Cidra/sidra

Não bebam


      «Glastonbury comemora 40 anos este ano e tem decorrido desde sempre na mesma quinta. O dono, Michael Eavis, ainda fornece todo o leite, cidra, madeira e palha para o festival» («“Ama a quinta, não deixes rasto”», J. C., Metro, 21.06.2010, p. 4).
      A palha para os festivaleiros se deitarem, a madeira para se aquecerem, o leite para se alimentarem e a cidra para curarem a ressaca? A crer no artigo, sim. Mas é uma tradução, e o que se lê no original é: «Yet even then all the milk and the cider and the straw came from the farm.» Cider! Faz lembrar a moxama. Pela etimologia, era de esperar que fosse «cidra», mas é «sidra», um homófono. A cidra é o fruto da cidreira (Citrus medica); a sidra é a bebida alcoólica obtida a partir da fermentação de maçãs. O que é que acham agora que o Sr. Eavis (ou Mr Eavis, como escreveriam muitos tradutores) dá aos frequentadores do Festival de Glastonbury?
      (Tanto o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa precisam de registar o substantivo «festivaleiro».)

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Homófonas

Mais uma acha


      As autoridades norte-americanas contam que Abdul Mutallab tinha aparentemente um pacote de 15 centímetros de pó explosivo e uma seringa cozidos às cuecas, quando entrou no avião em Amesterdão, aonde chegara em trânsito a partir de Lagos» («Barack Obama vai rever regras para identificar suspeitos», Jorge Heitor, Público, 28.12.2009, p. 12). O pó, pentaeritritol ou outro qualquer, decerto que se pode cozer, já sobre a seringa tenho sérias dúvidas. Das cuecas não digo nada. Agora a sério: não parece uma gralha, é mais um erro muito comum. Homófonas, cozer e coser, podem deslustrar o melhor texto. Distracção? Nem sempre.


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