Plural dos apelidos

Finalmente!

      Pensavam que já me tinha esquecido? Pois não. «Kate e Gerry McCann utilizaram o “fundo Madeleine”, criado por amigos e parentes para financiar a busca da menina desaparecida em Portugal, para pagar a hipoteca da casa em Leicestershire, centro da Inglaterra, denunciou ontem o jornal Daily Mail» («McCanns usaram fundo para pagar casa», Jornal do Brasil, 31.10.2007, p. A23).


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António Vieira, 400 anos

E em Portugal?

Veremos o que se fará em Portugal por ocasião dos 400 anos do nascimento do padre António Vieira. Os Brasileiros não estão parados, como se pode ver por este artigo do Jornal do Brasil. «O debate António Vieira e Machado de Assis: gigantes da língua portuguesa reuniu, na manhã de ontem, no auditório da Casa Brasil, os acadêmicos Alberto da Costa e Silva e Antonio Carlos Secchin e os ensaístas Alcir Pécora e Marco Lucchesi. Durante duas horas de conversa descontraída, mediada pelos jornalistas Tales Faria, editor-chefe do Jornal do Brasil, e Alvaro Costa e Silva, editor do caderno Idéias & Livros, a platéia de cerca de 50 leitores convidados pelo jornal teve a oportunidade de conhecer melhor a vida e a obra dos escritores.
Especialistas em Antônio Vieira,­ cujos 400 anos de nascimento serão comemorados no ano que vem, Alcir Pécora e Marco Lucchesi analisaram a trajetória política e religiosa do padre português, autor dos Sermões, que passou grande parte da vida no Brasil, país que considerava a sua segunda pátria. ­
— Grande parte da obra de Vieira, escrita em latim, continua inédita — lembrou Pécora.
De improviso, Alberto da Costa e Silva —­ que preside a comissão da Academia Brasileira de Letras que cuida da programação dos 100 da morte de Machado de Assis —­ traçou um paralelo entre os dois estilistas da língua, de temperamentos marcadamente discrepantes. ­
— Um era o oposto do outro. Machado era gago, Vieira um grande orador. Machado falava baixo, Vieira gritava. Na música, o brasileiro seria um quarteto de cordas e o português, uma orquestra —­ definiu o acadêmico.
Antonio Carlos Secchin preferiu fixar-se no romance Dom Casmurro e, em especial, na protagonista Capitu e sua suposta traição a Bentinho, narrador do romance.
O evento, primeiro de uma série promovida pelo JB, teve o apoio do Sesc-Rio e das editoras Record e Ulbra» («Machado e Vieira, gigantes da língua», Jornal do Brasil, 31.10.2007, p. A15).

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Uma palavra por dia: «periodismo amarillo»

Também tu, Joseph

«Paradójicamente, el padre del periodismo amarillista lo es también del premio más prestigioso del periodismo: el Pulitzer. Falleció el 29 de octubre de 1911» («Joseph Pulitzer, el padre del amarillismo», Público, 29.10.2007, p. 41). O «periodismo amarillo» é a imprensa caracterizada pelo sensacionalismo.

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Léxico contrastivo: «acostamento»

Encosta aí

«A paisagem é de galhos secos. Animais se espalham no campo de pasto raso e pequenas poças de água suja. No acostamento da rodovia, os agricultores passam em carroças ou puxam jumentos carregando água. Nos pequenos lugarejos, filas com homens, mulheres e até crianças em torno de uma cisterna que acabou de ser abastecida por um carro-pipa. A pressa é grande para levar pra casa o máximo que puderem de água. Levam latas na cabeça, depósitos suspensos em paus e cordas que colocam nos ombros e não cansam do vai-e-vem até que a cisterna fique seca» («Desolação no Sertão de Canindé», Rita Célia Faheina, O Povo, 25.10.2007, p. 10). Sim, «acostamento da rodovia» é brasileirismo. Na definição do Aulete Digital, é a «faixa lateral de uma estrada, fora da pista, destinada à parada de emergência de veículos, passagem de carros salva-vidas e ao trânsito de pedestres». Em Portugal, é a berma da estrada.

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Uma palavra por dia: «ácrata»

Anarcas cultos

«Un grupo de jóvenes anarquistas italianos se plantó ante una iglesia del Opus Dei para protestar por las beatificaciones. La policia italiana, vestida de paisano según los portavoces del Opus Dei, disolvió la concentración con violencia» («Una protesta ácrata contra los mártires acabó a golpes», Público, 29.10.2007, p. 3). Ácrata: é o partidário da supressão de toda a autoridade (de a- e o grego κράτος, autoridade). Também temos o vocábulo, é verdade, mas não o usamos muito.

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Directório de revistas

Um mundo a descobrir

      Eis um directório (Directory of Open Access Journals) de 110 publicações literárias e linguísticas, de diversas línguas, em linha.


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Léxico contrastivo: «rabiola»

A rabiola da pipa

Ainda a propósito dos papagaios de papel — pipas, no português do Brasil —, regressemos à notícia. «Voar com os pés no chão. Como? Soltando pipa. Ontem, no fim da tarde, no aterro da Praia de Iracema, centenas enfeitavam o céu. Foram mil distribuídas pela organização não governamental Mediando Saberes, que encerrava uma série de oficinas realizadas com 30 educadores numa parceria com a Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet). Antônio Rodrigues, 12, dispensou a ajuda dos monitores para montar a pipa. Envergou uma das varas, emendou a linha, colocou a rabiola e num instante a pipa estava lá no alto, longe mesmo» («Pipas enfeitam céu da Praia de Iracema», Mariana Toniatti, O Povo, 22.10.2007, p. 3). Rabiola?... Um português não sabe. Rabiola é a cauda dos nossos papagaios de papel.

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Uma palavra por dia: «amagar»

O Irão vai amargá-las

«George Bush amaga con una “Tercera Guerra Mundial” para meter miedo sobre Irán» («Cómo se fabrica la próxima guerra», Iñigo Sáenz de Ugarte, Público, 28.10.2007, p. 16). Talvez do gótico af-maga, «desamparar», e este derivado de magan, «ter força», segundo o Diccionario de la Real Academia, amagar é, no contexto, ameaçar alguém com algum mal ou mostrar intenção de fazê-lo.
Também temos, é verdade, o verbo amagar — mas não tem qualquer relação, pelo menos estabelecida, com este. Uma das acepções do nosso amagar é um brasileirismo que está registado no meu glossário do cavalo: levar (o corpo) à frente, quando montado a cavalo, para dar impulso à montaria. (Como vemos também, e dobramo-nos de riso, certos condutores fazerem.) Já o substantivo português «amago» deriva deste «amagar» espanhol: ameaça com fins de extorsão.

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Palestino/palestiniano

De Palestina…


      «El primer ministro israelí, Ehud Olmert, sugirió ayer en la Kneset (Parlamento) que Israel podría hacer “concesiones” en el tema de Jerusalén y traspasar a los palestinos el control de ciertos barrios árabes de la ciudad santa» («Olmert plantea dejar zonas de Jerusalén a los palestinos», Eugenio García Gascón, Público, 16.10.2007, p. 15). O Diccionario de la Real Academia nem sequer regista «palestiniano». «Palestino», de palaestīnus, como já aqui vimos.
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Léxico contrastivo: «caçamba»

Imagem: http://www.brasilcaminhoes.com.br/

A caçamba do caminhão

«Três pessoas morreram, ontem de madrugada, no capotamento de um caminhão Mercedes Benz, na altura do Km 52 da BR-304, no município de Aracati, a 159 quilômetros de Fortaleza. O veículo dirigido pelo motorista Everardo da Silva, seguia de Aracati com destino a Mossoró, no Rio Grande do Norte, conduzindo uma carga de cajus. […] “Uma outra pessoa que também vinha na caçamba teve mais sorte e os cajus não caíram sobre ela”, completa Félix. Os corpos deles foram trazidos para o Instituto Médico Legal» («Caminhão capota e mata três pessoas», O Povo, 28.10.2007, p. 3). Caçamba, segundo o Dicionário Houaiss, vem do quimbundo kisambu, «cesta, cesto grande», e significa «receptáculo de camiões, guindastes, escavadeiras, dragas, etc.». Em Portugal, dizemos «caixa». Camião de caixa aberta, no caso da imagem. Camião, caminhão… Escrevia o Prof. Vasco Botelho de Amaral em 1947: «Ora, eu também, no Novo Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, insisti em defender camião, mas, se nos fôssemos a guiar por grande parte do povo (tal como faz Aquilino Ribeiro para camionete), teríamos ambos de preferir camiom» (in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 19). Passados mais de cinquenta anos, isto continua a ser verdade.

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Uma palavra por dia: «borrador»

Esborratadelas

«Los implicados (asociaciones empresariales y gestoras de derechos) ya han recibido el borrador de la norma, aunque sin las cifras definitivas» («El canon digital ya se cobrará en las tiendas esta Navidad», Ana Tudela, Público, 17.10.2007, p. 34). É um rascunho, um borrão — um projecto. «Escrito provisional en que pueden hacerse modificaciones.» O nosso «borrão» tem o mesmo étimo latino: burra. Aliás, até temos em português o vocábulo «borrador» com o mesmo significado: «Caderno ou papel em que se faz rascunho, para depois passar a limpo» (in Aulete Digital).

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Léxico contrastivo: «oficina»

Artes e ofícios

«Com o tema “Caju: novos rumos, desafios e oportunidades”, começa amanhã a 4.ª edição do Caju Nordeste, no município de Aracati, a 159 quilômetros de Fortaleza. O evento se estende até o próximo sábado, 27, e é aberto ao público. Além de palestras e seminários, realizados nos auditórios dos Colégios Marista e Salesianas, haverá, na praça da Comunicação, oficinas sobre como aproveitar o caju em receitas de hambúrguer, sopa, pudim e arroz, entre outros. […] «De acordo com Araripe [Francisco Araripe Costa, coordenador-geral do Caju Nordeste 2007] cerca de 85% dos pedúnculos de caju (a parte da polpa) são desperdiçados» («Caju Nordeste 2007 começa amanhã na cidade de Aracati», O Povo, 24.10.2007, p. 10). Neste contexto, um jornalista português não hesitaria: só com um workshop é que o leitor vai perceber isto.

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Revista «Cadernos de Tradução»

Saber mais

Criada em 1996 por professores da Universidade Federal de Santa Catarina, a revista Cadernos de Tradução é actualmente uma publicação de periodicidade semestral da pós-graduação em Estudos da Tradução, e publica artigos, entrevistas e resenhas relativos à tradução (análise, teoria, história). Ver aqui.

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Léxico contrastivo: «carroçável»

Carroças do século XXI

«Genilson de Sena Monteiro, 10, acorda por volta das 5 horas da manhã e às 6 horas já está na estrada com o irmão Gerson, 14, esperando o transporte escolar que vai levá-los à Escola Municipal Raul Barbosa, no distrito de Itapeim, em Beberibe. A escola fica a cerca de 20 quilômetros de distância da localidade onde os meninos moram, Lagoa Achada, e o percurso é feito em carro que tem tração porque a estrada é carroçável» («Professores sem instrumentos pedagógicos nas salas de aula», Fátima Guimarães, O Povo, 24.10.2007, p. 10). Não estou a imaginar um jornalista português usar tal termo. No entanto, «carroçável» — «próprio para o tráfego de carros, carroças e outros veículos (estrada carroçável)», na definição do Aulete Digital — é um vocábulo de fácil compreensão. E, trate-se de uma charrete ou de um BMW X5 Security, tem rodas e anda nas estradas. Sim, claro, a jornalista também podia ter usado os vocábulos «praticável», «transitável» ou «viável». E até, se quisesse aborrecer a maioria dos leitores, «pérvio». O Brasil é o último reduto do bom léxico português.

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Uma palavra por dia: «soslayar»

Eludir

«Los socialistas no quieren abrir flancos conflictivos con compromisos cuya rentabilidad electoral es, cuando menos, dudosa y sostienen que la despenalización de la eutanasia “no es una demanda mayoritaria de la sociedad”» («El PSOE soslayará en su programa la eutanasia», G. López Alba, Público, 16.10.2007, p. 25). Soslayar: «Pasar por alto o de largo, dejando de lado alguna dificultad.» Traduzir-se-á, então, por «eludir», «contornar», «evitar».

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Glossários

Vale a pena ver

O Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia (CITRAT) da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo tem na sua página na Internet vários glossários de alguma utilidade. Ver aqui.

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Léxico contrastivo: «premier»

Primus inter pares

Decerto devido ao facto de o Brasil ter um regime presidencialista, não se vê sempre, referido a outros países, o vocábulo «primeiro-ministro». Não raro, é premier, vocábulo francês, que é usado. Por vezes, mascarado: «premiê».
«Os poloneses puseram fim aos dois anos de governo dos gêmeos conservadores Kaczynsky, o presidente Lech e o premier Jaroslaw, período marcado por divisões internas e desacordos com a União Européia, ao votarem massivamente domingo na oposição liberal. Com a apuração de 90,8% dos votos, o partido liberal Plataforma Cívica (PO) obtinha 41,64% das preferências, conforme a comissão eleitoral» («Polônia muda», O Povo, 23.10.2007, p. 27). Se em Portugal se dissesse o mesmo, o nosso interlocutor perguntaria: «Está a desconversar? Eu estou a falar de José Sócrates e você fala-me de palmiers?»

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Uma palavra por dia: «restar»

O resto não presta

«El líder del PP resta importancia al cambio climático mientras el rey recuerda que es uno de los “grandes desafíos”» («Rajoy cree a su primo y no a Gore», M. J. Güemes, Público, 23.10.2007, p. 2). Restar: do latim restāre, significa, no contexto, «diminuir, rebaixar, cercear».

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Apostila ao Ciberdúvidas: relojão

Relojão, relojão, relojão…

      Londrina, no Norte do Paraná, a terceira maior cidade do Sul do Brasil, tem no topo de um edifício, o Edifício América, um relógio grande, muito grande — tão grande que é chamado o Relojão. O consultor A. Tavares Louro, do Ciberdúvidas, acha que o aumentativo de «relógio» «não tem uso porque não há relógios mecânicos maiores do que aqueles que vemos nas catedrais», opinião que acho absurda, pois, como sabemos, a língua não apresenta esta lógica interna. Os Londrinenses não estão enganados: podem continuar a usar o termo «relojão» para um dos ex-líbris da sua cidade. Se algum dos meus leitores brasileiros conhecer Aline Silva, estudante de Natal, transmita-lhe o recado.
      Duas citações, para mostrar que o termo tem uso no Brasil: «Cheio de gás e louco para arrasar com as gatas, tropeça na malandragem: manga arregaçada em cima do blazer (ele usa, mas ele é Rei), camisa aberta no peito (pior, só se for transparente), relojão de ouro, calça balão, metal no sapato. Descontração elegante pede roupas, cores e acessórios que resultem em uma silhueta bem definida» («Calça, camisa, gravata e ambição», Lizia Bydlowski, Veja, edição n.º 1548, 27.5.1998). «Para compor o cenário da breguice típica das novelas e os núcleos de pobres e ricos, “O Proxeneta” recorre ao repertório kitsch, com destaque para a estética cafajeste: carrão vermelho conversível, cabeleira de galã, blazers, relojão e óculos escuros, cigarro apagado no copo de uísque, merchandising disfarçado em cenas, diálogos em tom teatral» («“O Proxeneta” expõe esgotamento de “Hermes & Renato”», Sérgio Ripardo, A Folha, 12.10.2006).
      O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa em linha regista «relojão». Como regista igualmente «dedão», mas não «feriadão».

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Ferramenta de extracção de terminologia

Terminologia à mão

Na edição deste mês do Translation Journal, dá-se conta de uma ferramenta de extracção automática de terminologia, o LexTerm. Nada de novo, até aqui. A novidade começa quando sabemos que é gratuita e de código aberto. Útil a terminólogos, tradutores e revisores. Pode descarregá-la aqui.

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Uma palavra por dia: «guinda»

Imagem: http://ginjadobidos.blogspot.com/

Toque de mestre


«La presidenta de Madrid [Esperanza Aguirre] subió el 11 de octubre otro peldaño en la escalada verbal del PP: “Una norma impuesta por un gobierno es un síntoma de totalitarismo como no se ha visto jamás. Es intolerable”. Para Aguirre, la ley es la “guinda de la legislatura”» («“Es un síntoma de totalitarismo como nunca se ha visto”», Público, 18.10.2007, p. 2). Guinda vem, provavelmente, do germânico *wīksĭna. No contexto, é termo coloquial e significa «cosa que remata o culmina algo». Poderá traduzir-se por «toque final» — o toque dado por uma cereja (na verdade, a guinda corresponde à nossa ginja, Prunus cerasus) no cimo de um bolo. O léxico português também regista o vocábulo «guinda» com o significado de «ginja», embora tenha entrado em desuso. Actualmente, as únicas guindas conhecidas são as cordas para guindar, içar, e a altura dos mastaréus, ambos termos náuticos, do alemão Winde.

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Léxico contrastivo: «fraudador»

Baptizar leite

      Em rigor, não há aqui contraste, mas leia-se. «As empresas de laticínios Parmalat e a Cooperativa Agropecuária Ltda. de Uberlândia (Calu) estariam entre os compradores de leite das cooperativas dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Coopervale) e Agropecuária do Sudoeste Mineiro (Casmil), segundo a Polícia Federal (PF). As duas cooperativas são acusadas de “batizar” o leite longa vida com substâncias que aumentavam seu volume e disfarçavam suas más condições de conservação» («Presos 26 fraudadores de leite», O Povo, 23.10.2007, p. 11). Directamente do latim fraudator,oris, em Portugal não usamos o vocábulo com a mesma frequência*. Mais facilmente falaríamos em «adulteração» e, eventualmente, «adulterador». (Aliás, o Globo de ontem titulava, sobre o mesmo facto: «Cooperativas são suspeitas de adulterar leite em MG».) Quanto a «ba(p)tizar», dois reparos: não é necessário ser grafado entre aspas, pois é uma das acepções do vocábulo, e não é, como regista o Aulete Digital, um brasileirismo: «Bras. Pop. Adulterar (bebida, combustível, etc.), adicionando água ou outro líquido. [td.: Batizaram o leite, que ficou aguado.]» Entre nós, o Dicionário da Academia dá-o como termo familiar. Neste caso, e ainda segundo O Povo, os adulteradores são suspeitos de ter adicionado ao leite peróxido de hidrogénio (água oxigenada), soda cáustica, ácido cítrico, citrato de sódio, sal e açúcar.

* Há um estudo, dissertação de mestrado, que aborda estes termos: Derivação Nominal em -dor/a e em -deiro/a no Português Europeu Contemporâneo, de Nuno Neves Renca. Descarregar aqui.

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Uma palavra por dia: «chabola»

Barracas que são prisões

«El juzgado de lo Contencioso Administrativo número 20 de Madrid dio ayer la razón a siete familias de rumanos que viven en chabolas de la Cañada Real Galiana: paralizó el derribo de siete viviendas amparándose en el derecho constitucional a una vivienda y que el Ayuntamiento no ha respetado los plazos de alegación» («El juzgado paraliza la demolición de siete chabolas de rumanos», Ramiro Varea, Público, 20.10.2007, p. 2). Chabola vem do basco txabola (o Diccionario de la Real Academia regista 95 vocábulos com etimologia basca) e este do francês geôle (este, por sua vez, provém do baixo latim caveola, diminutivo de cavea). É uma cabana rústica ou uma casa de escassas proporções e pobre de construção, que costuma ser edificada nos subúrbios das grandes cidades. É a típica habitação de bairro-de-lata, construída com tábuas, plásticos e chapas de ferro — e este último material deu nome aos bairros-de-lata também na língua francesa: bidonville (vocábulo que surgiu pela primeira vez no jornal Le Monde, de 9 de Setembro de 1953). Curiosamente, o léxico espanhol também regista o termo «favela», já incluído como americanismo no Diccionario de la Real Academia, mas usado também em Espanha. Titulava em parangonas, na primeira página, o diário espanhol Público: «Explota la favela de Madrid». Em toda a edição, o vocábulo ocorre quatro vezes. Vale a pena transcrever o respectivo verbete do Aulete Digital: «Favela. sf. 1. Bras. Comunidade de habitações modestas, construídas principalmente nas encostas dos morros das áreas urbanas e ger. desprovida de infra-estrutura de urbanização [Esta acp. deriva do top. Morro da Favela, local do morro do Santo Cristo, na cidade do Rio de Janeiro, onde se instalaram, em barracos toscos, soldados retornados da Guerra do Paraguai.].»

[
Ler o estudo «O Linguajar das Favelas do Rio de Janeiro (elementos gramaticais)», de José Pereira da Silva.]

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Léxico contrastivo: «pipa»

Pipas no céu

«Voar com os pés no chão. Como? Soltando pipa. Ontem, no fim da tarde, no aterro da Praia de Iracema, centenas enfeitavam o céu. Foram mil distribuídas pela organização não governamental Mediando Saberes, que encerrava uma série de oficinas realizadas com 30 educadores numa parceria com a Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet). Antônio Rodrigues, 12, dispensou a ajuda dos monitores para montar a pipa. Envergou uma das varas, emendou a linha, colocou a rabiola e num instante a pipa estava lá no alto, longe mesmo» («Pipas enfeitam céu da Praia de Iracema», Mariana Toniatti, O Povo, 22.10.2007, p. 3). Sim, mais um brasileirismo. Regista o Aulete Digital: «Armação composta por duas varetas cruzadas e recobertas por um papel fino, formando ger. um losango que contém em uma das pontas uma linha que facilita sua estabilidade quando posta em movimento para planar.» É o nosso papagaio de papel. A notícia acrescenta outros pormenores, como a origem histórica: «A pipa foi inventada na China há mais de 2000 anos, de lá seguiu para o Oriente, Oceania, África, Europa e depois América. No Quilombo dos Palmares, os negros, que já conheciam o artefato feito de palha e folhas, como na Oceania, o usavam para sinalizar de longe a chegada de inimigos. Hoje, nos morros cariocas, meninos que trabalham para o tráfico fazem a mesma coisa.» E cuidados elementares: «CUIDADO! Nunca use cerol, o pó de vidro com cola. Pode machucar gravemente quem estiver por perto. Além disso, a linha com cerol pode conduzir eletricidade. A de algodão não. Evite empinar pipas perto de fios elétricos. Se a pipa se enroscar num fio desses, não tente tirá-la. Por ali passam correntes elétricas.»

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Banco de neologismos

Consulte o saldo     


      Com bancos de esperma, de óvulos, de gâmetas, de leite humano, do tempo, de jardim, de neve, de nuvens, de sementes, de bens doados, de sangue, alimentares, farmacêuticos, entre outros, já era tempo de haver um banco de neologismos. A língua espanhola já o tem. Ver aqui.

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Uma palavra por dia: «zanjado»

Também temos

«Caja Madrid da casi por zanjada la crisis del crédito», Virginia Zafra, Público, 17.10.2007, p. 31. Zanjada significa, no contexto, «removida», «ultrapassada», «vencida», «resolvida». Vem de zanjar, e este de sanjar (do francês antigo jansier, «fender, rachar», e este do latino *charassāre, e este, por sua vez, do grego charassein, que também está, indirectamente, na origem do vocábulo «carácter»). Na definição do Diccionario de la Real Academia: «Remover todas las dificultades e inconvenientes que puedan impedir el arreglo y terminación de un asunto o negocio.»
Em português, temos dois vocábulos, pouco ou nada usados, que têm como étimo sanja: «sanja», precisamente, e «sanjar». O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista: «Sanja, s. f. Abertura ou sarjeta própria para escorrer a água; rego (por entre os bacelos nas vinhas).│Fig. Fenda, golpe; incisão.│Prov. alg. Recorte na terra, para o funcionamento da roda do moinho movido por água.» «Sanjar, v. tr. e intr. Fazer ou abrir sanjas em (terreno).»

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Léxico contrastivo: «corte»

Cortes na Corte

«Divergências numa Corte de 11 ministros são e sempre foram constantes, mas os ataques e divergências levados para o lado pessoal eram raridade. Desde o mês passado, essas discordâncias têm gerado discussões grosseiras e troca de acusações. Os ministros mais antigos no STF [Supremo Tribunal Federal] relacionam o acirramento dos ânimos à troca recente de sete dos 11 ministros do Supremo. Não estariam esses novos ministros acostumados com o julgamento numa Corte, com o confronto de opiniões» («Quando a Corte sai do sério», Felipe Recondo, O Povo, 21.10.2007, p. 29). Claro que no Brasil também se usa o vocábulo «tribunal» — em Portugal é que não se usa a palavra «corte» nesta acepção. Já se usou: «A casa e corte do cível» (Frei Luís de Sousa, apud Aulete Digital).

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Dicionário inglês-galego

Procurar palabra en inglés

Eis um útil dicionário em linha: Dicionario CLUVI Inglés-Galego. Com 6677 entradas e 10 807 traduções. Ver aqui.

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Léxico contrastivo: «repasse»

Como?!

«A coordenadora do Núcleo de Endemias da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Socorro Furtado, reconhece a dificuldade em relação aos recursos. “Os repasses do Ministério da Saúde são insuficientes. A gente sempre está procurando resolver a situação dentro das limitações financeiras. A gente encaminha as solicitações, pede o material, mas a notícia que a gente tem é que os recursos são insuficientes para as demandas”, explica» («Repasse insuficiente», Lucinthya Gomes, O Povo, 20.10.2007, p. 6). Repasse (que provém, por derivação regressiva, do verbo «repassar») é, na definição do Aulete Digital, a «transferência total ou parcial de crédito, verba, etc., de uma empresa, entidade, órgão governamental, etc., para outro a ele vinculado ou não (repasse de tributos/de dinheiro)». Em Portugal, diríamos «verbas atribuídas ou transferidas», «dotação financeira» ou simplesmente «transferências».

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Uma palavra por dia: «fuelle»

«Uma gralha três dias gritou tanto, que sem folgo caiu na veia pura.»
Diogo Bernardes, Lima, Écloga XVII

Ar

«Los Kaczynski pierden fuelle antes de las elecciones» (Guillem Sans Mora, Público, 17.10.2007, p. 14). Fuelle é o nosso «fole» (do latim follis), mas no contexto é termo coloquial e poderá traduzir-se por «fôlego». Ou, como diz o povo, «folgo». (A despropósito: o termo francês fou (ou fol, e no feminino folle) vem deste follis latino, que significava «fole, saco cheio de ar», e daí a «cabeça cheia de ar, vazia», do louco.)

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«Êmbolos»? Embolas!

Touro mecânico

Ler pode ser perigoso. «Luís Carloto Marques, deputado do MPT, eleito nas listas do PSD, denunciou o “acto gratuito de crueldade sobre os animais”, que marcou as últimas festas do Montijo. Os requerimentos que apresentou ainda não obtiveram resposta, mas esta prática (largada de touros com êmbolos de fogo) já havia sido proibida no passado, em Santarém, graças a uma providência cautelar interposta por associações de defesa dos animais» («Touro em chamas», Visão, n.º 762, 11.10.2007, p. 37). Êmbolos? Só faltam as bielas. Bem, nem sequer «embolo», que somente existe como forma verbal. Embolar é, no contexto, como os meus leitores sabem, pôr bolas (na linguagem do meio, embolas), de couro e de metal, como a lei exige, nos cornos dos touros. O substantivo registado é «embolação». Tanto quanto se pode avaliar pelas três fotografias publicadas pela Visão (o vídeo no YouTube deixou de estar disponível), trata-se precisamente de embolar os touros com uma substância que se põe a arder. Por coincidência, na mesma edição desta revista, é usada a palavra «embolador»: «Junto dos curros, José Alcachão é o embolador de serviço» («Por detrás da arena», Sara Rodrigues, Visão/Sete, p. 6).
Já depois de ter redigido este texto, pedi ao embolador António Estorninho um esclarecimento. A sua resposta foi: «O nome correcto é “embolas ou êmbolas de fogo”. Este modelo de embolas é totalmente diferente das usadas nas nossas corridas, onde se lidam reses emboladas. As embolas de fogo são formadas por uma armação de ferro, ajustada ao corno com a extremidade envolta em tecido embebido num líquido inflamável.»

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Uma palavra por dia: «desoír»

Desouvir

«El Gobierno francés intento ayer arrancar a España una mayor participación en la futura fuerza de la UE para Darfur (Sudán), pero Madrid se limitó a reiterar su oferta de aviones de transporte logístico y su negativa a contribuir con tropas» («España desoye la petición de París de enviar tropas a Sudán», Andrés Pérez, Público, 16.10.2007, p. 22). Desoír é desatender, deixar de ouvir. Em português também temos o verbo desouvir, ou não fosse o prefixo des- um dos mais produtivos, mas não significa o mesmo nem é usado. Veja-se: «Desouvir, v. tr. Não ouvir; desentender» (in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).

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Léxico contrastivo: «bilhão»

Demasiado simples…

Davam-nos jeito estas reduções, sobretudo nas publicações periódicas, mas somos avessos a simplificações: «BNDES vai pedir US$ 2 bi ao Bird» (O Povo, 18.10.2007, p. 28). «Atração de empresas custará R$ 100 mi» (O Povo, 17.10.2007, p. 26). Bilhão é, no Brasil, mil milhões, 1 000 000 000 (mas em Portugal, de acordo com a NP-18, de 1960, um bilião é um milhão de milhões: 1 000 000 000 000), vem do francês billion e tem como redução bi. Já o milhão tem a redução mi.

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Web do Museo del Prado

Ah, eles percebem

«El Museo del Prado estrenó ayer su nueva página web, que incluye información práctica en doce idiomas, así como biografías de 1.600 [Em rigor: 1646] pintores y datos detallados sobre las grandes obras maestras de su pinacoteca. Además, los internautas podrán participar en juegos ‘on-line’ y tener información sobre los fondos antiguos del museo» («El Museo del Prado estrena web en doce idiomas», Público, 16.10.2007, p. 40). Doze línguas — entre as quais não está o português. Ver aqui.

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Léxico contrastivo: «usina»

Laborar

«A Vale do Rio Doce está interessada na implantação de uma usina termelétrica no Complexo Industrial e Portuário do Pecém» («Vale do Rio Doce quer instalar usina no Pecém», O Povo, 17.10.2007, p. 26). Por vezes, surge apenas o qualificativo: «termelétrica». «Usina» vem do francês usine. Em Portugal, dir-se-ia «central termoeléctrica».


Actualização em 24.10.2007

Titula hoje O Povo uma notícia: «Vale do Rio Doce projeta termelétrica de R$ bi no Ceará» (Márcio Teles, 24.10.2007, p. 22).

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A evolução dos vocábulos

A biologia da língua

Será (?) contra-intuitivo, mas dois estudos provam-no: quanto menos usadas forem as palavras, mais mudam. «Basta con observar cualquier edición del Cantar de mío Cid en doble versión (castellano medieval y moderno) para comprobar que los idiomas, al igual que los seres vivos, evolucionan. Investigadores de Reino Unido y EEUU han tenido la idea de cuantificar este proceso en función de la frecuencia de uso de los vocablos, una magnitud que indica cómo la presencia de las palabras en el habla popular afecta a su variación a lo largo del tiempo. Los resultados se publican hoy en dos estudios en Nature y coinciden en una interesante conclusión: los usuarios de las lenguas y la suma de los comportamientos individuales determinan cómo las palabras cambian. De un total de 200 acepciones en cuatro lenguas (español, inglés, ruso y griego), Mark Pagel y colaboradores, de la universidad britânica de Reading, deducen que las más utilizadas, como los números, tienden a permanecer inmutables, mientras que las menos empleadas cambian con mayor facilidad. La misma idea transmite un segundo estudio, liderado por Martin Nowak, de la Universidad de Harvard (EEUU). Los verbos irregulares de la lengua inglesa adquieren terminaciones regulares con mayor rapidez cuando su uso es menos frecuente» («Las palabras evolucionan más por la falta de uso», J. Y., Público, 11.10.2007, p. 39). Ver também aqui.

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«Hombro»/«ombro»

Diferenças

«Un sargento del Ejército de 28 años resultó herido de bala en el hombro izquierdo en un confuso incidente que ni la Ertzaintza ni la Policía se atreven a adjudicar a ETA» («Extraño tiroteo en San Sebastián», Ó. L. F., Público, 16.10.2007, p. 6). Não é destas diferenças mínimas que se faz a idiossincrasia de uma língua, mas contribuem. Porquê o nosso «ombro» com agá? Exigência etimológica? O espanhol vem do latim humĕrus, ao passo que o português vem do latim umĕrus — sem que, se assim se pode dizer, sejam variantes. O nosso «ombro» proveio, por epêntese (desenvolvimento de um fonema no interior do vocábulo), umĕru- > *omro > ombro. E umĕrus é considerada a forma correcta, o que fica atestado pela raiz indo-europeia do vocábulo: omesos.

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Léxico: feriadão

Prolongado

      «Em Minas Gerais, 17 pessoas morreram nos 262 acidentes registrados nas rodovias federais. O número foi o maior do País no feriadão, mas também foi menor que o registrado em 7 de setembro, quando 22 pessoas morreram em 308 desastres» («BRs foram palco de 92 mortes no feriadão», O Povo, 16.10.2007, p. 11). Tudo o que é grande pode ter este sufixo. E grande porquê? «As estradas federais do País tiveram 92 pessoas mortas durante o feriado prolongado do Dia de Nossa Senhora Aparecida, de acordo com levantamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF), em Brasília.» Em Portugal, precisamos de uma locução para dizer o mesmo: feriado prolongado.

«Feriadão, sm. 1 Pop. Antecipação ou prolongamento de fim-de-semana quando há um feriado na sexta ou na segunda-feira. 2. Pop. Prolongamento de um feriado pelo recurso de enforcar (isto é, faltar ao trabalho) o dia útil entre este e o fim-de-semana, ou entre dois feriados» (in Aulete Digital).

Actualização em 1.11.2007

O jornal O Dia, do Rio de Janeiro, falava mesmo, uns dias depois, em «feriadão», «folgão» e «feriadaço». «Folgão de seis dias no município» (27.10.2007, O Dia, suplemento de economia, p. 21).

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Léxico contrastivo: «guarda-vidas»

Salvaguarda

«A cada três dias, uma pessoa morre afogada no Ceará. Os locais mais perigosos são o encontro de rios com o mar e as praias do Futuro e Barra do Ceará, na Capital, e Marjolândia, em Aracati. Os dados são do Corpo de Bombeiros, com base em estatísticas do Instituto Médico Legal (IML). Ontem, a corporação deu início ao projeto Pescando Vidas, no rio Ceará. Durante três meses, pescadores da área participarão de um curso para a formação de guarda-vidas voluntários» («Bombeiros vão treinar pescadores como guarda-vidas voluntários», O Povo, 16.10.2007, p. 7). Em Portugal, dizemos «nadador-salvador» (e podemos recorrer também ao sinónimo, pouco usado, «salva-vidas»).

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Judia/judaica

Mais uma infausta vez

      O actor e encenador Rui Mendes deu, a propósito da peça A Desobediência, agora no Teatro da Trindade, que conta a história do cônsul Aristides de Sousa Mendes, uma entrevista à revista Visão («Rui Mendes, a homenagem a Aristides de Sousa Mendes», edição n.º 762, de 11.10.2007, p. 160). A determinado ponto, afirma (fazendo fé na jornalista, Ana Margarida de Carvalho): «Pai de 14 filhos, viveu na miséria e da caridade alheia. Alimentava-se numa cantina judia [refere-se à Cozinha Económica de Lisboa, gerida pela Comunidade Israelita de Lisboa (CIL), situada na Travessa do Noronha] de Lisboa.» Os meus leitores já sabem o que pensar disto.

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Léxico contrastivo: «detento»

Enclausurados

«Penitenciária Industrial Regional do Cariri (Pirc) oferece atividades de ressocialização, por meio da educação e da profissionalização dos detentos. O ourives Antoniel Ferreira da Silva é um exemplo» («Detentos aprendem a arte de ourives», Lucinthya Gomes, O Povo, 7.10.2007, p. 13). É um termo exclusivamente da variante brasileira do português, este «detento». Sinónimo de «preso», «prisioneiro», provém do latim detentus,a,um, tal como o nosso «detido» e o espanhol «detenido». Mas atenção: só estes dois últimos se traduzem mutuamente, ao passo que o primeiro corresponde aos vocábulos portugueses e espanhóis «preso» (do latim reclūsus) ou «recluso» (do latim prensus). O espanhol tem ainda o termo «encarcelado»: «Cerca de 4000 de monjes budistas serán encarcelados en Myanmar» (El País, 1.10.2007). «ETA recurre a sus jefes encarcelados en España ante las dificultades para su relevo» (ABC, 30.6.2003). «Encarcelados Sancristóbal, Masa y Amedo por el asesinato de Brouard» (El Mundo, 13.3.1999).

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Uma palavra por dia: «achicar»

Água

«A vecinos, voluntarios de Protección Civil, bomberos, brigadistas, militares y policías locales se sumaron ayer diversas autobombas de los Bomberos de Castellón y Valencia. Los trabajos se prolongaron durante toda la pasada noche. El viernes ya se quedaron sin dormir achicando agua y limpiando los viales, llenos de barro y cañizo» («Alicante achica agua a la espera de cuantificar los daños», Público, 15.10.2007, p. 28). Achicar (que vem de chico, e este do latim ciccum,i, «coisa de escasso valor, bagatela») tem, entre outros não aplicáveis ao contexto, o significado de extrair água de um dique, de uma mina, de uma embarcação, etc.

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Léxico contrastivo: «carro-pipa»

Imagem: http://www.quixeramobim.ce.gov.br/

Contra a estiagem brasileira


«Está suspenso o abastecimento de água por carros-pipa nos municípios do Ceará atendidos pelo Programa Emergencial de Distribuição de Água que funciona desde abril com recursos do Ministério da Integração Nacional em parceria com o Ministério da Defesa» («Abastecimento por carros-pipa está suspenso no Ceará», Rita Célia Faheina, O Povo, 15.10.2007, p. 11). Aquilo a que chamamos, em Portugal, «autotanque» ou «camião-cisterna» tem, no Brasil, o nome, muito mais sugestivo, de «carro-pipa». Que o Dicionário Houaiss regista: «carro-pipa s.m. camião dotado de grande tanque, ou reservatório, utilizado no transporte de água. ● GRAM pl.: carros-pipa e carros-pipas

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Uma palavra por dia: «amañar»

Manhas e manias


      «Conmoción en el tenis mundial. El británico Andy Murray aseguró ayer que “hay partidos que están siendo amañados y hay jugadores que están advertidos”, en referencia a presuntos fraudes relacionados con casas de apuestas» («Murray admite el amaño de partidos», Público, 10.10.2007, p. 59). «Jogos combinados», escreve o Diário Digital. «Resultados arranjados», afirma o GloboEsporte. Murray disse que «all tennis players are aware that some men’s matches are fixed». Amañados vem, parece óbvio, de maña. E este vem, provavelmente, do latim *manĭa, «habilidade manual». Amañar é, entre outras coisas, preparar ou dispor algo com engano ou artifício. Também o português «amanhar» resulta, por parassíntese, de «manha». As formas derivantes, em português, são normalmente adjectivos ou nomes e as formas derivadas são verbos.

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Dálitas, em espanhol

Intocáveis

Também o diário espanhol Público optou por adaptar, como fez o Expresso entre nós, a palavra «dalit»: «La iniciativa es del movimiento popular Ekta Parishad, una organización presente en 4.000 pueblos indios, que involucra a más de diez millones de personas, fundamentalmente campesinos sin tierra, intocables (dalitas) y miembros de comunidades tribales. Los organizadores esperan que participen hasta 25.000 campesinos sin tierra. Una vez en Delhi, entregarán al primer ministro Manmohan Singh sus reivindicaciones y que se lleve a cabo la prometida reforma agrária» («Los ‘sin tierra’ y los intocables recorren 350 kilómetros para pedir sus derechos», Público, 3.10.2007, p. 18).

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Coluna de Pasquale Neto

Um olhar brasileiro

Para ler, na página 11 do jornal nordestino O Povo, a coluna de Pasquale Cipro Neto, hoje sobre conexões. Ver aqui.

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Uma palavra por dia: «zurcir»

Língua inconsútil

«Nadie diría que Godfrey H. Hardy fuera un hombre preocupado por la estética. Un caballero sin abrigo, com la cabeza descubierta y la ropa mal zurcida violaba todos los cánones en el elegante Londres de principios del siglo XX» («La madre de Ramanujan, el dictado de la diosa y el ateo», Jorge Barrero, Público, 13.10.2007, p. 38). «Zurcida»? Vem de surcir*, e este do latim sarcio, sarsi, sartum, sarcire, «remendar», «cerzir»**. Aliás, o nosso «cerzir» tem como étimo este mesmo verbo latino. O vocábulo sastre — uma das mais belas palavras espanholas, que me encanta desde pequeno — também pertence à mesma família, pois vem do latino sartor, «alfaiate». Em português, temos o adjectivo «sartório», que os estudantes de Medicina conhecem bem: é um músculo da coxa, o mais longo do corpo humano, também chamado costureiro. E porquê? Pois porque o costureiro, que trabalha sentado, apoia na coxa o trabalho que está a fazer.

* «1. tr. Coser la rotura de una tela, juntando los pedazos con puntadas o pasos ordenados, de modo que la unión resulte disimulada. 2. tr. Suplir con puntadas muy juntas y entrecruzadas los hilos que faltan en el agujero de un tejido. 3. tr. Unir y juntar sutilmente una cosa con otra. 4. tr. coloq. Combinar varias mentiras para dar apariencia de verdad a lo que se relata» (in Diccionario de la Real Academia).



** Atenção: verbo irregular: muda o e em i nas formas rizotónicas do Presente do Indicativo (cirzo, cirzes, cirze, cerzimos, cerzis, cirzem) e em todo o Presente do Conjuntivo (cirza, cirzas, cirza, cirzamos, cirzais, cirzam), à semelhança de outros, como agredir, progredir, regredir e transgredir.



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Uma palavra por dia: «racimo»

Imagem: http://tadamon.resist.ca/

Aos cachos


«Un soldado britânico murio ayer en el sur de Líbano al estallarle en las manos una bomba de racimo que intentaba desactivar, según informo la fuerza interina de la ONU en esa zona del país (FINUL). Israel lanzó cuatro millones de bombas de racimo sobre Líbano durante la guerra que mantuvo en el verano del año pasado contra la milicia chií de Hizbolá» («Muere un artificiero británico en Líbano», Público, 12.10.2007, p. 16). Quase poético, não é? No entanto, são tão mortais como o podem ser certa poesia. Bombas-cacho, lê-se em alguma imprensa portuguesa. Como seria de esperar, a maioria da imprensa prefere «bombas cluster», e já temos sorte não escreverem cluster bombs. Também são referidas como «bombas de fragmentação».

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Ortoépia: soror

A décima musa portuguesa

A dúvida surge de vez em quando — e sem o Assim Mesmo como seria? Ou será sem Vasco Botelho de Amaral — a quem todos aludiam e ninguém citava? «No século XVII há duas freiras notáveis: Soror Violante do Céu, a “décima musa portuguesa”, e Soror Mariana Alcoforado.
Há quem diga Sóror, mas Sorór era como se proferia nos conventos, de acordo com o acusativo latino sorōrem. O povo manteve a prosódia sorór e serór e abreviadamente sôr» (in Estudos de Apoio ao Português, Livraria Avis, Porto, 1978, p. 166).

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Estrangeirismo: «flyer»

Língua provinciana ou a Lei de Skitt*

O semanário Gazeta das Caldas, que sai às sextas-feiras, traz na edição desta semana um texto crítico sobre um cartaz e um desdobrável relativos ao Mês da Música, publicados pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha e distribuídos por toda a cidade. Os erros apontados são, concedo, vergonhosos — «seia» em vez de «ceia» e «percurssão» em vez de «percussão» —, mas o texto, da autoria de Ana Elisa Sousa, não é recomendável. Começa mesmo mal: «Os cartazes e flyers a anunciar a programação para o “Mês da Música”, organizado pela Câmara Municipal e o Centro da Juventude, local onde vão ter lugar os eventos, apresenta dois erros ortográficos.» Nas Caldas não conhecem as palavras «desdobrável», «folheto» ou «prospecto», por exemplo, para o anglicismo flyer, usado, além disso, sem aspas nem itálico?
Quem quiser que lhe diga: asousa@gazetacaldas.com.


* Obrigado, Álvaro Sanromán.

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Uma palavra por dia: «chapa»

Imagem: http://www.amedisk.com/

Chapa?


«Desde que la cultura punk las pusiera de moda, las chapas se han convertido en un soporte de protesta y reafirmación. Tan sólo un aspecto ha cambiado desde entonces, y es que el diseño ya no viene impuesto desde arriba. De hecho, las empresas que se encargan de fabricarlas admiten encargos a la carta, de modo que el potencial portador se puede implicar en su diseño. Chapas decorativas, reivindicativas, con guiños al pop art… Todo está al alcance del consumidor con tal de que respete una regla: abreviar» («¿Das la chapa?», Isabel Repiso, Público, 11.10.2007). Experimentem telefonar para uma empresa de brindes portuguesa e perguntem por chapas (sim, entre as dezenas de acepções do vocábulo português, poderá estar esta). Responderão de imediato que «é engano, não está a telefonar para uma serralharia». Pin, sim. Embora, agora, com a democratização dos cartões bancários e com os telemóveis, venha mais facilmente à memória o PIN de Personal Identification Number… Claro, também são bem conhecidas em Portugal como badges — tanto assim é que o Dicionário da Academia se viu forçado a registar o termo, ignorando umas largas centenas de outros portugueses.


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Uma palavra por dia: «lacra»

Pechas hindus

«Aunque supone un paso adelante para erradicar esta costumbre, el sitio web de Naresh no aborda aún otras lacras, como la discriminación entre castas que impone el sistema jerárquico hindú. Ese será su próximo objetivo: una página en la red en la que las castas no importen» («Los hindúes eluden la dote a través de la web», Shilpi Singh, Público, 10.10.2007, p. 17). De origem desconhecida, como tantos outros vocábulos, «lacra» significa «secuela o señal de una enfermedad o achaque» e «vicio físico o moral que marca a quien lo tiene». Logo, podemos traduzi-lo, consoante o contexto, por «chaga», «pecha», «defeito», «mancha», «vício»…

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Mandarim, outra vez

Manda quem pode

Porque já aqui falei, a pedido de um leitor, da etimologia do vocábulo «mandarim», surgiu agora a oportunidade de divulgar o que escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre o mesmo assunto: «Gonçalves Viana também disse que mandarim assenta no indostano mantri. E Dalgado apresenta o sânscrito e o neo-árico mantri. (Como se sabe, o indostano tem base gramatical neo-árica). Além destes autores portugueses, poderei citar vários estrangeiros. Por exemplo, Davidson, Dauzat, etc., os quais registam o mesmo mantri. Nada nos impede, aliás, de pensar que os Portugueses, ao tomarem conhecimento das funções dos mandarins, alterassem o nome oriental destes por compreensível relacionação de tal nome com a palavra portuguesa mandar, cuja ideia se adaptava às funções» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 290).

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Aviamento: acepções

Em extinção

Há uma acepção do vocábulo «aviamento» que não é encontradiça. Trata-se da acepção «conclusão ou andamento de um negócio, de uma actividade». Eis que surge: «Mas os planos europeus [prosseguidos através dos acordos de parceira económica, como o Acordo de Cotonou] compreendem também a erradicação das bolsas de pobreza e o apoio da integração económica regional, através da harmonização dos quadros normativos nacionais e o aviamento da transformação das relativas economias, a fim de as integrar nos processos de globalização» («Acordos de Parceria Económica», Marco Cochi, revista Além-Mar de Novembro). Eu sei: o próprio termo em si, independentemente da acepção, não se encontra facilmente na imprensa. Mais um motivo para trazer para aqui este achado. Mérito do tradutor, pois o termo corresponderá certamente ao italiano avviamento: «l’avviare e il suo risultato, avvio: a. dei lavori pubblici│inizio di un’attività commerciale: a. di un locale pubblico». Na burocracia italiana, avviare una pratica é dar início a um processo.

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Uma palavra por dia: «ictus»

O ritmo da morte

«Controlar la hipertensión, no fumar, vigilar el colesterol y hacer ejercicio moderado para mejorar la condición cardiaca, son prácticas que pueden prevenir los ictus o derrames cerebrales» («Medidas para prevenir los derrames cerebrales», Público, 9.10.2007, p. 43). Ictus, pois. No contexto, não é o acento métrico, é o «cuadro morboso que se presenta de un modo súbito y violento, como producido por un golpe» (do latim ictus, golpe, pancada, e em especial o que marcava o ritmo). Também em português temos o vocábulo e a acepção médica, ambos desusados. Temos, até, palavras em que entra como elemento de formação, como «ictiúltimo»: diz-se do vocábulo que tem o acento tónico na última sílaba; agudo; oxítono. E a propósito de medicina, a Real Academia Nacional de Medicina apresenta na edição da Feira do Livro de Frankfurt (que este ano tem como convidada de honra a cultura catalã) que hoje começa o maior dicionário de terminologia médica do mundo.

«Icto, s. m. Acentuação mais forte de uma sílaba em palavra ou frase; acento tónico.│Mús. Notas muito acentuadas do primeiro e do último tempo forte de um ritmo.│Ataque mórbido que se manifesta de forma brutal.│Batimento, pulsação» (in Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva).

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Etimologia: mouco

Imagem: Fresco de Fra Angelico (c. 1450) de Prisão de Cristo.

A poesia dos verbetes

No verbete actualizado do vocábulo «mouco», o Dicionário Aulete, a respeito da etimologia, regista: «De or. obsc., talvez ligado a mocho.» Mas o verbete original afirmava: «F[ormação ou étimo]. arameu Malka (rei), através do lat. Malchus (nome de um dos soldados que prenderam Cristo e a quem S. Pedro cortou uma orelha).» Talvez por acharem demasiado fantasiosa a etimologia estabelecida até hoje, os responsáveis deste dicionário decidiram modificar o verbete. Aliás, o Dicionário Houaiss também afirma ser a etimologia de «mouco» de origem obscura, mas talvez ligada a «mocho». Lembro a história bíblica, que se pode ler no Evangelho segundo S. João, 18,10: «Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo Sacerdote [Caifás], cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco.» Nas palavras da Vulgata: «Simon ergo Petrus, habens gladium, eduxit eum et percussit pontificis servum et abscidit eius auriculam dextram. Erat autem nomen servo Malchus.» Caifás dissera ao seu servo que este era os seus ouvidos. Em hebraico, o nome do servo era Melekh (nos caracteres hebraicos, ךלמ), que significa «rei», muito comum nas línguas semitas.


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Ir para o maneta

Frase feita

A propósito do lançamento de várias obras sobre a História de Portugal, escrevia José Gabriel Viegas na revista Actual: «Deste conjunto faz igualmente parte Ir Pró Maneta, de Vasco Pulido Valente (Alêtheia). O «Maneta» é o lendário (e famigerado) Louis Henri Loison, general dos Exércitos franceses que participou nas três invasões da Guerra Peninsular. Ficou na história da saga napoleónica sobretudo pela sua total falta de escrúpulos no que tocava à apropriação em proveito próprio dos saques e impostos cobrados em zonas ocupadas e, em Portugal, pela dureza e crueldade com que tratava as populações submetidas. Traços de carácter que deram origem à expressão «ir pró maneta» e que inspiraram numerosas rimas satíricas populares, como esta: “Aos alheios cabedais/ lançava-se como seta/ namorava branca ou preta/ toda a idade lhe convinha./ Consigo três Emes tinha:/ Manhoso, Mau e Maneta.” O livro de Vasco Pulido Valente não se fica, porém, por estes aspectos anedóticos, sendo a figura de Loison o ponto de partida para um ensaio rigoroso e vivo da história das Invasões Francesas» («Regresso à História», José Gabriel Viegas, Expresso/Actual, 5.10.2007, p. 52). De facto, ir para o maneta ou mandar para o maneta passou a significar «escangalhar-se; estragar-se; perder-se (no sentido de não ter recuperação)», conforme pode ler-se no Dicionário de Expressões Populares Portuguesas, de Guilherme Augusto Simões (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993, p. 376). Orlando Neves, no Dicionário de Expressões Correntes (Círculo de Leitores, Lisboa, 2000, pp. 270-71), cita não apenas estes, mas também outros versos.

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Carácter, caracteres

Vejamos


      Recentemente, Ricardo Nobre, no Livro de Estilo, abordava o equívoco à volta do vocábulo «carácter». E escrevia: «A acentuação deve-se à passagem do grego χαρακτήρ, ‘sinal, marca; traço característico, carácter; sinal’ para o latim charācter, onde a palavra ganha o acento que toma em português: no caso, grave por a penúltima sílaba ser longa.» Também o Prof. Vasco Botelho de Amaral escreveu acerca desta questão: «Carácter tinha em latim (e já o tinha no grego) o e longo (charactēr, charactērem, charactēres). Pelo acusativo singular latino, o português antigo era character*, com acento tónico no e. Mas o povo português passou a proferir carácter, mudando o acento, como mudou em muitos outros casos. Oceano era océano, ídolo era idolo, amor era ámor, se ainda falássemos à latina» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 83).
      «Caracter», como ouço paginadores e gráficos dizerem, e o Livro de Estilo do Público regista, está incorrecto? O Dicionário Houaiss também regista as formas caracter e caractere, não indo mais longe do que isto: «forma menos correcta». D’ Silvas Filho, que numa resposta a uma consulta em 2000 rejeitava liminarmente a forma «caracter» (ou «caractere», como prefere), noutra resposta, em 2005, já afirmava: «Neste caso concreto, penso que não posso condenar o hábito que tem havido de distinguir cará(c)ter e cara(c)tere, pois, para mim, não traz mal à língua. Pelo contrário: foi uma forma que o falante teve de construir novo significante especificamente para um dos conceitos particulares do termo cará(c)ter, reduzindo a sua relativa polissemia, que já vem do grego. Aceitemos que nos nossos dias cará(c)ter está sobretudo ligado ao sentido de conjunto de traços cara(c)terísticos.» Em francês, curiosamente, foi sob a forma karactere que o vocábulo surgiu em 1274. Jorge Wemans, que foi provedor do leitor do Público entre Fevereiro de 1997 e Março de 1998, escreveu, em resposta à crítica de um leitor: «Em síntese, simplificando e sem fundamentar excessivamente a nossa opção, o PÚBLICO aceita que: 1. “caracter” não existe; 2. “caractere” é uma forma correcta de grafar o substantivo que designa “qualquer dígito numérico, letra do alfabeto ou um símbolo especial”; 3. “carácter” é uma forma correcta de grafar o substantivo que designa o anterior ou a índole das pessoas; 4. Os dois substantivos referidos em 2. e 3. grafam-se no plural do mesmo modo: “caracteres”» («Erros, siglas e carácter», Jorge Wemans. Ver aqui).
Sou de opinião que só deve haver uma forma: carácter (com o plural em caracteres). Afinal, já em grego o vocábulo era polissémico. Mas tenho muito tempo e estudo pela frente para mudar de opinião.

* Acrescento meu: Só com a reforma ortográfica de Gonçalves Viana, em 1911, se procedeu à «proscrição absoluta e incondicional de todos os símbolos da etimologia grega: th, ph, ch (= k), rh e y».


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Verbo «haber», impessoal

Impessoal e espanhol

No recomendável La Peña Lingüística, o linguista peruano Miguel Rodríguez Mondoñedo, professor de Sintaxe Espanhola na Universidade de Indiana, escrevia recentemente sobre a impessoalidade — sim, também no espanhol — do verbo haber: «Como ya habíamos comentado anteriormente, la pluralización del verbo haber en oraciones existenciales, aunque presente a lo largo y ancho del español al menos desde el siglo XIV, ha echado sólidas raíces en tierras peruanas, donde alcanza diferentes estratos sociales y situaciones comunicativas. Precisamente, ayer, la Ministra de Trabajo, Susana Pinilla, nos ha proporcionado no uno sino dos claros ejemplos de lo extendido que está ese uso en el Perú: “No obstante, Pinilla reiteró que sus declaraciones fueron malinterpretadas y que jamás lanzó ese adjetivo contra la CGTP. ‘Yo nunca dije que habían traidores a la patria, lo que yo dije (…) es que me extrañaba que hubiesen personas que se consideraban peruanos que traicionaran los valores de la patria vinculados a la inversión, etc., pero no mencioné ni nombres ni centrales ni nada, fue una acotación en términos generales, ni tampoco mencioné traidores a la patria’, expresó” (Peru.com. 9 de Agosto del 2007)» («Habían, hubiesen», Miguel Rodríguez Mondoñedo, 12.9.2007).
Lê-se no Diccionario Panhispánico de Dudas:

«4. Verbo impersonal. Además de su empleo como auxiliar, el otro uso fundamental de haber es denotar la presencia o existencia de lo designado por el sustantivo que lo acompaña y que va normalmente pospuesto al verbo: Hay alguien esperándote; Había un taxi en la puerta; Mañana no habrá función; Hubo un serio problema. Como se ve en el primer ejemplo, en este uso, la tercera persona del singular del presente de indicativo adopta la forma especial hay. Esta construcción es heredera de la existente en latín tardío «habere (siempre en tercera persona del singular) + nombre singular o plural en acusativo». Así pues, etimológicamente, esta construcción carece de sujeto; es, por tanto, impersonal y, en consecuencia, el sustantivo pospuesto desempeña la función de complemento directo. Prueba de su condición de complemento directo es que puede ser sustituido por los pronombres de acusativo lo(s), la(s): Hubo un problema > Lo hubo; No habrá función > No la habrá. Puesto que el sustantivo que aparece en estas construcciones es el complemento directo, el hecho de que dicho sustantivo sea plural no supone que el verbo haya de ir también en plural, ya que la concordancia con el verbo la determina el sujeto, no el complemento directo. Por consiguiente, en estos casos, lo más apropiado es que el verbo permanezca en singular, y así sucede en el uso culto mayoritario, especialmente en la lengua escrita, tanto en España como en América: «Había muchos libros en aquella casa» (Ocampo Cornelia [Arg. 1988]); «Había unos muchachos correteando» (VLlosa Tía [Perú 1977]); «Hubo varios heridos graves» (Valladares Esperanza [Cuba 1985]); «Habrá muchos muertos» (Chao Altos [Méx. 1991]). La misma inmovilidad en singular del verbo conjugado debe producirse en el caso de que haber forme parte de una perífrasis con poder, soler, deber, ir a, etc.: «En torno de una estrella como el Sol puede haber varios planetas» (Claro Sombra [Chile 1995]); «En esta causa va a haber muchos puntos oscuros» (MtzMediero Bragas [Esp. 1982]). No obstante, la excepcionalidad que supone la existencia de un verbo impersonal transitivo, sumado al influjo de otros verbos que comparten con haber su significado «existencial», como estar, existir, ocurrir, todos ellos verbos personales con sujeto, explica que muchos hablantes interpreten erróneamente el sustantivo que aparece pospuesto al verbo haber como su sujeto y, consecuentemente, pongan el verbo en tercera persona del plural cuando dicho sustantivo es plural: *«Hubieron muchos factores que se opusieron a la realización del proyecto» (Expreso [Perú] 22.4.90); *«Entre ellos habían dos niñas embarazadas» (Caretas [Perú] 1.8.96); incluso se ha llegado al extremo de generar una forma de plural *hayn para el presente de indicativo, con el fin de establecer la oposición singular/plural también en este tiempo: *«En el centro también hayn cafés» (Medina Cosas [Méx. 1990]). Paralelamente, se comete también el error de pluralizar el verbo conjugado cuando haber forma parte de una perífrasis: *«Dice el ministro que van a haber reuniones con diferentes cancilleres» (Universal [Ven.] 6.11.96). Aunque es uso muy extendido en el habla informal de muchos países de América y se da también en España, especialmente entre hablantes catalanes, se debe seguir utilizando este verbo como impersonal en la lengua culta formal, de acuerdo con el uso mayoritario entre los escritores de prestigio.»

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Léxico: genicró

«The Jim Crow in position and ready to tackle another kinky bit.» ©

Força!


      Um leitor, Luís C. Martins, pergunta-me — porque viu que dediquei já alguma atenção ao vocabulário ferroviário — que nome tem em português o equipamento que em inglês se designa por rail straightener. Primeiro, devo explicar em que consiste. É um equipamento usado nos caminhos-de-ferro para corrigir pequenos desalinhamentos da via. Na gíria inglesa, tem também o nome de Jim Crow. Ora, tanto quanto sei, em português só este nome da gíria foi aportuguesado: genicró, dizia-se na Mina de S. Domingos. Nasceu aqui, não nos esqueçamos, a primeira linha de caminho-de-ferro portuguesa.

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«Chapelinho», outra vez

Agora sim

      Estão lembrados da questão, em parte insensata, sobre se existe o vocábulo «chapelinho»? Pois agora, numa obra de Vasco Botelho de Amaral, e a propósito de reparos prosódicos entre o Norte e o Sul, leio isto: «Todavia, o e tónico aberto nem sempre consegue manter, mesmo no Norte, a abertura do primitivo: papelpapelinho na boca dos próprios nortenhos; chapéu faz chapelinho (com a vogal muda). Nunca papèlinho nem chapèlinho. E também se emudecem derivados como: mala, malinha (não màlinha), etc.» (in Estudos de Apoio ao Português, Livraria Avis, Porto, 1978, p. 49).
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Verbo haver

Para a outra vez     

      Num texto datado de 21 de Maio do ano passado, publiquei aqui um texto em que, mais uma vez, chamava a atenção para o uso do verbo haver. Calhou ter sido Jerónimo de Sousa a dizer o disparate: «E se dúvidas houvessem […].» A 30 de Setembro deste ano, um leitor, Pedro Abreu, não ficou, e tem direito a isso, convencido: «Escrevo para pedir que esclareça o erro. Eu não o encontro.» Via-se, e disse-lho numa mensagem de correio electrónico que lhe enviei, que não seria certamente meu leitor, pois eu já tinha referido várias (seis?) vezes o erro. Digo-lhe agora que, antes de me ter deixado o comentário, deveria ter consultado uma gramática. Para consolo deste leitor, devo dizer-lhe que também Camilo escorregou.

«Verbo impessoal pluralizado. A respeito da tendência para a pluralização do verbo impessoal haver, escrevi no Dicionário de Dificuldades:Haver. Este verbo pode empregar-se como auxiliar e com o significado de ter. Neste caso conjuga-se em todas as pessoas: haviam dito, isto é, tinham dito, houveram por bem determinar, etc. Todavia, como verbo principal, a significar existir, é impessoal, quer dizer, só se usa correctamente na terceira pessoa do singular, ainda que o nome seguinte esteja no plural. Posto que o escritor Camilo Castelo Branco haja empregado o verbo erroneamente (‘haviam lágrimas’, etc.), não se deve seguir semelhante prática… “Houveram homens”, etc., em vez de “houve homens”, etc. Evidentemente, semelhante solecismo deve por todos ser combatido… Note-se igualmente que vão também para o singular os verbos que antecedem haver, tais como deixar, dever, começar, poder: deixa de haver festas, e não deixam de haver festas; deve haver boas-vontades, e não devem haver; começa a haver descontentes, mas não começam a haver descontentes; pode haver excepções, e não podem haver excepções”» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 574).

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Silabadas

A propósito

Num livro, depara-se-me o nome Vercingetórix, e logo me lembro de ter lido em Vasco Botelho de Amaral alguma nota sobre ele. Cá está: «Lembrarei agora um caso de interesse para o português, este de tonicidade latino-gaulesa.
Quando a gente do meu tempo aprendia História, dizia Vercingetorix, Vercingetorĭgis. Mas que grande silabada a gente dava, sem querer, ao proferir assim o nome do grande chefe dos Gauleses contra César!
Ernout e Meillet e Walde e outros sábios ensinam, a quem os consultar, que o elemento -rīx, rīgis* de tal nome é de proveniência gaulesa, correspondendo ao latim rēx, rēgis (rei) e o ī é longo. Vercingetorīx, Vercingetorīgis.
Portanto, a nossa melhor pronúncia, tirada canonicamente do acusativo latino, será Vercingetorige, e não Vercingetórix (aliás, bem tirada do nominativo).
Enfim, lá tinha suas razões o grande Camilo, quando dizia, num dos seus momentos de azedume, — a boa da História é uma trapalhona, sem se importar com a célebre afirmação — História, mestra da Vida» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, p. 534).


* Acrescento meu: A presença deste sufixo — que tem ligações com o gótico reiks, «chefe», e com os nomes próprios germânicos em -rik (e esta mutação consonântica de g para k temo-la na passagem do latino Caesar para o gótico kaisar, que o alemão manteve em Kaiser), por exemplo, Teodorico — na antroponímia e teonímia gaulesa é esmagadora: Adgennorix, Aduorix, Ainorix, Bellorix, Biorix, Cingetorix, Comartiorix, Dagorix, Docirix, Elvorix, Epadextorix, Fabiarix, Gaesorix, Gargorix, Iovigcorix, Iverix, Lugurix, Magiorix, Orgetorix, Roxtanorix, Samorix, Solirx, Tancorix, Tontorix, Ulidorix, Vindiorix... Poucos eram reis, é claro.

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Pleonasmos

Vai indo

Recentemente, o crítico António Guerreiro, no Expresso/Actual («Contos, romances e equívocos», 9.06.2007, pp. 48-49), espantava-se com «a recepção complacente, o elogio unânime, com que o último romance [Combateremos a Sombra] de Lídia Jorge foi acolhido». E explicava porquê. Entre os muitos erros que apontava nesta obra, encontrava-se este: «E como não sentir que o pleonasmo de “Ao subir a Avenida de Santa Pulquéria acima” (pág. 19) parece quase um deslize ingénuo?» Erro é uma maneira de dizer: um pleonasmo é mais um defeito de linguagem. Nem sempre condenável: «Em todos os idiomas os reforços, os empregos sucessivos de palavras tradutoras de ideias afins, idênticas, semelhantes ou até iguais ocorrem com a maior frequência.
Por exemplo: toda a gente diz — vai indo. Vai indo é uma repetição do mesmo verbo — ir. E, no entanto, não é incoerente, linguisticamente.
O mesmo direi quanto a vir vindo:
“Ora, pois, primo Baltasar, parece-me que são horas de vir vindo o jantar.” (Camilo, O Santo da Montanha, III).
Escuso de repetir inúmeras expressões fixas, como viver vida, cavalgar (em) cavalo, etc., pois já no Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, no artigo sobre Pleonasmos, deixei referidas essas e tantas outras expressões de legítimas redundâncias.
Como nesse trabalho citei em Herculano cavalgar em cavalo, vem agora a propósito documentar com estoutro exemplo, para mostrar que, além de cavalgar em cavalo, também se pode dizer transitivamente cavalgar cavalo:
Cavalgava um cavalo raudão.”
Assim leio eu, e toda a gente pode ler em O Monge de Cister, de Herculano.
Note-se esta redacção de Camilo, que escreveu muitíssimo bem, quando afirmou em O Santo da Montanha:
“…consumada a façanha, saiu a mãe a coroá-lo com uma coroa de louro.”
Coroar com coroa está mal? Engana-se redondamente quem acoimar de errónea tal expressão.
Convém, por outro lado, não deixar de ver que a redundância pode ocorrer não só com repetições de temas ou de palavras da mesma família, mas também com repetições de ideias, em virtude da precisão do reforço ou ênfase.
Aqui há tempos um ardina, ao ver o companheiro com umas calças que lhe davam um pouco abaixo da canela, disse-lhe para o arreliar:
— Vê lá se cais das calças abaixo.
Cair abaixo. Está mal?
Faça-se o exercício de tirar o abaixo nesta frase natural e ver-se-á que o poder descritivo da graça do rapaz perde 50 % do valor.
No entanto, há zelotes que imaginam ilógicas pela redundância expressões como cair abaixo, subir acima, etc., as quais já tive ocasião de defender e elogiar.
Há muita maneira de dizer que por vezes se julga um tremendo ilogismo, e, no entanto, bem analisada, vem a mostrar-se perfeitamente racional.
Quando se não adquire pelo estudo constante o domínio do idioma, quando se não compreendem as realidades da vida de linguagem com visão curada de miopias lógicas vem a fatalidade de se cair em fantasias de correcção, tão perigosas como as leviandades de indisciplina» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 432-434).

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O som erre

Assim se fala

      Queria recuperar um texto, para o qual, a seu tempo, chamou a atenção o blogue Debuxos, do início de 2006, que julgo ser uma boa análise e não merecer ficar sepultado no pó do tempo.

      «Manuel Alegre, Mário Soares, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã têm outra coisa em comum, além do facto de serem de esquerda. Algo de muito sonoro os distingue de Aníbal Cavaco Silva. Trata-se do som da letra “r” em início de palavra (“revolução”), com grafia dupla no interior de um vocábulo (“terra”) ou em sequências como “honra” e “guelra”. O ponto de articulação do “r” dos candidatos de esquerda é apical: a ponta da língua rola contra o palato duro, um pouco atrás daquilo a que Homero chamou “a barreira dos dentes”. No caso de Cavaco Silva, o “r” é articulado na garganta: é o som gutural de quem anuncia a intenção de escarrar. Entrou na nossa fonética por via do estrangeirismo: primeiro conquistou a classe alta por ser o “r” francês; a pouco e pouco, a classe média foi imitando; por fim, contaminou a classe proletária por ser o “r” das telenovelas brasileiras. Hoje, o “r” de Cavaco Silva é o mais ouvido no nosso país. Apesar do apreço que o Prof. Cavaco me merece, é pena. Pois não há a menor dúvida de que o “r” dos candidatos de esquerda é o verdadeiro “r” de Portugal. É o mesmo “r” do castelhano (e do italiano, já agora). Em Espanha, as pessoas que emitem o “r” gutural (por defeito de fala ou afectação) tornam-se ridículas. No som da letra “r”, que os nossos vizinhos hispânicos rolam extravagantemente, ouvimos todo o seu orgulho em serem espanhóis; ao passo que nós, tristes portugueses, fomos caindo na snobeira auto-amarfanhante de pensarmos que o “r” francês e brasileiro é mais urbano do que o atávico “r” ibérico, que soa rústico a ouvidos arrivistas. No filme de João César Monteiro sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, dá-se um fenómeno curioso. A voz de Sophia tinha compreensivelmente todos os tiques de prosódia e articulação fonética da classe social a que pertencia. No filme, quando ela fala em registo informal, articula o “r” francês, próprio de uma senhora bem que não quer empregar o mesmo “r” das criadas. No entanto, quando Sophia declama os seus poemas, o “r” gutural de Cavaco Silva é cuidadosamente substituído pelo “r” apical de Manuel Alegre. O que terá levado Sophia a mudar de “r” conforme assumia uma das suas duas personagens, a senhora fina e a poetisa? Só pode ter sido a consciência de que, apesar de menos chique, o “r” apical é intrinsecamente mais eufónico e mais português do que o “r” gutural. Realidade que todos os cantores de fado sabem. E muitos actores. Mas até no teatro o “r” português está em vias de extinção. Na famosa encenação de Ricardo Pais da Castro de António Ferreira, a interpretação de Maria de Medeiros dividiu opiniões. As críticas foram injustas, pois a Maria recriou uma Inês de Castro deslumbrante. Mas dei razão a Cremilde Rosado Fernandes, que, com os seus ouvidos infalíveis de cravista, me disse “que pena a Maria de Medeiros ter aqueles horríveis ‘r’s guturais”. O efeito normalizador da televisão vai levar, mais cedo ou mais tarde, a que o autêntico “r” português (o “r” de Gil Vicente, Camões e Camilo) desapareça para sempre. Duvido que haja menores de vinte anos que o pronunciem ainda. O “r” hediondo do arrivismo vai vencer. Agradeço, portanto, a portugueses tão diferentes como Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Silva Melo, Manuel Maria Carrilho, Luís Miguel Cintra e muito especialmente aos quatro candidatos presidenciais de esquerda o facto de manterem ainda viva a pronúncia castiça do “r”, que é, juntamente com o marulhar das ondas e o dedilhar da guitarra portuguesa, aquele som que dá verdade a Portugal» («O som de Portugal», Frederico Lourenço, Público, 7.1.2006, p. 14).


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Uma palavra por dia: «abroncar»

Grande bronca!

«Mientras tanto, en París, una atmósfera de plomo reinaba en las filas de su mayoría parlamentaria: el jefe del Elíseo ha echado la bronca a diputados y senadores que empezaban a mostrarse levantiscos» («Sarkozy abronca a sus diputados para que aceleren las reformas», Andrés Pérez, Público, 5.10.2007, p. 14). Abroncar: repreender asperamente (de bronca, e este do latim vulgar *brŭncus, e este, por sua vez, cruzamento de broccus, objecto pontiagudo, e trŭncus, tronco). É o puxão de orelhas de que falava ontem o Libération: «A l’Elysée, hier, Sarkozy a sermonné députés et sénateurs, tout en abordant les sujets qui fâchent» («Les oreilles chauffent chez les élus UMP», Alain Auffray e Nathalie Raulin, Libération, 4.10.2007, p. 6). Ah, sim: levantisco, de levantar, no sentido de amotinar, é o que tem génio inquieto e turbulento.

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Uma palavra por dia: «facultativo»

Faculta-me aí um dicionário

«El cupo recomendado de tarjetas sanitarias por facultativo es de 1.200 y se está asumiendo una media de 2.000 pacientes» («España necesita 25.000 médicos de familia más», V. Pi/A. González, Público, 4.10.2007, p. 2). O facultativo é, entre outras acepções do vocábulo, a «persona titulada en medicina y que ejerce como tal». Também o catalão regista a mesma acepção. «Facultatiu («1803; formació culta analògica sobre la base del ll. facultatus, -a, -um, participi de facultare), m i f. esp Metge.» Especialmente médico. Também em português temos a acepção. Quando os jornalistas a descobrirem, já podem variar — como agora gostam de fazer com a dupla advogado/causídico — o léxico. Um leitor que se encontra aqui ao meu lado acaba de dizer: «Percebi tudo, menos aquele “cupo”!» Paciência, leia-me amanhã. Vá lá, uma vez sem exemplo: cupo vem do verbo caber e significa parte proporcional, quota-parte. No contexto, é o número de pacientes que deveria caber a cada médico.

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Léxico: geosmina

Porque é que cheira a terra, papá?

      Agora, quando o leitor passear com o seu filho num jardim acabado de regar ou depois de ter chovido, já pode ensinar à criança que o cheiro característico a terra molhada se designa por geosmina, cujo étimo, grego, significa precisamente «aroma da terra». É, com mais rigor, uma substância bacteriana, volátil, produzida pela Streptomyces coelicolor e por algumas cianobactérias.


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Uma palavra por dia: «párvulo»

De párvulo se torce…

«El hombre, un párvulo de cuatro años en un colegio de Salas de los Infantes (Burgos) en 1975, sufrió distintas enfermedades que derivaron en epilepsia y una minusvalía del 65%. La Junta ha sido condenada a indemnizarle con 313.900 euros más intereses porque el Supremo la considera heredera del organismo encargado de la vacunación antivariólica en aquel momento» («Condena por una vacuna mal puesta», Público, 3.10.2007, p. 30). Párvulo, adjectivo aqui usado como substantivo (do latim parvŭlus, diminutivo de parvus, pequeno), é uma criança de tenra idade. Também o português tem este vocábulo, que não usamos. Entre nós, abundam mais os parvos.

«Párvulo, adj. (do lat. parvulu-). Pequenino.│Ant. Parvo, idiota. │S. m. Criança» (in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).

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Gerúndio no Brasil

Estou vendo

«El gobernador de Brasilia, José Roberto Arruda, ha prohibido el uso del gerundio en comunicados oficiales. Así los funcionarios regionales deben evitar expresiones como “estamos planificando”, “estamos preparando” o “estamos estudiando”, que, según portavoces del gobernador, son usadas como excusas para esconder la ineficacia. “Quien usa el gerúndio quiere confundir”, dijo» («Prohíben el gerundio en comunicados», Público, 3.10.2007, p. 15).



[Actualização. Soube agora mesmo que Fernando Alves, nos seus «Sinais», falou hoje do decreto do governador Arruda. Ouça
aqui.]

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