Léxico: «oliveiral»


No Brasil


      Ontem à tarde fui à Gare do Oriente despedir-me de um amigo que ia viajar no Sud Express. Num dos elevadores, um brasileiro perguntou-nos em que linha parava o comboio que ia para a Guarda. Depois de lhe termos dado a informação que pretendia, perguntámos-lhe o que fazia. Acabara de vir da Moita com o patrão, localidade onde andara, sobretudo com indianos, na apanha de morangos. Ia agora para Viseu, trabalhar em «oliveirais». Nunca tinha ouvido a palavra «oliveiral», porventura mais usada no Brasil.

[Post 3515]

Léxico contrastivo: «pitaco»

Conhecemos a atitude


      Alvaro Costa e Silva escreve hoje no Jornal do Brasil sobre o ecólogo John Whitfield, que tem um blogue para contar a experiência de ler A Origem das Espécies: «À medida que o biólogo avança nos parágrafos da famosa teoria, e as comenta, recebe pitacos ­os mais variados­ de visitantes. A ideia é encerrar tudo na próxima quinta, dia do bicentenário de nascimento de Darwin. O resultado pode ser conhecido no Blogging the origin» («Darwinista não leu Darwin», JB, 7.2.2009, p. L2). Pitaco, que nem o Aulete Digital nem o Dicionário Houaiss registam, é palavra de amplo uso no Brasil, e desconhecida em Portugal, que significa «palpite».


Léxico contrastivo: «canudo»


Para sorver


      À minha frente estavam três brasileiros, que pediram quatro cachorros-quentes. Um deles voltou depois ao balcão, pegou em três palhinhas e disse aos outros: «Querem canudos?» Em Portugal usamos canudos para enfiar diplomas e projectos de arquitectura ou para atiçar, avivar, espertar o lume, por exemplo, mas não para sorver líquidos, como fazem os Brasileiros. Nós chamamos-lhes palhinhas.

Léxico contrastivo: «pidão»

Pides e pidões


      «Ágeis, travessos e com cara de pidões, os micos viraram febre na cidade. Basta estar próximo a um aglomerado de árvores que rapidamente é possível escutar os assobios dos primatas. Mas, apesar do jeitinho doce, que rouba sorrisos e afeto de crianças e adultos, os animais estão deixando especialistas da área preocupados. O Rio testemunha uma proliferação desses macaquinhos e o desequilíbrio ambiental já é uma realidade na cidade» («Micos, a diversão que está virando problema», Janaína Linhares, Jornal do Brasil, 21.3.2008, p. A15). Quanto a micos, deixei que os leitores percebessem o que é — mas pidões? Mais: «com cara de pidões»? Na rua dos meus pais morava um pide, um agente da PIDE. Por muito que me custe admiti-lo, não tinha uma cara patibular, antes uma cara aparvalhada. Dizia-se que, além do que se lhe pedia, uns tabefes, umas torturas, também tinha violado uma rapariga quando estava de serviço num posto fronteiriço. Teve de fugir no 25 de Abril, mas uns tempos depois já tinha um emprego. Um prémio pelo zelo. Mas sim, não me esqueço: pidão. É aquele que pede muito.

Léxico contrastivo: «córrego»

Poesia


      Contrastivo no uso, é claro, pois a palavra é bem portuguesa. Aqui, deverá ter sido inspiração de jornalista mais proclive a arroubos poéticos. Deixá-lo, as palavras fazem-nos falta. «Cerca de 300 famílias da região da Fercal, próximo a Sobradinho II, deverão ser retiradas das áreas de risco. As áreas foram identificadas pela Defesa Civil do Distrito Federal como de risco para a segurança da população que vive no local e estão localizadas próximas a encostas e ao leito do rio» («Chuva ameaça a segurança de famílias à beira de córrego», Lais Lis, Jornal do Brasil, 24.1.2008, p. R6). O único córrego que os Portugueses conhecem actualmente — e maiusculizado — é Manuel Córrego, autor de obras com títulos tão mansos como Nem Putas nem Ladrões. No contexto, córrego é o curso de água.

Léxico contrastivo: «engavetamento»

Bem encaixados

      «O engavetamento de três ônibus e quatro veículos de passeio próximo ao vão central da Ponte Rio-Niterói, no sentido Rio, obstruiu o trânsito niteroiense em todas as vias de entrada da cidade e atingiu ainda o município vizinho, São Gonçalo, na manhã de ontem. Segundo o chefe da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na Ponte Rio-Niterói, inspetor João Santos Gama, o acidente ocorreu por volta das 7h40min e deixou 22 pessoas feridas» («Engavetamento pára a Ponte Rio-Niterói», Jornal do Brasil, 15.1.2008, p. A12). Na definição do dicionário Aulete Digital, engavetamento é a «colisão que, pela violência do choque, deixa veículos encaixados uns nos outros».

Léxico contrastivo: «micrão»

Miniautocarro


      «A colisão de um microônibus com um carro de passeio, ontem, provocou a morte de uma pessoa e ferimentos leves em outras duas. O acidente aconteceu por volta das 5h30, no cruzamento das avenidas Padre Leonel Franca e Visconde de Albuquerque, perto da Praça Sibeluis, na Gávea. O coletivo da Viação Real, da linha 2015, seguia no sentido Leblon quando bateu no Gol branco, placa KMG-4715, que teria, segundo testemunhas, avançado o sinal vermelho» («Acidente com micrão mata um e fere dois», Denise de Almeida, Jornal do Brasil, 4.1.2008, p. A15). Nem mais: micrão é a designação popular de «microônibus». Todavia, «microônibus», «microautocarro» em Portugal, parece-me exagero. O mais pequeno que temos são «miniautocarros».

Léxico contrastivo: «laranja»

Laranjas amargas

      «Uma nova lista com números de celulares e contas bancárias foi apreendida ontem em poder dos detentos do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), em Aquiraz, Região Metropolitana. Segundo o supervisor do sistema penal, coronel Taumaturgo Granjeiro, que acompanhou a vistoria, o material seria usado para a prática de golpes como “seqüestro-virtual” e “número premiado”. Segundo ainda o supervisor, a lista será entregue ao Departamento de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) para rastreamento das contas bancárias e dos números telefônicos. A suspeita é que as contas estejam em nomes de “laranjas” e sejam usadas para os depósitos das vítimas dos golpes virtuais» («Lista para a prática de golpes é apreendida no IPPS», Nicolau Araújo, O Povo, 28.12.2007, p. 6). Na definição do Aulete Digital, «laranja» é a «pessoa que serve de intermediária em transacções financeiras fraudulentas, usando o próprio nome para ocultar a identidade de quem a contrata». É uma espécie de testa-de-ferro. Na primeira página, O Povo titula: «Polícia rastreia contas-laranja».
 

Léxico contrastivo: «tombamento»

Niemeyer tombado

      «Como forma de homenagear o aniversário de 100 anos do arquiteto, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) anunciou este ano o tombamento de 23 obras de Niemeyer em Brasília e da Casa das Canoas no Rio de Janeiro. Obras do arquiteto em São Paulo, Paraná, Goiás e Rio Grande do Norte também foram tombadas. Na época, o superintendente do Iphan do DF, Alfredo Gastal, já afirmara que o tombamento reconheceria a importância do trabalho de Oscar Niemeyer» («Tombamento comemora os 100 anos de Niemeyer» Jornal do Brasil/Brasília, 15.12.2007, p. R6). Na definição do dicionário Aulete Digital, cujo uso recomendo vivamente, «tombamento» é a «acção pela qual se protege um património público resguardando-o, como documento histórico, da descaracterização geralmente provocada pelo homem, ou por sua acção directa ou pela falta de cuidados básicos de manutenção» (adapto a ortografia à variante europeia do português, para que almas mais sensíveis não se sintam embaraçadas).
 

Léxico contrastivo: «bilhetagem»

Mais português


      «Os usuários de ônibus do DF não precisarão mais usar dinheiro ou vale transporte para pagar as passagens: começou a funcionar ontem o sistema de bilhetagem eletrônica. Com isso, o passageiro precisa apenas aproximar o cartão eletrônico do aparelho validador, instalado em todos os 2.337 ônibus do DF, para que a catraca seja liberada» («Transporte público entra na era da bilhetagem eletrônica», Priscila Machado, Jornal do Brasil/Brasília, 2.11.2007, p. D5). Cá andamos às voltas com o rebarbativo «bilhética», e nem sabemos explicar bem do que se trata, como já aqui demonstrei.
 


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