Léxico: «yoctómetro | rontómetro | quectómetro»

Mais três tijolos x 2

      Depois de ter proposto, a seu tempo, à Porto Editora a inclusão dos prefixos yocto-, ronto- e quecto- no Dicionário da Língua Portuguesa, aproveito agora a oportunidade para propor a dicionarização de três unidades de comprimento formadas a partir deles e igualmente ausentes da obra: yoctómetro, rontómetro e quectómetro. Mais os respectivos adjectivos, claro. Todos estes prefixos são oficialmente reconhecidos pelo Sistema Internacional de Unidades, tendo os dois últimos sido aprovados em 2022. Assim, proponho ➠ yoctómetro nome masculino METROLOGIA unidade de comprimento do Sistema Internacional de Unidades equivalente à milionésima parte de um trilionésimo de metro (10⁻²⁴ m); símbolo: ym. | rontómetro nome masculino METROLOGIA unidade de comprimento do Sistema Internacional de Unidades equivalente à milésima parte de um quadrilionésimo de metro (10⁻²⁷ m); símbolo: rm. | quectómetro nome masculino METROLOGIA unidade de comprimento do Sistema Internacional de Unidades equivalente à milionésima parte de um quadrilionésimo de metro (10⁻³⁰ m); símbolo: qm.
[Texto 23 820]

O dicionário

Totem

      «We want it to be available in perpetuity, instantly, at no cost. We prefer to see it not as the work of a group of dedicated, fallible professionals, but as a totem, immutable and yet adaptable, a book that writes itself» («Wut? It’s in the dictionary», Dan Piepenbring, The New York Times, 30.10.2025, p. 15). [«Queremos que esteja disponível para sempre, de imediato e gratuitamente. Preferimos vê-lo não como o trabalho de um grupo de profissionais dedicados, mas falíveis, e sim como um totem, imutável e, ao mesmo tempo, adaptável, um livro que se escreve a si próprio.»] Escrever-se a si próprio? Podemos contribuir, não é?
[Texto 23 819]

Léxico: «zeptómetro»

Tudo a postos

      «Apelidada de ‘zeptoverso’, cientistas da Universidade de Cambridge descobriram a menor escala da natureza alguma vez explorada. Os sinais de que existe matéria 100 mil milhões de vezes menor do que um átomo foram recolhidos quando realizavam experiências em que átomos colidiam para se fragmentar, permitindo descobrir o que têm no interior» («‘Zeptoverso’: cientistas descobriram a menor escala da natureza alguma vez explorada», Expresso, 3.11.2026, 17h58). 
      Corresponde ao inglês zeptoverse. O termo aportuguesado foi também utilizado na imprensa brasileira, nomeadamente na Folha de S. Paulo, na Veja e na Superinteressante. Sabemos perfeitamente o que significa e até poderíamos propor uma definição: «FÍSICA domínio de fenómenos e interacções subatómicas associados a escalas de comprimento da ordem do zeptómetro (10⁻²¹ metros), cuja investigação poderá revelar partículas ou fenómenos ainda desconhecidos». Mas sejamos prudentes: ainda é cedo para saber se o vocábulo se consolidará no uso e, portanto, se justificará a sua inclusão nos dicionários. Falo dele, sobretudo, por causa de outra lacuna, bem mais conspícua, do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: zeptómetro. Ao contrário de «zeptoverso», não estamos perante uma designação recente de divulgação científica, mas uma unidade de comprimento formada a partir de um prefixo do Sistema Internacional de Unidades, aprovado em 1991. 
      Assim, proponho ➠ zeptómetro nome masculino METROLOGIA unidade de comprimento do Sistema Internacional de Unidades equivalente à milésima parte de um trilionésimo de metro (10⁻²¹ m); símbolo: zm.
[Texto 23 818]

Como se escreve por aí

Olhos novos e olhos velhos

      Por vezes, o adjectivo pode ir cair no pior lugar da frase, e não será por excesso de ponderação, antes por pouca ou nenhuma: «Meg equilibrou o pó compacto no colo e começou a testar rapidamente os produtos para os olhos novos – gotas e rímel rico em péptidos de uma empresa de cosméticos selvagens – e terminou a pulverizar uma camada de sombra branca no canto de cada olho. Iria ajudá-la a ter um ar mais desperto e os olhos mais abertos» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 41). E mesmo o «pó compacto», enfim... Mas já falaremos dele.
[Texto 23 817]

Léxico: «rilheira»

Esta é outra

      «Foi Camilo hospedar-se em casa duma mulherzinha de Viela, a um quarto de hora da Granja pelo caminho velho, caminho aqui e além torto e angustioso, sulcado em seu saibro e até na laje pelas rilheiras dos carros da lavoira» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 159). 
      Registas «rilheira», Porto Editora, sim, mas é o molde de ferro dos ourives, quando aqui é o sulco que as rodas dos carros deixam nos caminhos, ou seja, o rodado, ou rodeira. E neste sentido encontra-se muitíssimo mais, sobretudo em traduções. Por vezes, com a ajuda de alguém, os tradutores chegam lá.
[Texto 23 816]

Definição: «absinto | absintismo» Léxico: «tujona»

Falhas e faltas

      «L’histoire raconte que l’idée de faire macérer l’Artemisia absinthium dans de l’alcool revient à une figure locale, la Mère Henriod. Raphael Gasser, directeur de la Maison de l’absinthe, note qu’il n’y avait pas de réelle exclusivité. D’autres artisans en faisaient de même. [...] L’absinthisme est traité comme un syndrome clinique en soi. Le vent de la prohibition se lève. Un familicide survenu à Commugny (VD) en 1905 et attribué à la thuyone (la molécule signature de l’absinthe) achève de diaboliser l’eau-de-vie» («Ce Pernod que la fée verte a offert à la France», Stéphane Gachet, Le Temps, 8.08.2026, p. 13). 
      A definição de «absinto» da Porto Editora, de todos os dicionários, contém várias imprecisões, erros e lacunas. O primeiro erro é desde logo, quanto à bebida, afirmar-se que é feita com folhas, quando são usadas folhas basais, sumidades floridas com algumas folhas, ou uma mistura destes órgãos, secos, inteiros ou cortados. Primeiro, mas não último. Assim, proponho ➠ absinto 1. BOTÂNICA (Artemisia absinthium) planta herbácea perene da família das Asteráceas, nativa da Europa, da Ásia temperada e do Norte de África, muito aromática e de sabor intensamente amargo, com caules ramificados, folhas verde-acinzentadas profundamente recortadas e pequenos capítulos florais amarelos, cujo óleo essencial contém tujona, usada em preparações medicinais e no fabrico de bebidas espirituosas; alosna, losna, sintro; 2. bebida espirituosa de elevado teor alcoólico, tradicionalmente obtida pela maceração e destilação de absinto, anis-verde, funcho e outras plantas aromáticas, de sabor predominantemente anisado, incolor ou verde e com teor variável e legalmente limitado de tujona. 
      Na definição de «absintismo», o problema é outro, e mais grave. A segunda acepção apresenta como facto uma entidade clínica cuja existência autónoma está desacreditada. No século XIX, atribuíam-se à tujona do absinto convulsões, alucinações, perturbações mentais e outros efeitos específicos. Porém, não há provas de que o absinto histórico contivesse tujona em quantidade suficiente para produzir semelhante quadro. Assim, proponho ➠ absintismo nome masculino 1. consumo habitual e excessivo de absinto; 2. HISTÓRIA DA MEDICINA conjunto de perturbações nervosas, psíquicas e digestivas outrora atribuído especificamente ao consumo excessivo de absinto, mas hoje considerado manifestação da intoxicação alcoólica aguda ou crónica, e não uma doença distinta do alcoolismo. (Quanto à etimologia, vem do francês absinthisme, «idem».) 
      E, finalmente, a lacuna, ➠ tujona nome feminino QUÍMICA cetona monoterpénica bicíclica (C₁₀H₁₆O), existente principalmente sob as formas alfa e beta, que ocorre nos óleos essenciais de plantas como a tuia, o absinto e a salva e que, em doses elevadas, actua sobre o sistema nervoso central, podendo provocar convulsões. (Quanto à etimologia, vem do francês thuyone, «idem», derivado de thuya, «tuia».)

[Texto 23 815]

Léxico: «menigrepo»

Talvez não precisemos de emigrar

      «No dia seguinte, tiveram pro forma de se estremar. Os menigrepos no entanto haviam estado a esgrelhar, com sete olhos, para eles, e os soalheiros falaram da continuação do escândalo» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 46). Está, pois, mas só em dicionários e vocabulários do Brasil.
[Texto 23 814]

Definição: «chicha» | Léxico: «milho-roxo»

Não têm grande ajuda, diga-se

      «Na origem da situação de extrema violência esteve, sabe o CM, o consumo excessivo, por parte dos dois reclusos, de chicha. Trata-se de uma espécie de bagaço, feita de forma artesanal com diversas frutas» («Espanca companheiro de cela após beber chicha», Miguel Curado, Correio da Manhã, 4.11.2026, p. 15).
      É claro que o jornalista escreve de outiva: o bagaço é aguardente destilada, e «feita com diversas frutas» descreve uma fermentação. Ou o jornalista não sabe o que é bagaço, ou não sabe como se faz a chicha. Tudo indica que recolheu a informação em segunda mão e lhe juntou uma comparação de efeito. Pode ter colhido a informação no dicionário da Porto Editora: «bebida alcoólica de fabrico artesanal, obtida pela fermentação de determinados cereais, raízes, sementes (milho, mandioca, etc.) ou frutas». Só que lhe falta uma acepção, e, sem ela, o dicionário não serve precisamente quem mais o consulta por causa desta palavra. São bebidas diferentes, a da América do Sul e — com este mesmo nome — a das cadeias portuguesas e espanholas, como as da América hispânica. 
      De volta à definição da Porto Editora, diga-se que apresenta várias deficiências. Desde logo, restringe indevidamente o vocábulo a uma bebida alcoólica, quando existem variedades não alcoólicas e não fermentadas, como a chicha morada, preparada com milho-roxo. Também a referência ao fabrico artesanal é demasiado restritiva, pois a bebida é também produzida comercialmente. A enumeração das matérias-primas é confusa, misturando cereais, raízes e sementes, com exemplos cuja correspondência com essas categorias não é esclarecida. Falta ainda uma indicação geográfica que permita situar esta bebida tradicional da América Central e do Sul. Mais importante ainda, o dicionário omite a acepção documentada na imprensa portuguesa e na gíria prisional: a bebida alcoólica que os reclusos produzem clandestinamente nas cadeias, por fermentação de cascas de fruta, açúcar, pão ou outros alimentos. Esta acepção, também associada à grafia xixa, justifica um registo autónomo. Por último, a nota etimológica apresenta como certa uma origem que permanece discutida. Será mais prudente indicar que o vocábulo provém do castelhano chicha, de origem ameríndia, talvez da língua de Cueva, falada no território do actual Panamá. 
      Assim, proponho ➠ chicha nome feminino 1. bebida tradicional da América Central e do Sul, geralmente fermentada e alcoólica, obtida a partir de milho ou de outros cereais, de raízes (como a mandioca) ou de frutos; designa também bebidas semelhantes não fermentadas, como a chicha morada, de milho-roxo; 2. gíria prisional bebida alcoólica que os reclusos produzem clandestinamente nas cadeias, por fermentação de cascas de fruta, açúcar, pão ou outros alimentos. (Do castelhano chicha, de origem ameríndia, talvez da língua de Cueva, Panamá.)
[Texto 23 813]

Léxico: «gabaérgico»

Tudo pela ciência

      «Bárbara Mota, investigadora da FMUP e primeira autora do estudo, explica ao PÚBLICO que o que a equipa de investigação observou foi que “o consumo crónico de dietas hipercalóricas, ou seja, dietas que são altas em açúcar refinado e gorduras, é capaz de induzir neuroinflamação e provocar alterações no sistema gabaérgico [que afecta o neurotransmissor ácido gama-aminobutírico, ou GABBA, na sigla em inglês], que é o sistema inibitório do cérebro”» («Estudo português mostra como dietas hipercalóricas prejudicam o cérebro adolescente», Filipa Almeida Mendes, Público, 4.08.2024, p. 22).
[Texto 23 812]
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P. S.: Não registaste «folha de couve», Porto Editora?! Qual a dúvida? Até no brasileiro Dicionário de Plantas, de Wagner Azevedo (Foz do Iguaçu: Editora Moan, 2024, p. 58), vejo, na entrada «couve», «folha de couve refere-se, em Portugal, a jornal reles».

Definição: «caranguejo-azul» | Léxico: «navalheira-azul»

Comestíveis, graças a Deus

      «On se pince: le crabe bleu américain est tellement invasif que même le WWF recommande d’en manger. Ça tombe bien, Callinectes sapidus est peut-être bleu fluo, mais c’est un excellent comestible. Son nom latin signifie d’ailleurs “bon nageur savoureux”» («Le WWF demande de manger ces crabes bleus qui prolifèrent en mer», Jocelyn Rochat, Le Matin Dimanche, 9.08.2026, p. 23). 
       Está no dicionário da Porto Editora, sim senhor, mas tem erros e lacunas: «ZOOLOGIA (Callinectes sapidus) caranguejo grande e comestível, da família dos Portunídeos, natural da costa atlântica da América do Norte mas presente em Portugal (onde é considerado espécie invasora), pode atingir mais de 20 centímetros de comprimento e caracteriza-se por apresentar pleópodes de margens azuladas (macho); caxangá, siripuã». Tem pleópodes de margens azuladas? Os pleópodes são pequenos apêndices abdominais, geralmente recolhidos sob o abdómen. A coloração azul característica observa-se sobretudo nos quelípodes, isto é, nas patas terminadas em pinça, particularmente nos machos. E o erro repete-se, pois então, em três verbetes: caranguejo-azul, caxangá e siripuã. E só não é em quatro porque o dicionário não regista «navalheira-azul», termo também muito usado para designar esta espécie. Tem mais erros, mas passemos à principal lacuna, que é não se indicar a característica dos Portunídeos mais imediatamente reconhecível: o último par de patas é achatado, em forma de remo, e adaptado à natação. 
      Tudo visto, proponho ➠ caranguejo-azul ZOOLOGIA (Callinectes sapidus) crustáceo decápode comestível, da família dos Portunídeos, de carapaça larga e achatada, com um longo espinho de cada lado, quelípodes azulados, sobretudo no macho, e último par de patas achatado, em forma de remo; pode ultrapassar 20 centímetros de largura de carapaça; originário da costa atlântica americana, do Canadá à Argentina, encontra-se introduzido na Europa e é considerado espécie invasora em Portugal; cavalheira-azul, caxangá, siripuã.
[Texto 23 811]

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P. S.: Se não podemos vencê-los, comamo-los. Não é assim que se costuma dizer? O caranguejo-azul, anotem, é uma das raras espécies invasoras com valor culinário. Ainda agora quando estive em Génova o vi nas ementas dos restaurantes: spaghetti al granchio blu.

Léxico: «azul-ganga»

Mais cores

      «Pela janela por cima do lava-loiça vê-se um retângulo de céu azul-ganga» (Pessoas Normais, Sally Rooney. Tradução e notas de Ana Falcão Bastos e revisão de Isabel Castro Silva. Lisboa: Relógio D’Água, 2022, p. 88). Mas há algum motivo para manter estes nomes de cores fora dos dicionários?
[Texto 23 810]

Artigo nos topónimos

Teoria final

      «Vitorino Salomé Vieira nasceu no Redondo a 11 de junho de 1942, com muita música em casa. Os pais, tios, os quatro irmãos e até o barbeiro se faziam ouvir e cantar. Cantavam uns com os outros» («“O meu avô era o ‘pisa-flores’, sempre que bebia um copinho subia a rua com uma delicadeza que parecia pisar flores”», Júlio Isidro, Expresso, 16.07.2026, 6h45). 
      Vá lá, pelo menos Júlio Isidro e Vitorino Salomé — e aqui este vosso criado — dizem «o Redondo, no Redondo, ao Redondo». Nunca conheci ninguém, do Redondo ou a viver no Redondo, que omitisse o artigo definido. Se as há, e parece que sim, dirão talvez também «pra futuro», como certo ex-primeiro-ministro que, ganhando as eleições, perdeu o poder. Tenho, aliás, uma teoria sobre a origem desta tendência para omitir o artigo definido que tradicionalmente acompanha certos topónimos, como «o Redondo». Suspeito que tudo começou, aí por meados do século XX, na linguagem burocrático-administrativa, quando as câmaras municipais e outros organismos públicos passaram, sabe-se lá porquê, a escrever os nomes dessas terras sem artigo. O bom povo continuou a falar como sempre falara; os semialfabetizados e os pretensiosos, esses, trataram de imitar os burocratas. E assim se vai substituindo a língua viva pela língua dos impressos.
[Texto 23 809]

Léxico: «berenice | ceguice»

Olhemos para o céu

      Berenice II, rainha do Egipto no século III a. C., prometeu oferecer uma madeixa dos seus cabelos à deusa Afrodite se o marido, Ptolemeu III, regressasse são e salvo de uma campanha militar. Cumpriu a promessa, mas a cabeleira desapareceu do templo. Segundo a lenda, o astrónomo Cónon de Samos explicou que os deuses a tinham posto no firmamento, onde passou a constituir uma constelação. É esta a origem do nome berenice, substantivo feminino registado no Aulete e no VOLP da Academia Brasileira de Letras, mas ausente do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. 
      Assim, proponho ➠ berenice nome feminino ASTRONOMIA constelação do hemisfério celeste norte, situada entre as constelações do Leão, da Virgem e dos Cães de Caça; Cabeleira de Berenice. (Do antropónimo Berenice, nome de uma rainha do Egipto do século III a. C., cuja cabeleira, segundo a lenda, foi posta no firmamento e deu nome à constelação.)
[Texto 23 808]

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P. S.: Puro desmazelo, pura ceguice? Também se arranjam: «Heather estava a receber sulfato de magnésio para as convulsões e comprimidos para tentar baixar a t arterial» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 115).

À volta do AO90

Assim anda a Justiça

       Uma juíza do Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa proferiu, no domingo, uma sentença relativa à permanência de tendas no Rossio, em Lisboa, no âmbito da manifestação pelo direito à habitação. A decisão, que reconhece à requerente o direito de ali permanecer com uma tenda, ocupa nada menos de 78 páginas. Já a leram? Ora, ora... Estão a ver os efeitos deletérios do Acordo Ortográfico de 1990? Nem já a juíza sabe a quantas anda: ora escreve «protecção», ora «proteção»; ora «efectiva», ora «efetiva»; ora «directamente», ora «diretamente»; ora «respectivo», ora «respetivo»; ora «colectiva», ora «coletiva»; ora «afectação», ora «afetação». E isto numa sentença judicial em que ainda encontramos «comprensão», «ocorrereu», «efetciva», «proteçcão», «conteútdo», «caractetize», «enquandramento», «Entiades», «suscetpíveis», «excluí» em vez de «exclui», «foram elaboradas vários autos» e outras gralhas inesperadas. A confusão ortográfica está instalada, as gralhas multiplicam-se e nem a Justiça escapa. E é justo: já que quiseram. E depois ainda querem convencer-nos de que o Acordo Ortográfico veio simplificar a escrita da língua portuguesa! Quanto à matéria de facto e de direito, vou calar-me, que é o que 99 % dos comentadores de rádios e televisões deviam fazer, em vez de dizerem baboseiras sobre o que manifestamente desconhecem. Certo é que a juíza decidiu que o limite das 00h30 não é absoluto nem automático. Ficamos a saber que, para ela, a ortografia também não.
[Texto 23 807]

Definição: «quefir»

Uma espécie de

       O jornal espanhol La Voz de Galicia publicou, no dia 1 de Novembro, um artigo intitulado «Los expertos advierten: no es kéfir todo lo que parece», no qual se chama a atenção para as diferenças entre o quefir tradicional e alguns produtos industriais comercializados com essa designação. A questão interessa-nos também do ponto de vista lexicográfico, pois a definição de «quefir» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apresenta várias insuficiências. 
      Actualmente, aquele dicionário define-o assim: «bebida ligeiramente gasosa, de baixo teor alcoólico, consistência cremosa e sabor levemente azedo, obtida pela imersão temporária de colónias de microrganismos (bactérias e leveduras) num substrato (geralmente, leite)». Há aqui vários problemas. Desde logo, o baixo teor alcoólico não é uma característica necessária: como explica o artigo, certas variedades industriais são produzidas sem leveduras, responsáveis pela formação de pequenas quantidades de álcool. Também a consistência cremosa e a presença de gás não são características invariáveis. Mais grave é a descrição do processo de fabrico: o quefir não se obtém propriamente pela «imersão temporária de colónias de microrganismos», mas pela fermentação de um substrato pela acção desses microrganismos. É precisamente a palavra «fermentação», essencial para compreender o que é o quefir, que falta na definição. Por último, a referência genérica a um «substrato» é desnecessariamente técnica e pouco esclarecedora. 
      Proponho, por isso, ➠ quefir nome masculino bebida fermentada, geralmente obtida do leite, pela acção de uma associação de bactérias e leveduras, de sabor ligeiramente ácido, consistência variável e, habitualmente, ligeiramente gasosa, que pode conter pequenas quantidades de álcool.
[Texto 23 806]

Léxico: «intermetropolitano»

Não só para passes

      «O ministro das Infraestruturas e Habitação anunciou ontem no Parlamento que o passe nacional só deverá arrancar em março de 2027, mas dividido em duas etapas. Reconhecendo que o processo não está a ser fácil, Miguel Pinto Luz informou que, numa primeira fase, o passe intermetropolitano, que junta o Navegante e o Andante, vai permitir viajar nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto “por mais dez euros”» («Passe intermetropolitano adiado para março de 2027», Pedro Duarte Gonçalves, Correio da Manhã, 3.11.2026, p. 23). 
      Pois, ainda fora dos nossos dicionários, pelo que proponho ➠ intermetropolitano adjectivo que se estabelece, realiza ou desenvolve entre duas ou mais áreas metropolitanas; que liga diferentes áreas metropolitanas. (Etimologia: de inter- + metropolitano.)
[Texto 23 805]

Definição: «trans»

A começar pela transcrição fonética

      A palavra «trans» é uma das mais de seis mil novas entradas da mais recente edição do Diccionario de la lengua española, da Real Academia Española. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, já a tínhamos registada há mais tempo, mas os Espanhóis chegaram depois e fizeram melhor: em vez de se limitarem a remeter para «transexual» e «transgénero», apresentam uma definição desenvolvida, que esclarece efectivamente o significado da palavra. Não proponho, contudo, que se adopte integralmente a definição espanhola, pois esta abrange também pessoas cuja expressão de género contraria as convenções sociais, o que não significa necessariamente que sejam trans. Podemos aproveitar-lhe a principal virtude, a autonomia da definição, sem confundir identidade de género com expressão de género. Mas há mais. O verbete da Porto Editora omite a acepção de «trans» no domínio da química, bem conhecida, por exemplo, da expressão «gorduras trans». E até a transcrição fonética, [trɐ̃ʒ], precisa de ser corrigida: em posição isolada, a palavra termina com uma consoante surda, [ʃ], e não sonora, [ʒ]. 
      Proponho, portanto, que o verbete passe a apresentar as seguintes acepções: trans adjectivo e nome de 2 géneros e 2 números 1. que ou pessoa cuja identidade de género não corresponde ao sexo que lhe foi atribuído à nascença; transgénero; 2. QUÍMICA diz-se do isómero geométrico em que determinados átomos ou grupos de átomos se situam em lados opostos relativamente a uma ligação dupla ou a um plano de referência (ex.: gorduras trans). 
      A transcrição fonética deverá passar a [ˈtɾɐ̃ʃ]. Importa ainda rever a informação etimológica, uma vez que «trans», na acepção relativa à identidade de género, é uma forma reduzida de «transexual» ou «transgénero», enquanto o termo utilizado na química provém do latim trans, «do outro lado; além de». Esta diferença de origem justifica, aliás, a criação de dois verbetes homónimos, solução que deveria adoptar-se em muitos outros casos no dicionário, onde se comete frequentemente o erro de atribuir a palavras de origens distintas uma única etimologia, como se todas as suas acepções tivessem a mesma proveniência. Não é propriamente muito difícil.
[Texto 23 804]

Léxico: «folha de couve»

Dantes ouvia-se muito

      Agora, não é em todos os dicionários que se fica a saber o que significa. «Muito se engana quem cuida que o facto de ser escritor de fama, trazer o nome em todas as folhas de couve, ser celebrado por este, discutido por aquele, lhe confere uma soberania particular que o habilita a ser o bom trunfo em tal pretensão ou negócio» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 292).
[Texto 23 803]

Léxico: «palacego»

Um dia será de novo nossa

      «Esta dama umas vezes por outras recebia, e no serão, para remate das diversões palacegas, o anelzinho, o padre-cura, duas cantatas ao cravo, servia chá e bolos» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 301). Está, por exemplo, no VOLP da Academia Brasileira de Letras.
[Texto 23 802]

Definição: «bruxo | bruxa»

Ganham as mulheres

      Porque é que, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, um bruxo é simplesmente «aquele que faz bruxarias», ao passo que uma bruxa é uma «mulher a quem se atribuem capacidades sobrenaturais de origem demoníaca que, supostamente, lhe permitem prever o futuro, causar malefícios, produzir encantamentos, etc.»? Terão os bruxos perdido os seus poderes sobrenaturais, ou serão as bruxas as únicas que os conservam? E há ainda outro problema: a definição de «bruxo» é praticamente circular, pois limita-se a remeter para uma palavra da mesma família, «bruxaria», enquanto a de «bruxa» é desenvolvida e minuciosa. Ora, bastaria substituir «mulher» por «homem» nesta última para obter uma definição igualmente válida de «bruxo». 
      A imagem tradicional da bruxa, com o seu chapéu pontiagudo, a vassoura e o gato preto, foi-se formando ao longo dos séculos. A mais antiga representação conhecida de uma bruxa a voar numa vassoura encontra-se num manuscrito de 1451 de Le Champion des Dames, do poeta francês Martin Le Franc. A associação aos gatos pretos consolidou-se durante as perseguições por bruxaria na Europa, sobretudo entre os séculos XV e XVII, quando se acreditava que estes animais podiam servir de auxiliares sobrenaturais das bruxas. Quanto ao chapéu pontiagudo, a sua origem é mais incerta, havendo várias explicações possíveis. 
      Seja como for, esta tradição iconográfica acabou por fixar uma imagem predominantemente feminina da bruxaria. Mas não parece haver razão para que essa diferença histórica e cultural se traduza numa diferença tão acentuada entre as definições de «bruxo» e «bruxa». Pois bem, Porto Editora, fica-te com esta: a primeira pessoa de que há notícia ter confessado que voara numa vassoura foi um homem. Chamava-se Guillaume Edelin, era sacerdote francês e corria o ano de 1453. É verdade que a confissão foi obtida sob tortura, mas isso já é outra história. Que fica para outro dia ou para nunca.
[Texto 23 801]

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