«Têm mais é de»

Suspensão da convivência


      No Portugal dos Pequeninos de ontem, Sónia Morais Santos foi «esmiuçar» os medos das crianças. Os dois primeiros miúdos tinham medos realistas. O terceiro, porém, só temia vampiros e lobisomens. Incitado, espremido, puxado, lá disse que também receava que uma bomba atómica «arrebentasse com a cidade» (e o mundo que se foda) e temia ser obrigado a trabalhar. Comentário final da jornalista: «E tem muita razão. As crianças não foram feitas para trabalhar. Têm mais é de brincar, para o trabalho há muuuuito tempo.» São gostos, decerto — mas eu embirro solenemente com aquele «têm mais é de». Deveria mesmo figurar, entre as faltas ao respeito, à fidelidade, à coabitação, à cooperação e à assistência, como motivo para divórcio. Ou para despedimento.

[Post 3323]

«Certamente que»

Palavra de imortal

      Um leitor perguntou-me se o nome do blogue de Paulo Querido — Mas certamente que sim! — está correcto. Só não fiquei admirado porque já outro leitor, pessoa que reputo muito sabedora, me tinha indicado os pecadilhos de certo escritor e crítico literário português, dando como exemplo a frase: «Evidentemente que num caso de naufrágio…» Ora, não descortinei então nem descortino hoje qualquer erro nessa construção, mas, prudente, não deixei de consultar a Academia Brasileira de Letras, que me respondeu: «As palavras derivadas costumam seguir a regência ou determinadas construções das palavras de que derivam. Assim: obedecer a, obediência a, obediente a. No seu exemplo, pode-se usar: É evidente que ou Evidentemente que; É certo que ou Certamente que. A análise de cada construção é bem diferente uma da outra, mas do ponto de vista semântico “é evidente” a correspondência.»

Arquivo do blogue