Interjeições

Ena!

      Já aqui vimos mais de uma vez como as interjeições têm sido descuradas por dicionários, gramáticas e — o que é pior — pelos tradutores. Assim, nem sequer uma vez vejo a interjeição inglesa wow, aportuguesada em uau e muito usada pelos mais jovens, vertida de outra forma que não «uau». Ora temos melhor e nosso: ena, por exemplo. Exprime surpresa e admiração, como wow. Ou, pelo menos, que variem, usando ora uma ora outra.
      E já que foquei novamente esta questão, é a oportunidade ideal para sugerir que os responsáveis do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que tão atentamente, ao que me parece, seguem este blogue, comecem a referir, no verbete de cada interjeição, o que exprime, de que tipo é. Os leitores iam agradecer.

[Post 4632]

Interjeições

Uh, uf

      «— Bom, pelo menos andarás distraído — comentou Dina. — Suponho que o significado disso consiste em que, quando menos esperarmos, tu terás metido em casa um casal de texugos como mascote. Uf!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 9).
      Bem... As interjeições constituem a classe gramatical mais descurada, desprezada mesmo pelos dicionários. Talvez nenhum dicionário divirja: a interjeição uf (que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista...) é de alívio ou de cansaço. No original, a interjeição é ugh, que exprime aversão, repulsa, nojo. Para exprimir estas emoções, temos em português a interjeição uh. (A despropósito, quem é este Vítor Alves?)

[Post 4581]


Interjeições

Ih, ih, ih

      «Rui Pedro Soares, militante do PS, ex-administrador da PT e arguido (sob suspeita de corrupção passiva) no caso Taguspark/Figo, ilibou ontem José Sócrates das suspeitas de que saberia do negócio PT/TVI antes de ele ter sido tornado público, em 23 de Junho de 2009, numa notícia do jornal i» («Ontem ficou em silêncio», J. P. H., Diário de Notícias, 23.04.2010, p. 3).
      A notícia tem quase um ano, mas é irrelevante para o que pretendo dizer. Já repararam no facto de nunca (ou, vá lá, quase nunca) se fazer desacompanhar o nome «i» da palavra «jornal»? É uma coisinha tão minúscula, e para ali inclinada, e ainda por cima desprovida de semântica, que toda a gente acha que é inadequado escrever meramente «numa notícia do i».
      Eu próprio me sinto na obrigação de escrever mais qualquer coisa. Ah, já sei. A propósito da interjeição «ih», eis que me vem à memória outra (ou «uma outra», como debitariam penas mais redundantes) que encontrei n’As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain (tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 206). «— Não queria, nem o quero fazer, Huck; ¿mas que diriam os outros? Sim, ¿que diriam os outros? “Pfe, o bando do Tom Sawyer! É só gente de baixa categoria!” E quando dissessem isto, referiam-se a ti, Huck. Tu não havias de gostar, e eu também não.» Ora, eu nunca tinha visto esta interjeição escrita, e não a vejo nos dicionários. E com certeza que a profiro. E não julguem que é o mesmo que puf, pois esta é interjeição de enfado ou cansaço. Digam o que pensam, não se acanhem.

[Post 4430]

Interjeição «duh»

Imagem: http://wakeupitstuesday.org/wp-content/uploads/2009/04/duh.jpg


Acorda!


      «À parte o sujeito inefável e creepy daquele “devemos”, há outro problema: que fazem os estrangeiros, portugueses e lisboetas que já sabem das coisas fantásticas que Lisboa tem? Ou que sabem como hão-de saber? Por exemplo, indo à Net, duh» («Oh do shut up!», Miguel Esteves Cardoso, Público, 14.05.2009, p. 31). Esta interjeição inglesa, que eu nunca antes tinha visto num texto português, é muito usada por certos adolescentes e serve para expressar sarcasticamente que algo é óbvio.

Actualização em 27.09.2009

      Já vai aparecendo adaptado: «— Da-aa — diz ela. — As actrizes têm de usar maquilhagem, não têm, por causa das luzes todas do palco? Além do mais, quero chamar a atenção da professora Dulce» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 103). Mas com hesitações: «— Tu sabes, a tatuagem do gato que mandaste ao Lucas — digo eu. — Daa! E o KitKat também» (Amigos à Deriva, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 81).

Actualização em 31.12.2009

      «É difícil descobrir-lhe a origem ou a forma como chegou até nós (ao contrário dos anglófonos dizemos “dahhh”), a eficácia que a tornou omnipresente, contudo, é de fazer arrepiar qualquer purista da língua. Está tudo no tempo que se dá ao “h”. Com um (duh) exclama “Óbvio!”, com dois (duhh) já inclui uma nota de desdém irónico, com três (duhhh) o desprezo pela estupidez alheia já estala à laia de vergastada de chicote. Mas com uma irrisão de humor de tal forma solar que não deixa margem para ofensas. Mas já sabia tudo isto, claro... Não?! Como não?! Duhhh...» («Duhhh», Vanessa Rato, Público/P2, 31.12.2009, p. 4).



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