Léxico: «proteaginosas»

Outra nova

      «Portugal poderá ser autossuficiente na produção de alguns cereais, oleaginosas e proteaginosas[,] revela um estudo divulgado ontem pela Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas, em Elvas» («Portugal produz cereais suficientes», Diário de Notícias, 1.11.2013, p. 14).
      Não conhecia, mas não estou sozinho, pois não a vejo em nenhum dicionário. É o nome que se dá às leguminosas com alto conteúdo em proteínas, como a soja, tremoços, ervilhas, favas, etc.
[Texto 3459]

Léxico: «criossauna»

Uns inventores

      «A criossauna é uma das técnicas da crioterapia e a escolha de muitos futebolistas. “É uma câmara que usa o vapor do nitrogénio para o arrefecimento muito rápido do corpo e que ajuda na recuperação muscular. Pode ir a temperaturas de menos 196 graus, mas o ideal é que esteja entre os menos 140 e os menos 160 graus. O tratamento dura no máximo três minutos e é mais agradável do que tomar um banho de um minuto com a água a cinco graus”, diz ao DN Luís Cunha, especialista em recuperação de atletas» («Ronaldo faz recuperação com temperaturas de 160 graus negativos», Ana Maia, Diário de Notícias, 22.10.2013, p. 37).
      O Observatório de Neologismos ainda existe? E está a trabalhar? (É outra pergunta.) O mais provável é que os cortes o ceifassem. Assim, de repente, não sei se isso é assim tão mau.
[Texto 3421]

Léxico: «proteoma»

Tudo por causa de Ötzi

      «Finalmente, um estudo mais recente, publicado em Junho, volta a semear a dúvida sobre a natureza da sua ferida fatal. A equipa do instituto de Bolzano analisou o conjunto de proteínas (proteoma) de amostras do cérebro da múmia e identificou uma “acumulação significativa de proteínas associadas à resposta ao stress e à cicatrização das feridas”» («Ötzi. Os segredos de uma múmia assassinada», Sandrine Cabut, Público, 31.08.2013, p. 25).
      Proteoma, um neologismo, ainda não está em todos os dicionários gerais. E esta acepção de «múmia» — nos dicionários de língua inglesa «a body unusually well preserved» — não está nos nossos dicionários. Melhor é a definição (que junta dois sentidos) do dicionário da Real Academia Espanhola: «Cadáver que naturalmente o por preparación artificial se deseca con el transcurso del tiempo sin entrar en putrefacción.»
[Texto 3257]

«Ciclopista»?

Ora, já temos outra

      «No que diz respeito à possibilidade de o serviço vir a estar ao alcance de visitantes ocasionais, Nuno Santos diz estar a “avaliar” a situação, acrescentando que a rede de 30 quilómetros de ciclopistas está aberta a todos» («O uso da bicicleta “chique” em Vilamoura virou moda nas idas à praia», Idálio Revez, Público, 12.08.2013, p. 13).
      Até agora, «ciclopista» só da boca ou da pena de espanhóis é que a vi sair. Já temos o neologismo «ciclovia», talvez chegue.
[Texto 3175]

Léxico: «austeritário»

Palavra do ano

      «O DN tinha na semana passada tentado, sem sucesso, falar com Mulas [Carlos Mulas-Granados] a propósito do contraste entre as suas posições políticas e académicas contra a austeridade e o superausteritário relatório do FMI sobre Portugal que assinou» («Irene revela ser a misteriosa Amy», Diário de Notícias, 25.01.2013, p. 12).
      Nunca antes me tinha cruzado por aí com o neologismo «austeritário». Amálgama? Não: decerto por analogia com o adjectivo «autoritário», por exemplo.

[Texto 2538]

Léxico: «cicloviajante»

Conhecíamos «cicloturista»

      «[Eric Feng] Dormiu em pousadas e casas de pessoas inscritas numa rede de apoio a cicloviajantes, como aconteceu na sua última noite, em Almada, onde um grupo de ciclistas conseguiu organizar um final à medida do seu desafio. Regressou ontem à China, sem direito a fotografias ou diretos na televisão. Mas diz que gostou de Portugal» («A jornada épica de um ciclista a quem roubaram a bicicleta», André Rito, Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 19).
[Texto 2274]

«Culpabilizar»

Esqueça isso

      «Seria injusto culpabilizar a greve, este direito inalienável dos trabalhadores. Mas não fosse a paralisação nos transportes e o 36 não estaria tão cheio. E quando digo cheio, estou a ser modesto. O autocarro estava à cunha e os passageiros, ensardinhados, lutavam pelo seu espaço como cães a um osso» («“Estás a brincar ou o quê?”», Ricardo Garcia, Público, 5.02.2012, p. 37).
      Caro Ricardo Garcia, não precisava de usar o verbo «culpabilizar», se tem «culpar». Para os que conseguem discernir matizes, aposto até que diriam que, neste contexto, não usariam o neologismo.

[Texto 1062]

Léxico: «pipolização»

Ah...

      Quase todos os dias sou surpreendido por neologismos — alguns, concluo depois, já com alguns anos de curso... Não se riam. Já conhecem o vocábulo «pipolização», por exemplo? Cá está. Há leitores, bem sei, que não conhecem nem querem conhecer, mas nós é que não podemos ter essa atitude assim tão descomprometida e alheada. É mera cópia, parece, do neologismo francês pipolization — que é a idolatria de celebridades ligadas à televisão, à música, ao futebol e mesmo à política, termo forjado a partir do nome da revista People.
[Texto 286]

Léxico: «gestionário»

Da gestão

      «Mais recentemente, salientam‑se as re­formas gestionárias e de informatização, propondo‑se, etc.» Nunca antes tinha lido tal palavra. Não está registada em nenhum dos dicionários que consultei. Só no Dicionário Houaiss, no verbete relativo ao elemento de composição «gest-», é que é referida. Parece ser um termo da gíria da economia, do economês, apropriada pela gíria jurídica. Não está mal formada e, como não tínhamos adjectivo relativo a «gestão», não é de rejeitar liminarmente. Ainda assim, não recomendo nem condeno: use-se quando for estritamente necessário.
[Texto 183]

Léxico: «recência»

Coisa de académicos

      Só recentemente a Antena 1 passou a disponibilizar os ficheiros áudio do programa Jogo da Língua. Por sorte, corta a primeira e penosa parte do diálogo entre a locutora e o concorrente. Ou seja, a parte lúdica é aspada. De maneira geral, o concorrente é tão experimentado nestas questões da língua, que nem se atreve a repetir a hipótese que considera certa, optando por dizer que é a primeira ou a última — o que serviria para aprender o que são os efeitos de primazia (recordar-se melhor das primeiras palavras) ou de recência (recordar-se das últimas palavras), bem estudados no respeitante às sondagens (polls, em inglês) ou inquéritos amostrais (surveys, em inglês). Pois claro, os dicionários não registam o neologismo «recência». O mais próximo que registam é «decência». São decentes.
[Post 4697]


Tradução: «fish fingers»

Hum... não temos

      «[…] and takes out a box of fish fingers.» «[…]e tira uma caixa de dedinhos de peixe.» Eu até pensava que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa já registava o vocábulo... Andam desatentos. Não estou a ver ninguém dizer que quer uma caixa de «dedinhos de peixe». Pode ser sugestivo, um achado magnífico, mas cada língua tenta encontrar a sua forma de expressar as coisas. «Douradinhos», pode ser? Obrigado, capitão Iglo.

[Post 4691]



Léxico: «idadista»

Antes assim

      «Os portugueses são muito idadistas. Até os velhos mais malandros, mais magros e atilados do que eu, como o Marcelo Rebelo de Sousa, sempre que me vêem perguntam-me, cruel e gulosamente, com que idade é que estou. Logo de seguida informam-me que são (mas não estão, dizem eles) mais velhos do que eu. Mas estão. Estão porque são. Nunca a confusão portuguesa do ser e do estar foi mais acintosamente aproveitada» («Gostei de te ver», Miguel Esteves Cardoso, Público, 14.04.2011, p. 39).
      Ora, decerto que se lembram de eu aqui ter revelado que o neologismo «idadismo» já por aí corre. Talvez Miguel Esteves Cardoso se tenha lembrado.

[Post 4688]

Léxico: «twitteresfera»

Mais uma esfera

      «Em relação ao português, a Time escreve que “José Afonso Furtado é o Borges do Twitter”, comparando-o com o escritor argentino Jorge Luís Borges. “É um bibliotecário português que transporta a sua paixão não adulterada pelos livros e o universo editorial para a Twitteresfera”, acrescenta» («Bibliotecário português no top 50 do Twitter», Cláudia Carvalho, Público, 1.04.2011, p. 15).
      É a primeira vez que os meus olhos pousam em tal palavra. Twitteresfera. Aqui pelo menos não haverá hesitações, como aconteceu com bloguesfera/blogosfera. Ou sim: porque está grafada com maiúscula inicial?
      (Isto dos nomes próprios tem muito que se lhe diga, mas, em espanhol, Luis não tem acento, porque é monossilábico. Logo, Jorge Luis Borges.)

[Post 4640]

«Carro eléctrico», de novo

Vacilações

      Isabel Gaspar Dias, na apresentação dos principais temas do Portugal em Directo: «Lisboa já tem mais de 50 postos de abastecimento de carros eléctricos, e por agora são à borla.» E na abertura do tema: «Por agora, já são mais de 50 postos de abastecimento de viaturas eléctricas em Lisboa. Depois do Parque das Nações, agora também o centro da cidade tem pontos de abastecimento de viaturas.» Já aqui tínhamos falado desta questão. E reparem na hesitação «pontos/postos de abastecimento».

[Post 4507]




Léxico: «aerocologia»

Algo de novo

      «Os radares são uma janela para o espaço aéreo. Enviam ondas rádio que se reflectem nas gotas de chuva ou aviões, mas também nas aves, morcegos ou até insectos. Para prever as tempestades, os meteorologistas têm de filtrar a informação e os dados emitidos pelos organismos vivos. Informação que, por outro lado, pode ser essencial para cientistas como Winifred Frick, que a usa para seguir morcegos, numa nova ciência conhecida como “aeroecologia”. […] A expressão “aeroecologia” foi inventada há dois anos por Thomas H. Kunz, da Universidade de Boston, para descrever a interacção dos organismos vivos (aves, morcegos e insectos) na baixa atmosfera» («Radar meteorológico para seguir morcegos», Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 39).


[Post 4469]

Léxico: «idadismo»

Discriminação


      Racismo, sexismo, idadismo... Sim, sim, mais um neologismo. Em inglês, ageism, surgiu em 1969, cunhado pelo psicólogo americano Robert Butler. Eis a definição do Merriam-Webster: «prejudice or discrimination against a particular age-group and especially the elderly». Como seria mais que previsível, já por aí corre também com o nome de «ageísmo».

[Post 4377]

Sobre «reporte»

Dispensamos


      A EPAL julgava estar acima da lei. Hoje, José Manuel Zenha, secretário-geral da empresa, veio explicar: «Dos restantes, ao nível das chefias hierárquicas, nomeadamente, e é isso que de certa maneira a comissão de trabalhadores refere, ao nível das chefias hierárquicas, apenas foram abrangidas duas chefias hierárquicas, e nenhuma delas de 1.º nível de reporte. Foi uma do 2.º nível de reporte e outra do 3.º nível de reporte.»
      Pode ser apenas um derivado regressivo do verbo reportar, e por isso sem qualquer influência do inglês, mas ainda não está dicionarizado nesta acepção. Aliás, o verbo reportar também anda mal definido nos dicionários. Pelo menos no excerto das declarações daquele responsável da EPAL, não faz falta nenhuma.

[Post 4346]

Léxico: «videógrafo»

Assim serve


      É o fenómeno do momento, Ted Williams, o sem-abrigo com um vídeo no Youtube. «Um videógrafo do Columbus Dispatch, um jornal local, decide passar por lá e comprovar com os seus próprios ouvidos» («‘Voz de ouro’ vale emprego», Daniela Espírito Santo, Jornal de Notícias, 7.01.2011, p. 64). A jornalista afirma que é um «sucesso viral».
      Mais um neologismo — mas será necessário? No Diário de Notícias («Sem-abrigo com voz de ouro ganha fama graças à Internet», Susana Salvador, p. 35), usou-se a locução «repórter fotográfico», o que o videógrafo não quererá ser.

[Post 4291]

«Giga», redução

Aos tropeções, mas avança


      «O autor [António Barreira] guarda a sua história premiada “numa pen de quatro gigas”, e o perfume que usou para a escrever, o Cool Water, de Davidoff, na prateleira. Irrecuperáveis são os chinelos — diz ter um par por cada novela que escreve: “Eram de Verão e usava-os quando escrevia em casa, depois de horário de trabalho. Foram muitos meses...”» («‘Meu Amor’ custou perto de cinco milhões de euros», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 25.11.2010, p. 55).
      Quer queiramos quer não, a língua avança. Se para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora giga é apenas uma cesta larga ou um cesto de vime, sem asas, para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa já é também a redução de «gigabyte». É que não são já apenas os informáticos que falam assim, mas toda a gente.

[Post 4232]

Como se escreve nos jornais

Caturrice, dizem?


      «Subitamente, os militares [da GNR] aperceberam-se de um Ford Fiesta a efectuar uma violenta travagem, ligaram os rotativos da viatura e um dos militares saiu, dando ordem de paragem ao condutor do veículo» («Fugiu e quis atropelar a patrulha», Reis Pinto, Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 17).
      Se se tivessem dado conta ainda teria sido melhor, mas adiante. Eu pensava, e decerto a maioria dos falantes, que «rotativo» era somente adjectivo. Neologismo, então. E aquele «dando» não é o que Vasco Botelho de Amaral chamou gerúndio copulativo — espúrio na língua portuguesa? E, no entanto, bem arreigado já.

[Post 4230]

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