«Estar ao facto»

Outras digressões

      «I explained that I knew nothing about it», responde Copperfield ao Dr. Spenlow. Cabral do Nascimento traduziu: «Repliquei-lhe que não estava ao facto.»
      Estar ao facto ou pôr-se ao facto — outro galicismo. Nos últimos dias, é só galicismos. Em francês é que se diz être ao fait, se mettre ao fait. No caso, estar ciente, por exemplo, ou simplesmente estar a par seria mais adequado. Felizmente, este deixou poucos seguidores.
[Texto 492]

Sobre «confecção»

Isso depende

      O original dizia que, quando a personagem voltou, «she set herself up making wedding cakes». Na tradução, lê-se que se «dedicou à confecção de bolos de noiva». Ora, o mais habitual é ouvir o vocábulo «confecção» para referir o fabrico e o próprio vestuário de senhora ou de homem. Como é? Nesta última acepção, «confecção» é galicismo evitável (mas que, porém, não foi evitado). Na acepção de acto de confeccionar, o seu uso é correcto. Se não tivesse incorporado, ao longo dos séculos, vocábulos de outras línguas, o português seria hoje um idioma muito mais pobre, sem dúvida. Todavia, o falante responsável sabe que somente quando os recursos próprios faltam é que deve lançar mão de vocábulos de outras línguas.


[Post 4606]

Sobre «conduta»

Muito mais simples


      A ideia que tenho é que o galicismo conduta (conduite) cedeu algum campo, nos últimos anos, aos vernáculos procedimento e comportamento. Por vezes, contudo, trata-se de uma falsa questão, pois não se tem de utilizar nenhum dos três vocábulos. Veja-se esta frase: «O homem [ex-militar] com quem me encontrei seguia um código de conduta cujo imperativo era servir os outros.» Nesta expressão em concreto, a locução é, julgam muitos, inescapável. Ora, da leitura do original conclui-se que não era necessário usar nem o galicismo, nem nenhum dos possíveis termos vernáculos correspondentes, nem sequer a expressão. Leiam: «The man I met at that time was living by a code of service to others.»

[Post 4231]

Sobre «passagem»

E ele não sabia?


      «Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela em que, por felicidade do leitor e minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 195).
      Na acepção de frase ou trecho de um texto ou obra literária, passagem é ou não é galicismo? Mas Camilo não enjeitou o vocábulo.

[Post 4144]

Galicismo: «etalonagem»

L’étalonnage à Tóbis


      «O “bichinho”, como lhe chama, determinou que perante o anúncio no jornal largasse o liceu Maria Amália, onde frequentava o quarto ano, e desse entrada, a 1 de Março de 1974, na empresa que havia de ser a da sua vida, e de mais de uma maneira. “Nem sabia o que queriam que a gente fizesse, o jornal não dizia. Vim com uma amiga e mais dois rapazes e fui parar à tiragem de cópias. Achei aquilo muito engraçado. Quem me ensinou foi um senhor que cá estava, o sr [sic] Augusto. Era ele que fazia a etalonagem, a divisão de cores nos filmes. Fazia-se com umas certas filtragens”» («As mãos do cinema», Fernanda Câncio, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 5).
      Cheira a galicismo — e é. Étalonnage. Em português diz-se aferição. A convicção de que em português não há termo correspondente é quase sempre fundada na falta de conhecimentos.

[Post 4087]

Escravista/escravagista/esclavagista

Felizmente


      «A vedeta não se parecia nada com um escravista brasileiro, lembrando mais uma matrona europeia, velha e rabugenta» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 14).
      Houve um tempo em que, decerto por medo de ser-se diferente, só se escrevia «esclavagista», ainda que se tivesse consciência de que era um galicismo (de esclavagiste). Além destes dois termos, o Dicionário Houaiss regista ainda escravagista, o que parece um meio-termo. Há ainda um sinónimo menos usado: escravocrata.

[Post 3459]

Léxico: «cepe»

Aceitamos


      «Apanhámos uma bela cesta de cepes e de cantarelos. Esta noite, vou quebrar os meus hábitos e fazer uma omeleta de cogumelos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 426).
      Nenhum dicionário da língua portuguesa regista cepe. Temos cepeiras — mas dão uvas. Estes foram apanhados por Logan Gonzago Mountstuart e Lucien Gorce nos bosques da comuna de Sainte-Sabine, na Borgonha, e aí está a pista: é o aportuguesamento da palavra francesa cèpe (por sua vez proveniente do gascão cep, e este do latim cippus). O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista como tradução de cèpe «boleto», mas boleto (e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção do vocábulo) tanto pode designar cogumelos comestíveis como altamente venenosos — e os cèpes são comestíveis.

[Post 3256]

Acabou-se o «plafond»

Ainda há esperança

      Nem tudo é mau. Nem tudo está perdido. Até os jornais gratuitos se esforçam agora por escrever correctamente. Ora veja-se: «Saúde. Os cheques-dentista, que terão tectos máximos anuais de 120 euros para as grávidas e de 80 euros para os idosos, podem ser usados a partir de 1 de Março» (Destak, 20.2.2008, p. 5). Sim, acabou-se o plafond, esse tão desnecessário galicismo. Tecto por tecto, temos o nosso, que abriga tão bem como os franceses, e é igualmente eficaz como limite de despesas permitidas. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, regista: «plafond. s. m. (Fr.). Fin. V. plafom.» Ou seja, sugeria-nos que escrevêssemos «plafom». Esqueceram-se de incontáveis palavras, mas não destas parvoíces.


«Bizarro» é galicismo?

Depende

      Por vezes, lemos que o vocábulo «bizarro» é um galicismo na nossa língua, devendo ser evitado. Ora, a verdade é que em certas acepções constitui galicismo, mas não noutras. José van den Besselaar, na obra que já aqui citei, lembra que este adjectivo significava, originariamente, «iracundo, furioso»; depois, «fogoso, brioso» e, mais tarde ainda, «luzido, elegante, loução». É nesta acepção, lembra ainda este autor, que Vieira emprega a palavra na História do Futuro: «exercitos tão notaveis por seu numero e grandeza, como bizarros por seu luzimento». O sentido de «excêntrico, esquisito, estranho» é uma inovação do francês, que se poderá datar do início do século XVI, a qual acabou por entrar em todos os idiomas da Europa, inclusive em italiano, língua do étimo. Nesta língua, bizzarro, que inicialmente era apenas «iracondo, collerico», por influência do francês passou a ser também: «che colpisce per stranezza e originalità, fuori dal comune, stravagante: temperamento bizzarro, gusti bizzarri, mio nonno è un vecchietto bizzarro

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