Sobre «X-acto»

Dissecado


      «“Sentia-me bem a fazer desenhos nos braços com um X-acto. Os colegas pensavam que estava a brincar, mas eu sabia que não e quanto mais me diziam para parar, mais fazia”» («Cerca de 60 mil jovens já se automutilaram», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 15.12.2008, p. 11). Eu também conheci um jovem que se automutilava, mas isso — espero que todos tenham percebido ao fim de três anos de blogue — não interessa para aqui, mas sim o destaque dado à palavra «X-acto». Para quê? Não é nem estrangeirismo nem uma marca comercial. Já foi. Deu-se uma evolução, pois quando falamos de um X-acto na verdade estamos a referir-nos quase sempre a uma lâmina do tipo X-acto. Grafar em itálico faz tanto sentido como os Brasileiros grafarem «faca olfa» em itálico. A esta mudança gramatical em que um substantivo próprio passa a substantivo comum, ou vice-versa, dá-se o nome de derivação imprópria.

Derivação imprópria

Um porto no Porto

      A minha sogra lê sempre a revista ¡Hola!, o que a torna cada dia não apenas mais proficiente em espanhol, o que dá jeito na época das «rebaixas», como especialista (caseira, claro) em genealogia das casas reais europeias (a desculpa dela, é claro, é outra: está farta, suspira, das mentiras portuguesas!). Há dias surpreendi-a a ler um «Especial San Valentín» e sobretudo uma receita de «frambuesas al oporto con cubitos de trufa». É este «oporto» que me interessa.
      Em português, à mudança gramatical em que um substantivo próprio passa a substantivo comum, ou vice-versa, dá-se o nome de derivação imprópria (1). A questão é que esta alteração também afecta — ao contrário do que muita gente defende, vá-se lá saber porquê — graficamente a palavra. Assim, direi: «Quando vou ao Porto, apenas bebo porto.» «O meu amigo Rato não gosta, helás, de ratos.» «O inspector fuma tabaco virgínia?» «Aquele missionário era, todos o reconheciam, um anchieta.» «Dantes sim, bebia-se um bom bucelas. Mas agora? Nem em Bucelas!» «O meu bisavô, que fez a Primeira Guerra Mundial, usava um comprido úlster, o que lhe dava uma aura de cavalheiro distinto e rico a que muitas mulheres sucumbiram.» Há muitos mais substantivos comuns (estes são os que mais interessam para o caso) que derivam de nomes próprios, topónimos ou antropónimos. Lembremos apenas alguns:


— balaclava
— bordéus
— borgonha
— borsalino
— bóston
— breda
— bristol
— caim
— carcavelos
— carrasco
— catão
— colares
— cremona
— estradivário
— florença
— gargântua
— garibáldi
— garnisé
— gobelino
— holanda
— iscariotes
— madeira
— málaga
— mecenas

— mélton
— messalina

— nanquim
— reno
— riga
— ruão
— salazar
— sauterne
— sósia
— vichi
— xangai
— xerez

— zoilo


(1) A derivação imprópria abrange não apenas a mudança dos substantivos próprios em comuns, e vice-versa, como disse acima, mas também a transformação de adjectivos em substantivos e o contrário; a transformação de substantivos, adjectivos e verbos em interjeições; verbos em conjunções; adjectivos em advérbios; particípios presentes em preposições e em substantivos; particípios passados em substantivos e adjectivos. É, a par de outras, uma fonte de enriquecimento da língua.


Arquivo do blogue