«Desde Madrid/de Madrid»

Que desgosto

      Ora leiam com atenção: «Para aquele perito, que testemunhou desde Madrid por videoconferência, a morte do jovem foi causada por um golpe de calor» («Óbito de escuteiro está em tribunal: morte súbita ou golpe de calor?», Licínio Lima, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 21).
      Não escreva assim, ¡caray!, caro Licínio Lima. Então não sente que isso não é português? O uso da preposição «desde» em vez da preposição «de» nesta construção é tipicamente castelhano. Eu já tinha falado neste erro, mas os jornalistas ainda eram novos.

[Texto 293]

«Acampada»

«Acampada», arruada...

      «“Este é um encontro de pessoas que estão mais indignadas do que nunca”, disse Paulo Cardoso, do Inter-nacional, um dos grupos nascidos na “acampada” do Rossio e que agora lançou o convite a outros colectivos para um debate além-fronteiras, inédito em Portugal e que ontem foi transmitido para várias praças europeias através da Internet» («‘Indignação’ europeia esteve sediada em Lisboa», Ana Fonseca Pereira, Público, 11.07.2011, p. 16).
      Nos jornais ainda temos o asseio das aspas (embora, no caso particular do Público, o mau uso e a banalização deste sinal gráfico tenha levado ao esvaziamento do seu significado), mas na rádio nem isso temos. Nas últimas semanas, tem sido raro o dia em que não ouço nos noticiários da Antena 1 alguém usar a palavra. Mais um castelhanismo: «acción y efecto de acampar».
[Texto 289]

«Manilargas»?

O mãos-largas

      «Vêm aí dias sovinas. Os manilargas de outrora, dos grandes projectos e das obras do regime, vão ser substituídos (às vezes sem ser preciso mudar de pessoal) por forretas públicos, que cortam e contam todos os cêntimos que se atrevam a ser avulsos» («O futuro forreta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 9.04.2011, p. 35)
      Miguel Esteves Cardoso também poderia ter escrito large-handed ou openhanded — mas preferiu o termo espanhol. Manilargo(a) é espanhol e significa o que tem mãos compridas. Em sentido figurado, é liberal, generoso. Também em sentido figurado, mas não registado no DRAE, é o ladrãozeco (ladronzuelo), que não o ladravaz. (E lembram-se de Artaxerxes Longímano?) Quando li a crónica, julguei recordar que José Pedro Machado registara a palavra, mas não. Regista, isso sim, manilongo, e a Real Academia Española devia copiar o verbete: «Manilongo, adj. e s. Que ou o que tem mãos longas.║Fig. Influente, poderoso.║Larápio.» Não me surpreendia que tivesse sido usado por algum autor português (e agora por dois), mas manifestamente não precisamos do vocábulo. Temos um só nosso.

[Post 4672]





(A propósito de coisas nossas: já está na barra do lado direito a hiperligação para a Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio Augusto da Silva Dias, um dos heróis de Montexto. Descarreguem e leiam-na.)


«À diferença de»?

Também reclamamos


      «Numa 6.ª-feira dia 13, a Ensitel passou três vezes debaixo de escadas, partiu dois espelhos e cruzou-se com um gato preto, pelo que não pode queixar-se de azar por ter tropeçado numa cliente habituada a fazer valer os seus direitos (à diferença da maioria dos portugueses que se queixam muito mas reclamam pouco), e que, ainda por cima, coordena a comunidade de blogues do Sapo e é mais célebre e influente nas redes sociais do que a batata frita» («O misterioso caso do ‘Nokia E71’ às escuras», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 13.01.2011, p. 9).
      ¿Qué tenemos aquí? Posso estar enganado, mas em Portugal nunca ouvi a expressão. Em Espanha, sim: a diferencia de. Locução prepositiva para «denotar la discrepancia que hay entre dos cosas semejantes, o comparadas entre sí». Lá por usarmos «à semelhança de» não quer dizer que possamos usar «à diferença de».

[Post 4321]

Tradução

HERALDO.es


      A edição de ontem do Diário de Notícias tinha pelo menos mais um espanholismo. Nas páginas 6 e 7, mencionava-se a fortuna conhecida de algumas personagens que ficaram na História. Se, por um lado, fiquei satisfeito por ver que a minha fortuna se aproxima muito, se não a ultrapassa, do património deixado por Lewis Carroll, deixando muito para trás o pobre Karl Marx, por outro, não gostei de ler, também numa má tradução do espanhol, que o explorador polar anglo-irlandês Ernest Shackleton (1874–1922), «após más inversões», «perdeu parte da sua fortuna». Mal traduzido daqui — e sem indicação da fonte. Oh, vergonha! Este jornal costumava ser mais sério.

[Post 3780]

«Selecção aleatória»

Sem rumo nem ordem


      «O homem também desenvolveu novas espécies vegetais como o triticale (pelo cruzamento, há mais de 540 anos, de trigo e centeio, obtendo uma planta mais rústica que o trigo mas mais performante que o centeio) ou as nectarinas, pelo cruzamento entre o pêssego e a ameixa. Fê-lo pelo método tradicional de selecção, introduzindo genes ao azar. Nos organismos geneticamente modificados (OGM), por seu lado, apenas se transfere o gene pretendido, por processo controlado» («Biotecnologia na Agricultura», Gabriela Cruz, Diário de Notícias, 12.08.2010, p. 51).
      Se pensam que vou implicar com aquele performante, não se enganam muito — e afirmo mesmo que é uma vergonha que se usem estas palavras. Mas, na verdade, atraiu muito mais a minha atenção a locução ao azar, que não passa da má tradução da locução espanhola al azar.
      «Método tradicional de selecção» — por vezes, também numa má tradução, dita selecção randómica, vergonhosa e desnecessariamente decalcado do inglês random selection. Em espanhol é, já terão adivinhado, selección al azar.

[Post 3779]

«Não tem de quê»/«De nada»

¡Muchas gracias!


      «— Não tem de quê. Faz bem em descansar uns dias depois do que passou para chegar aqui» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 114).
      Quando é que deixámos, generalizadamente, de dizer «não tem de quê» e passámos a dizer «de nada»? Não sei. E quem tem a noção de que esta última resposta à fórmula de agradecimento é um castelhanismo? No Portugal Protocolo, ainda não se esqueceram.

[Post 3535]

«Amassar fortuna»?

Falso amigo


      O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, já passou aqui por este blogue e nunca por boas razões. Ontem vimo-lo na televisão a defender que «é preciso romper este círculo vicioso» de alternância PS-PSD. E mais: «Enquanto continuar este rotativismo entre PS e PSD, com a bengala do CDS, a banca e os heróis do PSI20 continuarão a encher os bolsos e a amassar fortunas à custa do povo e do país», lamentou o líder comunista.
      Já o tinha ouvido mais de uma vez falar dos que «amassam fortunas», mas distraí-me sempre e não disse aqui nada. De hoje não passa: amassar fortunas não é português, e só estranho que ninguém tenha advertido o líder. (Caro Ruben de Carvalho, dê uma palavrinha a Jerónimo de Sousa.) Amasar fortuna (ou bienes) é espanhol e significa reunir, acumular fortuna (ou bens).

[Post 3526]

Espanholismo

Olé!


      «Todo um blockbuster, com mais entradas do que mostras de grande público como A Evolução de Darwin, que no ano passado se tornou na exposição temporária mais visitada de sempre em Portugal (161 mil visitantes na Gulbenkian). Mais entradas também do que o inesperado sucesso que foi a retrospectiva em 2006-2007, ainda na Gulbenkian, de Amadeo de Souza-Cardoso, que superou as 100 mil visitas» («Joana Vasconcelos é todo um blockbuster de 168 mil visitantes», Clara Campanilho Barradas, Público, 20.05.2010, p. 44).
      Sim, há males maiores, mas um espanholismo assim tão evidente e escusado perturba sempre muito. E ainda mais no título: es todo un. Se não têm tempo de rever tudo (não são, sequer, revisores), espera-se ao menos que façam o que dizem que lhes compete fazer: «os copydesks dedicam especial atenção a títulos, pós-títulos, entradas, legendas, início e fim dos textos; conferem ainda a observância das regras gráficas mais relevantes que caracterizam o PÚBLICO».
      Na conversa de ontem, a copidesque do Público referiu enfática e repetidamente a questão que a deixou de cabelos em pé: chegou um dia ao jornal (os conluios, é da própria definição, são sempre nas nossas costas) e viu que se tinha começado a usar o termo da linguagem desportiva «contra-relogista». «Uma coisa abstrusa, impensável. Como é que pode ser? O que é um “relogista”?»
      Procurei saber quantas palavras temos em português começadas por contra- e acabadas com o sufixo nominal -ista (e o verbete relativo a este sufixo está deficientemente redigido, incompleto, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). São quatro: contrabaixista, contrabandista, contrapontista e contratista. Depressa descobri que não era aqui que estava a resposta (até porque não é o radical que atribui categoria sintáctica à palavra), mas tão-somente em saber a que palavras se acrescenta o sufixo. Junta-se a substantivos, simples (alarmista) ou compostos (água-tintista) e a adjectivos, simples (acacianista) ou compostos (zen-budista). Sendo assim, não vejo qual é o problema com o neologismo «contra-relogista».
      Para terminar: grave é aquele blockbuster, ainda para mais repetido. E parece-me usado com pouca propriedade.

[Post 3483]

Ranking/escalafón/classificação

Mais português


      «Rivera Ordoñez é considerado um dos artistas mais bonitos e elegantes de Espanha a par do seu irmão, o também matador de touros Cayetano. Há vários anos que o seu nome é presença assídua no escalafón dos melhores matadores de touros e, no ano passado, recebeu a medalha de ouro das Belas Artes pelos reis de Espanha» («Vai ouvir-se guapo! no Campo Pequeno», 24 Horas, 19.3.2010, p. 30).
      Em Portugal, talvez só um amante da tauromaquia saiba o que é o escalafón. É verdade que o contexto é quase auto-explicativo, mas não chega. Escalafón é qualquer tabela classificativa. («Lista de los individuos de una corporación, clasificados según su grado, antigüedad, méritos, etc.», define o DRAE.) Em Espanha, qualquer falante sabe o que é o escalafón — apesar de, em todos os contextos não relacionados com a tauromaquia, ter vindo estupidamente a ser substituído pelo anglicismo ranking, que também tomou conta da cabeça dos Portugueses. No ténis, por exemplo: algum jornalista se atreve a escrever «tabela classificativa [ou classificação] da ATP»? Não, tem de ser «ranking ATP»: «O francês Jo-Wilfried Tsonga fecha os primeiros 10 jogadores do ranking ATP, por troca com o chileno Fernando Gonzalez, que baixou para o 11.º lugar» («Nadal baixa para o 4.º lugar do ranking ATP», Diário de Notícias, 22.3.2010).
      Ah, sim: escreve-se Belas-Artes (Bellas Artes em espanhol), erro já aqui referido.

[Post 3269]

Espanholismo

Com licença


      «Um dos seus livros levou o título A Igreja com Rosto Humano. Esta pode ser uma ideia-síntese da sua vida, actividade e obra publicada. Foi um dos teólogos que mais influenciaram a doutrina de abertura do Concílio Vaticano II (1962-65), que procurou dessacralizar a estrutura da Igreja e se envolveu no seu aggiornamento. Edward Schillebeeckx, padre da Ordem dos Pregadores (dominicanos) e teólogo, morreu dia 23, antevéspera de Natal, em Nimega (Holanda), aos 95 anos» («O teólogo best-seller que quis pôr o catolicismo a falar com o mundo», António Marujo, Público, 27.12.2009, p. 13). «Levou o título»? Pode não ser, mas cheira-me a espanholismo. Parece-me o llevar na acepção tener, estar provisto de. A propósito, o étimo, é claro, é o mesmo, o latino levāre, que significava «levantar».
      Neste mesmo texto de António Marujo, também se lê: «No Vaticano II, o teólogo deixou a sua marca de água em dois documentos fundamentais: as constituições Dei Verbum, sobre a revelação divina, e Lumen Gentium.» Não seria melhor ter escrito somente «marca»? É que o vocábulo, nesta acepção, já é um sentido derivado: traço distintivo por que se reconhece alguém ou algo; estilo ou maneira pessoal. Para que é preciso a locução?

[Post 2943]

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