Concordância

Aprender com os melhores

      «Esta gafanhotice literária só é possível com e-livros, seja qual for o e-leitor. Com uma pilha de livros, mesmo sendo-se afoito, dá um certo trabalho mudar de comboio. Então numa esplanada. Não: as voltas do Kindle sou eu quem as dou» («O vira dos livros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.08.2011, p. 39).
      Fosse a frase analisada por Mimi Costa, que provavelmente não liga a gralhas, no Algodres Online e a sentença seria breve: «[...] o pronome relativo “quem” (que é um pronome da 3. ª pessoa do singular e significa “a pessoa que”), obriga a utilizar sempre essa 3.ª pessoa do verbo (fez). Assim, evite dizer: “sou eu quem escrevo” ou “são eles quem resolvem”». Quase desapareceu da escrita literária, mas a verdade é que é absolutamente correcta esta concordância com o pronome relativo quem. Nestes casos, citam-se exemplos de Fernando Pessoa («Sou eu quem descrevo»), Jorge Amado («Eram os filhos, estudantes nas Faculdades da Baía, quem os obrigavam a abandonar os hábitos frugais») e, para os mais exigentes, Rui Barbosa («Sou eu quem perco») ou Gonçalves Dias («Sou eu quem prendo aos céus a terra»).
[Texto 391]

Concordância

Ora toma: verbo identificacional

      Filomena Crespo não se conteve: «Isto hoje não é difícil. Pode baralhá-la um bocadinho, mas não é difícil.» «Qual destas frases é que está gramaticalmente correcta? «a) O que o turista pretende é apenas informações. b) O que o turista pretende são apenas informações.»
      «Dra. Sandra, ajude-nos lá nesta resposta. Será que está correcta, não está correcta...» «A frase correcta é a frase b: “O que o turista pretende são apenas informações.” No nosso Jogo da Língua de hoje, mais uma questão sintáctica. Regra geral, o predicado concorda com o sujeito. Portanto, o sujeito desencadeia a concordância verbal. Mas quando nós estamos perante o verbo “ser” identificacional, que é o caso, há uma regra sintáctica da língua que diz: o sujeito concorda com o elemento... o verbo, aliás, o verbo “ser” vai para o plural se houver um elemento no plural, mesmo que seja o predicativo do sujeito, que é o caso. “Informações” não é o sujeito da frase. “Informações” é o predicativo do sujeito. Mas como estamos perante o verbo “ser” identificacional, o verbo ser vai concordar, neste caso é uma excepção na língua, concorda com o predicativo do sujeito. Querem mais exemplos? “A vida não são rosas” e não “a vida não é rosas”. “A vida”, que é o sujeito, perde aí o... o... autoridade sobre a concordância. “A vida não são rosas.” “O casamento não são rosas”. “O que o turista pretende são informações.” Alínea b).»
      Não há unanimidade em relação a esta questão, apesar do que possa parecer. Queiram ver as páginas 22 e 23 da Sintaxe Histórica, aqui ao lado, e as páginas 558 e seguintes da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 37.ª ed., 2002).

[Texto 351]

Concordância com percentagens

Pior do que Por uma Vida Melhor

      Esqueçam a cruzada contra o Acordo Ortográfico de 1990. Resolvam estes problemas: «Numa sondagem da “Metroscópia”, 81 por cento dos inquiridos considerava que os “indignados” tinham razão, e 84 em cada 100 opinava que as preocupações do movimento correspondiam aos problemas reais dos cidadãos» («Os “indignados” chegaram a uma encruzilhada», Nuno Ribeiro, Público, 20.06.2011, pp. 2-3).
      Quando o sujeito é composto por uma expressão de percentagem no plural (no caso, «81 por cento») seguida de um termo preposicionado (no caso, «dos inquiridos»), o verbo concorda com o termo preposicionado que especifica a referência numérica: se o termo estiver no singular, o verbo vai para a 3.ª pessoa do singular; se estiver no plural, vai para a 3.ª pessoa do plural. Difícil? Em «84 em cada 100 opinava», ainda é mais flagrante a necessidade de haver concordância. Embora nesta oração se omita o especificador, mais óbvio, se assim podemos dizer, se torna a necessidade de o verbo concordar com o número.
      Última nota: uma «sondagem da “Metroscópia”» é equivalente, imagino, a uma «sondagem da “Marktest”»... O nome é Metroscopia, e, sendo um instituto de investigação social e de opinião, não precisa de aspas.
[Texto 192]

Género: «criança»

O Público errou


      «Crianças que sonham ser campeões», escrevem os detractores-mores do Acordo Ortográfico. Mas todos os dicionários da língua portuguesa — e se isto mudou, avisem-me, que eu peço outra nacionalidade — registam que o vocábulo «criança» é do género feminino. Não sucede o mesmo com «cônjuge», pois parece que já há para aí dicionários, e eu nem quero saber quais, que admitem ambos os géneros. Ainda pensei na possibilidade de estarmos perante um tipo especial de concordância, mas não. É erro, e erro crassíssimo. Emende-se: «Crianças que sonham ser campeãs». Vamos ver se amanhã aparece na secção «O Público errou».
[Texto 182]

Particípio + substantivo

É como quiserem

      «Depois», escreveram aqui, «passados um ou dois dias habituei-me a estar com ele, mesmo nestas condições, embora uma tremenda melancolia começasse a pairar sobre a nossa relação.» Vou pôr João Gaspar Simões — coitado, tão esquecido agora, quase incitável — a responder: «Passado um ou dois meses, avisava o jornal de que, sentindo-se doente, regressava a Lisboa» (As Mãos e as Luvas: Retrato em Corpo Inteiro, João Gaspar Simões. Lisboa: Brasília Editora, 1975, p. 146).
      Anteposto ou posposto, o particípio concorda com o substantivo a que se refere. Neste caso, como o sujeito é composto, com os núcleos unidos pela conjunção ou a indicar alternativa, a concordância é feita com o núcleo mais próximo (o numeral «um»). Contudo, como há uma inversão — «Um ou dois dias passados» —, devemos admitir as duas concordâncias.
      «Magnífica como pano de fundo, para acompanhar; mas, se fica no primeiro plano, — passadas uma ou duas horas o nosso espírito, asfixiado, reclama ideias e pede acção» (Ensaios, Tomo II, António Sérgio. Lisboa: Seara Nova, 2.ª ed., 1929, p. 116).
[Texto 68]

Concordância verbal

Oiçam esta

      Depois de ter dito que «malabarismo» veio de Malabar, a região na costa ocidental da Índia e dos seus habitantes, Mafalda Lopes da Costa entrou na substância do conceito: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se podem ver fazer nos circos» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 3.05.2011).
      Numa locução verbal formada por um verbo modal (poder, neste caso), a concordância verbal é feita obrigatoriamente entre o verbo modal, o único que deve concordar em número e pessoa, e o sujeito. E qual é, na frase, o sujeito? Querem ver que é o sujeito da oração anterior, da subordinante?
      E quem escreveu no sítio do programa «Fazer Malabarismos e os Conturcionistas»? Em contorções, nas vascas da agonia, fica a língua com estes desmazelos. Todos os problemas ortográficos, comparados com este erro, são nada.

[Post 4754]


«Um dos que/uma das que»

Uma das causas… que estão

      A emissão de ontem do Jogo da Língua não merece ser vilipendiada. Mas… «A frase correcta é a B: “Essa é uma das causas que estão na origem da doença.” E porquê? Portanto, hoje no nosso Jogo da Língua temos uma questão sintáctica. O verbo estar deve ser conjugado no plural, portanto, estão, uma vez que esta frase contém dois verbos, o verbo ser e o verbo estar, que têm sujeitos diferentes. O sujeito do verbo ser é o demonstrativo “essa”, e o sujeito do verbo estar é o relativo “que”, referente ao nome “causas”. Ora, uma vez que este substantivo “causas” se encontra no plural e esse relativo “que” se refere a “causas”, então o verbo tem de ser conjugado também no plural. Se nós invertermos a ordem dos elementos da frase, perceberemos melhor. “Das causas que estão na origem da doença, essa é uma delas.” Portanto, sempre que temos a expressão um dos que/uma das que, temos sempre de ter o segundo verbo no plural» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares. Antena 1, 18.04.2011).
      Já aqui tínhamos visto esta questão, também tratada por Napoleão Mendes de Almeida, que escreveu: «Um dos que — O verbo vai para o plural ou fica no singular conforme a ação verbal se refere a todos os indivíduos ou a um só» (Napoleão Mendes de Almeida, Gramática Metódica da Língua. São Paulo: Saraiva, 3.ª ed., 1965, p. 404).
[Post 4707]

«Ser necessário»: concordância

Estilos e manias

      É outro estilo, em que só interessa o erro, não o infractor. Estilos. «Há dias, na televisão (não interessa o canal), um entrevistado (pouco importa quem) disse uma frase que fixei e que aqui reformulo, com ligeiras alterações, porque me parece boa para um pequeno desafio: Há uma série de medidas importantes que são precisas tomar o mais depressa possível» (in Língua à Portuguesa, 31.03.2011).
      A frase exacta foi esta, tão boa de analisar como a reformulada: «Há uma série de medidas importantes que serão necessárias adoptar o mais depressa possível.» Foi proferida pelo director do Diário de Notícias, João Marcelino, na RTP1 no dia 23 de Março passado, dia em que o primeiro-ministro se demitiu.
      Já aqui vimos esta questão gramatical. É necessário apenas ver se o sujeito é uma oração, infinita ou finita, ou se é um nome, e como é este representado. No primeiro caso, o verbo fica no singular; no segundo, é feita a concordância. Voltaremos a esta questão.

[Post 4654]



Concordância verbal

Sujeito composto

      «Se algum dia forem apanhados em manobras golpistas, comecem e acabem por negar tudo, todos os factos, todas as evidências. Se tiverem sido sujeitos a escutas válidas, neguem. Se um ou outro transeunte desatarem a fazer perguntas incómodas, neguem. Se os factos forem demasiados e comprometedores, neguem» («Boys em apuros: guia prático», Pedro Lomba, Público, 8.03.2011, p. 40).
      Das «evidências» já estamos cansados, mas não é disso que quero falar. Reparem nesta frase: «Se um ou outro transeunte desatarem a fazer perguntas incómodas, neguem.» Estará correcta? Sim, está. Como também não estaria incorrecta com o verbo no singular, uma vez que a ideia expressa pelo predicado, como ensina E. Bechara, se refere a toda a série do sujeito composto: «Se um ou outro transeunte desatar a fazer perguntas incómodas, neguem.»

[Post 4541]

«Gay/homossexual»

Lamentável


      «Alguns dos operários despediram-se, por julgarem que ao trabalharem sob o arco-íris das Pinturas Zeitoun iria supor-se que eles eram gay, que por qualquer motivo a empresa somente conseguia contratar pintores gay» (Zeitoun, Dave Eggers. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2010, p. 24).
      Não sei o que pode levar um tradutor a deixar no original a palavra «gay». O pouco respeito pela língua, talvez. Então já não se diz «homossexual»? Escrevo este texto, porém, por outro motivo: então e a concordância? Já não se sabe distinguir substantivo de adjectivo?

[Post 4329]

Concordância

Só faltava esta


      No próximo ano, vai realizar-se um novo recenseamento da população. Vejam o que se lia no Correio da Manhã: «Censos pergunta orientação sexual». Aqui também me deve ter escapado alguma coisa. Mas é título, dei o desconto. Contudo, o jornalista, Bernardo Esteves, começa mal: «O Censos do próximo ano vai questionar pela primeira vez os portugueses sobre a sua orientação sexual, e a resposta é obrigatória.» E mais: «É obrigatório responder ao Censos, sendo a recusa punida com pagamento de coima entre 250 a 25 mil euros.» (E eu que pensava que a recusa seria punida com a coima, mas não...) Mas também Paulo Côrte-Real, da ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), afirmou que «esta inovação do Censos poderá ser útil». Suspeito, porém, que o jornalista até a mim me poria a dizer estes disparates.
      Senhor jornalista, senhora revisora, então «censos» não é um plural? Ou pensam que se trata de vocábulo semelhante a «cosmos»? Parece-me simples: quando, em 1970, se realizaram, pela primeira vez e simultaneamente, os recenseamentos da população e da habitação, o vocábulo «censo» passou a ser usado no plural — «censos». Ora, a alteração exige mudanças na concordância, ou achavam que não? Valha-nos Deus...

[Post 3702]

Concordância verbal

Gostos e desgostos


      «O homem que nunca muda de opinião é como água estagnada e gera répteis da mente», William Blake. Mas ainda é cedo para mudar de opinião. Só quero dizer isto (e, estranhamente, os leitores estranham sempre que me pronuncio sobre os meus gostos): detesto a palavra «pedaço» para me referir ao tempo. «Durante um bom pedaço cada um disse e repetiu as loucuras que lhe vinha à mente sem que nada lhe parecesse asneira» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 122). «Valia mais que dissesse alguma coisa de substancial sobre a frase», estarão a murmurar alguns leitores mais exigentes. É para já: o verbo tem de estar no plural: «as loucuras que lhe vinham à mente».

[Post 3577]

«Passados alguns dias»

Olhe que não


      «Tudo aquilo foi tão excitante e dramático que só passado alguns dias é que comecei a sentir o peso de ter conhecimento dessa Outra Mulher» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 102).
      Senhora tradutora, senhora revisora: «passado» concorda com que palavra? Nenhuma? Com que então poderá ter adquirido «valor preposicional», hã? Não se diga tal. A língua portuguesa tende sempre — é uma verdade tão evidente que eu próprio às vezes me esqueço dela — para a concordância, e não se queira agora transpor para a escrita todo o desleixo, toda a espontaneidade, toda a liberdade da oralidade. Ela pode não aguentar. Nem nós.

[Post 3452]

«Ser preciso»

É igual


      «É precisa uma raça de adultos extraterrestres para desfazer a desordem geral e depois mandar toda a gente cedo para a cama» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 148).
      Aproveito para exemplificar com esta tradução, pois ainda anteontem me perguntaram: nas expressões ser preciso e ser necessário, o verbo fica na 3.ª pessoa do singular e o adjectivo no masculino singular ou, como se vê na citação, a concordar com o sujeito posposto? É indiferente.

[Post 3425]

Concordância

Esmiuçar as faltas

      «Nos estúdios da SIC, Ricardo Araújo Pereira, em tom jocoso, foi avisando. Estava ali para entrevistar o primeiro-ministro José Sócrates, “não para o hostilizar”. Guardava o confronto para “os professores e os enfermeiros”. Mas na primeira entrevista de 11 minutos do ‘Esmiúça os Sufrágios’, ontem à noite na SIC, não faltou perguntas “marotas”» (“Gosto do humor ‘non sense’ deles”», Eugénia Ribeiro, Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 43). Na notícia, faltaram os conhecimentos gramaticais. Falta sempre qualquer coisa.

Concordância: «tipo de»


Livro de reclamações

      Um anónimo — que assina Blueangelwoman — ficou estomagado com uma observação que eu fiz, num texto de Março de 2008, à pronúncia do adjectivo «revolta» ouvida no programa Boulevard, na Antena 2. «Um dia», escreve Blueangelwoman, e começa a frase com minúscula, mas espero que seja lapso, «explicará com certeza, neste seu espaço semi-jactancioso, o que é uma rádio “não cultural” e, já agora, o que é a “não cultura”...» Primeira pista: quem comenta é apenas semiletrado, pois que o prefixo semi- se liga por hífen ao elemento seguinte apenas quando este começa por h, i, r ou s. Logo, semijactancioso. (Mas há quem assegure que é — ou são, o espaço e o autor — jactancioso. Opiniões.) Blueangelwoman ainda me pergunta: «Ou será que o que queria dizer com rádio cultural era rádio erudita?» Não queria, e apetecia-me mesmo acrescentar que convém saber onde estamos… Era mesmo rádio cultural. Veja por aí. E sentencia: «Parece-me que este tipo de desleixos (da ordem da terminologia) também não fazem muito bem à nossa Língua.» É aceitável mas não o mais correcto fazer concordar o verbo com o complemento determinativo («de desleixos»). Prefiro, sem jactância, a concordância do verbo fazer com o sujeito singular tipo, Logo: «Parece-me que este tipo de desleixos (da ordem da terminologia) também não faz muito bem à nossa Língua.» Um consolo: é cordato, pois despede-se com um «atenciosamente». Não esperava menos de um anjo.


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