Léxico: «cerra-cabos»

Talvez eu


      «“Faltam cabos de aço inox e um tubo também de inox no corrimão junto à porta principal do teatro. Esta situação, potencialmente perigosa para o público infantil, tem sido reparada pela companhia com recurso a cabos de aço normal e cerra-cabos”, alertava um dos relatórios enviados ao município» («Sete acusados em queda de atriz», Paula Gonçalves, Correio da Manhã, 7.05.2026, p. 33). 

      Quem diria que o dicionário da Porto Editora não acolhe «cerra-cabos»? Pois, ninguém. Aqui vai o ➜ cerra-cabos peça metálica, geralmente em forma de U com uma braçadeira apertada por porcas, usada para fixar, unir ou formar olhais em cabos de aço, comprimindo a extremidade do cabo contra si própria.

[Texto 22 944]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Para a legião de anglófilos que me segue: caso se encontrem em Londres e precisem de comprar um cerra-cabos, convém saber que os Ingleses lhe chamam “U-bolt cable clamp”. Talvez o encontrem na velha MacCulloch & Wallis, algures entre Lambeth e uma Londres que já quase desapareceu, entre latas de tinta enferrujadas, dobradiças vitorianas e um empregado de avental castanho que responde “right you are” sem sequer levantar os olhos. Arrogante duma figa. Ou mais literário: arrogante do caralho. Se lá estiver um empregado indiano chamado Rajiv Patel, este sim, simpático, digam-lhe que vão da minha parte: «Mr Guégués told us you were the kindest and most helpful employee in Greater London... and we believe him, because Mr Guégués almost always tells the truth.»


Léxico: «locotractor/locotractora»

É só um exemplo


      Faltarão muitos milhares de palavras nos dicionários, isso é certo. Por exemplo, na CP toda a gente sabe o que é ➜ locotractor/locotractora FERROVIA veículo ferroviário motorizado, de dimensões geralmente reduzidas e destinado sobretudo a manobras, deslocação de vagões ou composição de comboios em estações, oficinas e terminais; distingue-se das locomotivas de linha pela menor potência e velocidade, privilegiando o esforço de tracção a baixa velocidade.

[Texto 22 943]

Léxico: «alabardeiro»

Único uso actual


      «Leão XIV presidiu, esta quarta-feira, na Aula Paulo VI, à cerimónia de tomada de posse de 28 novos recrutas da Guarda Suíça Pontifícia. Aos novos alabardeiros, o Papa dirigiu palavras de carinho e agradecimento: “A vós, queridos jovens que prestaram o Juramento, expresso a minha estima e gratidão”. A Guarda Suíça Pontifícia, foi fundada há 520 anos, em 1506, pelo Papa Júlio II. É a força militar mais pequena e antiga no mundo» («Novos guardas suíços prestam juramento no Vaticano», Miguel Marques Ribeiro e Aura Miguel, Rádio Renascença, 6.05.2026, 20h12). 

      Uso que justifica plenamente nos dicionários acrescentar-se, pela sua especificidade e sobrevivência na actualidade, ➜ alabardeiro 2. membro da Guarda Suíça Pontifícia sem funções de comando.

      Actualmente, os alabardeiros são 85 dos cerca de 135 efectivos da Guarda Pontifícia, distribuídos por vários postos e responsáveis, entre outras funções, pela vigilância dos acessos ao Vaticano e pela protecção próxima do papa.

[Texto 22 942]

Como se traduz por aí

Também na costa, mas noutra


      O 4.º e último episódio da 1.ª temporada da série Vigilantes (Brigade Anonyme), na RTP2, andou todo à volta do desaparecimento de um adolescente, Lucas. Depois de ver que a última mensagem de um dos envolvidos fora enviada de Pontaillac, Charlie pergunta à mãe de um deles onde era. «C’est une plage sur la côte. Mon beau-frère a un carrelet là-bas.» Nas legendas (de Susana Serrão), a opção foi por «palheiro». Pouco feliz. «O meu cunhado tem lá um palheiro...» «Descreva o palheiro, se faz favor», pede Castaneda. «C’est une des cabines sur pilotis. C’est vers la pointe, c’est le plus loin quand on vient de la plage et il y a des volets verts.» Fez-me lembrar uma tradução de um romance norte-americano de que falava Jorge Colaço cujo protagonista, nas palavras do tradutor, «sofrera as passas do Algarve». Enfim... Susana Serrão, bastava optar por «cabana de pesca», por exemplo.

[Texto 22 941]

Léxico: «stablecoin»

Já está bem assente


      Está na hora de dicionarizarmos o estrangeirismo «stablecoin». Volta não volta, ele aí está na imprensa: «Portugal passa a ter a partir desta quarta-feira stablecoins, uma aposta do Bison Bank, banco português de investimento que nasceu do Banif. É uma iniciativa pioneira no país. Já existem stablecoins famosas no mercado internacional e na Europa são ainda pontuais as emissões. [...] O que são as stablecoins? “É um token de moeda eletrónica, ou um electronic money token”, explica António Henriques. “Não é uma moeda, mas é equivalente a uma moeda no sentido em que é representado por um token, digital suportado em blockchain, que está depois suportado pela sua equivalência na moeda em que está indexado”, acrescenta» («Primeira stablecoin portuguesa é lançada esta quarta-feira», Sandra Afonso, Rádio Renascença, 6.05.2026, 00h00, itálicos meus). 

      Assim, proponho ➜ stablecoin ECONOMIA, FINANÇAS criptomoeda indexada a um activo estável, geralmente uma moeda fiduciária, concebida para reduzir a volatilidade típica das restantes criptomoedas.

      A etimologia já diz tudo, ou quase ➜ do inglês stablecoin, de stable, «estável», + coin, «moeda».

[Texto 22 940]

Léxico: «esporteirar»

Apregoar aos sete ventos


      «O despique à porta do convento não prosseguiu. As alusões insidiosas à aventura com a freira e ao seu alistamento no constitucionalismo só o podiam diminuir no conceito de gente que esfalfara os pulmões a esporteirar o Rei chegou» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 99). 

      Parece ter alguma relação com porta, e tem: é disparatar à porta, proclamar. É também comportamento e ocupação próprios de porteiras, que dispõem de todo o tempo do mundo para se ocupar da vida alheia. Felizmente, é uma espécie em extinção. 

[Texto 22 939]

Léxico: «sercialinho»

Nem por ser tão única


      Em mais um episódio do programa De Gente & De Vinha, no Conta Lá, um vitivinicultor afirmou que será o maior produtor de Sercialinho do mundo. Como, porém, ninguém é profeta na sua terra, o nome da casta nem sequer está nos nossos dicionários. Assim, proponho ➜ sercialinho VITICULTURA 1. casta de uvas brancas portuguesa, rara e de cultivo sobretudo bairradino, onde é autorizada para a produção de vinho; resulta do cruzamento entre as castas Vital e Uva Cão, identificado por estudos genéticos recentes; origina vinhos de acidez elevada, frescura marcada e perfil aromático próprio, com notas frequentemente citrinas e minerais; apesar do nome, não deriva da casta Sercial, com a qual foi historicamente confundida, constituindo variedade distinta e de utilização limitada no encepamento nacional; 2. uva destas videiras.

[Texto 22 938]

Definição: «violação»

Não chega para todos os casos


      Na terça-feira de manhã, ouvi uma jurista na Rádio Observador que, a propósito do crime de violação, referiu que há um aspecto na violência doméstica que é quase sempre omitido, que é a ocorrência, muitas vezes, de violação. Nada disso, porém, tem implicações na definição de violação no sentido jurídico. Há, porém, outros casos, frequentíssimos, que a definição que encontramos no dicionário não prevê: a violação de menor. Relembremos a definição da Porto Editora: «DIREITO crime cometido por quem constranger ou obrigar outra pessoa a sofrer ou praticar relações sexuais, por meio de violência, ameaças ou após a ter posto na impossibilidade de resistir; estupro». Demasiado estreito. O problema está em pressupor que o núcleo do crime é sempre o constrangimento. Ora, juridicamente, há situações em que não é preciso constranger, porque o consentimento não tem valor. Um menor pode aceitar, pode até ser persuadido ou enganado, mas isso não transforma o acto em lícito, simplesmente porque falta capacidade para um consentimento válido. 

      Assim, proponho ➜ violação DIREITO crime que consiste em constranger ou determinar outrem a sofrer ou a praticar actos de natureza sexual, mediante violência, ameaça grave ou aproveitamento de situação que impeça a livre formação da vontade, ou em realizar tais actos sem consentimento juridicamente válido da vítima, designadamente por incapacidade ou menoridade; estupro.

[Texto 22 937]

Léxico: «serradoiro»

Quem diria


      «Não importa que sejam de lenho diferente. Na estrutura interior duma cómoda de Boulle topa-se com o pinho democrático. E tanto é utilizável o simples sarrafo como a bela prancha cortada nas proporções estandardizadas do serradoiro» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 143). 

      E estão a ver Aquilino aqui a escrever «estandardizadas» como gente grande? Ah, pois, não eram só palavras do bom povo, mas também estas se insinuavam pelos interstícios da tessitura.

[Texto 22 936]

Definição: «nucleótido | pentose»

Não ajuda, não


      «Essas “letras” do ADN chamam-se “nucleótidos”, ou “bases”. O ADN dos seres vivos é composto só por quatro dessas letras (A, T, G, C), distribuídas aos pares ao longo desta molécula em forma de dupla hélice: o A (de adenina) emparelha sempre com o T (de timina), enquanto o C (de citosina) faz parelha com o G (de guanina)» («Património genético da humanidade contado a partir de duas grandes viagens (e muitos bagos de arroz)», Teresa Firmino, Público, 9.06.2024, p. 24). 

      A explicação é simplificadora, sim, mas imprecisa ao identificar nucleótidos com bases, quando estas são apenas um dos seus constituintes. Também a definição da Porto Editora, ao restringir o termo ao ADN e não explicitar essa distinção, não ajuda a corrigir a confusão. Assim, proponho ➜ nucleótido BIOQUÍMICA unidade estrutural dos ácidos nucleicos (ADN e ARN), constituída por uma base azotada ligada a uma pentose e a um ou mais grupos fosfato.


[Texto 22 935]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Na definição de «neucleótido», Porto Editora, basta escrever «pentose», sem explicação adicional. Em contrapartida, «pentose» tem de ter outra definição, menos hermética e mais actual, assim ➜ pentose QUÍMICA monossacarídeo com cinco átomos de carbono, como a ribose e a desoxirribose.


Como se traduz por aí

Sim, boa sorte


      No 3.º episódio da série Vigilantes (Brigade Anonyme), Castaneda recebe uma nova chamada de pais em pânico: Adèle Hayat, a filha de 20 anos, desapareceu antes de embarcar num avião para se juntar a eles em Ajaccio. Quando descobriram que a última pessoa que estivera com ela era Damien, um empregado do Grande Hotel, em Royan, a equipa foi lá apertar com ele. Conversaram e, vendo que era inocente, Castaneda despede-se: «OK, on va te laisser travailler. Bon courage.» Pois, mas o que estava nas legendas, de Susana Serrão? «Podes voltar ao batente. Boa sorte.» Boa sorte também para os espectadores, pode ser que 0,5 % percebam isto.

[Texto 22 934]

Definição: «biomimética»

Ou parecerá tudo igual


      Ontem à noite, na TSF, ouvi parte de um programa em que estavam Carlos Fiolhais e uma cientista e falavam das soluções inspiradas na Natureza, como o velcro. Neste ponto, Carlos Fiolhais aludiu à inspiração que os arquitectos vão buscar à Natureza, mas isto é porque nunca ouviu que não se deve ensinar o padre-nosso ao vigário. Ou don’t teach your grandmother to suck eggs. A cientista lembrou que, neste caso, se trata de mera bioinspiração, porque à forma não corresponde nenhuma função. No caso do velcro, por exemplo, já há biomimética, porque ocorre uma imitação funcional da Natureza. É justamente a explicitação deste aspecto que falta na definição de «biomimética», ou tudo parecerá mera inspiração. Assim, proponho ➜ biomimética área de investigação interdisciplinar que procura desenvolver novas soluções técnicas por imitação ou adaptação de processos, materiais, estruturas ou mecanismos presentes nos seres vivos ou na Natureza.

[Texto 22 933]

Léxico: «síndrome de Hulk»

Passar-se dos carretos


      «A sessão terminou antes de confessar o crime – o que irá fazer, segundo o advogado de Defesa. Pedro Pestana vai, no entanto, argumentar que o jovem sofre de transtorno explosivo intermitente, uma condição psiquiátrica caracterizada por episódios graves de agressividade desproporcionais ao evento que os desencadeia conhecido vulgarmente com ‘síndrome de Hulk’» («Viúva empurra culpa para amante, defesa alega ‘sindrome de Hulk’», João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 5.05.2026, p. 14). 

      Ora, ora, e não sofremos todos? Só que, se formos minimamente sãos de espírito, travamos a tempo. Mas quanto à designação da síndrome, sim, é de uso popular, mas usada na imprensa e até em tribunal. A correspondência unívoca com transtorno explosivo intermitente é que é imprudente, pelo que proponho ➜ síndrome de Hulk PSIQUIATRIA designação popular do quadro caracterizado por episódios súbitos de agressividade extrema, desproporcionada e descontrolada, podendo envolver violência grave contra terceiros, frequentemente seguida de exaustão ou perturbação da memória; aproxima-se de descrições clínicas como a síndrome de amoque ou o transtorno explosivo intermitente, sem com estas corresponder de forma rigorosa.

[Texto 22 932]

Léxico: «termosselado»

Mais um que fica selado


      «Apesar de haver pratos sazonais como as feijoadas, a base de tudo é a sopa, que está a ser triturada aqui mesmo ao lado — a favorita do chef é a Sopa da Pedra. Da panela (mais alta do que nós) sai uma varinha mágica proporcional. Ao lado, as sopas são embaladas e termosseladas por um robô, como aquele que sela as embalagens das refeições que seguem para a zona de expedição» («Os supermercados querem ser os novos restaurantes?», Inês Duarte de Freitas e Rita Caetano, Público, 2.05.2026, 8h44).

[Texto 22 931]

Léxico: «peixe-capitão»

É peixe, capitão


      «Sem hesitar, peço um peixe-capitão fumado, acompanhado por asas de raia com molho de alcaparras» («Na rota da escravatura», Tiago de Matos Fernandes, «Revista E»/Expresso, 17.04.2026, p. 31). 

      No caso, porque varia, já que se dá o mesmo nome a outras espécies noutras zonas do globo, é ➜ peixe-capitão ZOOLOGIA designação comum, em países da África Ocidental, de peixes marinhos do género Lethrinus (família Lethrinidae), de corpo robusto e hábito costeiro, muito utilizados na alimentação, frequentemente consumidos fumados.

[Texto 22 930]

Léxico: «donzelinho | samarrinho»

A casta e o vinho


      «A zona, estando colada ao Douro, tem com ele uma grande cumplicidade de castas e métodos de produção, havendo assim uma proximidade entre os vinhos produzidos nestas terras altas. Já em 1532, Rui Fernandes, na sua “Descrição do Terreno em Redor de Lamego Duas Léguas”, nos dá informações essenciais sobre os vinhos na época, na zona de Lamego mas também no Douro. Muitas das castas de que hoje falamos já vêm aqui citadas, como bastardo, malvasia, castelão, verdelho, terrantez, donzelinho, samarrinho, mourisco, ferral e felgosão (que creio ser a que hoje chamamos Folgosão)» («Para uma história do espumante em Portugal», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 34).

[Texto 22 929]

Definição e etimologia: «hantavírus»

Não tão simples


      «O Ministério dos Negócios Estrangeiros confirma, através da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, que há um português a bordo do navio de cruzeiro, retido ao largo de Cabo Verde devido a um surto de infeção respiratória a bordo. [...] Cabo Verde recusa a entrada do navio, onde três pessoas morreram e há outras duas infetadas com hantavírus, um vírus transmitido por roedores» («Há um português a bordo do cruzeiro onde morreram 3 pessoas», Anabela Góis e Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 4.05.2026, 13h41). 

      É a oportunidade para actualizar e melhorar a definição e a etimologia. Assim, proponho ➜ hantavírus PATOLOGIA grupo de vírus da família Hantaviridae, do género Orthohantavirus, cujo reservatório natural são roedores, transmitido ao ser humano sobretudo por inalação de aerossóis contaminados com excreções (urina, fezes, saliva) desses animais; raramente, e apenas em algumas estirpes (nomeadamente o vírus Andes), pode ocorrer transmissão entre humanos; pode provocar infecções graves, designadamente a febre hemorrágica com síndrome renal e a síndrome pulmonar por hantavírus, caracterizadas por febre, aumento da permeabilidade capilar e atingimento renal ou respiratório.  

      Vem do inglês hantavirus, «idem», a partir do topónimo Hantan (rio da península da Coreia), onde o vírus foi identificado durante a Guerra da Coreia (1950-1953).

[Texto 22 928]


⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Soube agora, pela leitura da imprensa suíça, que algumas estirpes americanas, sobretudo o vírus Andes, distinguem-se pela elevada virulência e pela possibilidade, rara entre hantavírus, de transmissão entre humanos. A mortalidade de certas variantes sul-americanas pode aproximar-se dos 30 %, enquanto as estirpes europeias tendem a provocar formas renais menos graves.


Definição: «autólise»

E não queremos isso


      «Ainda que as principais inovações tenham sido, como vimos, no século XIX, durante o século XX houve avanços científicos que ajudaram ao apuro da técnica de produção. O saber sobre o assunto é um work in progress que entra pelo século XXI. Por exemplo, ainda não há conclusões definitivas sobre o uso da carica ou de uma rolha com grampo para conservar a garrafa fechada durante o estágio, atendendo à permeabilidade (entrada de oxigénio) de um e outro vedante; a técnica de contagem de leveduras que ajuda à melhor definição da bolha do vinho; o fenómeno da autólise das leveduras — que ocorre quando as células da levedura morrem e as suas próprias enzimas começam a quebrar as estruturas celulares e a libertar compostos aromáticos» («Para uma história do espumante em Portugal», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 34). 

      Um leitor que vá do artigo para a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora concluirá inevitavelmente que um dos dois está incorrecto: «BIOLOGIA destruição espontânea dos tecidos orgânicos». Está de tal forma incompleto, que só pode gerar dúvidas no leitor leigo que consulta o dicionário. 

      Para evitar isso, proponho ➜ autólise BIOLOGIA degradação de células ou tecidos por acção das enzimas próprias da célula, geralmente após a morte celular ou em condições que comprometem a sua integridade, conduzindo à desagregação dos seus constituintes.

[Texto 22 927]

Léxico: «ané | fante»

Isto interessa-nos


      «Do lado de cá, nas margens de Aného, um braço do rio antecipa-se à foz e, sem pedir licença, faz uma incisão na linha costeira, para se encontrar com o Atlântico. Foi precisamente ali que, no final do século XVII, os anés, originários da antiga Costa do Ouro, procuraram refúgio dos ataques do Império Denkyira, cujos grupos armados procuravam sequestrá-los, fosse para os escravizar, fosse para os vender a mercadores europeus, através de intermediários da etnia fante. Sendo originários do local onde, 200 anos antes, os portugueses haviam construído o Castelo de São Jorge da Mina (no atual Gana), os anés passaram a integrar o conjunto de povos chamados Mina» («Na rota da escravatura», Tiago de Matos Fernandes, «Revista E»/Expresso, 17.04.2026, p. 30).

      Quanto a fante, o Houaiss indica que também tem a variante fânti, o que devemos ter em conta.

[Texto 22 926]

Léxico: «executividade | pré-executividade»

Já nos esquecíamos deste


      «Há, contudo, uma distinção importante a fazer entre as disposições que produzirão efeitos imediatos e aquelas que dependem de regulamentação para ter plena executividade» («Com nova Lei da Nacionalidade, Portugal reescreve o futuro de muitos imigrantes», Amanda Rattes, Público, 4.05.2026, 9h30).

[Texto 22 925]

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