Acordo Ortográfico

Fahrenheit 451

      Só hoje vi o novo livreco da Porto Editora sobre o Acordo Ortográfico de 1990. Já tinha lido isto no sítio da editora: «Entretanto, a Porto Editora anuncia a publicação de Acordo Ortográfico — As Novas Regras, Todas as Palavras que Mudam, um livro prático que promete constituir-se numa edição de referência para todos os portugueses.»
      Ora vejamos só um exemplo de como a publicaçãozinha não merece que se depositem nela tais esperanças. Página 29: «cor-de-rosacor-de-rosa ou cor de rosa». A sério?! Mas no n.º 6 da Base XV («Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares») do AOLP pode ler-se: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).» Não queria ler mais, mas ainda li na mesma página isto: «cor-de-laranjacor de laranja». Chega: isto não é gato por lebre, é papel por livro. Desembrulhe, se faz favor.

[Post 4643]

Acordo Ortográfico

Consagradas pelo uso


      Consultei o verbete «cor-de-rosa» no Dicionário da Língua Portuguesa 2011 da Porto Editora. Resumo: «cor-de-rosa aAO ⇒ cor de rosa dAO». Como? Contudo, a Base XV («Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares»), n.º 6, do AO90 estatui: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).» E seguem-se exemplos de locuções substantivas, adjectivas, pronominais, adverbiais e prepositivas, mas que não vêm ao caso, pois já estamos servidos: «cor-de-rosa» é uma excepção indicada pela própria norma, não há necessidade de interpretar o dúbio «salvo algumas exceções já consagradas pelo uso». Experimentei (mais uma vez, lembram-se?) o corrector ortográfico da Porto Editora, tão apregoado junto dos professores. Escrevi a seguinte frase: «De facto, comprei uma mini-saia cor-de-rosa.» Resultado: «6 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Mas o vocábulo «facto» aparece assinalado de outra cor. E depois estoutra: «De facto, comprei uma minissaia cor de rosa.» Resultado: «8 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Só o vocábulo «facto» aparece assinalado de outra cor.
      Imaginem agora o que será quanto a todas as outras palavras que, não estando exemplificadas pelo texto do AO90, poderão estar abrangidas pelo conceito quase indeterminado «salvo algumas exceções já consagradas pelo uso». Temo o pior.
      Lia-se hoje no Diário de Notícias: «A Porto Editora adopta hoje o novo Acordo Ortográfico, passando a utilizar a nova grafia em todos os documentos e no sítio oficial, para lá de lançar um guia prático e reformular o conversor online. “Contém tudo o que é necessário saber sobre a nova grafia”, resumiu fonte da editora à Lusa» («Porto Editora vai adoptar nova grafia», Diário de Notícias, 1.03.2011, p. 18). Espero é que não usem o conversor deles.

[Post 4505]

Acordo Ortográfico

Ensandeceram

      Relativo a matéria? Matérico. Inopcidade (?). Linguagem de filósofo, mas não é disto que quero falar. No laboratório, vejo que alguns escrevem (e não são professores de Física disléxicos) «fição», outros escrevem (e não são cegos) «diotrias». É o novo acordo ortográfico e são professores que assim escrevem. Pês e cês é tudo para deitar abaixo a esmo e a eito. Vamos a ver se o que sobra é legível.

[Post 4488]

Acordo Ortográfico

Últimas

      Já há pessoas, compatriotas nossos, gente à primeira vista normal, que dizem e escrevem afoitamente «assumpção», autorizadas, julgam elas, pelo Acordo Ortográfico de 1990. É só mais um delírio. Não veio Gonçalves Viana acabar, em 1911!, com esta grafia? Está a par da «dição».

[Post 4483]

Acordo Ortográfico

Cardíaca

      No laboratório, de novo. Trinta professores de Português. Um diz: «Saliento, pois, a maior aproximação agora vigente da escrita e da fonética, sobretudo na síncope das consoantes mudas.» Ora, eu pensava que tal fenómeno fonético é a supressão de um fonema ou sílaba, e as consoantes mudas ou não articuladas são meros grafemas. Outro, demonstrando saber manipular a sinonímia, já chama «duplicidade» à dupla grafia... Doblez ou mesmo, com um sabor mais arcaico, dobrez lhe chamaria Vasco Graça Moura. Agora sim, já estou mesmo convencido: vão-se cometer as maiores barbaridades na aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. E os algozes serão os professores.

[Post 4480]


Acordo Ortográfico

Enterro da língua

      Vasco Graça Moura continua a zurzir no Acordo Ortográfico de 1990. Transcrevo o mais relevante: «A maneira como essas entidades [parte da comunicação social] se prestaram a acatar uma ignomínia, aliás inaplicável, que dá pelo nome de Acordo Ortográfico é eloquente: para não falar já nas trapalhadas relativas ao emprego do hífen e ao uso de maiúsculas e minúsculas, acontece que ninguém é capaz de fazer funcionar correctamente as suas regras, por ser impossível determinar, no tocante às chamadas consoantes mudas, quando é que elas se mantêm, por serem pronunciadas num ou noutro dos lados do Atlântico, e quando é que elas se suprimem, por não o serem em nenhum deles.»
      Quanto ao hífen, concordo: as regras relativas a este sinal não vieram, como se impunha, simplificar o seu uso. Quanto às regras sobre o uso das maiúsculas e das minúsculas, é matéria menor.
      VGM continua: «Não fez impressão a essas luminárias que, para escrever “correctamente” a sua própria língua, um cidadão português tenha de saber como é que ela se pronuncia num país estrangeiro... E agora as coisas estão a ser levadas ao extremo do inconcebível: não se sabendo como aplicar o Acordo, vai-se mais longe do que o previsto no seu próprio texto e zás!, varre-se de uma penada consoantes que não são mudas e continuam a ser pronunciadas no Brasil! De maneira que se gera um novo fosso ortográfico da asneira, ainda mais absurdo do que o texto que é invocado.» 
      Posso estar enganado, mas para a aplicação das regras da Base IV do AO90 não se impõe o conhecimento de «como é que ela se pronuncia num país estrangeiro».
      Há-de referir-se ao Brasil, porque os restantes países de língua oficial portuguesa não parecem contar muito. VGM escreve ainda: «À sombra do Acordo estão a ser criminosamente fabricadas grafias anómalas que o Brasil não aceita nem pratica. E continua a não constar que países como Angola, Moçambique ou a Guiné, [sic] tenham ratificado a imbecilidade ortográfica que pretensamente as sustenta.» Sim, essas grafias anómalas já andam por aí. 
      E a estocada final: «É claro que não vale a pena falar do que está ou vai passar-se nas escolas do nosso país, nem se pode ainda medir até que ponto alguns oportunismos editoriais, para não perderem o negócio, vão contribuir para escorar as soluções mais aberrantes em matéria de livros e manuais escolares» («Um país invertebrado», Diário de Notícias, 23.02.2011, p. 54).

[Post 4479]

Dicção/dição

E agora?

      Um pequeno mistério: porque incluíram os redactores do Acordo Ortográfico de 1990 o par dicção/dição entre os vocábulos em que se conservam ou se eliminam facultativamente o c, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento? Dição é uma variante lexical de dicção. Talvez até tenha entrado na língua antes desta. Terá vindo, não através do genitivo, mas do nominativo do étimo latino. Distracção? O que acha, Fernando Venâncio?

[Post 4476]


Acordo Ortográfico

Como dantes

      «Era uma espécie de gorjeio de pássaro, assim como um trinado fluido, produzido pelo contacto da língua com o céu da bôca, de quando em quando, no meio da música» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain. Tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 18).
      Era assim, como locução substantiva, que se grafava antes do Acordo Ortográfico de 1945 — e depois também, mas os dicionários «inovaram» hifenizando-a, e, desta maneira, tornou-se unidade semântica. Ora consultem aí o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. O AO90 foi mais longe no uso do hífen (pelo menos nestes casos) e escrever-se-á «céu da boca». Entretanto, o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), adoptado para o sistema de ensino pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, regista «céu da boca». Como regista barriga de freira, braço de ferro, boca de sino, bota de elástico, caminho de ferro, fim de semana...

[Post 4471]


Acordo Ortográfico

Tempos negros

      Do fundo da redacção, um editor-chefe perguntou se, com o novo acordo ortográfico, se passava a escrever «connosco» só com um n. Esta gente nunca irá ler o texto. Lembrei-me deste episódio agora quando vi que alguém pesquisou «conosco ou connosco português correcto 2011» e veio ter a este blogue. O texto do Acordo Ortográfico de 1990 nem sequer fala especificamente de pronomes pessoais. Em Portugal, escreve-se e continuará a escrever-se «connosco», com dois nn. No Brasil, escrevia-se e continua a escrever-se «conosco» com um n.
      Lembram-se do meu «laboratório»? Pois agora uma professora, e uma das mais espevitadas, afirma (e não só falou, senão que escreveu, o que é pior) que terá de aceitar as grafias dos alunos que estejam em consonância com a norma, e exemplifica: «fenômeno, fato». Ah, se isto fosse só um filme e pudesse mudar-se de canal...


[Post 4436]

O prefixo «re-» no AOLP90, de novo

Diz a Priberam

      Acabo de receber de Helena Figueira, do  Departamento de Linguística da Priberam, a segunte comunicação, relacionada com um texto que aqui publiquei.
     
      «No seu blogue, que a Priberam preza e acompanha com regularidade, numa publicação de 29-01-2011 com o título de “O prefixo «re-» no AOLP” [post 4372], afirma que o FLiP 7, da Priberam, “interpretou erradamente a Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 («Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»).” Mais refere que “a origem do erro está na interpretação da alínea b), n.º 1, daquela base: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.»”.
      Relativamente a este assunto, a Priberam gostaria de manifestar respeito pela sua opinião e partilhar consigo os fundamentos das nossas opções sobre o assunto da sua publicação.
      Segundo o disposto na Base XVI, 1.º, alínea b) do Acordo Ortográfico de 1990, utiliza-se o hífen “nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento”. É esta regra que justifica, por exemplo, a nova grafia de sobre-endividamento, cujo prefixo surge no exemplário apresentado no ponto 1.º da referida base. O texto do Acordo Ortográfico é inequívoco relativamente ao uso de hífen com um prefixo que termina na mesma vogal com que se inicia o elemento seguinte, pelo que esta regra deveria ser também aplicada ao prefixo re-. Para este ponto, o texto legal estabelece uma única excepção, na nota à alínea b) do ponto 1.º da Base XVI, referindo-se apenas ao prefixo co-, que deverá ser usado sempre sem hífen. Com o Acordo de 1990, as regras para o uso do hífen nos casos de prefixação passam a ser gerais e contextuais, ao contrário do Acordo de 1945, que aplicava regras específicas a um prefixo ou a um grupo fechado de prefixos.
      Foi este o entendimento inicial da Priberam, uma vez que outra interpretação contraria claramente a letra e o espírito do Acordo Ortográfico, estabelecendo uma excepção não prevista. A Priberam entendeu que seria ilógico tomar a excepção prevista para co- como modelo para re-, uma vez que as excepções devem estar explícitas no texto e não ser obtidas por dedução. Também a "Nota Explicativa" (ponto 6.3) reitera o que é referido na base XVI, 1.º, alínea b): "uniformiza-se o não emprego do hífen, do modo seguinte: (...) Nos casos em que o prefixo ou o pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente daquela, as duas formas aglutinam-se, sem hífen". Como este não é o caso nas sequências re-e..., o hífen deveria ser usado neste contexto.
      Apesar disto, no Brasil, a Academia Brasileira de Letras (ABL), no seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (São Paulo: Global, 2009) [VOLP], entendeu que deveria instituir uma excepção para o prefixo re-. A única justificação apresentada pela Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ABL na "Nota explicativa" (pp. LI a LIII) do referido Vocabulário é que uma das medidas tomadas foi "incluir, por coerência e em atenção à tradição lexicográfica, os prefixos re-, pre- e pro- à excepcionalidade do prefixo co-". Se para os prefixos pre- e pro- parece haver uma justificação, não pela alínea b) do ponto 1.º da Base XVI, mas pela alínea f), o mesmo não acontece com o prefixo re-. Por outro lado, é invocada a tradição lexicográfica quando se trata de um tópico sobre o qual o Acordo Ortográfico se pronuncia, alterando justamente a tradição lexicográfica e as indicações prescritas pelo Acordo Ortográfico anterior.
      Em Portugal, o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), cujo Vocabulário Ortográfico do Português (VOP) foi recentemente adoptado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, publicada em 25 de Janeiro de 2011 no Diário da República n.º 17, I Série, pág. 488, seguiu a mesma interpretação da ABL. A Priberam manteve a sua interpretação inicial de grafar re-e... até à data em que o VOP passou a ser indicado nesta resolução como uma obra lexicográfica de referência em Portugal, nomeadamente no ensino, a partir do ano lectivo de 2011/2012. Os recursos linguísticos da Priberam têm vindo a ser alterados desde 25 de Janeiro de 2011 para seguir a excepção instituída pelo VOLP da ABL e seguida pelo VOP do ILTEC.
      Sublinhe-se que esta é uma opção que decorre da publicação do VOLP e do VOP e não da aplicação da letra e do espírito do Acordo Ortográfico, cujo texto altera inúmeros outros casos de grafias tradicionalmente estáveis. Como exemplo de grafias em que o AO vai contra a tradição lexicográfica, pode referir-se novamente o prefixo sobre-, que já em obras do século XVIII (como o Vocabulario Portuguez & Latino, de Raphael Bluteau [1728] ou o Diccionario da lingua portugueza, de Antonio de Moraes Silva [1789]) ou do início do século XX (como o Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo [1913]) era sempre grafado sem hífen quando o elemento seguinte se iniciava com a letra e. Em determinados pontos em que o AO é omisso ou não explicita regras gerais (como, por exemplo, no caso de alforge/alforje ou de connosco/conosco), a tradição do registo lexicográfico de certas palavras poderá ser um argumento invocável, uma vez que não há outra maneira de se saber ou inferir qual a ortografia a adoptar. Se a tradição lexicográfica pudesse ser invocada constantemente como argumento para a manutenção de determinadas grafias, os acordos ortográficos deixariam de fazer sentido, uma vez que o objectivo destes é precisamente a alteração ou simplificação de determinadas grafias e regras ortográficas (por vezes divergentes), preconizadas durante décadas por obras lexicográficas.
      O texto do Acordo de 1990 não prevê soluções para muitos dos problemas que cria e é lacunar, ambíguo ou incoerente em alguns aspectos, pelo que foi necessário definir linhas gerais explícitas e fornecer ao utilizador a explicação de algumas opções tomadas pela Priberam, que estiveram sempre disponíveis ao público (cf. Critérios), desde o primeiro produto com opção de correcção e consulta segundo a nova grafia.
      A reflexão acima, ainda que longa, pretende apenas apresentar uma posição que entendemos defensável (não podendo ser qualificada de erro), pois as várias versões do FLiP que incluem a ortografia segundo o Acordo Ortográfico de 1990 foram desenvolvidas ao longo de vários anos, com um trabalho contínuo baseado no texto legal, dada a ausência de instrumentos lexicográficos reguladores autorizados, nomeadamente o "vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa", previsto no art.º 2.º do texto do Acordo, que permitam substituir as obras tidas como referência maior na lexicografia portuguesa, de que são exemplo o Tratado de Ortografia e o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves.»


[Post 4387]

Acordo Ortográfico

Pré-acordo a pedido


      À rubrica «Radar Flashback», da revista Visão, Vasco Graça Moura declarou: «Vi na televisão a palavra “fatura”. A RTP passa a aplicar o Acordo Ortográfico. Vai engrossar o número de responsáveis institucionais por um crime contra a língua portuguesa» (6.01.2011, p. 12). Claro que os responsáveis da revista Visão, não institucional, tiveram de acrescentar: «A pedido do próprio, manteve-se aqui a ortografia pré-acordo». Irónico, não é? E um pouco como cuspir na sopa, digo eu.

[Post 4378]

O prefixo «re-» no AOLP

Ah, estou a perceber


      «Foi já no Governo que Maria João Seixas o re-encontrou, acedendo ao convite para ser sua assistente» («O mais civil dos militares de Abril», Paulo Chitas, Visão, 13.01.2011, p. 43).
      Como já aqui escrevi uma vez, salvo para afirmar, na Base II, n.º 2, b), que o h inicial é suprimido quando, por via de composição, passa a interior e o elemento em que figura se aglutina ao precedente (reabilitar, reaver), nunca o Acordo Ortográfico de 1990 refere o prefixo re-, mas nem mesmo a omissão deixou a salvo a regra que tradicionalmente se observa. Parece que confiaram tudo ao corrector ortográfico Flip 7, da Priberam, que interpretou erradamente a Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 («Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»). Concretamente, a origem do erro está na interpretação da alínea b), n.º 1, daquela base: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno
      Os redactores do acordo foram imprudentes ao não referirem as excepções. «Um caso», comentou aqui o leitor Franco e Silva, «é aquele que muito bem comenta, o do prefixo re- quando se segue palavra iniciada com e, em que o bom senso e a antiquíssima e estabilizada tradição vocabular justifica a fusão dos elementos (como em reeditar e reeleger, etc.). Outro caso é o do prefixo sub- quando se segue um elemento vocabular iniciado por r ou b (sub-reptício, sub-roda, sub-base, sub-bibliotecário, etc.) em que o bom senso, a cimentada tradição vocabular e até a orientação de pronunciação justificam a sua manutenção. Causa estranheza que conceituados linguistas aceitem a segunda excepção, mas não a primeira, a contrario do VOLP (ALB), que na nossa opinião muito bem, pontificaram como distracções as lamentáveis omissões da comissão luso-brasileira do A.O. e hifenizaram tais palavras.»
      E agora uma experiência: pego na frase da Visão e analiso-a no conversor ortográfico da Porto Editora, gratuito. Resultado: «17 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Muito bem, então agora modifico a frase: «Foi já no Governo que Maria João Seixas o reencontrou, acedendo ao convite para ser sua assistente.» Resultado: «17 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Poderá haver análises mais científicas, com recurso a algoritmos e não sei que mais, mas eu estou satisfeito.

[Post 4372]

Acordo Ortográfico

Fale por si


      No correio dos leitores da edição de ontem do Metro (p. 9), foi publicada esta carta assinada por Nuno Duarte: «Parece que a reação de alguns setores à conceção e adoção do novo acordo ortográfico (como foi batizado) é de objeção. De fato, há aspetos neste acordo que tornam difícil a sua receção pelo coletivo, em especial quanto à dição de algumas palavras impressas, devido à supressão de carateres. Contudo, a direção certa e a melhor ação a tomar é deixar a afetividade em relação à antiga ortografia e começar a escrever de modo exato. É que, sejamos diretos: este modo de escrever pode não ser ótimo, mas é um ato consumado e até já o ensinam às crianças no atual ano letivo. Uma pequena nota: este texto não tem 20 erros; foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.»
       As contas não batem certo. De qualquer modo, o texto não tem vinte erros, não: tem, pelo menos, dois. Segundo as novas regras ortográficas, não passaremos a escrever, nós, Portugueses, «fato» como alternativa a «facto», tal como também não o faremos em relação a «dicção». Quanto ao resto, um erro factual: pode ser um acto consumado, mas ainda não o ensinamos às crianças neste ano lectivo, mas apenas no próximo. Claro que os jornais estão sedentos destes contributos, e nem reparam nestes erros. É que são muitas páginas para encher diariamente.

[Post 4358]

Acordo Ortográfico

Notícias do meu país


      Lembram-se da minha recomendação de levarmos os nossos filhos para Badajoz? Reitero-a com igual razão. Ontem vi outra — repito: outra — professora de Português (não posso dizer onde, só que é uma espécie de laboratório) a escrever «hábito» sem h, pois meteu na cabeça que é o que a a), n.º 2, da Base II do Acordo Ortográfico de 1990 estipula. Este país poucos conhecem. Não queria estar na pele dos infelizes dos alunos...

[Post 4354]

Acordo ortográfico

Além-fronteiras


      Sentem-se, a notícia é tristíssima. Ainda ontem vi uma professora de Português (!) escrever, «segundo o Acordo Ortográfico de 1990», «adatando-nos», «por analogia» com «adoptar» na nova grafia... Claro que também escreveu «interajudar-mo-nos», o que diminui consideravelmente a imputabilidade. E as novas regras ortográficas, recordo, terão de ser aplicadas nas escolas a partir de Setembro. Ainda estamos a tempo de levar os nossos filhos para Badajoz.

[Post 4318]

Acordo Ortográfico

Imagem tirada daqui
Ainda picam


      A revista Visão lá continua com os seus «espetadores»: «Em três semanas de exibição em Portugal o documentário Saramago e Pilar [sic], de Miguel Gonçalves Mendes (na foto) já teve 11 300 espetadores» («SMS», Visão, 16.12.2010, p. 152). Ainda se lembram do que escreveu Vasco Graça Moura? «Quer dizer que tal como “espetadores”, termo alvoroçadamente cunhado pelo Expresso quando anunciou a sua entrada triunfal na mais silly das áreas, a do Acordo Ortográfico, até uma publicação com a responsabilidade cultural do J/L não se coíbe de lançar mão de uma portentosa compendiação de asneiras» («‘Silly season’ e ‘silly country’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 18.08.2010, p. 50).

[Post 4208]

Acordo Ortográfico

Assim não vale

      O jornal Público tem uma estranha forma de tratar os textos dos cronistas a quem permite que escrevam segundo as normas do novo acordo ortográfico. Pendente como uma bula, no fim da crónica («Privilégios regionais», Vital Moreira, Público, 7.12.2010, p. 37) de Vital Moreira pode ler-se: «a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico». Afirmação, decerto, com reserva mental, pois não dizem de que acordo ortográfico se trata. Ficamos logo esclarecidos quando lemos estes vocábulos no texto daquele eurodeputado: actual, efectuada, objecção, excepção, objectivamente, objectiva...
[Post 4190]

Acordo Ortográfico

O acordo é um fato... roto


      «Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação dos Professores de Português (APP), lembra que “estamos já numa fase de transição” e que a convivência com as duas grafias — a actual e a nova — levará muito tempo. Sobre o impacto que essa situação poderá ter na avaliação dos alunos, o responsável referiu que a APP sugeriu que “durante o período de transição as duas grafias sejam aceites”. Ou seja, escrever facto ou fato será aceite, sem ser considerado um erro. Medida que foi aplicada pelo Ministério da Educação nos exames nacionais» («Editoras prontas a aplicar o Acordo Ortográfico», Ana Maia, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 16).
      Se até uma jornalista, cujo trabalho anda todo à volta da língua, escreve este disparate, imagine-se o cidadão comum. Sabe Deus quem lhe disse que era assim...

[Post 4178]

Acordo Ortográfico

Fecha-se o cerco


      «O presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, quer que o Parlamento aplique o novo Acordo Ortográfico a partir de 1 de Janeiro de 2012. Jaime Gama propõe que se decida que “a Assembleia da República passará a aplicar a ortografia constante do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em todos os seus actos legislativos e não legislativos, bem como nas suas publicações oficiais e instrumentos de comunicação com o exterior”» («Acordo Ortográfico na Ar em 2012», Diário de Notícias, 1.12.2010, p. 12).
      No Assim Mesmo, provavelmente já noutra casa, também se aplicarão as novas regras ortográficas a partir dessa data. Para quem não ficar contente com a notícia, deixo as mesmas palavras noutra ordem. No Assim Mesmo, já noutra casa, provavelmente também se aplicarão as novas regras ortográficas a partir dessa data.

[Post 4147]

Acordo Ortográfico

Todos os outros são falsos?


      «Natural do Porto, Helena da Rocha Pereira, 85 anos, está jubilada mas mantém uma intensa actividade. Trabalha 12 a 14 horas por dia. Ultimamente está empenhada na conclusão do Vocabulário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências, o único instrumento que falta para o Acordo Ortográfico entrar definitivamente em vigor. Defensora das alterações à grafia, só reconhece um argumento a quem as contesta: “Compreendo que os escritores estranhem, particularmente os poetas que têm uma ligação muito próxima com a escrita.” Todos os outros são falsos» («No mundo dos clássicos», Paula Gonçalves, «Domingo»/Correio da Manhã, 22.11.2010, p. 44). Nesta entrevista, Maria Helena da Rocha Pereira defende ainda que as alterações são mínimas. «Uma das principais é a “perda das consoantes mudas, que não se ouvem”. Aquelas a que, já no século XVI, o autor da segunda gramática portuguesa tinha chamado ociosas, por achar que “não eram precisas”.»

[Post 4142]

Arquivo do blogue