«Perder os nortes»

No plural, não conhecia

      «— Compreende... Estive fora uns pares de anos... Desgarrei-me, ou antes, perdi os nortes ao convívio...» (Um Minuto de Silêncio, João da Silva Correia. Lisboa: Publicações Europa-América, 1962, p. 263).
[Texto 3433]

«Ao fim e ao cabo»

Confundem tudo (porra?)

      Ora aqui temos nós um grande escritor a escrever «ao fim ao cabo», castelhanismo (boa noite, Fernando) agora já irremediavelmente enraizado. Mas espera: não é «ao fim ao cabo», é ao fim e ao cabo. Tresleram Vasco Botelho de Amaral, que recomendava que em vez desta expressão se usassem outras equivalentes em português, como ao fim, ao cabo, finalmente, por fim... Mas tem graça.
[Texto 3345]

«Idem, aspas»

Em toda a parte, pelo menos

      «Onde se levantasse arraial, era sabido, aparecia padre; onde cheirasse a desgraça idem, aspas. E assim é que devia ser porque a palavra de Deus tem de estar em toda a parte, pelo menos» (O Burro-em-Pé, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2011, p. 65).
      É expressão que devia estar registada em todos os dicionários gerais da língua. Provavelmente, porém, não está em nenhum.
[Texto 3342]

«Devolver o bote»

Há sempre novidades

      «Foi bem ela, desta vez, quem falou: era a Teresa pronta a devolver o bote, a que esse imprudente acabara de despertar» (O Fim da Noite, François Mauriac. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 152).
      Não conhecia. Devolver o bote é devolver a censura de que se foi alvo. Já ir no bote é deixar-se enganar.
[Texto 3325]

«Contradição em/nos termos»

Em termos linguísticos

      O autor terminou o raciocínio a pedir: «desculpem a contradição em termos». Já todos lemos dezenas de vezes a expressão «contradição em termos». E outras tantas «contradição nos termos», que me parece mais conforme à nossa língua. Aquela está mais colada ao inglês contradiction in terms. Sinónima é a expressão latina contradictio in adjecto. Literalmente, contradição no que se acrescenta.
      «Esta ideia é de tal forma inovadora que a primeira reacção é pensar que “verdade empírica necessária” é uma contradição nos termos» (Essencialismo Naturalizado: Aspectos da Metafísica da Modalidade, Desidério Murcho. Lisboa: Angelus Novus, 2002, p. 13).
[Texto 3255]

«Está bem, abelha»

Como quem manda à merda

      Acabei de ler a expressão, que não ouvia nem lia há muito, e lembrei-me que Cardoso Pires a usou várias vezes nas suas obras. «Sorriso maldoso do inspector. Óculos escuros é com ele, mas em tecnicolor polaroid. No entanto faz-se desentendido; pensa: Está bem, abelha. E recosta-se na cadeira. Tem a ordem de captura à mão de assinar mas quer ouvir primeiro, saber opiniões. Opiniões? Elias não há meio de entender por que diabo aparece o mangas da secretaria metido naqueles expedientes. Conselheiro chamado de aflição para os devidos efeitos?» (Balada da Praia dos Cães, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, 17.ª ed., p. 136).
[Texto 3171]

«A páginas tantas»

É uma condição

      O escritor Manuel Jorge Marmelo tem dois novos livros, ambos vendidos somente através da Internet. Porquê? O escritor explicou no Bom Dia Portugal de ontem: «Primeiro, por uma tentativa de chegar a novos públicos, uma vez que o livro, estando na Amazon, pode ser comprado por pessoas em qualquer parte do mundo, desde que falem português e leiam português.» E se só falarem e só lerem tagalo, por exemplo, não podem comprá-los? Claro, não era isto que queria dizer.
      A entrevistadora, que confunde escritor com narrador, perguntou-lhe: «Às páginas tantas, tu dizes que “ser um zero à esquerda, ter disso consciência, viver plenamente com essa circunstância é decerto o mais venturoso dos estados de alma”. Porquê?» Prefiro a páginas tantas, até porque também não digo «às páginas vinte e uma».
[Texto 3147]

«Zona do euro»

Já é tradição...

      Já muitas vezes tinha pensado que a expressão «Zona Euro» é pouco portuguesa. Hoje, voltei a pensar no assunto, agora a propósito da menos (ao que me parece) usada «área euro». Já aqui há matéria de reflexão: se a primeira é a maioria das vezes grafada com maiúsculas iniciais, a segunda é sempre grafada com minúsculas. Porquê a diferença de tratamento? O guia de estilo do Centro de Informação Europeia Jacques Delors recomenda que se use a expressão «área do euro» para designar o conjunto de países que têm a moeda única. O Código Interinstitucional, a propósito de «área do euro», nota: «De observar, porém, que a expressão mais comummente usada em Portugal é “zona euro” ou “zona do euro”.»

[Texto 2398]

«Fazer o possível»

E os impossíveis

      «Fazer o possível. — Assim dizem os cultos. O povo, porém, ouviu e aperfeiçoou: Farei os impossíveis — ouve-se na Beira e alhures. Assim a expressão, quer era baça e somítica, se tornou mais imaginosa, mais amável, e portanto mais expressiva» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 136).
[Texto 2196]

«De requitó»

Reincidente

      «“Virá a ambulância, não virá?”, perguntou-se. “Que é que eu terei para ir assim de requitó para o hospital?”» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 121).
      Já conhecia a expressão... de outra obra de Alexandre Pinheiro Torres, O Adeus às Virgens. Alguém já a leu noutra obra?

[Texto 1391]

«Deve e haver»

Mais vale prevenir

      «Dois novos acessos de espirros impediram-me de chegar ao fim do retrato. Para evitar uma depressão clínica, evoquei mentalmente alguns pontos positivos neste dever e haver, que manifestamente existem, a começar pela melhoria da qualidade do ar e da água, a revolução no tratamento do lixo, a consideração vinculativa do ambiente nas decisões sobre grandes projectos» («Mapa fatídico», Ricardo Garcia, «Pública»/Público, 5.02.2012, p. 55).
      Pode ser gralha, mas quem sabe? É que há cerca de cinco anos um estudante — talvez agora doutorando — perguntava ao Ciberdúvidas se não seria mais correcto «dever e haver». Não é. A expressão, consagrada, é deve e haver.
[Texto 1066]

«Excepção de pessoas»?

Como é?

      Na edição da História Trágico-Marítima anotada e comentada por António Sérgio, publicada em 1956, lê-se: «Assim se punha tudo em um monte, trabalhando todos sem haver ai exceição de pessoas, todos igualmente; os que não sabiam nadar, trazendo às costas e tirando-o do mar, com a água que lhe dava pelo pescoço, o que achavam por esses recifes [...].» Anota António Sérgio: «EXCEIÇÃO DE PESSOAS. Ou, antes, acepção (preferência) de pessoas (do latim “acceptio”). Ao que nos parece, o autor confundiu “acepção” com “excepção”, de que se encontra a forma antiga e popular “exceição”.»
      António Pereira de Figueiredo na tradução do Novo Testamento: «Estes pois lhe fizerão huma pergunta, dizendo : Mestre, sabemos que fallas, e ensinas rectamente : e que não fazes excepção de pessoas, mas que ensinas o caminho de Deos em verdade.» Numa edição de 1856 das obras do P. António Vieira, também se lê: «E os mesmos castigos, sem haver excepção de pessoas, se dão ás mulheres donzellas e moças, e tão honestas, que em sua casa e de seus paes, não as via o sol, nem a lua [...].»

[Texto 957]

«Possíveis e imaginários»

Ora esta

      Creio que já uma vez me ocupei perfunctoriamente desta magna questão no Assim Mesmo: a pretensa incorrecção da expressão «possíveis e imaginários». Pus-me a pensar: quando se terá começado a usar? Na literatura do século XIX, do que eu conheço, não consta. Hoje, numa tradução, li «possíveis e imagináveis». Naquele século, o que se encontra é... possíveis e imagináveis.
[Texto 947]

«Na medida em que»

Nunca usei

      «Gosto da chuva, na medida em que as secas prolongadas me deprimem» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 75).
      Não sei, parece-me expressão antiliterária. E já foi bordão, lembra-o Edite Estrela, que serviu a muita gente. Creio que é o livro de estilo do Estadão que recomenda que se lhe substitua, sempre que se puder, por se, uma vez que, porque ou desde que. Até, como outros, confesso que não sei lá muito bem o que significa esta locução conjuntiva. E você?
[Texto 784]

«À boca calada»

Bocas

      «Foram estas forças que faltaram e à boca calada se atribui a responsabilidade a Joffre» (É a Guerra, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1934, p. 161). É expressão sinónima da outra: dizer à boca pequena, que é o mesmo que dizer em privado ou em voz baixa. O contrário é dizer à boca cheia, que significa dizer publicamente.

[Texto 598]

«Entra por uma orelha, etc.»

Disparates oficiais

      «O discurso oficial da direita e da esquerda, à força de se repetir, deixou de ser ouvido. Entra por uma orelha e sai por outra. E nem o acordo piedoso dos partidos ditos “democráticos” aumenta a confiança no Governo ou no futuro» («O realejo»,Vasco Pulido Valente, Público, 7.10.2011, p. 44).
      É mais vulgar entra por um ouvido e sai pelo outro. Vasco Pulido Valente começa por falar de outro discurso, o do Presidente da República no 5 de Outubro, em que S. Exa. disse — leu — «pese os avisos que foram feitos». A Presidência da República não tem dinheiro para contratar os serviços de um revisor.

[Texto 552]

«Apanhar/levar um bigode»

O diabo está nos pormenores

      «Mas todas as tapeçarias da série são um desafio à concentração do visitante do século XXI. O diabo está nos pormenores: cada tapeçaria [de Pastrana] é um amontoado de figuras humanas, lanças, armas, armaduras, embarcações, sem um centro aparente. Um bigode a quem pensa que vive numa era de excesso de informação» («O esplendor de Portugal para tempos de crise», Kathleen Gomes, «P2»/Público, 19.09.2011, p. 5).
      «O diabo está nos pormenores», admito, é um achado. Já quanto ao «bigode», muita coisa ficou no tinteiro: então não é apanhar ou levar um bigode, isto é, ficar derrotado, humilhado, que se diz?

[Texto 495]

«Mau como as cobras»

É sempre bom ver

      Mais uma daquelas expressões que se repetem em diversas línguas: «He was brilliant in battle and mean as a snake to everyone around him.» «Era um guerreiro brilhante, e mau como as cobras para todos os que o rodeavam.»
      «Fartavam-se, por exemplo, de esperar aqueles monarcas antigos, maus como as cobras, mas que deixaram tantas rasas de dobrões à Igreja que fechar-lhes a porta equivaleria a deitar abaixo todos os estatutos do penitológio romano» (Humildade Gloriosa, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1954, p. 307). (Ah, sim, e «penitológio», que os dicionários também não registam, é termo muito da predilecção de mestre Aquilino, ou não fosse ele ex-seminarista.)

[Texto 377]

«Deduzir acusação»

Induzir o parto

      «Resta ao Ministério Público “valorizar esses mesmos indícios e induzir a acusação ou, então, optar por arquivar o processo”. A actriz, que “não deverá ser ouvida pela PJ mais nenhuma vez”, vai agora ter de esperar “poucas semanas até que o processo esteja totalmente concluído”» («Sónia Brazão foi constituída arguida por crime de explosão», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 27.07.2011, p. 48).
      Então não é deduzir acusação, isto é, propor em juízo, que se diz? Quem sabe se a «fonte da PJ» não foi um porteiro. A locução de uso jurídico fez-me lembrar o comentário do leitor C. Ferreira a propósito do espúrio «colocar em perigo»: «Esta última locução tem, aliás, consagração normativa, v.g. no Código Penal, pelo que o seu uso pelo advogado referido não será despropositado.» Talvez tenha razão neste ponto, mas não apenas a lei «consagra» outras formas espúrias, como «implementação» e quejandos, como quem diz «colocar em perigo» também dirá «colocar o dedo no nariz», «colocar em fuga» e mais algumas dezenas de idiomatismos assim barbaramente desfigurados.
[Texto 350]

«Às mil maravilhas»

Mais um holicismo?

      «Elles riaient et visiblement s’entendaient à merveille.» O tradutor verteu como seria de esperar e está correcto: «Riam-se e era visível que se entendiam às mil maravilhas.» Em francês é, como se vê, à merveille; em castelhano, a maravilla. Escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Esquece-se, às vezes, que a correspondência formal não acompanha a correspondência semântica. Direi, pois, em parêntese, que o castelhano a maravilla traduz o francês à merveille, enquanto à las mil maravillas traduz em bom castelhano o fr. à ravir, em bom português às mil maravilhas» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 26). À maravilha, em português, é arcaísmo que não valerá a pena fazer revivescer.
[Texto 300]

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