revisor antibrasileiro. Nunca ele deixaria passar uma frase assim tão desasada. E a pontuação está incorrecta. Proponho: «Depois de nos juntarmos aos dirigentes da nossa delegação para concluir a nossa apreciação das eleições, que era globalmente positiva, fui a uma reunião com Abbas e com os seus principais conselheiros.» O leitor perspicaz já reparou: não se trata, no caso, de uma questão meramente (e já era muito) estilística, mas também gramatical. O segundo para está usado incorrectamente pela preposição a. Sim, convém fazer uma revisão do uso de preposições com os verbos ir e vir, e especificamente do uso de ir para vs. ir a. Esta indica menos permanência; aquela indica mais permanência. Por exemplo: daqui a uns minutos vou ao Mercado de Benfica. Não vou para o Mercado de Benfica, pois não tenho lá banca. Não estou a ver Jimmy Carter, que me parece um homem tão pusilânime, a ir para Ramallah…

[Post 2788]

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