Léxico: «interorgânico»

Precisava dele


      «“Embarcámos numa missão para compreender esta comunicação interorgânica entre o rim e o coração”, disse Uta Erdbrügger, professora associada de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, co-autora do estudo. “Descobrimos que há moléculas que comunicam entre o rim e o coração”» («Os cientistas poderão finalmente saber porque é que os doentes renais morrem de doença cardíaca», Allyson Chiu, Público, 3.02.2026, 7h05).

[Texto 22 361]

Léxico: «tempestade de ferrão»

Este ano, ficamos diplomados


      «A depressão Kristin, com especificidades, com precipitação e vento muito intenso, tem a ver com a geração de uma tempestade de ferrão ou sting jet. Segundo Pedro Matos Soares [especialista em clima], estes sting jet são relativamente raros em Portugal, mas já aconteceram em 2009 e depois em 2018, associado ao furacão Leslie» («Mau tempo. Sequências de tempestades são raras e a culpa é do anticiclone dos Açores», Rádio Renascença, 3.02.2026, 8h57, itálicos meus). Se apareceu, temos de acolher ➜ tempestade de ferrão METEOROLOGIA corrente de vento muito intensa e localizada, associada a alguns ciclones extratropicais em rápida intensificação, que desce de camadas médias da troposfera e atinge a superfície com rajadas extremas; o nome provém da forma em ferrão visível nas imagens de satélite, e o fenómeno, raro mas potencialmente destrutivo, é conhecido internacionalmente por sting jet.

[Texto 22 360]

Definição: «tragédia»

Falta a origem de tudo


      Pelo que vejo, falta uma acepção de «tragédia» no dicionário da Porto Editora. Onde está a tragédia como peça teatral na Antiguidade? Pois, não está, e devia ser a primeira acepção. Assim, proponho ➜ tragédia 1. LITERATURA peça teatral, geralmente em verso, cuja acção se caracteriza por um tom elevado e culmina num desfecho funesto, despertando sentimentos de piedade e terror; surgiu na Grécia Antiga como forma dramática ligada a personagens nobres ou heróicas, com estrutura frequentemente dividida em cinco actos. 

      Pois, cinco actos, a que correspondem fases como a exposição, o desenvolvimento, o clímax, a peripécia e o desenlace. Estrutura que é retomada muito depois, e já não somente no teatro: estou a pensar, por exemplo, na obra A Morte em Veneza, de Thomas Mann.

[Texto 22 359]

Definição: «onça»

Façamos a nossa parte


      «O preço do ouro atingiu esta segunda-feira um novo recorde acima dos 5.100 dólares por onça, o equivalente a 28,3 gramas» («Ouro, prata e platina batem novos recordes», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 27.01.2026, 00h01). 

      A minha avó tinha razão ao dizer que o que se faz de noite de dia aparece, querendo significar com isso que há certas tarefas que não se devem fazer à noite, em que se devia estar a dormir, não a trabalhar. Caro Ricardo Vieira, a equivalência apresentada — uma onça = 28,3 gramas — refere‑se à onça avoirdupois, não à onça troy, que é a unidade usada no comércio de metais preciosos e que equivale a 31,103 476 8 g. Também é caso para dizer que os dicionários têm alguma culpa disto, já que não distinguem claramente nem ordenam as acepções pela sua relevância e actualidade. Daí a minha proposta ➜ onça 1. medida de peso de metais preciosos, usada em cotação de ouro, prata e platina, equivalente a 31,103 g (onça troy / onça fina); 2. medida inglesa de peso, usada principalmente nos Estados Unidos e, de forma cada vez mais limitada, no Reino Unido, para produtos comuns; equivale a 28,349 g (onça avoirdupois); 3. peso antigo português, usado até ao século XIX, equivalente à décima sexta parte do arrátel, ou seja, 28,6875 g; 4. antiga moeda espanhola de ouro, cunhada entre os reinados de Filipe III e Fernando VII, com peso próximo de uma onça e valor de 329 reales; 5. antiquado pequeno pacote de tabaco em fio, de peso variável; 6. Cabo Verde medida agrária tradicional, equivalente a cerca de 1.089 m²; 7. figurado coisa de pouco valor, pequena, insignificante.

[Texto 22 358]

Léxico: «sindicalidade»

Vinda de São Tomé


      «No entanto, [os juízes do Tribunal Constitucional são-tomense] referem que a lei “não consagra uma imunidade absoluta dos actos parlamentares”, mas estabelece “critério material de sindicalidade constitucional”» («TC de São Tomé declara inconstitucional destituição da presidente do Parlamento», Público, 3.02.2026, 16h50).

[Texto 22 357]

Léxico: «pododermatite»

Então está na hora


      «“Os juízes desembargadores confirmaram que o direito de informar os portugueses sobre as condições nos aviários é um pilar da liberdade de expressão que não deve ser cedido a estratégias de marketing. O acórdão refere factos graves validados pela prova produzida, descrevendo aves criadas com excesso de densidade, utilização de antibióticos e animais com queimaduras e pododermatites por estarem muito tempo em cima das suas fezes”, lê-se no comunicado [da Frente Animal]» («Relação do Porto rejeita recurso do Pingo Doce contra denúncia da Frente Animal», Público, 24.01.2026, 12h45).

      Pobres animais... E pobres falantes, que não encontram nos nossos dicionários ➜ pododermatite VETERINÁRIA inflamação ou lesão infecciosa na pele das patas de animais, em especial aves e roedores, causada por contacto prolongado com substratos húmidos ou sujos, pressão excessiva, fricção ou deficiências nutricionais; manifesta-se por vermelhidão, inchaço, ulceração ou necrose nas zonas plantares.

[Texto 22 356]

Léxico: «telha lusa» e outras

Temos de falar


      «A Câmara de Famalicão vai enviar, na terça-feira, para os distritos de Leiria e Santarém, mais de oito mil telhas para a reconstrução das habitações afetadas na última semana pela tempestade Kristin, foi hoje divulgado. [...] Posto isto, a Câmara avançou para a aquisição do material – 26 paletes de telha lusa F3 – para a doação» («Famalicão oferece 8.000 telhas aos distritos de Leiria e Santarém», Pedro Gonçalo Costa, O Minho, 2.02.2026, 18h13). 

      Os nossos dicionários estão claramente falhos quanto a tipos de telhas. Há mais, mas vamos concentrar-nos em três: telha lusa, telha de canudo e telha marselhesa (neste caso, a sugestão é apenas de melhoria, dado que a Porto Editora já a acolhe). Assim, proponho ➜ telha lusa s. f. constr. telha cerâmica de origem portuguesa, de perfil recto e pouco ondulado, dotada de sistema de encaixe lateral e longitudinal que assegura o encaixe entre peças, garantindo estanquidade e eficaz escoamento da água; peça robusta, com relevos de vedação nas zonas de engate, destina-se a coberturas com inclinação moderada a acentuada, sendo emblemática da construção tradicional portuguesa. | ➜ telha de canudo, telha mourisca ou telha árabe s. f. constr. telha cerâmica tradicional de forma semicilíndrica, composta por peças curvas justapostas em pares alternados, uma com a concavidade voltada para cima (canal) e outra sobreposta com a concavidade para baixo (cobertura), formando linhas de escoamento; usada em coberturas inclinadas de edifícios históricos ou de arquitectura vernacular, sobretudo no Sul de Portugal, requer fixação com argamassa ou sistema equivalente para garantir estanquidade e resistência ao vento. | ➜ telha marselhesa s. f. constr. telha cerâmica plana e rectangular, dotada de sistema de encaixe lateral e superior que permite o travamento sequencial das peças e a sua fixação directa ao ripado; apresenta perfil com reentrâncias e saliências para condução da água e reforço da estanquidade, sendo leve, de aplicação rápida e produzida industrialmente em vários acabamentos; amplamente usada em coberturas modernas ou reabilitadas, adapta-se bem a telhados de inclinação média a acentuada.

[Texto 22 355]

Extras! Extras! Extras!

Isto está a melhorar


      «Diretiva de 2016 torna horas extras em trabalho escravo na PSP» (João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 3.02.2026, p. 18).

[Texto 22 354]

Léxico: «ficar mal na fotografia»

Para os estrangeiros e para nós


      Estou para ver quando levam isto para os dicionários: «Nos casos relatados ontem na imprensa britânica, de mortes que ocorreram no final do ano passado, são os hotéis do grupo Riu na ilha do Sal que ficam mal na fotografia» («Famílias de turistas britânicos mortos por infecção em Cabo Verde recorrem à justiça», Ana Brito, Público, 2.02.2026, p. 39). Agora imaginem um estrangeiro só com umas luzes da nossa língua — daqueles que confundem cozinha com cuzinho — a traduzir a expressão. Mas, quem sabe, talvez nos perguntasse. Teríamos de explicar. You may not have done the crime, but you showed up in the frame, and now you’re the face of the scandal.

[Texto 22 353]

Definição: «prussianismo»

Mais rigor


      Ainda bem que esta prefaciadora usou, e definiu, a palavra «prussianismo». Aproveitemos nós a lição propondo ➜ prussianismo 1. condição ou característica do que é prussiano; 2. doutrina, atitude ou sistema de valores associados à cultura ou mentalidade prussiana, especialmente no que respeita à disciplina rígida, ao autoritarismo, ao militarismo e à valorização do dever, da ordem, da coragem, do zelo e do trabalho árduo; 3. [por extensão] qualquer forma de organização ou ideologia marcada por autoritarismo, militarismo e culto da autoridade.

[Texto 22 352]

Fases intermédias (ou de transição) da Lua

Depois das crianças, nós  🌖


      Ontem à tarde, ao ver no meu relógio Huawei que estávamos na fase de minguante convexa (não é a nossa nomenclatura), fui ver como estavam as fases intermédias ou de transição no dicionário da Porto Editora. Não estavam. E não terá sido o vento que as levou, nunca lá estiveram. E, contudo, até em programas infantis da RTP e da SIC se fala nestas fases. Assim, proponho ➜ lua crescente côncava ASTRONOMIA fase entre a lua nova e o quarto crescente, com menos de metade do disco lunar visível iluminado; lua crescente gibosa ASTRONOMIA fase entre o quarto crescente e a lua cheia, com mais de metade do disco lunar visível iluminado. | lua minguante gibosa ASTRONOMIA fase entre a lua cheia e o quarto minguante, com mais de metade do disco lunar visível iluminado; lua minguante côncava ASTRONOMIA fase entre o quarto minguante e a lua nova, com menos de metade do disco lunar visível iluminado.

[Texto 22 351]

Definição: «bug»

Ai sim? Então toma um contra-exemplo


      Acabei de reportar à Apple um erro muito estúpido — um bug — do iOS. Veremos se o corrigem. Nem precisam de me agradecer. De caminho, tratemos de outro caso: a definição de bug no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Como é meu timbre, não vou limitar-me a dizer que está errada, mas propor a correcção. Está assim: «INFORMÁTICA erro ou falha na execução de um programa, prejudicando ou inviabilizando o seu funcionamento». Vamos lá ver, um bug não é apenas na execução. Um bug pode estar no código mesmo que nunca seja executado, ou pode manifestar-se apenas em condições específicas (como era o caso daquele que reportei). Assim, proponho ➜ bug INFORMÁTICA defeito ou erro no código de um programa que resulta em comportamento não intencional, incorrecto ou inesperado, independentemente da sua gravidade ou impacto no funcionamento geral do sistema.

[Texto 22 350]

Definição: «gorila-das-montanhas»

Só que pode estar melhor


      «The mountain gorillas were already restricted to a handful of forest fragments. Hunting alone caused the Virunga gorilla population to drop from 400-500 individuals in 1960 to 260-290 during Amin's regime» («Gorillas are what we want to be, says Gladys Kalema-Zikusoka», M. Nobinraja, The Hindu, 3.02.2026, p. II). 

      Só esta informação, entre outros dados do artigo, já contribuirá para melhorar a definição de ➜ gorila-das-montanhas ZOOLOGIA (Gorilla beringei beringei) subespécie do gorila-do-oriente que habita florestas montanhosas entre 2200 e 3900 metros de altitude, nas regiões de Ruanda, Uganda e República Democrática do Congo; distingue-se pela pelagem espessa, negra e comprida, e por viver em grupos familiares coesos; é a mais rara das subespécies de gorila, com uma população inferior a mil indivíduos.

[Texto 22 349]

AOLP90 ainda por assimilar

Oh, Luís, que desilusão


      «Foi no gabinete de José Guerreiro que alguém abriu a boca e propôs o nome que agora é maldito. Parecia inofensivo, era internacional e ninguém se chatearia. Ao presidente do IPMA pareceu-lhe bem. Ligou aos colegas europeus e todos aprovaram que seria menina a tempestade que os meteorologistas do sul da Europa previram que chegaria mais pujante a Portugal do que a qualquer outro lugar. O “K” não é letra do alfabeto que conheçamos, mas é rabisco obrigatório em quase todo o lado e funcionou como álibi, assim ninguém se chatearia por ter o seu nome associado a uma vingança... mesmo que da natureza» («O pai de Kristin é português», Luís Osório, Diário de Notícias, 3.02.2026, p. 4).

      E é logo um adepto desta ortografia avariada que vem dizer isto, que o k (porquê a maiúscula?) não faz parte do nosso alfabeto. Estude lá bem isto. Não por causa da mudança da grafia, mas da imigração, é ver agora a lista de nomes permitidos do Instituto dos Registos e do Notariado começados por k

[Texto 22 348]

Léxico: «exame de Montreal»

Está a precisar de MoCA 


      «Trump, de 79 anos, insiste ter obtido resultados “perfeitos” num teste cognitivo “exigente”, a última vez em 2025. O republicano nunca refere o teste pelo nome, mas a descrição dos exercícios de identificação e de ordenação de imagens indicia que será o exame de Montreal, uma ferramenta de diagnóstico de Alzheimer» («De Washington a Bruxelas pergunta-se se Donald Trump está bem», Pedro Guerreiro, Público, 2.02.2026, p. 20). 

      É melhor guardá-lo no sítio certo ➜ exame de Montreal MEDICINA nome comum do Montreal Cognitive Assessment (MoCA), instrumento breve de avaliação criado em 1996 para detectar défices cognitivos ligeiros, especialmente em casos de suspeita de Alzheimer; inclui provas de linguagem, memória, orientação, atenção e funções executivas, como a identificação de imagens, cópia de figuras, repetição de palavras e ordenação de elementos.

[Texto 22 347]

Léxico: «heterogerido»

Este é da economia


      «“Tratando-se de um organismo de investimento colectivo heterogerido, não dispõe de órgãos sociais, cabendo a sua gestão à entidade gestora (a FundBox)”, indica a CMVM. Ou seja, os gestores da Oeno não são gestores do fundo, não é avaliada a sua idoneidade. A supervisão é feita por via da gestora, a FundBox» («Sociedade autorizada pela CMVM para vender fundo de vinho não suspeitou da Oeno», Diogo Cavaleiro, Público, 1.02.2026, 6h00).

[Texto 22 346]

Léxico: «comboio [de tempestades, problemas, parvoíces...]»

Fico no próximo apeadeiro


      Anda na boca de muitos, sobretudo de meteorologistas, pelo menos na rádio e na televisão: vem aí, avisavam, um comboio de tempestades: Ingrid, Josef, Kristin, Leonardo... E não é que veio mesmo? Estou tão fartinho desta merda de tempo... mas para onde vou eu? Ainda aqui não tinha trazido esta tão peculiar forma de dizer porque eu próprio tenho tido um comboio de problemas. Ainda estou embarcado.

[Texto 22 345]

Léxico: «motosserrista»

Já aqui os temos de dentes afiados


      «O Exército, conforme fez questão de revelar em comunicado, tem ainda em prontidão três destacamentos de engenharia, oito módulos de energia, capacidade de mil alojamentos distribuída por 10 unidades militares, 17 equipas de limpeza e desobstrução, dois módulos de alojamento (100 pessoas cada), um módulo de alimentação (para 100 pessoas) e nove equipas de motosserristas» («Protecção Civil só pediu ao Exército ajuda de quatro militares no dia a seguir à tempestade», Helena Pereira, Público, 1.02.2026, 7h01).

[Texto 22 344]

Irritações: véspera e dia anterior

Esta deixa-me doente


      Não sei se já disse isto nos vinte anos de blogue, mas, como todos os dias nascem tradutores, não fará mal, pelo contrário: por favor, não escrevam tantas vezes «no dia anterior». De certeza que conhecem, já ouviram da boca de pais, avós (mas devia ser «avôs), vizinhos, a palavra «véspera». Usem-na.

[Texto 22 343]

Léxico: «matemático»

Imitemo-los


      «“É um estilo de Papa completamente diferente do Papa Francisco”, afirma, explicando que Bergoglio era um Papa “discursivo”, “emotivo” e “efusivo” – enquanto Prevost, “um Papa americano”, é “muito racional”, com “ideias muito organizadas” e “mais matemático”. Leão XIV é para o Presidente da República “uma pessoa superiormente inteligente”, mas “fala curto” e, por isso mesmo, Marcelo preparou uma intervenção que se compatibilizasse com tal estilo. Foram 25 minutos a sós, na Biblioteca privada papal, situada no segundo piso do Palácio Apostólico» («O Papa americano, “mais matemático”, recebeu convite para Fátima em 2027», João Maldonado, Rádio Renascença, 2.02.2026, 15h08). Curto foi, desta vez, o nosso quase, quase ex-presidente, que não explicou o que pretendia dizer com aquele «matemático». A não ser que a curteza se deva toda, não ao PR, mas ao enviado especial da RR. Seja como for, certo é que há dicionários que atribuem — e bem! — mais acepções a «matemático».

[Texto 22 342]

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