Ortografia: «belas-artes»


Belas-Artes e malas-artes


      «A Faculdade de Belas Artes e o El Corte Inglés têm o prazer e a honra de convidar V. Exa. para: Apresentação do Livro de Actas do 1.º Ciclo de Conferências de “Ciências da Arte”: “As Artes Visuais e as Outras Artes — As Primeiras Vanguardas.”» Espera lá, mas não era a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, como se vê na frente do convite e mesmo no verso? Onde está o hífen? É irritante ver quase sempre sem hífen esta palavra composta. Até podem ser professores universitários a escrever, «Belas-Artes» e «tão-só» para ali ficam desligados e sós. Tão sós…
      A Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa respeita a ortografia; a Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, não.

edit

Léxico: feérico

Obrigadinho!

Na Edição da Noite da Sic Notícias de ontem, estava um especialista em trânsito a falar sobre o túnel do Marquês de Pombal. Como não vi tudo, não sei o nome dele, mas será decerto professor universitário. Era um dos que estão contra a forma como o túnel foi feito, e nem precisava de proferir a palavra «porcaria» para qualificar a obra para o percebermos. Em rigor, ele disse que à superfície tinha ficado uma «porcaria», «desagradável, feérico mesmo». Isto faz-me lembrar um sobrinho meu. Quando era mais pequeno, eu dizia-lhe, a brincar: «És mau.» Respondia-me ele: «Mau és tu.» «És porco», continuava eu. «Porco és tu.» No fim, eu dizia-lhe: «És muito esperto.» E ele: «Esperto és tu!» «Feérico», senhor especialista em trânsito, significa «pertencente ao mundo da fantasia, mágico, fantástico». Enfim, nada de negativo com que possa qualificar o que antes reputou uma «porcaria». O adjectivo «feérico» vem directamente do francês féerique: «Qui a trait au monde des fées; magnifique, merveilleux.»

edit

Apostila ao Ciberdúvidas: goitar

E perde si libru na skola.

Um estudante de Cabo Verde, Luís Cândido Conceição, que afirmava consultar frequentemente o site do Ciberdúvidas e ser a primeira vez que fazia uma pergunta, quis saber o significado do verbo «goitar», que encontrou na MorDebe. O consultor, Carlos Rocha, respondeu: «Não compreendo por que razão regista a Mordebe o verbo “goitar”, que não encontro atestado em nenhum dicionário. Esta forma existe, sim, em catalão, mas como variante de aguaitar, que significa “vigiar”.» Bem, eu também não sei porque é que a MorDebe incluiu esta palavra e não outras — mas percebo porque incluiu esta. (Leia outra vez a frase, para lhe apanhar o sentido.) Ela existe! No Brasil, os tropeiros, que é o nome dado aos condutores de tropas, na acepção de bois, cavalos e mulas, entre outros animais, tinham um léxico próprio. Um dos vocábulos desse léxico é o verbo «goitar»: lutar entre amigos, empurrar e segurar na brincadeira. Ninguém deve ignorar a importância dos tropeiros na cultura brasileira, que felizmente têm um museu, o Museu do Tropeiro, em Itabira, Minas Gerais. Aliás, o universo de falantes faz-me lembrar o do calão minderico (a piação dos charales do Ninhou), que começou por ser usado no início do século XVIII por cardadores e negociantes de lã naturais de Minde.

edit

Ortografia: microestado

Imagem: http://www.amx.com.br/


Fale com ele


      Cara Luísa Pinto: se admira assim tanto o autor do blogue que refere, diga-lhe que se escreve «microestados» e não «micros estados». A regra de formação de palavras com prefixos como micro estipula que, quando o segundo elemento começa por r ou s, estas consoantes se duplicam, não se usando então o hífen. Quando o segundo elemento começa por vogal, como é o caso, também não se usa hífen: microampere, microaspersor, microescala, microestado, microestrutura, microinjecção, microondas, microrganismo, microsfera… Também o Acordo Ortográfico de 1990, ainda não ratificado, refere explicitamente a regra do uso do hífen em compostos em que entra este prefixo, consignando que se usa nas formações em que o segundo elemento começa por h, nas formações em que o prefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento (micro-onda) e ainda nas formações em que o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, devendo estas consoantes duplicar-se, prática aliás já generalizada em palavras deste tipo pertencentes aos domínios científico e técnico: microssistema, microrradiografia. Logo, contrario sensu, só se usará o hífen com vogal se esta for um o. Assim, mesmo perante o novo Acordo Ortográfico, deverá escrever-se «microestado». Claro, já reparei: o autor não usou sequer hífen, separou as palavras, como se se pudesse escrever assim. Micros, assim solto como palavra autónoma, só na redução da palavra «microfone(s)» ou «microcomputador(es)», por exemplo.

edit

Neologismo: cibergrama

Boa ideia, mas…

Finalmente, alguém propõe um neologismo sério — cibergrama — para designar essa palavra omnipresente nas nossas vidas hodiernas: email. Na verdade, e só o digo porque me apetece, refiro-o porque há tempos uma leitora reincidente deste blogue me desancou por eu ter usado a nefanda palavra. Como revisor, proponho sempre «correio electrónico», excepto se o uso da editora ou publicação for outro. Pessoalmente, prefiro, por ser mais curto, e referindo-me ao conteúdo, «mensagem». Quem propôs o neologismo, como se pode ver no Ciberdúvidas, foi o tradutor Armando Gonçalves: «Se a uma mensagem escrita enviada por vai aérea se chama aerograma (quem não se lembra da sua grande utilização na altura da guerra colonial?), se a uma mensagem escrita enviada por via telegráfica se chama telegrama, não se poderia chamar «cibergrama» a uma mensagem escrita enviada pelo ciberespaço? Por que razão não somos capazes de sair do e-mail? Onde param os terminólogos institucionais da língua portuguesa? Onde anda a criatividade que mantém as línguas vivas?» Insisto: é um neologismo sério o que se propõe. Mas seria acolhido pelos falantes? Também Aquilino Ribeiro queria que se substituísse foot-ball por «pedibola», e veja-se o que aconteceu. Logo em 1946, escrevia Vasco Botelho de Amaral na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa: «Por exemplo, ficaria cómico transformar o football em bolapé ou pedibola ou furtabolas? Hoje, claro que sim. O remédio, hoje, só está na adaptação futebol

edit

A nossa publicidade

Esquentamentos

Acabou de me chegar à caixa de correio um folheto publicitário que quero partilhar com os meus leitores. «Rodrigues & Filhos. Canalizadores, esquentadores, eléctricistas. Serviço 24 horas». Não é genial? À frente de cada palavra, está uma imagem: uma sanita, um esquentador, uma lâmpada, respectivamente. Sendo ao domicílio, imagino o que farão aqueles esquentadores. O folheto não refere se a empresa dispõe também de esquentadoras. Talvez não disponham delas no Verão, que se aproxima avassaladoramente. Resta-nos esperar ou mudar de orientação.

edit

Pobreza lexical

Lê por mim

No Dia Mundial do Livro, não sei se na TSF se na Antena 1, deu-se, mais uma vez, voz aos ouvintes. Livros marcantes nas suas vidas. Uma ouvinte conseguiu falar, referindo-se de forma vaga a uma obra, de um tema completamente diferente: o aborto. Ao longo da participação, percebeu-se que este sim era o seu tema de eleição, que a tocava de perto, e que só então falava dele porque perdera ou desconhecia a existência de fóruns para falar de tudo e mais alguma coisa. É esse o ponto que quero tocar: desconhecer. A determinada altura do monólogo, afirmou «ter desconhecimento» de certo facto. Isso mesmo: «ter desconhecimento». A pobreza lexical de alguém que diz ler e participa num programa de rádio a propósito do Dia Mundial do Livro, ainda que só como pretexto para falar de algo diferente, é confrangedora. Fez-me lembrar Felipa Garnel e a forma como, na sua cómoda posição de jurado de um concurso, classificava a participação (ou a «prestação», como agora se diz) dos concorrentes: «fantástico» e «não fantástico».

Palavra desusada do dia: Ignotícia f. Desconhecimento de notícia; ignorância de alguma coisa.

edit

Tradução: «garrigue»

Imagem: http://www.cm-coimbra.pt/

Já basta o maquis

Esta era a frase do original: «Les précipitations (entre 300 et 1000 mm/an) irriguent les paysages secs et touffus de garrigue et de maquis: chênes verts, boissons, bruyère…» O tradutor verteu da seguinte forma: «As precipitações (entre 300 e 1000 mm/ano) regam as paisagens secas e cerradas de garrigue e de maquis: castanheiros verdes, arbustos, urze…» Sim, é verdade, não faltam documentos em língua portuguesa nos quais se usa o francesismo garrigue — mas será necessário por intraduzível? Vejamos primeiro do que se trata. Garrigue: «Association buissonnante discontinue des plateaux calcaires méditerranéens résultant d’une régression de la forêt sous l’influence du feu ou du pâturage intensif» (in TLFI). Como provém do latim medieval garrica (com a variante garriga), podia ser que tivesse vindo a enriquecer o léxico do português, mas não. No catalão sim, há o termo correspondente: garriga: «Comunitat vegetal constituïda per plantes de fulla endurida i persistent, entre les quals predomina el garric» (in Gran Diccionari de la llengua catalana en línia). E o que é o garric, perguntamos nós? Pois é, segundo o mesmo dicionário, o «arbust perennifoli de la família de les fagàcies, de fulles coriàcies, lluents i espinoses, i fruit en gla, que es fa a la regió mediterrània, sovint formant extenses garrigues (Quercus coccifera)». Ora, se o nome comum da Quercus coccifera (frequente nos arredores de Lisboa) é carrasco, carrasqueiro ou carrasqueira, segue-se que carrascal traduzirá bem, salvo melhor opinião, o vocábulo garrigue.

edit

«No fim de contas»

A quem interesse

Já se vinha lendo «a final de contas», e estava mal, é claro. Ultimamente, a coisa agravou-se, pois são já muitos os tradutores que escrevem «no final das contas» (como também escrevem que «Fulano vive às custas de Sicrano», mas esse é outro erro crasso de que já aqui falei). Um híbrido inculto de «no fim de contas» com «afinal de contas», ambas correctas. Uso que denota poucas leituras e escassa reflexão sobre a língua, matéria de que vivem, como eu, pelo que não podem replicar com a afirmação de Einstein: «Todos somos muito ignorantes. O que acontece é que nem todos ignoramos as mesmas coisas.»

edit

Léxico: getas

Imagem: http://www.city.minoh.osaka.jp/

Tamancos nipónicos

Cara Fernanda Simões, o calçado que algumas japonesas ainda usam, uma espécie de tamancos muito típicos, composto por uma tabuinha horizontal pousando sobre duas outras verticais, como a imagem mostra, tem o nome — registado nos nossos dicionários, sim — de getas. Encontra-se registado também no meu pequeno (mas em crescimento) glossário de palavras com étimo japonês. Ver aqui.

edit

Léxico: Cítia

Estado de cítio

«El más antigo de este libro, una bolsa del siglo V procedente de Escitia, está un poco ajado por el uso.» Como se traduz esta frase? Depende, não é? Se for um tradutor ignorante, poderá ser, como eu vi, deste modo: «A mais antiga deste livro, uma mala do século V, proveniente da Escitia, está um pouco desgastada pelo uso.» Sei de uma professora que recitava de cor (o francês, pelo menos para quem não tem umas tinturas de latim, mostra melhor donde isto provém: par cœur) aos filhos, para os embalar, boa parte d’Os Lusíadas. Se fosse tradutora, lembrar-se-ia certamente da estrofe do Canto VII que diz:

Aquelas invenções, feras e novas,
De instrumentos mortais da artelharia
Já devem de fazer as duras provas
Nos muros de Bizâncio e de Turquia.
Fazei que torne lá às silvestres covas
Dos Cáspios montes e da Cítia fria
A Turca geração, que multiplica
Na polícia da vossa Europa rica.

A Cítia (Scythia em latim) era uma região na Eurásia, entre os Balcãs e o Volga, o mar Cáspio e os montes do Cáucaso, incluindo a Crimeia, habitada na Antiguidade por um grupo de povos iranianos nómadas conhecidos por Citas (feminino: citissa) ou Cítios, e por outros povos a eles submetidos, como os Alanos, os Dácios, os Getas (na margem direita do Danúbio), os Roxolanos (que viviam entre a foz do Borístenes e a do Tánais), os Tauros (habitantes da Táurida, actual Crimeia), etc. Foi para a Cítia, segundo rezam as crónicas, que Santo André foi destinado a pregar.
A partir do espanhol, nem sequer uma vez vi este topónimo bem traduzido. O que parece ser uma fatalidade, mas é somente um indício de algo mais grave: há muita gente incompetente a intitular-se tradutor. Sim, ganhem a vida, mas estudem, trabalhem, esforcem-se. Não se envergonhem de usar os dicionários!

edit

Tradução: «duelo»

A lástima dos tradutores

Entre os vários milhões de tradutores do espanhol, alguns são, digamo-lo sem rodeios, completamente obtusos. Vejamos este caso: «Se utilizaban armazones de acero para los bolsos de duelo, y los macizos e intrincados de plata fundida iban suspendidos de unas chatelaines de la cintura de las damas.» Sem pensar nem olhar para a imagem que ilustrava o texto, mais do que explícita, o tradutor verteu: «Nas malas de duelo eram utilizadas armações de aço, e os maciços e intrincados de prata fundida estavam suspensos numas chatelaines da cintura das damas.» E a imagem mostrava várias malas de senhora de cor preta. Historicamente, é claro, expressou-se o luto de formas diferentes e com cores diferentes. Entre a sociedade vitoriana, por exemplo, considerava-se que o luto devia ser mantido durante três anos, expressando-o com as cores preta, violeta e azul. É claro que aqui duelo não é o «combate o pelea entre dos, a consecuencia de un reto o desafio», mas claramente outro duelo: «demostraciones que se hacen para manifestar el sentimiento que se tiene por la muerte de alguien». Em espanhol são vocábulos convergentes, mas o contexto é claríssimo, o tradutor apenas tinha de estar atento. Na primeira acepção, duelo vem do baixo latim duellum; no segundo, vem do latim dŏlus.


edit

Tradução: «limon»

Dinossauro al limón

Quando refiro estes casos de tradução, nunca quero (ou quero? já me esqueci) ensinar como se deve traduzir, mas sim apelar para o bom senso e o brio profissional dos tradutores. Veja-se mais um caso de estouvadice. «Les empreintes sur le terrain instruisent souvent le chercheur autant que l’étude du fossile lui-même. On dispose, par exemple, de plus de traces de dinosaures que de fossiles. Ces traces, comme dans le cas des fossiles, ont été conservées dans les terrains sédimentaires si elles ont été rapidement recouvertes par des cendres volcaniques ou du limon.» Ora vamos lá à tradução: «As pegadas no terreno informam muitas vezes tanto o investigador como o estudo do próprio fóssil. Existem, por exemplo, mais vestígios de dinossauros do que de fósseis. Estes vestígios, como no caso dos fósseis, são conservados nos terrenos sedimentares se tiverem sido rapidamente cobertos com cinzas vulcânicas ou limão.» Devia ser um rito funerário dos dinossauros: logo que um deles morria, cobriam-no de limões — para se conservar até aos nossos dias. Faziam o mesmo com as pegadas. Em francês, limon é o citrino mas também é a «terre molle qui, charriée par les eaux, se dépose sur les bords d’un fleuve». Vem do latim popular limonem, acusativo de limo, e este do latim clássico limus, «lama», étimo afinal do nosso limo. Logo, lodo ou limo seria a palavra que o tradutor deveria ter usado.

edit

Léxico: «pau de dinamite»


Querida, encolhi a dinamite


      A propósito do insano massacre na Virgínia, Luís Costa Ribas, jornalista e professor da disciplina de Speech writing do curso de pós-graduação em Comunicação Estratégica e Assessoria Mediática do ISLA, foi chamado à Edição da Noite da Sic Notícias. Descrevendo uma feira de armamento nos Estados Unidos, explicou que os clientes até podiam sobrevoar de helicóptero um ferro-velho e disparar com metralhadoras sobre «palitos de dinamite». Sempre li e ouvi «pau de dinamite», e, vamos lá, é o que o tamanho sugere, ou não? Em inglês diz-se «stick of dynamite», caso queiram pedir numa loja. Nos Estados Unidos, claro.

Actualização em 23.05.2009



      «Atrás dela (embora ali esteja apenas a fonte, o som está à nossa volta) os Rolling Stones passaram para a canção Emotional Rescue. “I will be your knight in shining ahh-mah”, canta Mick Jagger, e pergunto-me se ele seria capaz de dançar com três paus de dinamite enfiados no cu» (Tudo É Fatal, Stephen King. Tradução de Luís Santos e revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 33).

Actualização em 15.05.2010


      «— Mas esse mito é muito perigoso, mais parece um pau de dinamite. Mesmo dentro das paredes da prisão se fala de guerra civil» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 338).

Etiquetas
edit

Léxico: «tênder»

Imagem: http://paraferroviario.7.forumer.com/


Maria Fumaça



      A leitora Teresa Simões quer saber que nome tinha o vagão que, nos comboios a vapor, levava a lenha. Não apenas a lenha, cara leitora, mas também água, carvão mineral ou óleo. O nome é um anglicismo: tênder. Por vezes, o tênder era incorporado à própria locomotiva, como se fosse um anexo. É o exemplo mostrado na imagem. E já sabe, cara leitora: ver passar comboios só é triste para os que não praticam trainwatching.
      Aproveito para citar um trecho de um texto, «Encantos e Desencantos de um Estagiário», publicado na revista Ingenium, n.º 84, da autoria do engenheiro mecânico J. M. Sardinha, em que se refere o tênder: «O programa do estágio levou-me uma vez ao ramal de Mora, hoje já desactivado. O comboio, que era o único que por aí passava diariamente, era constituído por uma velha locomotiva, um tender [sic], um vagão e uma carruagem de terceira classe onde viajavam quatro passageiros. O calor era abrasador. Seriam talvez três horas da tarde, rodávamos em marcha moderada através de um campo onde só amarelecia o restolho que sobrara da ceifa, quando o maquinista me disse: “Há aqui perto um poço que tem água muito boa e muito fresca.” Minutos depois, com um chiar de freios e tilintar de ferros, o pequeno comboio imobilizou-se no meio do descampado onde não se descortinava uma casa nem a sombra de um chaparro. Toda a gente desceu: o maquinista, o fogueiro, o estagiário, o condutor e os quatro encalorados passageiros. Ali, mesmo ao lado da linha, havia um poço a que não faltava a indispensável roldana, um balde e a respectiva corda. Tranquilamente, sem pressas, passando o balde de mão em mão, refrescámo-nos regaladamente com aquela água bendita cuja frescura nos retemperava as entranhas ressequidas pela feroz canícula estival. Ao lado, o comboio esperava, e fiquei até com a ideia de que a locomotiva, cansada e arquejante, nos olhava com ar de censura, rosnando talvez qualquer coisa como “e eu não tenho direito a um golo dessa água refrescante?”.»


Etiquetas
edit

Fissão ou fissuração?

O trolha atómico

Tem de se ter sempre muito cuidado no uso dos sinónimos e no respeito de termos e expressões consagrados. Vejamos a tradução de um texto francês cujo título era «La fission de l’uranium». «En 1938, les Allemands Otto Hahn et Fritz Strassmann ont observe qu’en bombardant certains noyaux d’uranium (l’uranium 235) par des neutrons, on pouvait les briser: il sont ainsi découvert le mécanisme de fission de l’uranium.» Parecia simples, mas vejamos como se portou o tradutor: «Em 1938, os alemães Otto Hahn e Fritz Strassmann observaram que ao bombardearem alguns núcleos de urânio (o urânio 235) com neutrões, eles podiam ser quebrados: também descobriram o mecanismo de fissuração do urânio. Esta fissuração de núcleos de urânio liberta por sua vez neutrões, que provocam outras fissurações, etc., libertando grandes quantidades de energia. É a famosa reacção em cadeia que foi posta em prática nos reactores.» Escusado seria dizer que o título ficou «A fissuração do urânio». Umas linhas mais à frente, a frase «En effet, le seul isotope fissile est l’uranium 235» teve o tratamento que merecia: «Com efeito, o único isótopo fissurável é o urânio 235.» Quem é que, nos tempos que correm, nunca ouviu falar da fissão de um átomo pesado? É o habitual: quando devem fugir do original, procurando outro termo, especialmente nos casos de falsos cognatos e não só, não o fazem; quando devem manter-se fiéis à literalidade do original, fazem desvios desastrosos. De facto, fissuração, quem o pode negar?, também existe. Mas estaremos, ao usá-lo, noutro âmbito. Por exemplo, se falarmos da «fissuração das alvenarias», estaremos a usar com propriedade o termo. Também há a fissuração do ânus, mas basta de coisas tristes e dolorosas. Do mal, o menos: o tradutor poderia ter escrito «a ficção do urânio», o que me faz lembrar aquele jovem ignorante que dizia que tinha ido fazer as «provas de fricção».

edit

Tradução: «claie»

Imagem: http://tilz.tearfund.org/

Não pescam nada

Podia ler-se no original: «La pêche — morue et hareng, frais, salés, congelés, ou séchés sur des claies en plein air — et les activités de transformation du poisson (huiles et farines) fournissent l’essentiel des emplois et des exportations.» O tradutor tentou dar-nos a informação em português: «A pesca — bacalhau e arenque, frescos, salgados, congelados ou secos em nassas ao ar livre — e as actividades de transformação do peixe óleos e farinhas) fornecem o essencial dos empregos e das exportações.» Peixe a secar em nassas? E porque não suspenso nos próprios anzóis? Talvez não sejam apenas os pescadores a rir com esta afirmação. Uma nassa, toda a gente sabe, é uma espécie de cesto de vime ou de outro material de feitio afunilado usado para pescar. Quanto a claie («treillis d’osier à claire-voie tendu sur un support en bois» e, por extensão, «ouvrage utilisé pour : sécher les fruits, les fromages»), de que vemos uma imagem em cima, podemos traduzir por «caniçado», por exemplo, mesmo na acepção de suporte para secar frutos e queijos. Acresce que o francês também tem o vocábulo nasse («instrument de pêche qui se pose au fond de l’eau, en forme de panier cylindrique oblong, fabriqué en osier, en filet ou en fil métallique, muni d’un goulet par lequel le poisson peut entrer mais non ressortir»), cujo étimo é o latino nassa, exactamente o étimo da nossa nassa. Para traduzir, não chega atrevimento — é preciso discernimento.

edit

Tradução. Elemento quilo-

Ignorância geométrica

Dizia o original francês, que tratava dos cinco poliedros regulares: «Il est possible de construire un nombre infini de polyèdres, de solides dont les faces sont des polygones quelqonques; il existe aussi un nombre ilimité de polygones réguliers que l’on peut inscrire dans un cercle (le triangle équilatéral, le carré, l’héxagone, le chiliogone avec ses mille côtés, etc.).» O tradutor achou, como não, se traduzir é tão fácil?, o seguinte: «É possível construir um número infinito de poliedros, sólidos cujas faces são qualquer polígono; existe também um número ilimitado de polígonos regulares que se podem inscrever num círculo (o triângulo equilateral, o quadrado, o hexágono, o chiliogone com as suas mil faces, etc.).» A frase que se seguia imediatamente a este trecho dizia, premonitoriamente, o seguinte: «Or, une des caractéristiques de l’intelligence humaine consiste à généraliser ce qu’elle découvre.» Sim, mas não generalizemos tanto, que ele há inteligências e inteligências. A do tradutor, por exemplo, não foi capaz de generalizar aqui. No contexto, se antes tinha o vocábulo «hexágono» e quanto a «chiliogone» até tinha a explicação de que tinha mil faces, como é que deixa por traduzir? Porque não investigou? Quilógono ou, até mais próximo do francês, quiliógono deveria ter escrito. Como se aquele chili- não fosse o mesmíssimo kilo- também francês e o português quilo-, elemento antepositivo com origem no grego χίλιοι.

edit

«Garagista» é galicismo?

«Os dicionários, coitados, sabem o que dizem, mas não sabem falar.»
Miguel Esteves Cardoso


Veja lá isso bem


      O que separa um mecânico de um garagista? Um fato-macaco ou, como querem alguns, um galicismo? Investiguemos. Para os Franceses, um garagiste é «la personne qui tient un garage pour l’entretien, la réparation et la vente des véhicules automobiles». Algo nos diz, para além da experiência de ter conhecido, em Portugal, garagistas que não eram mecânicos, que um garagiste não é o mesmo que um mécanicien: «celui, celle qui monte, entretient ou répare des machines». Muito frequentemente, cá como em França, um mecânico poderá ser empregado de um garagista. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista: «Garagista, s. 2 gén. (do fr. garagiste). Proprietário ou gerente de garagem.» O mesmo registam o Dicionário da Academia e o Dicionário Houaiss. No dia-a-dia, ouve-se a palavra «garagista» nesta acepção. A lei também a consagra nesta acepção. O Dec.-Lei n.º 522/85, de 31 de Dezembro, que acolhe a regulamentação específica do seguro automóvel obrigatório, consigna, no artigo 2.º, n.º 3, a obrigatoriedade do contrato de seguro de garagista. A jurisprudência, quase sempre cuidadosa na determinação dos conceitos, usa o vocábulo na mesma acepção. Em suma, «garagista» é um vocábulo registado nos dicionários de língua portuguesa, é necessário e não confundível com o vocábulo «mecânico».


edit

Apostila ao Ciberdúvidas

Grande ajuda

Um consulente, português a residir na Suíça, pergunta hoje ao Ciberdúvidas se o topónimo Estangnhola tem algum significado. O consultor F. V. P. da Fonseca responde: «Não pode haver nenhum topónimo, ou qualquer outra palavra portuguesa, com a grafia apontada. Só poderia existir Estangola ou Estanhola, que mesmo assim não encontro registados.» Esta impossibilidade, ao que suponho, tinha que ver com o facto de a sequência gnh não existir em português. Ora, se o consultor teve discernimento para apontar possíveis topónimos com uma grafia próxima da que reputava impossível, ainda que não os tenha encontrado (em Portugal não existirão, mas sim em Espanha, pois Estangola de Gerber e Estanhola de los Armèros situam-se ambos nos Pirenéus espanhóis), porque não o teve igualmente para ver que o consulente poderá ter digitado mal (eu sei que foi duas vezes, mas ainda assim) o vocábulo? De facto, é mais provável que o consulente quisesse ter escrito Estanganhola tendo escrito Estangnhola do que outra palavra qualquer, ou não? Quanto a Estanganhola, é o nome de um lugar na freguesia de São Sebastião, no concelho de Rio Maior.

edit

Antropónimo: Aboim

Nomes e apelidos

A leitora T. A. quer saber de onde provém o apelido Aboim. O que primeiro se me oferece dizer é que este apelido foi, como acontece tão frequentemente com outros, primitivamente um nome, tendo passado depois a nome geográfico (lugares do Douro e Minho e também nome de uma ribeira que nasce em Gondomar e vai desaguar no rio Lima, abaixo de Ponte de Lima) e só por último a apelido. Tem origem no genitivo (Abolini) do nome medieval Abolinus. Já quanto à origem deste, a questão é mais intrincada, como pode ver aqui e aqui.

edit

«Suicidário» existe?

Há melhor


      No programa O Silêncio de Sócrates de ontem, na Sic Notícias, o jornalista Ricardo Costa usou o vocábulo «suicidário». Que outras pessoas o usam, mesmo na escrita, sei-o bem. (Recentemente, até vi ser usado com grande abundância «genocidário».) O que devemos perguntar é se está dicionarizado, se está bem formado e se faz falta. Não está dicionarizado, por enquanto. (Mas está registado na MorDebe, por exemplo.) Parece estar bem formado, pois houve recurso ao elemento formador de adjectivos -ário, que já vem do latim e que é extremamente produtivo. Não faz falta, pois existe o adjectivo «suicida». Creio que quem usa este neologismo pretende, ainda que inconscientemente, afastar-se do sentido mais conotado com o ser humano que o adjectivo «suicida» comporta. Parecer-lhes-á, acaso, que em «atitude suicida», «argumento suicida», etc., não há harmonia. Pode também haver influência do francês suicidaire, dicionarizado e muito usado: «A. 1. Qui exprime une intention de suicide; qui pousse au suicide ou qui y aboutit. Vous êtes fous. Je sais ce qui me reste à faire, je ne veux pas parler à des fous. (...) il jeta un regard significatif sur Agnès, un regard suicidaire (DRIEU LA ROCH., Rêv. bourg., 1937, p. 233). Au XIXe siècle apparaît, avec Goethe, l’amour élégiaque, ou suicidaire (Werther) (L. DAUDET, Idées esthét., 1939, p. 168)» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée).



 
Etiquetas
edit

Gentílico: furiano

Naturais do Darfur

Cara M. L. T., os naturais do Darfur, no Oeste do Sudão, são os Furianos, conforme alguns dicionários portugueses registam, como o Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva. De facto, Darfur significa em árabe «terra dos Fur» (دار فور), ainda que na verdade seja terra de outras etnias que não somente os Fur, tal como os Masaalit e os Zaghawa. Dar, na transliteração do árabe, significa literalmente «casa», como em Dar al-Harb (دار الحرب), «Casa da Guerra», que é uma expressão usada na lei islâmica para designar regiões ou países não muçulmanos, ou Dar al-Islam (دار الإسلام), «Casa da Submissão», para significar o conjunto das regiões ou países sujeitos às leis muçulmanas.
É verdade, este gentílico ainda não consta do Dicionário de Gentílicos e Topónimos, do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), mas já sugeri a sua inclusão.

edit

Informação

ABL responde

A Academia Brasileira de Letras disponibiliza a partir de hoje um consultório de língua portuguesa. «A partir do dia nove de abril, basta preencher o formulário que a equipe executiva dirigida por Sergio Pachá e coordenada pelo acadêmico Evanildo Bechara responderá a todas as dúvidas de pronome, significado das palavras, flexão verbal e nominal, questões de sintaxe e semelhantes.» Ver aqui.

edit

Léxico: uscufe

Imagem: http://www.newn.cam.ac.uk/Skilliter/contact.shtml

Na cabeça

Caro M. T., a cobertura de feltro ou de algodão que os janízaros ou janíçaros, a tropa de elite do Império Otomano entre os séculos XIV e XIX, usavam na cabeça tinha o nome de uscufe. Os janízaros (do turco يكيچرى, «novo soldado»), a propósito, eram crianças cristãs raptadas pelos Turcos principalmente nos Balcãs e treinadas para constituir este corpo especial de protecção do sultão.

edit

Uso do hífen

As regrazinhas

«Não é [José Sócrates] produto do activismo próximo das clivagens anti-autoritárias» («Habilitações», António Costa Pinto, Diário de Notícias, p. 64. Olhe que não, olhe que não. Segundo a Base XXIX, 3.º, do Acordo Ortográfico de 1945, emprega-se o hífen, entre outros, nos seguintes casos: «compostos formados com os prefixos anti, arqui e semi, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por h, i, r ou s: anti-higiénico, anti-ibérico, anti-religioso, anti-semita; arqui-hipérbole, arqui-irmandade, arqui-rabino, arqui-secular; semi-homem, semi-interno, semi-recta, semi-selvagem.» Logo, contrario sensu, deverá escrever-se antiautoritário.

edit

Construção «tratar-se de»

É desta que aprendemos?

      «José Pinto Coelho referiu nunca “ter apresentado queixa à polícia” por considerar “que se tratam de “meras ameaças virtuais”» («PNR restaura cartaz», Eva Cabral, Diário de Notícias, 7.4.2007, p. 5). As aspas, já os meus perspicazes leitores terão reparado, não estão certas: ou sobram ou faltam. Por isso, não sabemos se quem ignora as regras gramaticais é a jornalista se o político. Embora tenha um palpite, não quero deixar, mais uma vez, de dizer que, nestes casos e na minha opinião, o jornalista deve corrigir o que lhe é dito. A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Matéria comezinha embora, o que me leva muitas vezes a evitar trazê-la para aqui, é vê-los, aos jornalistas e não só, claudicar nas regras gramaticais.

edit

Léxico: «bacine»

É mesmo?
     


      O Diário de Notícias levou-nos a ver como se fazem amêndoas confitadas em Portalegre. «Qual é o segredo? “Claro que o segredo não se dá a ninguém, o processo é essencialmente amêndoa, açúcar e chocolate.” As caldas que se transformam na capa da amêndoa são feitas em tachos de cobre e também a amêndoa é rolada em caldeiras de cobre (cujo nome é bacine), refere ainda, enquanto dá uma olhadela na secção de empacotamento» («As amêndoas que vêm de Portalegre», Hugo Teixeira, 6.4.2007, p. 49). Inicialmente pensei, confesso, que a tal caldeira fosse — e a proximidade com Espanha fazia-me mesmo temê-lo — um penico espanhol: bacín: «Recipiente de barro vidriado, alto y cilíndrico, que servía para recibir los excrementos del cuerpo humano.» A grafia autorizava a suposição, mas não as acepções do vocábulo espanhol. Vamos ao francês. Bassine: «Bassin large et profond servant à divers usages domestiques ou industriels. Une bassine de confiture.» O étimo dos dois vocábulos é o mesmo: o latim vulgar baccinus. Agora a pergunta é como se devia escrever, dado o étimo provável. Escusado será dizer que o vocábulo não se encontra dicionarizado. Mas, como explica Sergio Pachá, lexicógrafo-chefe da Academia Brasileira de Letras, «a palavra não passa a existir a partir do momento que é registrada no dicionário. Vai para lá depois de existir».

Etiquetas
edit

Tradução: «grains de beauté»

Imagem: http://mariaeasoutras.sapo.pt/maria_fotos.html

Até as cabeleireiras


«Les grains de beauté sur notre corps ou les petites taches foncées qui apparaissent sur les mains des personnes âgées sont des tumeurs dont la prolifération a été stoppée: notre organisme a repris leur contrôle.» O tradutor tentou verter para português, e quase se ficou no intento: «Os grains de beauté do nosso corpo ou as pequenas manchas acastanhadas que aparecem nas mãos das pessoas idosas são tumores cuja proliferação foi interrompida: o nosso organismo retomou o controlo.» Aqui em Benfica, onde proliferam as cabeleireiras (na verdade, não deve haver rua onde não haja pelo menos uma), mais do que em qualquer outra freguesia de Lisboa, qualquer ajudante deve saber o que são grains de beauté (umas porque nasceram em França, outras, porque lêem os rótulos dos produtos que usam). São os sinais no corpo humano. Claro que se usamos a expressão francesa mais facilmente nos acode à memória o rosto de Catarina Furtado do que uma verruga de uma bruxa, mas trata-se do mesmo. Agora a sério: se um agricultor tem de ter enxadas, ancinhos, forquilhas, carrinhos de mão, um tradutor tem de adquirir dicionários, gramáticas, vocabulários, ou não? Ah! Je suis fadé!...

edit

Russismo «dacha»

Как это сказать по-русски?

      Caro A. L., é como diz: dacha ou datcha (conforme prefere o Dicionário Houaiss, mas não, consabidamente, eu) é um russismo ou um russianismo*. Provém do russo дача. O tradutor do texto que me enviou optou, e muito bem, por «casa de Verão», locução ainda assim menos frequente, como se pode comprovar nos corpora do português, do que «casa de campo». Outra hipótese: «casa de veraneio». Dacha, dacha… o mais próximo que temos do estrangeirismo é «d’Acha», como no topónimo São Miguel d’Acha, que é uma freguesia do concelho de Idanha-a-Nova… Se puder usar uma palavra portuguesa, nunca use um estrangeirismo.

* Outros russismos ou empréstimos da língua russa: apparatchik, astracã, balaclava, balalaica, barine, boiardo, bolchevique, copeque, cossaco, culaque, czar, czaréviche, czarevna, czarina, duma, escorbuto, estepe, glasnost, gulag, kolkhoz, lapcha, matrioshka, mazute, menchevique, mujique, nomenclatura, parca, perestróica, pogrom, rileque, rublo, sajene, samoiedo, samovar, soviete, sucare, taiga, tarantasse, telega, terém, tróica, ucasse, verstá ou verste, vodca, entre outros.


Etiquetas
edit

Tradução: «écrivain public»

Saramagos, é isso?

«Dans les pays en développement, l’écrivain public est un personage important : il redige les lettres de ceux qui ne savent pas écrire (documents administratifs mais aussi messages personnels). Il traduit également dans la langue officelle du pays les messages de ceux qui ne parlent qu’un dialecte local. Aujourd’hui, on trouve aussi des écrivains publics dans certaines mairies françaises.» O tradutor resolveu verter assim, impunemente, para português: «Nos países em desenvolvimento, o escritor público é uma figura importante: redige as cartas dos que não sabem escrever (documentos administrativos, mas também mensagens pessoais). Traduz igualmente para a língua oficial do país as mensagens dos que só falam um dialecto local. Hoje em dia, encontram-se também escritores públicos em certas câmaras municipais francesas.» Eu conheci alguns destes «escritores públicos» em Portugal, a trabalhar nas autarquias e à porta do Arquivo de Identificação, na Gomes Freire. Contudo, entre nós, são redactores de cartas e de impressos da Administração Pública, que prestam os seus serviços aos cidadãos analfabetos, não são escritores públicos no sentido em que se usa esta locução. Em França até têm cursos universitários na Sorbonne (objectivos: «Cette formation se propose de former des professionnels de l’écriture capables de répondre aux besoins à la fois de la collectivité et des personnes privées, en apportant à tous publics une aide à la rédaction»), por exemplo, ao passo que cá basta(va) ser esperto e saber o abecedário.

edit

Ortografia: bem-vindo


Mal-avindos

      Não há paciência para mensagens xenófobas, claro, mas português mal escrito também não é tolerável. Ou faz tudo parte da sátira? Até por respeito aos imigrantes, deviam escrever correctamente.


edit

«Restício»?

Sobras

Eis a questão: por vezes, vê-se escrito e ouve-se a palavra «restício», como quem diz «resquício». Já a li na imprensa, o que, naturalmente, não é motivo de pasmo. Dir-se-ia um lídimo sinónimo do vocábulo «resquício» — se não fosse uma simples manifestação de ignorância. Como distinguir, contudo, quando tem um propósito jocoso e quando não? Em momentos de maior tolerância, até me questiono se não se pode pôr a par — em inventividade analógica — com «comício» e «bebício», como na expressão «comícios e bebícios». Mas não tem a mesma graça, e desconfio sempre da conscientia sceleris do falante.

edit

Etimologias

Divagações

Já viram como os ingleses amantes da jardinagem, isto é, todos eles, produzem morangos nos seus jardins e hortas? Numa cama de palha, sobre a terra, com uma cobertura de tela esticada por quatro estacas. E daí serem chamados strawberries. Mas claro, os strawberries eram espontâneos por toda a Europa. Fico por aqui, não falarei de barberries, blackberries, blueberries, boysenberries, cloudberries, cranberries, gooseberries, huckleberries, lingonberries, raspberries… Se eu agora passar directamente para a abanação, ninguém estranhará, porque estaríamos no âmbito, por exemplo, do cultivo do café, já que a abanação é uma das fases e tem a finalidade, como o nome sugere, de retirar folhas, gravetos e outros objectos da planta. Na verdade, quero falar de outra abanação e demonstrar como a etimologia «intuitiva» pode descambar em grandes disparates. Exemplifico com o vocábulo abanação (vêem agora a ligação?) na acepção de pena de desterro por um ou dois anos imposta aos assassinos. Podia pensar-se que seria um castigo como o cifonismo, o crucifrágio, o esquartejamento, a estrapada, a rafanidose. Na abanação, o condenado levaria uns valentes abanões até jurar que se portaria bem no futuro. Explico apenas o que era a rafanidose: entre os Atenienses, era um dos castigos aplicados aos adúlteros e consistia em enfiar (digo bem?) um rábano de proporções castigadoras (ah, pois, nada de meiguices) no ânus do prevaricador.

edit

Léxico: «repto»

Cousas d'antanho


      A propósito de toldos e nomes de empresas e similares, lembrei-me agora de outro facto linguístico curioso. É um verdadeiro desafio — porque é que o nome da Associação Reto à Esperança ficou meio traduzido? Faz-me espécie... Reto em espanhol, «provocación o citación al duelo o desafío». Em português é repto. Não seria pior, nem melhor, na verdade, se a metade traduzida fosse a outra: Associação Repto a la Esperanza. Mas não quero desanimá-los completamente: o vocábulo reto é a forma antiga, portuguesa, de repto. São, o primeiro com outro fenómeno pelo meio, palavras formadas por derivação regressiva, a partir do verbo reptar, «lançar desafio». Actualicense, ¡chicos! ¡Perdón!, senõres.

Etiquetas
edit

Léxico: «escaiola»

Imagem: http://www.romeartlover.it/Stones.html

Falso?



      Cara M. P., fake marble é isso mesmo, «falso mármore». Mas temos também o termo escaiola, que deve considerar na tradução que está a fazer. A escaiola é uma técnica (e o seu resultado) de preparação de gesso e cola ou cimento branco com que se consegue um revestimento liso e lavável que imita mármore ou outra pedra, usado em paredes, colunas e tectos. O vocábulo tem como étimo o italiano scagliuola, diminutivo de scaglia, e terá entrado no léxico português no século XIX, quando a técnica passou a substituir os revestimentos de azulejos, mais caros. Até nos palácios, como se pode ler neste artigo publicado no Diário de Notícias: «No átrio central [do Palácio Braamcamp, no Bairro Alto], os funcionários da câmara aguardam a chamada que os vai conduzir ao gabinete médico. Decorado com a “enganadora” técnica de pintura em escaiola, tem uns belíssimos mármores rosa e verdes (que afinal não o são). Cada sala do palacete está bem conservada e tem, nos tectos rendilhados, uma identidade própria» («Câmara ainda não definiu futuro do Palácio Braamcamp», Marina Almeida, 29.9.2006).

Etiquetas
edit

Tradução

Está-se mesmo a ver

«She thought she wanted a comfortable place to write, but she never identified with the more gentrified Tuscan country life.» Digam-me lá se esta não é uma tradução rilhafolesca: «Ela pensou que desejava um lugar confortável para escrever, mas nunca se identificou com a vida do campo mais gentrificada da Toscânia.» Não tem, qual bola, por onde se pegue.


Gentrification (n.), gentrify (v.):
Both the verb (meaning “to restore to middle-class standards and purposes a deteriorated part of a city”) and the noun (the process of doing so) have achieved standard status, though only relatively recently. Each also has a pejorative generalized use meaning “to uplift or improve status of speech, dress, or other manners.” (in The American Heritage®)

edit

Léxico: «mandaçarre»

Mais uma pérola


      Li recentemente um texto sobre a vida de um pescador de pérolas filipino, mais concretamente de Banjao, na ilha de Mindanau. O texto não o dizia, mas a verdade é que a língua portuguesa inclui no seu vasto léxico um vocábulo para designar o pescador de pérolas da Ásia — mandaçarre. Karel Pamay, o pescador entrevistado pelos missionários combonianos José Rebelo e David Domingues, «explica que, por aquelas bandas, os meses melhores para a pesca das pérolas são os de Verão — Abril e Maio —, e o momento mais propício as noites de lua cheia; certamente porque a água aquece e as ostras desovam. As conchas encontram-se a cerca de 30 metros de profundidade. Karel consegue suster a respiração por dois minutos, o suficiente para mergulhar. Os seus óculos de mergulho (goggles) são muito especiais — feitos de casca de árvore, as lentes são dois pedaços de vidro colados com uma cola natural, extraída de uma árvore; e são amarrados por fios. Uma invenção original, que bem merecia uma patente» (in revista Audácia).


Etiquetas
edit

Nomes

Quanto custa um acento circunflexo?

Nunca pensei vir a escrever sobre este assunto, mas ter lido o seguinte texto de Frances Mayes fez-me mudar de opinião. «What is up with the Mantova restaurants? Something contagious happened with the naming. One translates as the Black Eagle, others as the White Griffon, the Swan, Two Ponies, White Goose» (A Year in the World, Journeys of a Passionate Traveller, Broadway Books, 2006). Em Lisboa, é em relação às pastelarias que me interrogo: o que leva os proprietários (será a maioria, como uma vez me disseram, originária de Castelo Branco? Se sim, em que é que isso influencia a questão?) a dar o nome de Flor das Avenidas, Flor da Pampulha, Flor de Benfica, Flor da Ajuda, Flor... às suas pastelarias? Porquê «flor»? E — mais grave ainda, e o que me levou também a escrever — porquê «flor» com acento circunflexo? São resquícios gráficos das pétalas? Ou simples analfabetismo? E os proprietários das empresas que fazem os toldos não podem aconselhar honestamente os clientes? Ou serão eles, na verdade, os responsáveis por tais erros?

edit

Etimologia: «mandarim»

Manda que obedeces


      Mandarim ou mandari m. Funcionário letrado, recrutado por concurso, da administração civil e militar na China, no Aname e na Coreia.
      Talvez, como sugerem alguns linguistas, na mudança de t para d se possa ver alguma influência do verbo português mandar, mas a verdade é que há algum consenso na filiação do vocábulo no malaio măntări, corruptela do sânscrito mantrī, «conselheiro, ministro ou chefe de Estado». Que do português tenha passado, logo no século XVI, para o inglês e para outras línguas ocidentais não surpreende. Certo é que não é caso único e — o que é de realçar, no caso — admitido pelos próprios linguistas ingleses, espanhóis e italianos, por exemplo. Supor-se que provém, como alguns afirmam, do verbo português mandar é pura fantasia.

Etiquetas
edit

Ter lugar?

Não cabe

Leia-se o que dizia Vasco Botelho de Amaral na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 128, a propósito da expressão «ter lugar» (do francês «avoir lieu»), ainda hoje tão em uso: «Um exemplo, entre muitos: Quase se vai esquecendo dizer que isto ou aquilo se efectua, se realiza, ocorre, se celebra. Ter lugar é o estribilho usado nas notícias. Terá lugar um baile, tem lugar o espectáculo, teve lugar a cerimónia, terá lugar o funeral, etc., etc. Ter lugar em português é — ter cabimento, ou cabida, vir a propósito, etc. Aquilo que se realiza, se efectua, se celebra, dizer-se que “tem lugar” parece disparatado e ridículo. Pois faz parte da linguagem alambicada e bárbara…»

edit

Arquivo do blogue