Léxico: «tucumã | tucumã-do-amazonas | tucumã-do-pará»

Voltando ao x-caboquinho


      No verbete de «tucumã», Porto Editora, esqueceste-te da 2.ª acepção, a relativa ao fruto. Como, porém, a própria definição não está actualizada, como pude confirmar sobretudo na monografia técnica da Embrapa/MMA de 2022 dedicada precisamente às duas espécies a que pertence o tucumã, é preferível refazê-la assim ➠ tucumã 1. BOTÂNICA designação comum a palmeiras sul-americanas do género Astrocaryum, especialmente Astrocaryum aculeatum e Astrocaryum vulgare, de grande porte e caule geralmente espinhoso, que produzem frutos comestíveis e oleaginosos; tucumã-do-amazonas; tucumã-do-pará; 2. fruto dessas palmeiras, de forma globosa a elipsóide, com polpa carnosa, fibrosa e oleaginosa, geralmente amarelo-alaranjada, consumida ao natural ou usada na preparação de diversos alimentos. 
      Isso mesmo, temos de dicionarizar igualmente ➠ tucumã-do-amazonas BOTÂNICA (Astrocaryum aculeatum) palmeira sul-americana da família das Arecáceas, nativa da Amazónia, de grande porte e caule espinhoso, que produz frutos comestíveis de polpa amarelo-alaranjada, fibrosa e oleaginosa; tucumã-açu | tucumã-do-pará BOTÂNICA (Astrocaryum vulgare) palmeira sul-americana da família das Arecáceas, nativa da região amazónica, de caule espinhoso e frequentemente cespitoso, que produz frutos comestíveis de polpa amarelo-alaranjada e oleaginosa.

[Texto 23 562]

Léxico: «subnomenclatura»

Parte estava bem


      Apareceu-me aqui um «subnome», mas era confusão do autor, logo sanada. O que efectivamente existe (vejo-o em teses de doutoramento, em decisões do Superior Tribunal de Justiça brasileiro e textos técnicos e jornalísticos, além de o encontrar no nosso VOP) e o dicionário da Porto Editora não regista é o vocábulo ➠ subnomenclatura nome feminino nomenclatura secundária ou subordinada, estabelecida no interior de outra mais abrangente; conjunto de denominações correspondente a uma subdivisão de determinada nomenclatura.

[Texto 23 561]

Léxico: «quebra-torto | arroz carreteiro»

Continuamos por lá


      «O pantaneiro começa seu dia com o quebra-torto, prato à base de arroz carreteiro com ovos» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11).
      Então, aqui vai ➠ quebra-torto 1. Brasil regionalismo refeição matinal substancial, tradicional da região do Pantanal, geralmente composta por arroz, carne, ovos, farofa ou outros alimentos energéticos; 2. prato de arroz com carne, geralmente acompanhado de ovos ou outros alimentos, tradicionalmente servido nessa refeição; arroz carreteiro. 
       Pois, já vi que temos aqui um problema, que também é uma oportunidade: temos de dicionarizar igualmente ➠ arroz carreteiro Brasil CULINÁRIA prato tradicional do Rio Grande do Sul, preparado com arroz e charque picado, cozidos conjuntamente com temperos, havendo variantes com outros tipos de carne; o m. q. arroz de carreteiro.

[Texto 23 560]

Léxico: «x-caboquinho»

Regresso ao Brasil


      «No Amazonas, é típico o consumo do x-caboquinho, sanduíche feito com pão francês recheado com lascas de tucumã —fruto de uma palmeira amazônica—, banana e queijo coalho» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11). 
      Há décadas que o pobre x-acto esperava companhia à altura, e encontrou-a agora neste brasílico  x-caboquinho Brasil CULINÁRIA sanduíche típica do Estado do Amazonas, especialmente de Manaus, feita com pão francês recheado com lascas de tucumã, queijo de coalho e, geralmente, banana-pacovã frita. (Quanto à etimologia, vem de x-, elemento usado no português do Brasil na designação de diferentes tipos de sanduíche, do inglês cheese, «queijo», + caboquinho, diminutivo regional de caboclo.)

[Texto 23 559]

Léxico: «sati»

Estamos a alienar a nossa História


      No episódio de sábado do programa Visita Guiada, em nova temporada, Paula Moura Pinheiro esteve em Goa. Entre outros convidados, esteve a falar com o fundador e director do Goa Chitra Museum, Victor Hugo Gomes, que afirmou que o «sati was abolished by the Portuguese here in Goa in 1526, three hundred years before Rajaram Mohan Roy could do it in the rest of India». Ora, estranhamente, só encontramos «sati» em dicionários bilingues da Porto Editora. Assim, proponho ➠ sati nome masculino 1. antiga prática hindu que consistia na imolação, voluntária ou forçada, de uma viúva, geralmente pelo fogo, na pira funerária do marido ou juntamente com os restos mortais deste; 2. nome feminino mulher que se submetia a essa prática. (Quanto à etimologia, vem do sânscrito satī, «mulher boa, virtuosa; esposa fiel», feminino de sat-, «bom, verdadeiro, virtuoso»; o termo, que originariamente designava a mulher, passou posteriormente a designar também a prática.)

[Texto 23 558]

Definição: «giro»

Não tem graça, mas é giro


      «Aprestava-se a regressar às suas cogitações quando Matthew apareceu à porta, a anunciar que o Pequeno Andy, o carteiro, estava lá em baixo, no armazém. Tinha acabado mesmo agora a ronda e precisava de falar com Lily sobre um assunto pessoal» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., pp. 251-52). 
      Desde quando é que os carteiros fazem rondas? Isso é no original: «... having just finished his round». Fazem giros. A propósito: a 3.ª acepção de «giro» no dicionário da Porto Editora abarca o sentido postal, mas de maneira excessivamente genérica: «itinerário definido em conformidade com as exigências de determinada actividade (de vigilância, de distribuição e recolha de artigos ou mercadorias, etc.)» Devíamos separar o sentido profissional geral do sentido postal, que é suficientemente estabelecido para merecer explicitação. Assim: 3. itinerário ou percurso estabelecido para o exercício regular de determinada actividade, nomeadamente de vigilância, distribuição ou recolha; 4. percurso estabelecido para a distribuição de correspondência e outros envios postais, efectuado regularmente por um carteiro ou outro distribuidor; área abrangida por esse percurso.

[Texto 23 557]

Definição: «laguna»

Vamos pôr isso à prova


       «Corpo de brasileira é encontrado em laguna de Veneza após acidente» (Michele Oliveira, Folha de S. Paulo, 16.09.2026, p. A47). Vejamos o que diz a Porto Editora de «laguna»: «1. GEOGRAFIA bacia litoral de águas paradas, separada do mar apenas por uma restinga de areia e com o qual mantém comunicação intermitente; 2. canal entre bancos de areia ou ilhotas, na foz de um rio; 3. pequena lagoa; 4. ria». Então vejamos, tomando a Laguna de Veneza como exemplo, a primeira acepção, a mais importante. A definição apresenta vários problemas: 1.º, não se trata necessariamente de uma bacia de águas paradas: as águas de uma laguna podem estar sujeitas a correntes, circulação e marés — em Veneza, o regime de marés determina uma importante circulação da água; 2.º, uma laguna não está necessariamente separada do mar apenas por uma restinga de areia: pode sê-lo por diferentes tipos de barreira litoral, incluindo cordões arenosos, restingas ou ilhas-barreira — a Laguna de Veneza é separada do Adriático por ilhas-barreira; 3.º, a comunicação com o mar não é necessariamente intermitente: pode ser permanente ou intermitente, havendo mesmo lagunas que se encontram totalmente fechadas ao mar — a Laguna de Veneza comunica permanentemente com o Adriático por três aberturas, Lido, Malamocco e Chioggia; 4.º, omite-se uma característica importante das lagunas: são geralmente pouco profundas — a Laguna de Veneza apresenta vastas áreas com profundidades da ordem de 1 a 1,5 metros. 
      Tudo visto, proponho laguna 1. GEOGRAFIA massa de água costeira, geralmente pouco profunda, separada do mar por uma barreira litoral, geralmente arenosa, podendo comunicar com ele por uma ou mais aberturas; 2. GEOGRAFIA canal pouco profundo entre bancos de areia ou ilhotas, na foz de um rio; ria; 3. GEOGRAFIA massa de água salgada situada no interior de um recife de coral.

[Texto 23 556]

Outra confusão

Mais uma


      «[A arqueóloga] Conceição Lopes destaca outro pormenor que diz já ser fruto da importância que o fórum romano assumiu: “Os moços são naturais de Beja.” Outra jovem, que será arqueóloga num futuro próximo, extrai pacientemente todas as ervas e arbustos, por mais pequenos que sejam, do piso que resta de um tanque de água que tinha 4,5 metros de largura e 90 centímetros de profundidade, construído em cimento romano (opus caementicium) no final do século I a.C. e que contorna o templo romano, um edifício com 30 metros de comprimento e 19,40m de largura. A estrutura é em tudo semelhante aos que existem em Évora, da província espanhola de Ecija (Sevilha) e de Barcino (Barcelona)» («Escavações regressaram ao Fórum Romano de Beja após interregno de nove anos», Carlos Dias, Público, 5.08.2026, p. 15). 
      Está errado: o opus caementicium é o betão romano. O jornalista não sabe a diferença entre cimento e betão. Devia ter investigado e/ou perguntado. Agora, mais gente desaprendeu. O opus caementicium era o material compósito constituído por uma argamassa ligante (cal, água e areia ou pozolana) e por agregados, fragmentos de pedra, tijolo ou cerâmica. Portanto, corresponde funcional e estruturalmente a um betão. O cimento é apenas um ligante; não inclui os agregados. Não são apenas os jornalistas, também demasiados tradutores confundem cimento com betão, como confundem fita isoladora com fita-cola, telhado com tecto, azulejo com mosaico, ombreira com padieira, relva com erva e um largo e triste etc.

[Texto 23 555]

Léxico: «pardelho(s) | cacifro»

Ou o leitor não pescará nada


      «Estendendo a mão, tocou na face tépida da criança. O berço quedara-se enleado na ramagem de um salgueiro vergado pelo peso de uma rede ou pardelho, como lá dizem, que dali, atado nele, atravessava para a margem da Ínsua — um bosque de choupos assim chamado. As bóias arfadas pela corrente chofravam nos flancos do berço» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, pp. 43-44). 
      Encontramo-lo também em Aquilino. Ser sustentada por bóias pode não ser característica verdadeiramente distintiva nem inerente ao modo habitual de armar a rede, pelo que vamos omiti-las. Assim, proponho  pardelho(s) regionalismo rede de emalhar que se dispõe transversalmente num rio, de uma margem à outra, para capturar peixe.

[Texto 23 554]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Camilo, este mesmo de Maria Moisés, e nós com ele, ainda espera que os dicionários acolham outro acessório de pesca, o ➠ cacifro regionalismo cesto de verga, geralmente de forma circular e levado a tiracolo, em que o pescador guarda o peixe capturado, podendo mantê-lo dentro de água para conservar as capturas vivas ou frescas. 
Com certeza os lexicógrafos não quererão que, para guardar o peixe capturado, os pescadores usem o «cesto de vime onde os caçadores levam o furão». 


Definição: «decibel»

Porque é bom saber mais


      «Em acústica, atribui-se convencionalmente o valor de 0 decibéis a um nível de referência próximo do limiar da audição humana. Isto não significa ausência de som: esse limiar varia com a frequência e de pessoa para pessoa. Como o ouvido capta sons de intensidades muito diferentes, utiliza-se a escala logarítmica dos decibéis (dB). Um decibel corresponde à décima parte do bel, unidade logarítmica utilizada para exprimir relações entre intensidades sonoras. Uma diferença de 10 dB – ou de um bel – entre dois níveis sonoros significa que o som de nível mais elevado tem dez vezes a intensidade do outro. Relativamente à intensidade de referência, um som com um nível de 20 dB é cem vezes mais intenso; um de 30 dB, mil vezes, e assim sucessivamente» («Silêncio!», João Paulo André [químico], Nascer do Sol, 18.09.2026, p. 36). 
      Não podemos desperdiçar a oportunidade para melhorar a definição de «decibel», que está muito incompleta. Assim, proponho ➠ decibel FÍSICA unidade logarítmica, de símbolo dB, equivalente à décima parte do bel, usada para comparar valores de uma grandeza ou para exprimir o seu nível relativamente a um valor de referência, especialmente em acústica, electrónica e telecomunicações. (Quanto à etimologia completa, vem de deci- + bel, ou do francês décibel, «idem»; bel é unidade assim denominada em homenagem ao inventor escocês Alexander Graham Bell (1847-1922).)

[Texto 23 553]

Como se escreve por aí

Afinal não podia ser


      «A CMTV entrevista André Ventura, na vigésima-oitava entrevista do líder do Chega a uma televisão portuguesa este ano» («E para beber, prefere branco ou extinto?», Miguel Somsen, «Versa»/Nascer do Sol, 18.09.2026, p. 47). Só parei nas páginas desta rubrica porque me parecia ver Luiz Pacheco na fotografia do autor. Sim, eu sei que ele morreu vai fazer vinte anos. Afinal, era Miguel Somsen. E Luiz Pacheco não dava estes erros. Até porque foi também revisor. Quando é que se aprende de uma vez por todas que os ordinais não levam hífen? É «vigésima oitava», como também é «centésima quarta», «milésima primeira» e assim todos sem excepção. O texto padece de muitos outros erros, sobretudo de ortografia («contra ataque», «pequeno almoço», «Belas Artes», «ideias-feitas», «mal-vistas») e de pontuação, mas nada que mais dez ou vinte anos de crónicas com algum estudo pelo meio não resolvam.

[Texto 23 552]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Detesto ver os nomes de televisões e de rádios em itálico. Isso não faz sentido. Claro que é imposição do livro de estilo da casa, de que o autor não tem culpa. Mas como é que lhe alteram isto no texto e não lhe corrigem os erros? Ah, pois.


Léxico: «protomo»

Agora precisamos dos dois


      Na página 10 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, de Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, encontra-se uma imagem de um protomo de calcário amarelo local. Infelizmente, os nossos dicionários não registam este termo. E o homónimo que encontramos no Houaiss, por exemplo, não é o da Arqueologia. Assim, proponho ➠ protomo 1. HISTÓRIA homem pré-histórico; o mesmo que protandro; 2. ARQUEOLOGIA, ARTES PLÁSTICAS representação da cabeça ou da parte anterior do corpo de uma figura humana, animal ou fantástica, constituindo uma peça autónoma ou integrando um objecto ou elemento arquitectónico, frequentemente com função ornamental. (Etimologia da acepção 2: do grego protomḗ, «parte anterior; busto», derivado de protémnō, «cortar pela frente», de pro, «diante, à frente», + témnō, «cortar».)

[Texto 23 551]

Léxico: «nosto»

Também queremos este


      «Evgenia Makrygianni, professora associada de Literatura Grega Antiga na Universidade de Atenas, afirmou que A Odisseia continua profundamente ligada à identidade da Grécia contemporânea por meio da ideia homérica de nostos – o desejo de retornar ao lar que impulsiona toda a jornada de Odisseu. “Isso se conecta às próprias experiências históricas da Grécia – guerras, exílio, dificuldades econômicas e migração”, explicou. “Odisseu simboliza resiliência, determinação e a força para perseverar diante da adversidade”» («O que os gregos acharam de ‘A Odisseia’? Fomos a uma sessão em Atenas», Niki Kitsantonis [NYT], O Estado de S. Paulo, 9.08.2026, p. A32).
      O termo grego em causa é νόστος (nóstos), «regresso», especialmente o regresso à pátria ou ao lar. Parece-me, pois, que se justifica o registo do aportuguesamento nosto, tanto mais que o vejo empregado nos estudos clássicos para designar o regresso de um herói à pátria depois de uma longa ausência, em particular o de Ulisses após a Guerra de Tróia. Poderia ser assim ➠ nosto LITERATURA na epopeia grega, regresso de um herói à pátria ou ao lar depois de uma longa ausência, sobretudo de uma guerra; por antonomásia, viagem de regresso de Ulisses a Ítaca, narrada na Odisseia
      Do grego νόστος, «regresso; retorno ao lar». Já temos vocábulos formados com nóstos — alguns dos quais o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista —, como nostomania, nostomaníaco, nostómano e nostofobia. Devíamos ainda registar, como faz o Houaiss, o elemento de composição nost(o)-, do grego νόστος, «regresso; retorno», presente nestes vocábulos.

[Texto 23 550]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Odisseu é corrente no português brasileiro contemporâneo de temática clássica; Ulisses é, sem hesitação, excepto para alguns tradutores, a forma normal em Portugal. Mas depois temos «odisseia» e não «ulisseia», que só aparece como nome de editora. Mas, curiosamente, temos o adjectivo «ulisseu», pelo que, afinal, sempre dispomos de «ulisseia» como forma do adjectivo. A ulisseia manha.


Léxico: «gato-tilcayo»

O mundo ainda guarda surpresas


      «Uma equipa de cientistas identificou uma nova espécie de gato selvagem em florestas da Bolívia, sendo esta a primeira descrição científica de uma nova espécie de felino selvagem em mais de um século, foi esta quinta-feira divulgado. Batizada “Leopardus tilcayo” ou gato-tilcayo, a espécie foi descoberta nas florestas da região de Yungas, na Bolívia, e é um felino de pequeno porte que mede aproximadamente 46 centímetros da cabeça à cauda e pesa cerca de 1,4 quilogramas, menos do que um gato doméstico comum, informou a agência noticiosa espanhola EFE» («Nova espécie de felino descoberta na Bolívia, a primeira em mais de um século», Rádio Renascença, 17.09.2026, 18h19). 
      Temos tudo o que é preciso para propor ➠ gato-tilcayo ZOOLOGIA (Leopardus tilcayo) mamífero carnívoro da família dos Felídeos, pertencente ao grupo dos gatos-do-mato-pequenos, de porte inferior ao do gato doméstico, de pelagem castanho-clara, mais escura no dorso, com grandes rosetas irregulares, nativo das florestas montanhosas húmidas dos Yungas, na Bolívia; o m. q. tilcayo. (Quanto à etimologia, vem castelhano boliviano tilcayo, designação tradicional deste felino entre as populações dos Yungas, de origem incerta.)

[Texto 23 549]

Léxico: «entredente»

Mas façam como quiserem


      «— Não sei — respondo, entredentes. Ainda recordo com carinho o tempo em que o Teddy não sabia falar» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 79). «— Fez — diz o Jeremy, entredentes. — E não é tudo» (p. 160). 
      Estou sempre a encontrar e a corrigir este erro. Há dicionários que o acolhem, mas como acolhem muitos e muitos outros erros. É «entre dentes». Mas a palavra «entredente» mereceu-me uma análise cuidada. Não é de uso muito comum, mas importa ter em conta que se trata de um termo técnico. Num manual da unidade curricular Órgãos de Máquinas II, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, encontro-a definida numa secção dedicada aos aspectos gerais das engrenagens e ilustrada por vários desenhos explicativos. O dicionário da Porto Editora dá-lhe como sinónimo «crena», relação também registada noutros repertórios lexicográficos, embora não tenha conseguido comprovar o uso deste último termo em manuais ou noutros documentos técnicos. Por outro lado, há uma acepção usada no Brasil que não se confunde com esta. Assim, proponho ➠ entredente 1. MECÂNICA espaço compreendido entre dois dentes consecutivos de uma roda ou peça dentada; crena (pouco usado); 2. Brasil MAQUINARIA peça de desgaste instalada entre os dentes do balde de uma escavadora ou de uma pá carregadora, destinada a proteger o bordo cortante contra o desgaste.
      Existe também em francês o termo técnico entre-dent. O Grand dictionnaire terminologique, do Office Québécois de la Langue Française, organismo canadiano, define-o como «espaço entre dois dentes vizinhos». A coincidência formal, semântica e terminológica leva a admitir que o francês possa ter servido de modelo ao português «entredente». A hipótese é plausível, atendendo à influência histórica da terminologia técnica francesa; não pode, porém, considerar-se comprovada, sobretudo porque a formação portuguesa — entre- + dente — é inteiramente transparente e poderia ter surgido de forma autónoma.

[Texto 23 548]

Definição: «sindrómico»

Conseguimos melhor


      Ontem, na Antena 1, foi entrevistado Filipe Gonçalves, um dirigente da Apela, Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica, que disse que esta é uma doença sindrómica. Está no dicionário da Porto Editora, sim senhor, «relativo a síndrome; sindromal, sindromático», mas é praticamente circular: explica a formação da palavra, mas não permite perceber o que significa, por exemplo, dizer que uma doença é sindrómica. Mais antenado esteve o Houaiss ao afirmar que é o «relativo a síndrome; que ocorre como síndrome», mas nós ainda conseguimos melhor. Assim, proponho ➠ sindrómico adjectivo 1. relativo a síndrome; 2. MEDICINA que se manifesta por um conjunto característico de sinais e sintomas; que ocorre sob a forma de síndrome.

[Texto 23 547]

Como se conjugam os verbos por aí

Voltemos ao básico


      «[Peggy] Atirava constantemente para o lado o cabelo solto, caído até aos ombros, e penteava-lo com a mão» (Pessoas Normais, Sally Rooney. Tradução e notas de Ana Falcão Bastos e revisão de Isabel Castro Silva. Lisboa: Relógio D’Água, 2022, p. 79). 
      Com Peggy está tudo mais ou menos bem, se abstrairmos da sua falsidade, petulância e inveja. Mas com a tradutora e a revisora já não tenho a certeza: parecem confundir os pronomes, já que «penteava-lo» só pode corresponder a «tu penteavas + o». Na terceira pessoa, como é o caso da frase, «ela penteava + o = ela penteava-o». Porque trago isto para aqui? Porque é erro que vejo com alguma frequência.

[Texto 23 546]

Definição e etimologia: «coronógrafo»

E a coroa?


      «Puis en 1930, c’est une révolution dans l’observation du Soleil : le scientifique français Bernard Lyot invente le coronographe, qu’il installe au pic du Midi (Hautes-Pyrénées), là où le ciel, moins diffusant, permet la meilleure visibilité. Cet instrument permet d’obstruer artificiellement le Soleil et de créer une sorte de mini-éclipse» («Pour les astronomes, une éclipse reste un rendez-vous scientifique à ne pas rater», Vincent Bordenave, Le Figaro, 13.08.2026, p. 9). 
      Que a Porto Editora define assim: «ASTRONOMIA instrumento usado para bloquear a luz directamente emitida pelo Sol ou por outra estrela, de modo a que objectos ou fenómenos próximos (que de outro modo ficariam ocultos pelo brilho) possam ser percebidos». Mas é preciso mais cautela e não deixar de mencionar a corona, ou coroa, que, afinal, está na própria razão de ser e no próprio nome do instrumento. Assim, proponho ➠ coronógrafo ASTRONOMIA instrumento óptico que bloqueia ou reduz fortemente a luz directa do Sol, permitindo observar e estudar a coroa solar e outros fenómenos próximos; por extensão, instrumento que suprime a luz de outra estrela para permitir a observação de objectos ou estruturas muito menos luminosos nas suas proximidades. (Quanto à etimologia, vem do inglês coronagraph, formado do latim corona, «coroa», + -graph, «instrumento que regista ou representa».)

[Texto 23 545]

Léxico: «arco eléctrico» Definição: «arco voltaico»

É melhor não os misturar


      «Retour dans le passé. Octobre 2013, gare de Morges. Cette nuit-là, l’air est humide et sur la peau de Louis Derungs flottent des perles de pluie. Le Vaudois est foudroyé par un arc électrique, 15'000 volts traversent son corps. Il s’effondre. On ignore comment l’étudiant à l’EPFL de 19 ans se retrouve dans cette situation» («15'000 volts lui ont coûté ses bras, mais Louis Derungs y a puisé la force de se réinventer», Maxime Rutschmann, 24 heures, 12.08.2026, p. 3). 
       Nunca se pode seguir apenas um dicionário, ou o fracasso está garantido. O dicionário da Porto Editora nem sequer regista «arco eléctrico», e faz muito mal. Talvez nos aconselhasse a optarmos por «arco voltaico», por ser o único que acolhe, e faríamos mal se seguíssemos o conselho. Para alguns dicionários, «arco eléctrico» é sinónimo de «arco voltaico». Não é o que dizem as fontes técnicas. Todo o arco voltaico é um arco eléctrico; nem todo o arco eléctrico é propriamente um arco voltaico, isto se estivermos a pensar na definição histórica (a que a Porto Editora, por exemplo, acolhe). Assim, a entrada principal deve ser ➠ arco eléctrico ELECTRICIDADE descarga eléctrica sustentada que se estabelece através de um meio gasoso ionizado entre pontos com diferente potencial eléctrico, geralmente acompanhada de intensa emissão de luz e calor. 
      Quanto a «arco voltaico», porque na realidade não há nada a saltar, o que é inadequado para uma descarga sustentada, além que se não se deve misturar condutores de carvão e metálicos, proponho ➠ arco voltaico ELECTRICIDADE designação tradicional de arco eléctrico, originalmente aplicada ao arco luminoso produzido entre dois eléctrodos de carvão.

[Texto 23 544]

Léxico: «gemínida» Definição: «perseida»

Em Agosto, mas estavas na praia


      «La noche del 12 al 13 de agosto brillarán hasta 100 meteoros cada hora, de la lluvia de meteoros Perseidas. Esta lluvia se encuentra activa del 17 de julio al 24 de agosto. Y es junto a las Gemínidas de diciembre, la que no debe perderse. [...] En el caso de las Perseidas, el cometa progenitor es el 109P/Swift-Tuttle, descubierto en 1862. Es un cometa enorme, de 25 km de diámetro y un periodo orbital de 133 años, el tiempo que tarda en darle una vuelta al Sol» («La lluvia de meteoros Perseidas y la tormenta de meteoros de 2028», Germán Martinez Gordillo [Sociedad Astronómica de Puebla Germán Martínez Hidalgo A. C.], El Sol de México, 2.08.2026, p. 11). 
      Já que o prometes, Porto Editora, aqui vai ➠ gemínida adjectivo, nome feminino ASTRONOMIA diz-se de ou meteoro pertencente a uma corrente meteórica cujo radiante se situa na constelação dos Gémeos, observável anualmente em Dezembro e originada por detritos do asteróide 3200 Faetonte | nome feminino plural ASTRONOMIA [com maiúscula] chuva de meteoros produzida por essa corrente, cuja actividade máxima ocorre habitualmente por volta de 13 e 14 de Dezembro. 
      E também a definição de «perseida» está precisada de uns ligeiros retoques. Assim, ➠ perseida adjectivo, nome feminino ASTRONOMIA diz-se de ou estrela-cadente produzida por um meteoróide da corrente associada ao cometa 109P/Swift–Tuttle, cujo radiante aparente se situa na constelação de Perseu e que é observável anualmente em Julho e Agosto | nome feminino plural ASTRONOMIA [com maiúscula] chuva anual de meteoros produzida pela passagem da Terra através dessa corrente de meteoróides, cuja actividade máxima ocorre habitualmente por volta de 12 e 13 de Agosto.

[Texto 23 543]

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