O e a moral

Eles e elas


      O facto de em inglês serem duas palavras diferentes, moral e morale, devia levar os tradutores a reflectir na língua de chegada. Em português, a primeira será traduzível por «a moral» e a segunda por «o moral». Erro muito comum, o de confundir estas palavras. «To accept negative judgements about his decision to invade Iraq or his handling of the occupation would threaten something more vulnerable than troop morale.» Será então: «Aceitar juízos negativos sobre a sua decisão de invadir o Iraque ou sobre a forma como geriu a ocupação seria ameaçar algo mais vulnerável do que o moral das tropas.»

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Topónimos

Altos e baixos

O Meia Hora convida-nos hoje a descobrir o «Douro superior»: «Marialva é o ponto de partida para descobrir e conhecer o Douro superior, as encostas e os vinhedos, os miradouros, a cozinha, os vinhos e a cultura local» («Descubra o Douro superior», Meia Hora/«Extra», 30.6.2006, p. 11). Ora, tratando-se de um topónimo, não será «Douro superior», mas Douro Superior, com maiúscula inicial. Tal como Alto Sabor, Europa Setentrional, África Oriental, Sudeste Asiático, Baixa Áustria, América Central, etc.

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Pontuação

A quem interesse

Depois da Oficina de Pontuação, poder-se-ia publicar a respectiva acta. Mais modestamente, publico apenas um parecer da Academia Brasileira de Letras (ABL) sobre a pontuação de uma das frases, objecto de alguma controvérsia. A famosa frase 67: «Ao mesmo tempo, a gravação facultou à música uma história, não só das composições e tradições, mas também das execuções, mantendo-as disponíveis durante décadas.» Diz a ABL: «A vírgula depois de “história” se justifica por estar separando termos intercalados (“não só das composições e tradições,”); “história” não é o sujeito da oração; o sujeito é a “gravação”; “história” é o objeto direto de “facultou”.»

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Selecção vocabular

Disse «alocução»?

«A Organização Mundial de Saúde recomendou ontem aos países africanos uma alocação mínima de 2% dos recursos nacionais para a saúde» («Recomendação», Metro, 27.6.2008, p. 4). Pergunto-me se, num jornal como este, distribuído nos transportes públicos, com o público-alvo que pretende atingir, faz sentido usar um termo como «alocação» sem qualquer explicação. Creio que não. O leitor comum pode intuir, mas vagamente, sem certezas, do que se trata. Seria, pois, melhor não usar o vocábulo e redigir a frase de outra maneira. Por exemplo: «A Organização Mundial de Saúde recomendou ontem aos países africanos que destinassem no mínimo 2 % dos recursos nacionais para a saúde.»

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Recursos

Filologia

Está disponível, em linha, a Tonos Digital, que é uma revista electrónica de estudos filológicos. Ver aqui.

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Um País Errado (1)

Em Estoi — Marta Santos © 2008

De lés a lés


Inicio hoje uma nova rubrica, «Um País Errado»: fotografias, da autoria de Marta Santos, de anúncios, avisos e todo o tipo de escritos que se podem ver pelo País fora que contêm erros ortográficos, sintácticos e outros. Não é uma mera brincadeira, antes uma chamada de atenção para a forma como se escreve.
Corrija: «Não lavar as betoneiras em frente do portão. Obrigado.»

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«Água-ardente»

Mais água-ardente

Na posse de mais dados, rectifico o que afirmei acerca da variante «água-ardente»: a professora não disse que a forma não existe, mas que não está correcta. O que, repondo os exactos termos em que as coisas ocorreram, me parece mais grave. Ora, como é que se afere se um vocábulo está correcto? Analisando-o e consultando obras de referência. Já aqui referi que a variante justaposta, «água-ardente», está registada no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves. Hoje, mostro que também o Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, publicado em 1947, que constitui o «inventário das palavras básicas da Língua e o prontuário das alterações da escrita portuguesa consequentes» do Acordo Ortográfico de 1945, a regista. Podemos ler na página 16, 2.ª coluna, da referida obra: «água-ardente». Será sensato ou inteligente continuar a fazer finca-pé que esta forma não está correcta? Não me parece.

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Valores do futuro do indicativo

Verbalizar

A propósito da publicidade ao mais recente livro de Margarida Rebelo Pinto, escrevi aqui ontem: «A pontuação da frase está incorrecta, e, para quem pretende ler o “romance inesquecível”, será bom que o revisor da obra tenha sido outro.» Um leitor simpático e sensato, como nem todos são, mandou o seguinte comentário: «Por favor, rectifique o seu lapso: “será bom que o revisor da obra tenha sido outro”. Claro que o correcto será “seria bom que o revisor da obra tivesse sido outro”.»
O futuro e o condicional têm, em português, grandes afinidades. O futuro do indicativo («será») tem também um valor modal. Como se pode ler Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, «o futuro do presente pode ainda exprimir [...] em lugar do presente, incerteza ou idéia aproximada, simples possibilidade ou asseveração modesta» (p. 279). Na minha frase, eu não sei se o revisor foi o mesmo, o que manifesto através do futuro do indicativo. Não anda longe do moderno uso jornalístico deste tempo: «Segundo as autoridades, o gangue terá assaltado oito gasolineiras nas últimas duas semanas pelo mesmo método.» Digamos que é um tempo «desresponsabilizador»: o facto reporta-se ao passado, mas o jornalista não sabe se foi assim ou não. Um pouco diferente de: «Segundo as autoridades, o gangue teria assaltado oito gasolineiras nas últimas duas semanas pelo mesmo método.»

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Puro-sangue/puros-sangues

Falemos de cavalos

      «A Festa do Cavalo vai animar a Moita entre 3 e 6 de Julho. Estão previstos concursos de saltos, passeios de charrete, campeonato de equitação no trabalho, horse paper, espectáculo com a charanga a cavalo da GNR, campeonato de puro-sangues e concurso de traje à portuguesa» («Festa do Cavalo na Moita», Global, 26.6.2008, p. 3). O Dicionário Houaiss regista, tanto para o adjectivo como para o substantivo, o plural «puros-sangues», tal como regista «surdos-mudos».

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Pontuação

Português suave

Numa falsa capa publicitária ao gratuito Global, a Oficina do Livro anunciou o novo romance de Margarida Rebelo Pinto, Português Suave. A editora faz um convite ao leitor: «Leia aqui em primeira mão, um excerto do 1º capítulo». A pontuação da frase está incorrecta, e, para quem pretende ler o «romance inesquecível», será bom que o revisor da obra tenha sido outro.
A vírgula (é isto que vou lembrar no sábado) nunca deve ser usada entre os elementos principais de uma oração, como é o caso do sujeito, predicado, complemento directo, complemento indirecto, predicativo do sujeito e predicativo do complemento directo, quando estes se encontrem seguidos. No caso, temos predicado (com sujeito nulo subentendido) e complemento directo posposto, como é normal na frase-tipo portuguesa. Acrescentou-se, porém, alguma circunstância: «aqui» e «em primeira mão». Assim, a introdução destas circunstâncias obriga a usar mais uma vírgula ou a não usar nenhuma: «Leia aqui, em primeira mão, um excerto do 1.º capítulo» ou «Leia aqui em primeira mão um excerto do 1.º capítulo». Faltou, claro, o ponto característico dos numerais ordinais, mas, em contrapartida, não escreveram «primeira-mão», como agora se vê tanto. Nem tudo está perdido.

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Guerra Fria

Escaramuças

Cara Luísa Pinto: diga ao seu colega (se não teme ser frontal ou se prevê que ele não será um dia seu superior hierárquico) que está a ver mal as coisas. Em «Guerra Fria» não há nenhuma «unidade lexicalizada». O caso fica abrangido, isso sim, pelo uso da maiúscula inicial nas designações de factos históricos ou acontecimentos importantes e de actos ou empreendimentos públicos: Descobrimentos, Guerra Peninsular, Reforma, Renascimento, Restauração, Invasões Francesas, Segunda Guerra Mundial, Concordata, etc. Logo, Guerra Fria. Sim, lê-se de tudo: «guerra-fria», «guerra fria», «Guerra-fria». Quando deviam, não copiam do inglês: Cold War.

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Lâmpada «LED», «led» ou «lede»?


Faz-se luz

      «O recurso às lâmpadas “ledes” nos moldes adequados levaria à poupança de 47,2 milhões de quilowatts/hora por ano, quase a energia consumida num concelho como o de Bragança, que tem cerca de 35 mil habitantes» («Lâmpadas “led” poupam 5,6 milhões de euros/ano», Meia Hora, 25.6.2008, p. 9).
      No mesmo texto escrever-se «led» e «ledes»? Há outras variantes, é verdade, e felizmente quiseram poupar-nos. Mas temos aqui um problema. Para já, mantemos a palavra como acrónimo, LED, ou não? Porque é, originalmente, um acrónimo do inglês Light Emitting Diode, ou Diodo Emissor de Luz. Podemos, de facto, passar a escrever «led», e já não será um acrónimo. Como substantivo comum que passará a ser, tem flexão. Ora, apesar de poucas, temos palavras acabadas em d: David, Madrid… Como podemos referir-nos a Pedros, também podemos referir-nos a Davides. Assim, o plural de led seria ledes. A minha previsão é a de que a vulgarização deste tipo de lâmpada nos obrigará a afeiçoar a palavra à nossa língua, pelo que «lede»/«ledes» poderá ser a forma predominante. De qualquer modo, tudo menos o plural LEDs. Pensem na transformação que o acrónimo SIDA, que referi aqui há pouco, sofreu.


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Descriminar e discriminar

Todos sabem

      Foi prefeito da Congregação da Doutrina da Fé? Perfeito. Descriminar a marijuana? Porquê discriminar esta de outras drogas? Claro, são parónimos, e toda a gente sabe. Ainda assim, falo sempre nas possíveis confusões, porque há pessoas que sabem mas se enganam, ou não? Muito reveladores, esses sorrisinhos entendidos…
      «Contudo, passados estes anos e ganhos tantos avanços, a mulher em Portugal continua a ser descriminada» («Mulher continua a ser descriminada», António Manuel Pinho, Conversas de Café, n.º 38, 20.6.2008, p. 3). Neste caso, foi o próprio director do jornal a dar o erro. Segundo a ficha técnica, a publicação não tem revisor. Preferem pagar a um cão: «É o novo companheiro de redacção. Snooky, um animal entre o podengo e o rafeiro, torna este jornal o único do Mundo que tem um cão cronista.»


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«Água-ardente» e «aguardente»

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Aulas de substituição

O caso que a seguir relato aconteceu no Porto e foi-me contado por uma leitora. Uma professora substituta do 6.º ano de escolaridade afirmou categoricamente, numa aula de Português, que a grafia «água-ardente» não existe. Já estamos habituados a estas atitudes: quanto menos se sabe, mais categórico se é. Será que esta professora alguma vez ouviu falar de Rebelo Gonçalves e do Vocabulário da Língua Portuguesa, publicado em 1967? Ou conhece a importância desta obra e a própria obra e esqueceu-se do que se lê na terceira coluna da página 42 e na primeira da página 43? Deve ser isso, mas eu relembro-a: «água-ardente, s. f. Var.: aguardente (àguar). Pl.: águas-ardentes.» Contudo, como decerto é adepta da dúvida metódica, publico também uma imagem da página 42.
Como, no limite, os professores de substituição podem ser docentes de outras disciplinas, imagino quantos disparates vão pelo País fora. Seria preferível mandarem os alunos para o recreio, em contacto com a Natureza. Ou para uma biblioteca, onde pudessem consultar estas obras que os professores não tiveram tempo de ler.

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Livros

Olisipografia

Desde Abril que o Gabinete de Estudos Olisiponenses, com sede no Palácio do Beau Séjour, na Estrada de Benfica, disponibiliza na sua página na Internet um livro, que se pode descarregar em formato PDF, por mês. Os livros são, naturalmente, sobre olisipografia.

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Selecção vocabular

Maçaricos

«Em condições normais, fracassadas as tentativas de localizar um foragido em Portugal, o Tribunal envia um mandado de captura para a Interpol portuguesa, sedeada no quartel-general da PJ, na Gomes Freire, que depois de verificar a não existência de erros se encarrega de o difundir na base de dados da Interpol internacional» («Mandado para Vale ainda não chegou a Londres», André Rito, Metro, 24.6.2008, p. 3). Nunca antes vi a sede da Polícia Judiciária referida como «quartel-general». Um quartel-general não é uma instalação militar? Peço aos meus leitores que sejam ou tenham sido militares ou polícias que contribuam com achegas para esclarecer esta questão.

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Detenção e apreensão

Era o que faltava

Na primeira página da edição de hoje do Metro, pode ler-se que «a PJ revelou ontem uma nova detenção de fenproprorex, substância ilícita e perigosa que inibe o apetite». Tanto quanto sei, as pessoas são detidas e os bens apreendidos. Já é suficientemente mau que os operadores judiciários falem em «mandados» (como ainda ontem, a propósito de Vale e Azevedo), e os jornalistas digam que são «mandatos». Estão sempre com a cabeça no futebol e na política.

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Uso do itálico

Nem eles sabem

A incoerência é uma coisa muito triste. Não há uma única vez em que o jornal Meia Hora não grafe em itálico o vocábulo «Knesset». Ao mesmo tempo, nunca grafa em itálico o vocábulo «Duma». Qual é o critério, podemos saber? Não são ambos nomes de instituições, parlamentos? «O Presidente francês pediu ontem no Knesset (parlamento israelita) para Israel “correr riscos pela paz”, referindo a aprovação de uma lei, por parte de “vários deputados”, que estimularia a saída dos colonos da Cisjordânia, “através da compensação e realojamento em Israel”» («Sarkozy pede “riscos pela paz” na região», Meia Hora, 24.3.2008, p. 8). Mas: «O Rússia Unida tem maioria no Parlamento (Duma) e criou recentemente o cargo de “presidente” especialmente para o entregar a Vladimir Putin» («Putin aceita presidir ao partido mais poderoso», Meia Hora, 16.4.2008, p. 9).

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À custa de, outra vez

Lord have mercy!


      O líder da Comunhão Anglicana, Rowan Williams, arcebispo de Cantuária (topónimo que, felizmente, caiu nas boas graças dos jornalistas, que nunca usam Canterbury), está a ser criticado na Conferência Global para o Futuro Anglicano (GAFCON), a decorrer em Jerusalém. O Meia Hora dá alguns pormenores: «Os líderes africanos acusaram ainda Williams de “incapacidade” de unir os anglicanos e de adulterar a Bíblia. Num folheto dado aos conferencistas lia-se: “Queremos união, mas não às custas de reescrever a Bíblia para satisfazer as mais recentes modas culturais”» («Casamento gay ameaça cisão», Margarida Caseiro, Meia Hora, 24.3.2008, p. 7).
      Se o comunicado estivesse escrito em português, não valia a pena dizer nada. A culpa seria dos conferencistas. Assim, diga-se que «às custas» está errado. Deve dizer-se «à custa de». Custas só as judiciais. Lia-se no referido folheto: «We earnestly desire the healing of our beloved Communion, but not at the cost of re-writing the Bible to accommodate the latest cultural trend.» Até o pior dicionário inglês-português regista que a locução at the cost of se traduz pela locução prepositiva «à custa de», já registada em 1712 no Vocabulário Português e Latino, do padre Rafael Bluteau. Só no plural, costs, o vocábulo (e não já a locução) se refere ao Direito e, logo, terá como tradução «custas». Dois exemplos de uso deste dicionário: «Fizerão as suas exequias à custa do Publico» e «Se anda elle cheyroso, he à minha custa.»


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Uso das aspas

Sem razão

Fico sempre perplexo quando vejo os jornalistas usarem aspas (ou plicas, como é, erradamente, o caso em apreço) em vocábulos menos usuais ou populares. É algum cordão sanitário? «José Marques Escada, também conhecido por Ti Zé Marques, um dos últimos tosquiadores de ovelhas da região da Guarda, já só faz tosquias “para matar o tempo” e por “gostar da arte”. […] O processo de tosquia começa com a separação do exemplar do resto do rebanho. O animal é dominado pelo método do ‘apernar’ [,] que consiste em colocar uma cinta de couro em redor das quatro patas para não se mexer e poder ser tosquiado» («Tosquiador de ovelhas ainda usa a tradicional tesoura manual», António Sá Rodrigues, Global, 23.6.2008, p. 10). Segundo registam muitos dicionários, apernar é prender um animal pelas pernas, que é o mesmo que pear.

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Topónimo: Mindanau

De certeza?


      O tufão Fengshen fez estragos nas Filipinas e na ortografia portuguesa: «O gabinete da Protecção Civil filipina registou 26 mortos na ilha de Mindanao (Sul). “Este balanço vai aumentar muito quando dispusermos da lista de vítimas entre os passageiros do ferry”, sublinhou o presidente da Cruz Vermelha» («Tufão causou centenas de mortos», Global/Jornal de Notícias, 23.6.2008, p. 15). Ora, tanto quanto sei, há muito tempo que se escreve Mindanau, não há qualquer necessidade de macaquear o inglês. Já temos sorte que não escrevam «Philippines» ou «typhoon», não é?

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Uso da maiúscula inicial

Sim, não, talvez

É quase fatal: nove em cada dez vezes que escrevem «sim» ou «não» a propósito de resultados de referendos ou eleições, os jornalistas grafam aquelas palavras com maiúscula inicial. E porquê? É um mistério. Não o tendo feito na notícia que cito a seguir, o Meia Hora está, pelo menos por isto, de parabéns. «A população de Tarija pronunciou-se ontem em referendo quanto à autonomia da pequena região boliviana, embora uma das mais ricas deste país sul-americano. Tal como nos anteriores referendos autonómicos, que se realizaram em Santa Cruz, Beni e Pando, também o “sim” à autonomia perante o Governo central do Presidente Evo Morales deverá vencer, segundo as primeiras projecções de ontem, à boca das urnas» («Tarija deverá dizer “sim” à autonomia», 23.6.2008, p. 8).

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Verbo haver

Hão coisas terríveis

      No serviço noticioso da Antena 1, às 13 horas, tive a desdita de ouvir o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, afirmar que «vão haver» não sei o quê. Não ouvi o resto. Acho que vou emigrar com o verbo «pôr». O meu será um exílio voluntário.

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Uso dos numerais ordinais

Sem afinidades electivas

      A propósito de coisas ridículas e da afinidade, lembrei-me de quão risível é ouvir os primeiranistas (e, às vezes, os quintanistas) de Direito usarem numerais ordinais em referência a números de artigos do Código Civil e de outras leis superiores a dez. «A cessação da afinidade», dizem eles, «está consignada no artigo milésimo quingentésimo octogésimo quinto.» Não seria melhor, mais inteligente, reservar os neurónios para tarefas mais úteis? E, sobretudo, pergunto, que lhes aconteceu no ensino básico?


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Uso da maiúscula inicial

Já era

Mesmo que eu concordasse, e não concordo, que se use maiúscula inicial em nomes como «presidente», «rei», «primeiro-ministro», e outros, para expressar grande deferência, acho um pouco desassisado que se use para ex-titulares. Acabo de ler no Meia Hora: «Após ter acusado sexta-feira a União Europeia de “hipocrisia” nas suas políticas em relação a Cuba, o antigo Presidente e líder histórico da ilha, Fidel Castro, escreveu ontem um artigo em que desmente haver “lutas internas” ou apoiar “alguma facção”, no Partido Comunista cubano» («Fidel desmente cisões no partido», Meia Hora, 23.6.2008, p. 7). Neste caso concreto, acho que só mudaria de opinião se tivesse de ir a Cuba para ser submetido a uma cirurgia oftalmológica. Contudo, como subitamente e como que por milagre o problema foi resolvido, nada me convence.
Agora a sério. Já viram, ó senhores jornalistas, como é ridículo escrever-se «antigo Presidente»? Até parece que aqui a «grande deferência» não cessa, como a dissolução do casamento não leva à cessação da afinidade. Uma vez sogra, sogra toda a vida. Uma vez «Presidente», presidente toda a vida. Dantes só se ouvia uma vez p… Chega. Já perceberam.

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Verbos «colocar» e «pôr»


Outros perigos

O verbo «colocar», esse fura-vidas (ou hustler, para os anglófonos…), continua a sua gloriosa ascensão na língua portuguesa, tendo já conseguido escorraçar o verbo «pôr» da frequência da melhor sociedade. O verbo «pôr» pondera mesmo emigrar ou retirar-se para a província. («Só por causa do que as galinhas têm de fazer com os ovos», afirma com ironia. «Se no Palácio de São Bento ainda se criassem galinhas para vender os ovos ao Hotel Aviz, ficava em Lisboa. Assim, nada feito!») «Para “não colocar em perigo a vida dos apoiantes”, o líder do Movimento para a Mudança Democrática (MDC) anunciou ontem a sua desistência à corrida da presidência, cuja segunda volta está agendada para esta sexta-feira» («Violência leva rival de Mugabe a sair da eleição», Margarida Caseiro, Meia Hora, 23.6.2008, p. 7).

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Efeito de estufa

Com efeito!

Há um fenómeno que é o «efeito (de) estufa», não é assim? Muito bem. E há gases associados a este fenómeno, não é? Estabelecido isto, passemos a determinar se são os gases que causam o fenómeno ou se, pelo contrário, é o fenómeno que origina os gases.
O que os especialistas em climatologia afirmam é que certos gases, como o dióxido de carbono, o metano, o óxido de diazoto, o hexafluoreto de enxofre, o hidrofluorcarboneto, entre outros, criam uma espécie de cobertura, como a de uma estufa, sobre a Terra, deixando entrar a luz solar e impedindo a saída do calor. Uma estufa gigantesca, pois. São os gases, então, que criam o fenómeno, que por isso mesmo se designa por «efeito de estufa». E finalmente, «gases com efeito de estufa» ou «gases de efeito de estufa»?
É verdade que tanto a preposição «de» como a preposição «com» relacionam por subordinação, mas sempre lemos e escrevemos: «detergente com efeito ambientador», «ténis com efeito calmante», «chás com efeito relaxante», «casamento religioso com efeito civil», «plantas com efeitos medicinais», «agravos com efeitos suspensivos», «fármacos com efeito secundário» (quase todos)… Todavia, ultimamente, começou a aparecer muito a expressão «gases de efeito de estufa». Até pela repetição da preposição «de» se deveria evitar. «De acordo com a autarquia, a iniciativa pretende contribuir para a “beneficiação ambiental, através da redução de gases de efeito de estufa”» («Protocolo permite plantar 16 mil árvores em Loures», Meia Hora, 23.6.2008, p. 6).

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Formação


Oficina de Pontuação


      Ainda há vagas para este curso intensivo de pontuação, que irei orientar na Booktailors no dia 28 (último sábado) deste mês. Trata-se de um curso intensivo, eminentemente prático, mas fortemente ancorado nas regras da gramática. Darei umas breves indicações de como era a pontuação dos Gregos, dos Romanos, na Idade Média, depois da invenção da imprensa e na escrita moderna. Não deixarei de abordar, naturalmente, pela sua singularidade, a virgulação de José Saramago. Com abundantes exemplos e exercícios. Inscrições aqui.

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Uso do latim

Nikkeis nos câmpus

      Em visita oficial ao Brasil, o príncipe-herdeiro do Japão, Naruhito, discursou em português perante os docentes e os estudantes da Universidade de São Paulo (USP), noticia o Jornal do Brasil de hoje. A reitora da universidade, Suely Vilela, que falou em inglês a pedido do protocolo do representante da Casa Imperial, revelou que 14 % dos alunos da USP e 8 % dos professores são nikkeis. Esta é a designação para os descendentes de japoneses nascidos fora do Japão, tal como os isseis são os imigrantes japoneses, os nisseis os filhos desses imigrantes, os sanseis os netos, etc. Não é sobre isso, especificamente, que quero falar, mas de algo diferente. Diz ainda a notícia: «A platéia, formada por estudantes e docentes de diversos campi da universidade, se reuniu na Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco (centro de São Paulo), e ouviu num português claro e praticamente sem sotaque o agradecimento do príncipe» («Príncipe surpreende e discursa em português», Jornal do Brasil, 21.6.2008, p. A7). Uma pergunta que se impõe é: faz algum sentido que se use, sem qualquer destaque, o plural latino campi, quando este e outros jornais brasileiros adoptam profusamente aportuguesamentos de estrangeirismos?
      Há um parecer sobre o uso de campi da Universidade José do Rosário Vellano* que, em resumo, diz que no vernáculo português, a terminação ―i não é marca de plural; não ocorre um único caso que justifique a forma; aparece como desinência verbal, jamais como nominal; contraria, pois, o sistema da língua e o seu génio; o caso latino lexicogénico para o português é o acusativo, que, em nomes masculinos e femininos, termina, no plural, em ―s, desinência que se consagrou como marca do plural única, absoluta, a ponto de impor-se aos nomes neutros incorporados na língua; os substantivos anoxítonos terminados em ―s são invariáveis no plural (ex. os pires, os lápis, os ónibus), caso típico de «câmpus»; na língua inglesa, que introduziu o termo como denotativo de estrutura imobiliária universitária, o plural em i ocorre em escassos casos (genii, nuclei, alumni, etc.) por influência de correntes eruditas, tão escassos que o próprio idioma inglês, acomodando a forma do plural ao seu vernáculo, regista campuses com muito maior frequência do que campi. Conclui afirmando que «não se justifica, pois, que, no Brasil, para parecermos bons latinistas, usemos o barbarismo campi».

* Universidade que tem um serviço de Telegramática com algum interesse.

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Portatilidade

Portátil… idade

A leitora Ana Martins pretende saber se deve continuar a usar o termo «portatilidade», tal como lhe foi aconselhado oportunamente pelo Ciberdúvidas, ou se deve optar por «portabilidade». No fundo, dá a resposta à própria pergunta, pois para usar o termo «portatilidade» encontra uma razão, que é a «lógica» na formação da palavra (portátil+idade), e para não usar apenas acha o «fazer alguma confusão» entre os colegas. Entre a resposta dada pelo consultor do Ciberdúvidas, José Neves Henriques, em 1999, e a actualidade algo aconteceu: temos, pelo menos, o Dicionário Houaiss a acolher a forma «portabilidade», cópia servil do inglês portability. Mas é como diz o Prof. Cláudio Moreno: «Dicionário apenas registra e informa; a nós cabe decidir o que é correto ou adequado para as situações concretas, de acordo com nossa formação e nossa sensibilidade.» É verdade que no âmbito da informática, das telecomunicações e até mesmo da gestão («portabilidade dos benefícios») o termo largamente usado é «portabilidade», mas só nos fica bem continuar a utilizar o ainda residual mas vernáculo portatilidade e a forma haplológica portalidade.

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Léxico: «tiralô»


¡Tíralo fuera!

«Até agora, já usufruíram gratuitamente do “Praia Acessível a Todos” 552 banhistas, que puderam banhar-se com a ajuda dos tiralôs — as cadeiras de rodas de praia que possibilitam a deslocação na areia e o acesso ao mar, sempre com o acompanhamento de monitores» («Duas praias mais acessíveis», Global/Diário de Notícias, 18.6.2008, p. 4). Aí está o vocábulo e a definição. Já tinha visto, é verdade, e não sabia o nome. Só não publico a fotografia de um tiralô (mas vejam aqui) porque algo mais importante está em causa. Numa pesquisa na Internet, ocorre muito mais vezes a variante «tiraló». Ora, neste cartaz o ô aparece graficamente realçado. Até prova em contrário, para mim, que ignoro a etimologia, é tiralô.

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Recursos

Desta é que é

VIH, VIH+, VIH–, VIH–1, VIH–2… Parece que foi ontem, tão célere corre o tempo, a discussão sobre se deveríamos usar «sidótico» ou «aidético». O tempo mostrou que, pelo menos para nós, eram ambas desnecessárias. Muita coisa, entretanto, há a fazer. Por exemplo, ainda não entrou na cabeça de toda a gente que a sigla de vírus da imunodeficiência humana é VIH e não HIV (que é a sigla de Human Immunodeficiency Virus). Que já não se tem de usar como acrónimo, SIDA, nem é um nome próprio, Sida, nem é do género masculino, o sida. Está substantivado, deve usar-se apenas sida. E VIH/sida. Não vou aqui historiar o uso do acrónimo SIDA e sucessivas metamorfoses, até porque esse trabalho já está feito e bem por Cristina Ponte em «A cobertura de epidemias na imprensa portuguesa. O caso da Sida» (ver aqui, na Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação). O que eu queria divulgar, contudo, é a Terminologia de la sida en línia, uma recolha de mais de 500 termos relativos à sida, em catalão, espanhol, francês e inglês.

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Pronúncia: «estádio»

Por exemplo

Maria de Belém Roseira Martins Coelho Henriques de Pina, talvez por ter sido ministra da Saúde, deturpa algumas palavras como os médicos. Diz, por exemplo, «estadio» em vez de «estádio», como ainda hoje de manhã fez aos microfones da TSF. «Estadio» simplesmente não existe. Se eu fosse dialogue coach dela (o profissional que ajuda actores a treinar a dicção e as inflexões adequadas à personagem que desempenham), dir-lhe-ia que é um erro. Como não sou, digo-lho na mesma. Sem cobrar honorários.

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Género de «tesão»


Palavras erectas


      Esta noite sonhei com Veronica Lake. Como este não é, contudo, um blogue confessional, género de que nem sou leitor, quanto mais fazedor, não vou avançar nem mais um milímetro na narração onírica. Em vez disso, vou centrar-me noutra questão. Mas também mete, animem-se!, sexo — o sexo das palavras, o género. Não há praticamente semana em que não leia a palavra «ênfase» usada como se fosse do género masculino. Para aquelas criaturas permissivas que falam da legitimidade trazida pelo uso, breve ou longo, localizado ou estendido, a palavra já há-de ser de ambos os géneros, aposto. Não para mim. Nos últimos tempos, outra palavra me tem aparecido travestida: «tesão». Com vossa licença. É comprovadamente de um só género, e não é o feminino, mas sim masculino. É, com a palavra «tensão», divergente do latim tensiōne. Duplamente divergente: na acepção e no género. O tesão, pois.

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Recursos

Siglas médicas

Sobretudo para tradutores, está disponível em espanhol o Diccionario de siglas médicas y otras abreviaturas, epónimos y términos médicos relacionados con la codificación de las altas hospitalarias. Pode descarregar o PDF aqui. Sabe-se lá quando pode vir a ser útil, não é?

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Léxico: «fedora»

Imagem: http://images.usatoday.com/

Há muitos


No regresso triunfal de Sarah Bernhardt aos palcos de Paris, a actriz desempenhou o papel de princesa Fedora Romazoff no drama Fédora, escrito em 1882, propositadamente para ela, pelo dramaturgo Victorien Sardou (1831-1908). Nesta peça, a actriz usava um chapéu de feltro com concavidades na parte superior e na frente. Nascia o chapéu fedora. Mais tarde, este modelo de chapéu seria usado tanto por homens como por mulheres. Eduardo VIII, Humphrey Bogart, Indiana Jones, Frank Sinatra, Dick Tracy, Clark Kent… Assim, se no original inglês aparece «he wore a fedora», quero, como leitor, que a tradução não fique por «usava um chapéu».

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Pronúncia: «Saragoça»

Ouçam e falem depois

       Tem sido notícia nos últimos dias que os Portugueses que irão visitar a Expo 2008, em Saragoça, a decorrer entre 13 de Junho e 14 de Setembro, não serão muitos. Andamos distraídos, preocupados, absorvidos por outros assuntos. A vantagem (há sempre vantagens e desvantagens) é que não vamos ouvir tantas vezes na rádio e na televisão, e por aí, nas ruas, o topónimo mal pronunciado: /Saragóça/. Há mais de trinta anos que eu ouço pronunciar, e bem, /Saragôça/. Vá lá, não inventem o que já foi inventado. O meu avô Manuel Maria, que não era filósofo mas feitor e comerciante, usava calças de saragoça (ora aqui está mais um exemplo de derivação imprópria, senhores professores), um tecido grosso de lã escura.

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Erros e lapsos

É o nosso fado

«Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o Dia da Raça, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.»

Quando, há umas semanas, vários leitores me enviaram mensagens incitando-me a dizer alguma coisa sobre o lapsus linguæ de Cavaco Silva («nunca fiz, não faço nem nunca facerei»), não cedi, pois que se tratava disso mesmo, de um lapso de linguagem, que todos temos, ou não? Tanto mais que, ao que sei, o Presidente da República corrigiu de imediato a forma verbal. Com o «Dia da Raça», algo mais grave está em causa, e que é não se poder considerar um lapso, antes uma convicção pessoal. Convicção errada: não apenas essa designação é datada, do tempo do Estado Novo, como está cientificamente errada. Como afirmo tantas vezes em relação aos jornais, às televisões e às agências de comunicação, o Presidente da República devia ter a assessoria de um revisor. Uma fadista pode fazer falta na comitiva presidencial, mas não é o mesmo.

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Classificação animal

O pirilampo mágico

Foi notícia em vários jornais a descoberta em Portugal de uma espécie de pirilampo até agora apenas conhecida em Espanha e França. O Global refere assim o caso: «A identificação deste [sic] espécie — Lamprohiza mulsanti Kieserwetter — foi feita a partir de “exemplares colhidos por um grupo de entomólogos no Parque Biológico de Gaia e noutras localidades do Norte de Portugal”, refere o parque» («Descoberta nova espécie de pirilampo», Global, 9.6.2008, p. 6). Não é nova, aqui no Assim Mesmo, a questão dos nomes científicos de animais e plantas, e sempre por maus motivos. Dois problemas, pelo menos: onde está o itálico a destacar a designação científica? Aquele último nome o que é?
Os primeiros nomes estão bem: porque são dois (o sistema de Lineu é binominal) e porque o primeiro começa com inicial maiúscula e o segundo com inicial minúscula. Muito bem, tanto mais que alguns jornalistas erram logo aqui. Temos então o nome do género (Lamprohiza) e o da espécie (mulsanti). E, repito, o terceiro o que é? Parece ser o nome de quem identificou. Se é, temos um problema, pois a notícia continua: «Esta espécie foi primeiramente classificada em 1850, por Ernest August Hellmuth von Kiesenwetter, um entomologista alemão cujas colecções encontram-se [sic] no Museu de História natural de Munique e no Staatliches Museum fur Tierkunde, em Dresden.» Kieserwetter ou Kiesenwetter, quem decide? Eu ajudo: Ernest August Hellmuth von Kiesenwetter (1820-1880), entomólogo alemão. Então, se o nome está tal qual (esqueçamos agora a gralha), não pode estar junto do género e da espécie. Se a designação do animal contivesse uma homenagem a Kiesenwetter, este nome tinha de sofrer uma transformação, porque, lembrem-se, a classificação é em latim. Assim, seria Lamprohiza mulsanti kieserwetteri. São muito perspicazes: o nome seria grafado com minúscula inicial e acrescentar-se-ia um i, porque é um homem. Se fosse uma mulher, acrescentar-se-ia æ: Lamprohiza mulsanti kieserwetteræ. Em trabalhos científicos, não num jornal, depois da classificação refere-se o nome de quem o descreveu pela primeira vez e a data entre parênteses: Lamprohiza mulsanti (Kiesenwetter, 1850).

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Pronúncia: «líderes»

Abram!

Manuela Moura Guedes, no Jornal Nacional de sexta-feira, usou a palavra «líderes», e a pronúncia foi aquela a que já nos vamos habituando: /lídres/. Com o emudecimento completo, quase desaparecimento, na verdade, do e da segunda sílaba. A sílaba tónica, de facto, é a primeira, -lí-, mas a penúltima é acentuada, pois não há aqui nenhum fenómeno fonético como a metafonia. Basta lembrarmo-nos de palavras semelhantes, com a mesma vogal: cadáver(es), cárter(es), díspar(es), dólar(es), éter(es), repórter(es), revólver(es)… Como pronuncia Manuela Moura Guedes o plural destas palavras? Ora aí está. Uma jornalista tem obrigação de saber estas coisas sobre o seu instrumento de trabalho, a língua. Como vêem, não é preciso o Acordo Ortográfico para desvirtuar a língua.

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Recursos

Dicionário de râguebi

Em catalão, temos em linha o Diccionari de rugbi, que recolhe 216 termos com a respectiva definição em catalão e os equivalentes em espanhol, francês e inglês. Os termos procedem do Diccionari general de l’esport, que o TERMCAT prevê publicar ainda este ano. Em português, tanto quanto sei, não há nada.

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Nomes de personagens


Primeiro estranha-se

Não é exactamente como afirma, cara Luísa Pinto, pois há nomes de personagens de obras estrangeiras, livros e filmes, que foram adaptados ou traduzidos. De momento, apenas me recordo do Dr. Strangelove. Esta personagem, que pertence ao filme homónimo (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, de 1964) de Stanley Kubrick, é mais conhecida em Portugal como Dr. Estranhoamor. (No Brasil, a personagem chama-se Doutor Fantástico, tal como o filme.) Neste caso, como os nomes são também inventados na língua original, acho bem que sejam traduzidos ou adaptados, desde que se encontre, como foi o caso, um equivalente eufónico. Neste filme, de resto, muitas das personagens tinham nomes assim construídos: general Jack D. Ripper, embaixador de Sadesky, general Turgidson...

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Elemento «mega-»


Megalomanias

Já aqui falei, mais de uma vez, da verdadeira mania de usar o elemento de composição mega nos últimos tempos. Uma praga, é o que é. E, pior ainda, por vezes incorrectamente escrito. O exemplo de hoje é o pior dos piores: deixa o elemento pendurado na frase. Não é segredo nenhum que não é assim que se escreve, mas megaconferência.
Entretanto, se quiserem ir ao Pavilhão Atlântico, no dia 18, ouvir um dos co-autores de O Segredo, o filósofo, escritor e orador motivacional (motivational speaker) Bob Proctor, ainda estão a tempo. Só têm de pagar 30 euros pelo bilhete, mas deve valer a pena, já que Bob Proctor afirma: «Posso mostrar-vos como ganhar o dinheiro que precisam, para as coisas que querem, para viver da maneira que preferirem viver.» Ele sabe do que fala (ao contrário de quem traduziu a frase, num português pouco escorreito), pois afinal só em Portugal venderam-se, em 2007, 1450 exemplares da obra por dia, segundo dados do Bibliotecário de Babel…

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Pontuação

Gramática em crise

A crise também já chegou à RTP. Só já tem um jornalista! Não acredita? Leia esta notícia do jornal gratuito Destak: «A jornalista da RTP, Fátima Campos Ferreira, vai ser homenageada pela Fundação Bernardo Coutinho com a medalha de ouro em Newark, EUA» («Televisão», Destak, 4.6.2008, p. 28). E que tal uma reciclagem em gramática, senhor jornalista?

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Recursos

Futura ortografia

As alterações introduzidas pelo Acordo Ortográfico de 1990 estão já contempladas na edição digital da Infopédia, publicada pela Porto Editora, com acesso livre aqui. Poderão confirmar, por exemplo, que neorrealismo é um vocábulo dAC, «depois do Acordo Ortográfico»...

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Recursos

Desportos náuticos

Também em linha temos o Diccionari d’esports nàutics, catalão, com 963 termos, com a respectiva definição e equivalentes em espanhol, francês e inglês.

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«Endireita», «algebrista»

O endireita


      Se querem mesmo uma antecipação a sério, sem nenhum objectivo enviesado, das regras do Acordo Ortográfico de 1990, podem descarregar o livro de contos O Endireita, de Edson Athayde. Segundo a notícia do Público, o autor afirma que «é “o primeiro livro do mundo” publicado segundo as regras do novo acordo ortográfico». «O conto que dá o nome ao livro», ainda segundo o Público, «“O endireita”, lança um desafio particular para o público brasileiro, uma vez que o termo, que Edson Athayde confessa que achou “maravilhoso”, não tem paralelo no Brasil. “Endireita não tem significado no Brasil. A primeira vez que ouvi a palavra foi em Portugal. Achei maravilhosa. Acho maravilhoso quando a peça for montada no Brasil, ter este léxico tão português”, diz Edson que quis que esta obra fosse um teste ao novo acordo ortográfico». Um sinónimo é «algebrista», que os dicionários brasileiros também não registam. O Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, regista que algebrista é «aquelle que medica fracturas de ossos, ou ossos deslocados».

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Ortografia: «neo-realismo»

Ver aqui.

A meio de nada


«Inaugura amanhã a exposição bibliográfica Baptista Bastos — Prosador do Mundo, no Museu do Neorealismo, em Vila Franca de Xira, pelas 17.00. […] Mais informações online, em www.museudoneorealismo.pt» («Percurso de Baptista Bastos em exposição», Diário de Notícias, 9.5.2008, p. 44). Primeiro, pensei (eu sou todo boa-fé) que era um erro de simpatia: como no URL está sem hífen, o jornalista teria escrito da mesma forma: neorealismo. Decidi ver na Internet e encontrei a imagem que está em cima. Ora, nem pelas regras do Acordo Ortográfico de 1945 nem pelas do Acordo Ortográfico de 1990 se escreve assim. De facto, estabelece a Base XXIX, 2.º, do Acordo Ortográfico de 1945: «Compostos formados com os elementos de origem grega auto, neo, proto e pseudo, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por vogal, h, r ou s: auto-educação, auto-retrato, auto-sugestão; neo-escolástico, neo-helénico, neo-republicano, neo-socialista; proto-árico, proto-histórico, proto-romântico, proto-sulfureto; pseudo-apóstolo, pseudo-revelação, pseudo-sábio.» O Acordo Ortográfico de 1990, na sua Base XVI («Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»), 2.º, a), por sua vez, consigna que não se emprega hífen «nas formações em que o prefixo ou falso prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos domínios científico e técnico. Assim: antirreligioso, antissemita, contrarregra, contrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom, minissaia, tal como biorritmo, biossatélite, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia».
Podem ser influências futebolísticas, com a ida de Mourinho para Itália. Em italiano é que se escreve neorealismo. Preferia que estivesse escrito, numa antecipação do Acordo Ortográfico de 1990, «neorrealismo» (como também se escreve em espanhol), porque sempre seria de acordo com alguma regra.

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Detecção remota

Está disponível em linha o Dicionário dos Termos em Sensoramiento Remoto, com equivalências em português, espanhol, inglês e francês. Sensoriamento remoto ou percepción remota ou remote sensing ou télédétection.

Actualização

Trago para aqui o comentário de um leitor, Fernando Ferreira, pela importância de que se reveste: «Penso que a expressão mais adequada em português é “detecção remota”, até porque está já estabelecida como tal através do uso. Eu próprio faço parte de um grupo de investigação do Departamento de Física da UBI denominado precisamente “Unidade de Detecção Remota”.»

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Regência do verbo «parecer»

Antigamente é que era

Recentemente, uma pessoa dizia-me que «antigamente o verbo “parecer” só tinha uma regência: parecer-se com». Não confirmei tal informação, claro, porque me lembrava de autores tão insuspeitos como Camilo Castelo Branco usarem a regência parecer-se a. Na acepção de assemelhar-se, dar ares de, ser semelhante, igual ou análogo, escreveu Camilo: «Mas os naufrágios do coração parecem-se aos do mar» (Consolação); «Corre perigo o lobo que ao pastor quer parecer-se» (apud Stringari). Sim, também usou a regência «parecer-se com»: «Nunca se parecera com o pai senão quando se riu assim» (Novelas, III). Todos os exemplos são do Dicionário de Verbos e Regimes de Francisco Fernandes (Globo, Rio de Janeiro, 36.ª edição, 1989, p. 449).

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Pensar e escrever

As questões sintácticas

Entrevistado por Isabel Lucas para o Diário de Notícias («Quem escreve mal pensa mal», 4.6.2008), o escritor Mário Cláudio diz que tem assistido à discussão à volta do Acordo Ortográfico «com mais perplexidade do que preocupação, até porque não tenciono ser um fiel seguidor de qualquer acordo. Há coisas mais importantes em torno do português do que as ortográficas. Desde logo as de carácter sintáctico. A nossa língua está a ser abastardada. As questões sintácticas têm a ver com o raciocínio, são de carácter mental. As outras têm a ver com cartilha. Quem escreve mal pensa mal e o inverso também é verdadeiro. Escrever e pensar mal são a mesma coisa. E escrever mal não é escrever dança com “s”. É essa ganga do mau pensamento que associo hoje à escrita: gente que pensa mal e que escreve mal».

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Léxico inadequado: «desadequado»

Olhe que não


      «O especialista em Bioética Rui Nunes defendeu ontem, no Porto, que a lei sobre a interrupção voluntária da gravidez “está desadequada” do Código Deontológico dos Médicos, em vigor» («Lei do aborto desadequada do Código Deontológico», Diário de Notícias, 31.5.2008, p. 20). Assim de repente não sei, mas quase de certeza que foi o meu professor de Latim, há mais de vinte anos, que me disse que não se deve usar «desadequado». Que o Dr. Rui Nunes use, não me surpreende nem interessa para aqui. Quando se trata da língua portuguesa, nunca consulto um médico. Grave é que o jornalista o tenha feito. Na substância, a explicação do meu professor não era muito diferente da que José Neves Henriques deu no Ciberdúvidas: «Dizer desadequado mostra ignorância. Tem razão no que diz, porque não é por uma palavra estar bem formada que é correcto empregá-la.»

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Léxico: «maloca»

Grandes malocas

«Uma clareira no meio da floresta Amazónia, junto à fronteira entre o Brasil e o Peru, revela seis malocas (cabanas) e um grupo de 15 índios» («Uma tribo perdida na floresta amazónia», Susana Salvador, Diário de Notícias, 31.5.2008, p. 26). O Dicionário de Caldas Aulete definia maloca* como uma «grande barraca, coberta de palmas secas, habitada por indígenas». E, longe do politicamente correcto, a segunda acepção era «aldeia de índios mansos ou não. (Nordeste)». Estes não eram mesmo nada mansos, pois desataram às flechadas ao Cessna Skylane que os sobrevoou. Como é «difícil imaginar que não saibam da existência dos “brancos”», como afirma Susana Dores de Matos Viegas, presidente da direcção da Associação Portuguesa de Antropologia (APA), entrevistada pelo DN, estão bem cientes do que fazem: o contacto com os brancos só lhes poderá trazer doenças, morte e depredação. Quem seria manso nesse cenário?

* Parece vir ou do vocábulo araucano malocan, «fazer hostilidade», ou do tupi mar’oca, «casa de guerra; ranchada de índios».

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Classificação por ordem alfabética

Ordem!

O leitor Luís Martins pergunta-me como se ordena alfabeticamente, num índice, uma palavra começada com um algarismo árabe. No caso, 3D. O Word, como sabemos, faz anteceder os algarismos a todas as restantes palavras. Contudo, a melhor maneira talvez seja a que vejo em livros anglo-saxónicos, em que a ordenação corresponde ao numeral por extenso. Exemplifico:


Thompson, Tommy, 225, 226
thought management, 239–40, 287, 295–96
3B6-RA-7 of Star Wars (film), 262
Three Mile Island, 32
Tiananmen Square, 32


Não sei se se aplica alguma NP (Norma Portuguesa) especificamente à ordenação alfabética. Talvez algum leitor possa contribuir com alguma informação complementar.

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Gujjares; Rajastão

Consultem uma gramática

«Pelo menos 35 pessoas morreram nos últimos três dias, em violentos confrontos entre manifestantes da etnia Gujjar e a Polícia indiana, na província do Rajastão, anunciaram ontem as autoridades. Num dos incidentes, em Bharatpur, a Polícia disparou sobre manifestantes, matando 15 pessoas, e em Sikandra outros 20 morreram. Os Gujjar exigem ser reconhecidos como grupo étnico, de forma a terem privilégios no acesso ao emprego e à educação» («Morrem 35 da etnia Gujjar em protestos», Meia Hora, 26.5.2008, p. 7).
«Nos subúrbios de Nova Deli e nas ruas de Jaipur, a capital do Rajastão indiano, reivindicava-se ontem a despromoção social. Os elementos de uma tribo que vive do pastoreio e da agricultura de subsistência, os gujjares, querem ser colocados na base da escala social. Assim, ganharão acesso às quotas na Administração Pública e no ensino criadas para as castas deserdadas» («Tribo indiana exige despromoção social», Global/Diário de Notícias, 30.5.2008, p. 11).
«Confrontos em vários pontos da província indiana do Rajastão provocaram ontem mais quatro mortos, elevando para 43 o número de vítimas desde que há mais de uma semana os gujjares iniciaram uma campanha exigindo o acesso a benefícios atribuídos às castas dos deserdados» («Violência prossegue na Índia», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 31.5.2008, p. 34).
Digamos que aproveito um pouco de cada um dos textos: do Meia Hora retenho as maiúsculas, porque se trata do nome de um povo, e do Global mantenho o plural, como acho que sempre se deve fazer, afeiçoando o vocábulo à língua portuguesa: Gujjares. No fundo, não muito diferente do inglês: «As protests of the Gujjars, who are demanding ST status, spread to fresh areas, the community living in the North-East will also take up the cudgels and launch an agitation in support of the cause» («Gujjars to protest in North East soon», 31.5.2008, The Times of India).
Apraz-me ver que a nossa imprensa tende a abandonar a grafia inglesa no nome do Estado. Rajastão se deve, de facto, escrever. E província ou Estado? Tanto quanto sei, foi sob Akbar, o imperador mogol, que o Rajastão foi criado como província unificada. Mas isso foi no período moderno do Rajastão. Na pós-independência, o Rajastão (que antes se chamava Rajputana) passou a ser um Estado, composto de 33 distritos. Vê-se, é verdade, indiferentemente ser referido como província ou Estado.

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Neologismo: «crachar»

Avariados

      «O caso teve início em 2002, através de uma carta anónima, descobrindo-se então um modus operandi em que os empregados [da Torre Eiffel] crachavam as caixas para emissão de bilhetes, motivando a emissão de bilhetes não contabilizados pelo sistema» («Empregados obrigados a pagar», Global, 30.5.2008, p. 11). Confesso: tive de ler várias vezes, com atenção, até perceber do que se tratava. E não é para menos. Estar em itálico ainda me confundiu mais. Não se riam: eu sou rápido e tudo isto levou segundos. Menos do que leva a contar. De crash (to crash: to become inoperable because of a malfunction in the equipment or an error in the program) passou para crashar e deste, sub-repticiamente, para vestir umas roupagens mais nacionais, crachar. Por enquanto, pelo menos na imprensa, grafado em itálico. É possível substituir este termo bárbaro por outro? Não, por «avariar», como já me sugeriram, não pode ser, pois o conceito é diferente. Os francófonos usam os termos «plantage», «panne» e mesmo «incident». Nós aceitamos tudo acriticamente.


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