«Dispensa/despensa»

Tão simples


      «Recolhidas em suas casas com as janelas e portas entaipadas, sacos de areia à porta e as dispensas repletas de alimentos e água potável, as populações costeiras do Nordeste australiano enfrentaram ontem a chegada do ciclone Yasi» («Depois das cheias, ciclone atinge estado australiano de Queensland», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 3.02.2011, p. 26).
      Como é que uma jornalista não está atenta e deixa passar um parónimo? Repletas de alimentos e água potável, só as despensasdivisão da casa, armário ou construção separada em que ficam os mantimentos, as provisões alimentares de uso doméstico e objectos ligados à manutenção dos moradores da casa (como se lê no Dicionário Houaiss). Dispensa é a licença, permissão para não executar um dever, um trabalho.

[Post 4389]

Parónimos

Imperdoável


      Ontem, numa mensagem de correio electrónico, um engenheiro pedia-me «descrição» em relação a uns documentos que me enviou. Enfim, algo me levou a desculpar o erro. O pior é livros, com revisão (por assim dizer...), apresentarem o mesmo erro: «Esta noite, fui a um coquetel na embaixada e conheci um homem chamado Eccles que parece ser aqui uma espécie de iminência parda — muito dentro dos assuntos; altamente céptico em relação às capacidades do pessoal da embaixada» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 206). Está a par de almas pardas.

[Post 3250]

Parónimos

Perfeito, bedel

      Quando leio em gramáticas e em manuais escolares, como exemplo de parónimos, as palavras «prefeito» e «perfeito», rio-me sempre. Uma criança brasileira sabe o que é um prefeito, como o saberá um luso-descendente (e quando é que no Diário de Notícias começam a grafar correctamente esta palavra? «Bebé lusodescendente em coma induzido» [Alexandra Carreira, 26.01.2009, p. 24]) que viva em França ou na Suíça. Para uma criança portuguesa, um prefeito é algo tão obscuro como um bedel para a generalidade dos leitores. Palavras parónimas, vale lembrar, são as que têm escrita e pronúncia semelhantes e são passíveis de confusão. Um dos melhores exemplos são as palavras «dispensa» e «despensa». Acabei de rever um texto em que se lia: «O futuro da humanidade passa por olhar, de novo, para a Terra como a verdadeira dispensa, e privilegiar os produtos biológicos às refeições.» Entre eminente e iminente, florescente e fluorescente, descrição e discrição, apóstrofe e apóstrofo, as confusões são diárias…

Arquivo do blogue