«Falsos Palolo»?

Não pode ser

      Há diversos tipos de falta de concordância, de desconcordância. «De qualquer forma, a quantidade de falsos Palolo encontrados aponta para um inundar do mercado onde muitas das falsificações podem ter entrada [sic] há já bastante tempo» («Mais de 300 pinturas falsas de Palolo e Paula Rego apreendidas pela PJ», Vanessa Rato, Público, 25.05.2013, p. 28).
[Texto 2891]

«No último Censos»!

Agora é assim

      «Carlos Santos é um dos milhão e 200 mil idosos que vivem sozinhos em Portugal. O número foi identificado no último Censos, que mostra que 60% da população idosa vive sozinha ou na companhia de outros idosos» («Isolados. Para lá dos 65 anos há uma luta escondida contra a solidão», Filipe Morais, i, 25.05.2013, p. 18).
      Aqui falei de alguém normal. Mas agora isto é que vai sendo a norma, escrever com flagrantes desconcordâncias.
[Texto 2888]

«O mais possível»

Descomplicando

      Outro excerto da conversa do crítico literário e escritor Eduardo Pitta com Luís Caetano, na edição de ontem do programa A Força das Coisas: «É complicado [fazer a crítica de obras de amigos], mas enfim, temos que tentar ser o mais honestos possíveis.»
      Nas construções «o mais», «o pior», «o melhor», o adjectivo «possível» permanece no singular, porque no singular se encontra o artigo definido.
[Texto 2856]

Concordância com numerais

Não pode ser

      «A Alma’s Design fechou em Março um acordo para passar a ser o fornecedor de vasos do IKEA. A primeira encomenda ultrapassará as quatro milhões de peças, estimando a empresa de Águeda que, em termos acumulados, o negócio valha perto de cinco milhões de euros nos próximos três anos» («Empresa de Águeda vai fornecer quatro milhões de vasos ao IKEA», António Larguesa, «Negócios mais»/Negócios, 13.05.2013, p. 4).
      «Milhão» não é um substantivo do género masculino? Então qual é a dúvida? E não está subentendido o vocábulo «loja» a anteceder IKEA? Logo, «a IKEA». (A empresa é portuguesa, centenária e chama-se Alma’s Design? Hum...)
[Texto 2841]

«Os Censos»

Alguém normal

      «No ano 2050, um em cada três portugueses terá mais de 65 anos. A projeção é retirada dos Censos 2011, que revela que o País pode estar a caminhar para o envelhecimento generalizado da sua população. Atualmente, por cada cem jovens Portugal tem 129 idosos, uma tendência que se pode agravar com a atual crise económica» («Portugal já tem cem jovens para 129 idosos», André Rito, Diário de Notícias, 6.12.2012, p. 14).
      Ainda ontem ouvi na Antena 1, e ouço e leio com alguma frequência, «o Censos». Também já tínhamos visto esta falta de concordância no Assim Mesmo.
[Texto 2406]

Verbo «importar»

Têm importância — importam

       «Não importa aqui traços culturais como, etc.», escreve o nosso autor — mas mal. O verbo já não concorda com o sujeito? No sentido de «ter importância, ter interesse», como intransitivo, o verbo «importar» é frequentemente sujeito a este erro. Qual a dificuldade? Não está o núcleo do sujeito no plural? Então...
      «Muito zombeteiro estulto, muito praguento sem alma, há-de fechar o livro neste passo; mas como Vossa Majestade o leia, e há-de lê-lo, pouco importam aqueles desdéns» (O Outono, António Feliciano de Castilho. Lisboa: Imprensa Nacional, 1863, p. XIII [actualização ortográfica minha]).
[Texto 2308]

«Preciso»

Parece invariável

      «Preciso. — Bons escritores cometem erros feios por falta de reflexão. Exemplo: “Para traduzir êsse poder de visão era-lhe preciso uma língua ágil e vibrante”.
      Correcto será: “Era-lhes precisa uma língua...”, assim como: “Para pregar o quadro na parede são-me precisos pregos e é-me preciso um martelo. Ao sapateiro são precisas tachas para pregar os tacões”. O adjectivo concorda com o substantivo em género e número, diz a gramática elementar; mas, como nas expressões é preciso trabalhar, é preciso viver (ou necessário, indispensável, etc.) parece invariável, esta aparência faz escorregar muita gente naquela incoerência» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 249).
[Texto 2218]

«Uma das top model»?!

Esta não anda

      «Namorar com uma das top model mais aclamadas dos últimos tempos parece não ser o suficiente para o craque da bola. De acordo com informações publicadas na última edição da revista italiana Novella 2000, Cristiano Ronaldo teria tentado uma aproximação com a namorada de Boateng» («Ronaldo troca mensagens com noiva de Boateng», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 13.10.2012, p. 53).
      Agora já não fazem a concordância em nenhuma língua, nem em português nem em inglês. Então não é «uma das top models»? Tão mal andamos?
[Texto 2201]

«Horas extras»

Nisto são constantes

      «O Ministério da Saúde tem mais uma proposta para apresentar na reunião de terça-feira à classe médica: só vai pagar 50% do valor das horas extras» («Ministério quer pagar 50% do valor das horas extras a médicos», Diana Mendes, Diário de Notícias, 26.08.2012, p. 15).
[Texto 2005]

«Sofás creme»

Está nas gramáticas

      «O mobiliário que decorava o átrio era Luís XV, ou imitava bem, com sofás cremes e cadeiras forradas a couro branco» (O Codex 632, José Rodrigues dos Santos. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 115).
      A maioria dos nomes das cores são, como se sabe, adjectivos, que, é óbvio, se flexionam normalmente e concordam com os nomes que qualificam. Alguns, porém, são substantivos, e nesse caso não se flexionam. Logo, sofás [de cor] creme.
[Texto 1995]

«Autocarros expressos»

Não percebo a dúvida

      «Junto da comunidade portuguesa mais abastada, conseguimos então um emprego para o filho mais novo numa empresa de autocarros expresso.» Expresso, o comboio ou camioneta que vai do local de partida ao de chegada sem fazer paragens, é substantivo e adjectivo. Como adjectivo, concorda com o nome que qualifica: autocarros expressos.
[Texto 1955]

Concordância

Nada de novo

      «Mas a ideia da empresa é homogeneizar a sua presença na Internet, demasiado dispersa (daí a decisão de eliminar os produtos com a marca Windows Live). O Outlook torna-se, segundo a Microsoft, “um e-mail moderno desenhado para as próximas mil milhões de caixas de correio”» («Um milhão de pessoas adere ao substituto do Hotmail», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 3.08.2012, p. 46).
      Então o vocábulo «milhão» agora mudou de género, cara Ana Rita Guerra? Identifique o sujeito da frase, se faz favor.
[Texto 1915]

«Ser necessário»

É preciso saber

      Nuno Crato, ministro da Educação, ontem no Telejornal: «Nós estamos a trabalhar para o estabelecimento de metas que ajudem os professores, os alunos, os pais, os autores de manuais, os autores de exames a ter muito mais claro quais são os objectivos que em cada ano são necessários atingir.»
      Nas locuções ser necessário e ser preciso, o predicativo, como se sabe, pode não concordar com o sujeito, e é mesmo, hoje em dia, o mais habitual. A concordância do verbo e do predicativo com o sujeito encontra-se com frequência em autores clássicos. É conhecida a frase do padre António Vieira para o ilustrar: «Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho» (Sermão da Sexagésima). A frase do ministro está, pois, errada, já que o sujeito é um verbo no infinito, «atingir».

[Texto 1798]

«Aguarda-se conclusões»!

Aguardam-se notícias

      João Adelino Faria no Telejornal de ontem: «Esta reunião de todos os governantes terminou há minutos. Aguarda-se a qualquer minuto, então, as conclusões desta reunião, em domingo, do Governo.»
      Vamos pôr o duque de Palmela a ensinar-lhe como deve ser: «Não se perdeu ainda a esperança de induzir os turcos a retractarem-se das ameaças contidas no seu manifesto, e de ter mão por outro lado na Rússia; e aguardam-se ansiosamente as primeiras comunicações de S. Petersburgo» (Despachos e Correspondência do Duque de Palmela, tomo III, coligidos por J. J. dos Reis e Vasconcellos. Lisboa: Imprensa Nacional, 1854, p. 433 [ortografia actualizada por mim]).
[Texto 1727]

Ainda ontem

Um erro valente

      «Agora, a mais de meio caminho, talvez seja a altura para falar das perplexidades que me trouxe o Euro 2012. Não que não tenha visto os jogos de Portugal com um relativo prazer e até com uma certa ansiedade; e não também que não se tenha já escrito centenas de páginas sobre o assunto» («Rir ou chorar?», Vasco Pulido Valente, Público, 23.06.2012, p. 56).
      É melhor chorar. Se até Vasco Pulido Valente já escreve assim, que nos resta nesta triste vida? Qual padre António Vieira... Pode ser o cunhado de Jorge de Sena a responder: «Com efeito, e em que pese a todas as Imitações de Cristo que se tenham escrito ou exemplarmente vivido, nem mesmo um crente católico pode considerar como sendo já definível um Modelo acabado (ou, em termos psicanalíticos, um Superego) daquela plenitude humana moral e estética acessível a qualquer pessoa, quando as próprias estruturas de relação social humana permanecem instáveis, sabe-se lá por quantos séculos ainda» (Entre Fialho e Nemésio, Óscar Lopes. Lisboa: INCM, 1987, p. 534).
[Texto 1724]

«Centenas de milhar»

Essa não

      «Em Fátima, centenas de milhar de peregrinos assistiram à eucaristia presidida pelo cardeal D. Gianfranco Ravasi» (Rui Sá, Telejornal de ontem).
      Não é necessário, creio, que venham especialistas dizer que não há qualquer razão gramatical que justifique a falta de concordância de «milhar» quando é antecedido por outro numeral também no plural.

[Texto 1515]

«Os milhares»

Em branco

      Daniel Ribeiro, correspondente da Antena 1 em França, no noticiário da 1 da tarde: «“Eu voto branco. Vocês façam como quiserem.” Foi assim que Marine Le Pen se dirigiu às milhares de pessoas que se reuniram na Praça da Ópera, em Paris.»
      Daniel Ribeiro, então já não sabe de que género é a palavra «milhar»? Marine Le Pen disse: «Dimanche, je voterai blanc.» A tradução não deveria ser «domingo, votarei em branco»?
[Texto 1448]

Concordância

[Sem título]

      «Num daqueles filmes de merda que, tal como o cagar, são necessidades, sem as quais não se está bem (o Final Destination 5), um professor ignóbil pergunta retoricamente a um dos relutantes discípulos: “Qual é a coisa que jamais se consegue reciclar?” A resposta, claro, é o “tempo desperdiçado”. Só vi os primeiros dez minutos – não desperdicei a hora e tal que faltavam – mas foi o suficiente para absorver a mensagem» («O destino, entretanto», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.08.2011, p. 33).
      Uma e tal não são dois. Isto precisa de um psiquiatra: «Agora já só um mês e tal nos separa, meu amor. Esperemos que irá passar o mais depressa possível! Só Deus sabe a vontade que tenho de te ver e de te abraçar! A falta que tu, meu amor, me fazes, não há palavras que a possam exprimir!» (D’Este Viver aqui Neste Papel Descripto: cartas da guerra, António Lobo Antunes. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, p. 262).
[Texto 410]

Concordância

Aprender com os melhores

      «Esta gafanhotice literária só é possível com e-livros, seja qual for o e-leitor. Com uma pilha de livros, mesmo sendo-se afoito, dá um certo trabalho mudar de comboio. Então numa esplanada. Não: as voltas do Kindle sou eu quem as dou» («O vira dos livros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.08.2011, p. 39).
      Fosse a frase analisada por Mimi Costa, que provavelmente não liga a gralhas, no Algodres Online e a sentença seria breve: «[...] o pronome relativo “quem” (que é um pronome da 3. ª pessoa do singular e significa “a pessoa que”), obriga a utilizar sempre essa 3.ª pessoa do verbo (fez). Assim, evite dizer: “sou eu quem escrevo” ou “são eles quem resolvem”». Quase desapareceu da escrita literária, mas a verdade é que é absolutamente correcta esta concordância com o pronome relativo quem. Nestes casos, citam-se exemplos de Fernando Pessoa («Sou eu quem descrevo»), Jorge Amado («Eram os filhos, estudantes nas Faculdades da Baía, quem os obrigavam a abandonar os hábitos frugais») e, para os mais exigentes, Rui Barbosa («Sou eu quem perco») ou Gonçalves Dias («Sou eu quem prendo aos céus a terra»).
[Texto 391]

Concordância

Ora toma: verbo identificacional

      Filomena Crespo não se conteve: «Isto hoje não é difícil. Pode baralhá-la um bocadinho, mas não é difícil.» «Qual destas frases é que está gramaticalmente correcta? «a) O que o turista pretende é apenas informações. b) O que o turista pretende são apenas informações.»
      «Dra. Sandra, ajude-nos lá nesta resposta. Será que está correcta, não está correcta...» «A frase correcta é a frase b: “O que o turista pretende são apenas informações.” No nosso Jogo da Língua de hoje, mais uma questão sintáctica. Regra geral, o predicado concorda com o sujeito. Portanto, o sujeito desencadeia a concordância verbal. Mas quando nós estamos perante o verbo “ser” identificacional, que é o caso, há uma regra sintáctica da língua que diz: o sujeito concorda com o elemento... o verbo, aliás, o verbo “ser” vai para o plural se houver um elemento no plural, mesmo que seja o predicativo do sujeito, que é o caso. “Informações” não é o sujeito da frase. “Informações” é o predicativo do sujeito. Mas como estamos perante o verbo “ser” identificacional, o verbo ser vai concordar, neste caso é uma excepção na língua, concorda com o predicativo do sujeito. Querem mais exemplos? “A vida não são rosas” e não “a vida não é rosas”. “A vida”, que é o sujeito, perde aí o... o... autoridade sobre a concordância. “A vida não são rosas.” “O casamento não são rosas”. “O que o turista pretende são informações.” Alínea b).»
      Não há unanimidade em relação a esta questão, apesar do que possa parecer. Queiram ver as páginas 22 e 23 da Sintaxe Histórica, aqui ao lado, e as páginas 558 e seguintes da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 37.ª ed., 2002).

[Texto 351]

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