«Rever em alta»

Economês


      «Ontem, pelas 13H47, na cidade ameaçando chuva, uma lisboeta de avental parou, preocupada com um casal de turistas. Este agitava um mapa e tinha estampado, nas faces de ambos, a dúvida de ir pela Rua da Ribeira Nova ou pela Rua do Arsenal. A lisboeta interrogou-os com um sorriso. […] Há pouco, o ministério da Economia alemão reviu em alta o crescimento do seu PIB, baseado “na sustentada procura externa de produtos e serviços germânicos”» («Estou preocupado com a Alemanha», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 56).
      Cada um fale por si, mas, quanto a mim, só usaria «rever em alta» se fizesse jornalismo económico. Também aqui o exame Vieira ter sido útil. (E sabiam que «economês» está registado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora? Prioridades...)

[Post 4280]

«À séria», outra vez

Vai ser difícil


      «A empresa neozelandesa Marlborough’s NZ King Salmon, exportadora de salmão, está a aproveitar o facto das rivais europeias não poderem usar o meio aéreo para fazer negócio à séria na Ásia» («A sorte no azar do céu de cinzas», Tiago C. Esteves, Metro, 20.4.2010, p. 2).
      E um jornalista a sério não escreveria assim, uma revisora a sério não deixava sem corrigir... Um leitor a sério só tem de denunciar e repudiar. Pergunto a mim mesmo se esta gente lê alguma coisa.

[Post 3365]

Acertos e erros na televisão

Divertido ou perverso?


      «Qual é o feminino de comboio?», perguntou ontem o apresentador do concurso Falaescreveacertaganha. Só por pura perversidade se pode fazer uma pergunta destas a uma criança de 10 anos. E para quê? Sara, da equipa Rápidos e Ladinos, ficou embasbacada. Porque não se metem com crescidos, como eu, por exemplo? Na prova «Ler É Aprender», o apresentador disse: «O João [João Castro, actor que integrava, na altura, o elenco da peça Breve Sumário da História de Deus, no Teatro Nacional D. Maria II] vai ser quem nos vai ajudar a avaliar a prestação dos dois elementos, que penso que nesta altura já estarão escolhidos e destacados por cada uma das equipas para ler.» É este «o programa que mima a língua portuguesa»? Vá Pedro Castro por esse País fora e teste se as pessoas conhecem essa infeliz acepção do vocábulo «prestação». E deixe-se de colocações: «Coloca a frase “É para já!” no plural.» É ridículo.

[Post 3182]

«Caderno de encargos»

Chega


      «Todos reconhecem, no entanto, que o caderno de encargos de Michelle Obama é difícil de cumprir: a alimentação “saudável” é mais cara do que o fast food e legumes ou fruta fresca são simplesmente inacessíveis para uma parcela da população» («Michelle Obama pretende acabar com obesidade infantil numa geração», Rita Siza, Público, 14.2.2010, p. 16).
      Ultimamente, parece que alguns jornalistas ingurgitaram um engenheiro civil. Que palermice é esta agora do «caderno de encargos»? Não há outras formas, mais claras, adequadas e bonitas, de dizer o mesmo? Vá lá, esforcem-se um pouco, andamos há muitos anos a pagar.

[Post 3138]

«Fazer filhos» e «caderno de encargos»

Insensibilidade e seguidismo

      «Eu não acredito que tenha desaparecido entre os Portugueses o entusiasmo por trazer novas vidas ao mundo», disse Cavaco Silva, que falou em «inverno demográfico», mas a jornalista Natália Carvalho, no noticiário das 2 da tarde de ontem na Antena 1, disse, à bruta: «Os Portugueses fazem cada vez menos filhos. Este ano nasceram pouco mais de cem mil crianças.»
      No mesmo noticiário, o jornalista Jorge Correia disse: «Cavaco Silva apresentou um caderno de encargos ao Governo para apoiar o nascimento de mais crianças no País.» É a expressão da moda, «caderno de encargos». Os jornalistas apenas vão atrás dos políticos. Creio que foi nas últimas eleições legislativas que começou a ser usada recorrentemente. E é claro que não é naquele sentido que os dicionários a registam: «articulado com regras técnicas, jurídicas e administrativas que devem ser respeitadas na elaboração de um estudo ou na execução de qualquer obra» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

[Post 2920]

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