Nomes de plantas

Na serra de Sintra, com o dicionário

Apesar de termos várias serras em Portugal, sempre achei espantoso, m’espanto às vezes, como os dicionários — não, certamente, o Dicionário da Academia, m’avergonho — registam o nome de espécies vegetais que são exclusivas da serra de Sintra. Abro o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, e é ver: arre-dom-macho, bom-pastor, casceta, laboreira, marcavala, morcos-diabo, nuticana, ourovale, opática, opitimo, roça-marinha, sataria, tauncho, turvi, zenepro…

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Léxico: vestição religiosa

Olhai também, Senhor...

Um leitor pergunta-me o que significa o vocábulo «vestição» no âmbito da religião, pois não o encontra em nenhum dicionário. De facto, não está em qualquer dicionário, e naqueles em que está registado não é aparece referido à religião, como sucede com o Dicionário Houaiss. A vestição religiosa é uma cerimónia, também designada vestidura e tomada de hábito, em que o postulante (ou seja, aquele que deseja entrar em determinada ordem) veste o hábito que usará durante o seu noviciado, que é o período probatório antes de pronunciar os votos, simples ou solenes, religiosos. Aproveito para informar os meus leitores de que publicarei brevemente um glossário de termos relacionados com a religião com cerca de 500 entradas.

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Etimologia: Benfica e malária

Anófeles fora de Benfica

Moro em Benfica, isso já toda a gente sabe. O que muitos desconhecerão é a etimologia deste topónimo. Ao que parece, vem de bem + fica, pois o território era antigamente um vale fértil atravessado por um curso de água. Era, pois, um local aprazível, onde se ficava bem. Os ares eram bons. Exactamente o contrário da malária. Até ao final do século XIX, acreditava-se que a malária era transmitida pelo ar, daí a designação, que provém do italiano mal aria, «mau ar». Aliás, outro nome da doença, paludismo, também dava a entender tratar-se de algo relacionado com o ar: palus significa, em latim, lagoa, pântano, e o termo referia-se ao ar miasmático que neles se respirava. Uma terceira designação, sezão, não está muito longe destas crenças: provém do vocábulo latino accessione, «acesso de febre intermitente», cruzado com sazão (satione-), «estação do ano».

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As palavras e a lei

Isto e aquilo

Não é raro falar-se nas faculdades de Direito da deficiente técnica legislativa, censurando-se muitas vezes que a redacção das leis seja entregue a pessoas formadas, se formadas são, noutras áreas do saber. De facto, pôr engenheiros a fazer leis é tão mau e perigoso como pôr advogados a construir pontes. Infelizmente, esta comparação somente servirá de lição quando virmos pontes concebidas por advogados, o que até hoje ainda não aconteceu. A propósito de técnicas legislativas, trago hoje um exemplo de falta de clareza do texto da lei, mas aqui intencional, atribuível à pudicícia carminada dos tempos. Trata-se da Portaria n.º 69 035, datada de 1953, da Câmara Municipal de Lisboa, a propósito dos bons costumes em locais públicos. Eis o texto:
«Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins e, em especial, nas zonas florestais Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guarda Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes. Assim, e em aditamento àquela Postura n.º 69035, estabelece-se e determina-se que o art.º 48.º tenha o cumprimento seguinte:

1.º Mão na mão...............................2$50
2.º Mão naquilo..............................15$00
3.º Aquilo na mão...........................30$00
4.º Aquilo naquilo...........................50$00
5.º Aquilo atrás daquilo...................100$00

Parágrafo único
Com a língua naquilo, 150$00 de multa, preso e fotografado.»

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Topónimo: Goreia

A ilha dos escravos

      Os topónimos estrangeiros por vezes dão a volta à cabeça das pessoas. Sobretudo dos revisores. Há certo tempo, um autor insistia em escrever «Gorée», a pequeníssima ilha ao largo de Dacar que foi entreposto de escravos e é actualmente Património Mundial da Humanidade. Descoberta em 1444 pelos Portugueses, o nome foi-lhe dado pelos Franceses, que se assenhorearam dela no final do século XVII. De então para cá, decorreu tempo suficiente para o topónimo ter sido, como foi, aportuguesado para Goreia. Em Fevereiro de 1992, o Papa João Paulo II visitou a ilha, pedindo então, em nome dos Europeus, perdão por todo o mal causado a África ao longo dos séculos. Também George W. Bush esteve, em 2003, na Goreia, assim como, antes dele, Bill Clinton. Durante a visita de Bush, as autoridades de Dacar decidiram limpar as ruas de vendedores e de outras personagens igualmente conspícuas, concentrando-as num campo de futebol. Que ironia. Como acto simbólico, a visita é muito comovedora, sim, mas o pior é o que os Estados Unidos fizeram e continuam a fazer em África. O Darfur é um exemplo bem claro.


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Pele e casca

Cascas de alhos

Há muito anos, vi o cozinheiro basco Karlos Arguiñano, o mais criativo que alguma vez conheci, explicar a diferença entre pele e casca nos alimentos. Uma amêndoa, por exemplo, tem casca; o pêssego, pele. Porquê? Bem, explicava ele, «casca»* tem origem onomatopaica: se faz cás, cás, o alimento tem casca e não pele. Na verdade, a casca da banana, por exemplo, não é suficientemente dura para produzir esse som. Nem a casca da laranja. Nem a da batata (aliás, as batatas também se depelam). Mas o ovo tem, em conformidade com a teoria e na prática, casca, como a têm os amendoins, o caju, as nozes, os pistácios… Os alhos e as cebolas também têm casca. Às línguas, é um facto consabido, falta lógica.


* Alguns dicionários indicam como presumível étimo o latino *quassicāre, de quassāre, golpear.

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Léxico: engrotar

Imagem: http://static.flickr.com/

O nome e a coisa

Claro que não há uma correspondência perfeita entre coisa e nome, além de que existe uma interferência negativa que é a polissemia. Contudo, numa língua rica, a aproximação é maior. Pensemos numa ampulheta ou relógio de areia. Quando o monge Luitprand, seu suposto inventor, a concebeu no século VIII, decerto que não pensou — não era essa a sua preocupação — como designar o acto de o orifício de passagem da ampulheta se obstruir. A língua portuguesa, porém, regista esse vocábulo: engrotar. A ampulheta engrotou. Na realidade, nem sempre nas ampulhetas se usou areia, tendo-se recorrido a outros materiais como pó de mármore, cascas de ovo moídas, etc., o que a tornava mais susceptível de se obstruir.

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Léxico: terródromo

Pistas

Não fora a acção da benemérita ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), que conhecemos sobretudo das fiscalizações espectaculares em que atemoriza ciganos e chineses, e muitos de nós não saberiam que existe a palavra «terródromo». Um terródromo é uma pista de terra. Esta em concreto, a fiscalizada pela ASAE, situa-se no concelho de Arraiolos e tem 13 quilómetros de extensão.

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Gentílicos e topónimos

Quem diria

Dá que pensar a importância que as palavras têm. Quando o imperador Gia Long (1762-1820) optou por denominar o seu país unificado de Nam Viêt, não sabia que o imperador da China não iria permitir tal designação, pois, em sua imperial e celeste opinião, evocava — ó sacrilégio! — o reino chinês do século III a. C. Nam Viêt Dong. Gia Long, que foi decerto um monarca inteligente, resolveu inverter os termos: Viêt-Nam. Oficialmente, agora, Cộng hoà Xã hội Chủ nghĩa Việt Nam.
No campo dos gentílicos, o termo «polaco» é paradigmático do peso cultural dos vocábulos. Tido entre nós, Portugueses, como mais uma mera idiossincrasia brasileira, a variante «polonês» explica-se pelo facto de, no começo do século XX, o proprietário do Cas(s)ino da Urca (onde Carmen Miranda usou pela primeira vez, em 1938, o traje de baiana), no Rio de Janeiro, ter levado prostitutas europeias para trabalhar no seu estabelecimento. Como estas mulheres eram, na sua maioria, loiras como as «polacas» do Sul do Brasil, a população começou a chamar-lhes polacas. «Filho da polaca» passou a ser o mesmo que «filho da puta». Em 1927, o embaixador da França no Brasil terá sugerido ao cônsul-geral da Polónia em Curitiba o uso do termo «polonês» (do francês polonais) para designar o natural da Polónia, evitando assim o pejorativo «polaco».

[Para um estudo aprofundado desta questão, ver
aqui.]

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Glossário: sapateiro

Alma m. Peça de couro colocada entre a palmilha e a sola do calçado para a reforçar.
Alargadeiras f. pl. Formas de pau para alargar calçado; encóspias.
Aquentador m. Utensílio de folha para aquecer ferros de sapateiro.
Bisegre m. Instrumento de sapateiro, feito de buxo, e que serve para brunir os saltos e bordas da sola do calçado.
Brocho m. Prego curto, sem cabeça, para calçado.
Bucha f. Peça de madeira roliça, com que os sapateiros brunem as solas do calçado.
Cerol m. Mistura de sebo, pez e cera, com que os sapateiros enceram as linhas.
Chanqueta f. Calçado sem contraforte no calcanhar ou com o contraforte acalcanhado.│Dobra no talão do sapato.
Costa f. Pequeno utensílio de pau, também chamado alisador, com que o sapateiro brune a sola do calçado.
Empenha Ant. s. O couro necessário para o rosto e lados de um sapato.│Remendo lateral de um sapato.
Encospiar v. Meter as encóspias no calçado; enformar.
Encóspias f. pl. Peças que os sapateiros metem no calçado para o alargar.
Enfranque m. A parte côncava do calçado, correspondente aos dois selados laterais do pé.
Entressola f. Peça entre a sola e a palmilha do sapato.
Entretação f. Cada uma das capas que constituem o salto do calçado.
Floreta f. A parte do rosto da bota que pega com o cano.
Francalete m. Peça, constituída por alguns pedaços de sola, que se coloca no enfranque para lhe dar rijeza e compor o feitio da sola.
Gáspea f. Parte dianteira do calçado.
Gogo m. Prov. tras. Pedra lisa, sobre a qual os sapateiros batem sola.
Linhol m. O fio untado de cerol com que os sapateiros cosem o calçado e que também serve para coser lona e várias coisas.
Malhana f. Provinc. alent. Martelo usado pelos sapateiros.
Manica f. Espécie de luva de couro que usam os sapateiros e os correeiros para não se cortarem com o fio; manícula.
Orelha f. A ponta de cabedal que num sapato fica sobre o peito do pé e pela qual se puxa ao calçá-los.
Parinho m. Trabalho manual de sapataria.
Poupa-solas m. Nome vulgar e popular de certo preparado para aumentar a duração da sola do calçado, dando-lhe mais resistência e menos facilidade de absorção de água, tapando-lhe os poros.
Puia f. Pequeno prego ou tacha usada pelos sapateiros.
Remonte m. Renovação ou substituição do rosto ou parte anterior do calçado, quando já está deteriorado, por outro de cabedal novo.
Revirão m. A vira de trás do calçado ou a vira de entranhar; também se chama virola.
Rocedão m. Fio com que o sapateiro liga o cabedal em volta das formas.
Roedura f. Ferimento nos pés, feito pelo atrito do calçado.
Solagem f. Operação que consiste em assentar a sola no calçado.
Sovela f. Instrumento constituído por uma espécie de agulha direita ou curva e encavada com que os sapateiros e os correeiros furam o cabedal para coser.
Sovelão m. Grande sovela.
Tala f. Tenaz de madeira, usada pelos sapateiros.
Tanseira f. Cada uma das peças laterais e posteriores da bota, colocadas acima da gáspea, e nas quais se prende a presilha.
Tirapé m. Correia de couro, com que os sapateiros seguram a obra sobre a forma.
Trincafio m. Linha de sapateiro.
Trinchete m. Faca de sapateiro terminada em faceta e mais ou menos curva.
Tripeça f. Fig. Ofício de sapateiro.
Vira f. Tira estreita de couro que se cose ou se prega entre as solas do calçado, junto às bordas destas.
Virola f. A primeira peça do salto do calçado, também chamada, em algumas oficinas, revirão.

[Glossário em construção: 40 entradas]
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Círculo e ciclo

Viciosos e virtuosos

«Ciclo de amigos»? Já bastou ter de aturar alguém a resmungar que não se diz, «que estupidez», «círculo vicioso». Mas diz, é esta a expressão consagrada. E, argumento de analogia, é assim em várias línguas. «Após a divulgação nos media de que a criança poderia ter sido morta na casa onde passavam férias e a viatura dos MacCann* ser submetida a uma perícia, juntamente com as do seu ciclo de amigos, as suspeitas atingiram também os pais de Maddie» («Pais de Maddie mais reservados em relação à PJ», Idálio Revez, Público, 9.8.2007, p. 8).

* «Dos MacCann»? Em que língua é que isto está escrito? Em português não é, certamente, e em inglês a regra também é pluralizar os apelidos. Basta ver: «Truth, lies and the smearing of the McCanns» (The Independent); «100 days on, and the agony sharpens for the McCanns» (The Observer); «Emotional Farewell For The McCanns» (Sky News).

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Léxico: «brontocrata»

Olha quem fala

Ao que parece, foi o actual presidente do Senegal, Abdulaye Wade, quem cunhou o termo «brontocrata», em referência aos dirigentes que estão há muitos anos no poder: Robert Mugabe, Félix Houphouet-Boigny, Yoweri Museveni… E ele sabe do que fala, não tanto por estar há muitos anos na presidência (embora esteja na política desde 1974), mas por ter sido reeleito, em Fevereiro, para o cargo, que ocupa desde 2000, tendo 80 anos. Só falta ceder à última tentação: alterar a constituição para poder concorrer a um novo mandato, prática a que são atreitos muitos líderes africanos.

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Tradução: «scarlet letter»

Falemos de cores e não de cor

A locução scarlet letter, encontrável no corpus legal anglo-saxónico, tem origem no título homónimo da obra de Nathaniel Hawthorne. Nos EUA, vigora actualmente uma lei que impõe uma scarlet letter: «a license plate that indicates the automobile’s owner has been convicted of driving while drunk». Num dicionário online, pode ler-se: «Etymological Note: This is a more specific sense of scarlet letter ‘a badge or symbol worn to indicate the bearer has committed a crime,’ often used figuratively. It originated in Nathaniel Hawthorne’s 1850 book The Scarlet Letter, in which a scarlet-colored A was worn as punishment for adultery.» Para o leitor português, tal locução pouco significará, mesmo que se lhe acrescente o qualificativo «internacional». (Claro que não ajudará nada que, entre nós, o título da obra-prima de Hawthorne tenha sido traduzido por «A Letra Escarlate» e «A Letra Encarnada». Como traduzirão scarlet fever? «Encarnadina»?) Um exemplo: se o Conselho de Segurança das Nações Unidas congela os bens e proíbe alguém (habitualmente um ditador ou um criminoso de guerra) de viajar, isso é o equivalente a uma «international scarlet letter». Equivalente, ou seja, a locução não faz parte da linguagem jurídica internacional. A scarlet letter é um estigma.

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Etimologia: «pelouro»

À lei da bala



      «Pelouro» é, convenhamos, uma boa palavra, de sabor antigo. Inicialmente, um pelouro era apenas uma bala de pedra ou de metal usada nas antigas peças de artilharia. Nem mais. Leia-se Camões n’Os Lusíadas: «Com toda hũa coxa fora, que em pedaços/Lhe leva um cego tiro que passara,/Se serve inda dos animosos braços/E do grão coração que lhe ficara;/Até que outro pelouro quebra os laços/Com que co alma o corpo se liara:/Ela, solta, voou da prisão fora/Onde súbito se acha vencedora.» Estes eram pelouros que os vereadores desdenhariam, ou, quando muito, apenas apreciariam como pesa-papéis, nunca como meio de verearem fosse onde fosse. Como é que então de uma bala de pedra ou de metal se passou para a designação dos sectores da administração de um concelho ou freguesia? Pois muito simplesmente porque os pelouros também eram bolas de cera ocas em que se introduziam os votos para a eleição do juiz ordinário e vereadores da governação local. Estes pelouros eram depois guardados na arca dos pelouros.

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Pronúncia: Dario

Melões reais

O meu avô materno chamava-se Manuel Maria e não era filósofo. Quando um dia decidiu ter uma mercearia, um dos dois fornecedores de melancias e de melões chamava-se Dario. (O outro era o pai de Paco Bandeira, mas essa é outra história.) Tanto o meu avô, que não era filósofo, como o fornecedor, que se chamava Dario, pronunciavam o antropónimo com tónica no i. Ambos ignoravam, presumo, a existência do rei persa Dario I, o Grande, e as regras da ortoépia — único ponto em comum com a apresentadora Herança de Verão, Tânia Ribas de Oliveira, que pronunciou /Dário/.

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Falsos cognatos

Por acaso…

      Quando falamos de falsos cognatos, esquecemo-nos quase sempre da palavra «casual». Claro, salta logo à vista que um eventually quase nunca é «eventualmente», como namely nem sempre é «designadamente» e aparently nunca é o nosso «aparentemente». Por casualidade, deixamos passar o «casual». Ele, seja lá quem for, aparece «strolling casually up to the plane like he was walking down the street to the local convenience store to get the paper». Pode comprar um jornal por acaso, mas ali vai descontraidamente. Casual no sentido de informal é puro anglicismo semântico — dispensável.

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Viriato e viriatos

Revisionismo

Sabia, mas já não me lembrava: Viriato nem sequer se chamava Viriato! Depois do choque, já só memória, de ter sabido que os Espanhóis o acham uma personagem histórica deles, o que, bem pensado (e depois do choque), nem sequer pode ser contestado com muita razão, releio esta afirmação de Roby Amorim: «Barão (aliás varão) é o homem, a figura viril, ousada, responsável. Os lusitanos já tinham adaptado a palavra do latim. Os seus chefes denominavam-se viriatos (o homem que lutou contra as legiões de Décio Junio Bruto chamar-se-ia qualquer outra coisa, o seu cargo é que era o de viriato — e por isso usava uma argola na coxa, a viria, como símbolo da sua virilidade)» (Elucidário de Conhecimentos quase Inúteis, Edições Salamandra, Lisboa, 2.ª edição revista e ampliada, p. 82).

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Paradoxo de Baker/baker

O coiso… Como é que ele se chama…

No rescaldo do julgamento dos agressores do eurodeputado Francisco Assis, o que mais me impressiona (logo depois da cobardia dos agressores, mas essa foi cominada pela juíza) é a profissão deles: um alfaiate, um sapateiro, um empregado de balcão e, por último, um vigilante. Bem sei que tudo se passou na província, mas parece reflectir — com excepção, talvez, do vigilante — a composição da população de há cem ou duzentos anos. Mas não é de aspectos demográficos e socioeconómicos que quero falar, mas sim do facto de dificilmente retermos o nome de certas pessoas. Reparem: três dos quatro agressores têm como último apelido Sousa; o quarto tem como apelido Rodrigues. Ninguém se recordará dos seus nomes (nem, no caso, há razão para tal). Mais facilmente nos recordaremos das suas profissões. Os Anglo-Saxões chamam a isto o paradoxo de Baker/baker. Só faltou um padeiro, para tudo ser perfeito.

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Arrendar e alugar

Casos e direitos reais     



      «Quando aluguei a minha primeira casa, a renda equivalia a 70 por cento do meu salário de jovem professor universitário. Vinte e cinco anos depois, se a categoria profissional se tivesse mantido, a renda representaria 2 por cento do meu salário» (Daniel Bessa, apud Público, «Eu sabia!», Helena Matos, 2.8.2007, p. 36). Já há muito tempo, é verdade, se afirma que a distinção entre arrendamento e aluguer, consagrada no Art.º 1023.º do Código Civil, não serve as mudanças entretanto ocorridas na sociedade. Contudo, o certo é que a distinção se mantém. Aluga-se um automóvel, uma bicicleta, um smoking, uma betoneira, cadeiras, etc. Arrenda-se um quarto, um apartamento. Escreve Cristóvão de Aguiar n’A Destreza das Dúvidas: «Conta-se uma história verdadeira de um professor da Faculdade de Direito que, numa prova oral, teria mandado o aluno embora, porque este teria dito que vivia num quarto alugado. Ao ouvir isto, o professor respondeu-lhe “Com que então vive num quarto alugado; o melhor será agora arren­dar um automóvel e ir já para o seu quarto estudar melhor a matéria…”»

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Espaço e tempo

Na esplanada

Duas criaturas conversam ao meu lado. Uma, muito despida e seguramente no estágio 3 da Escala de Nurnberger-Muller, dispara, ao ouvir a canção dos Rádio Macau Amanhã é sempre longe de mais: «Que estupidez! Confundir espaço e tempo!» Que estupidez, também eu digo, não confundir espaço e tempo! Como se dizia dantes sobre a Índia, não perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade. Não dizemos «no espaço de uma hora, de uma semana, de um mês»? Mais: não medimos, pese o digital, o tempo através do espaço, do avanço de um ponteiro no espaço? E o espaço-tempo de Minkowsky não é uma estrutura quadridimensional que combina as três dimensões espaciais e a única dimensão temporal? O que é isso senão o continuum espaço-tempo? É este o perigo de frequentar esplanadas.

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Locução: voz metálica

To whom it may concerne

Quando nos referimos à qualidade da voz, dizemos «metálica» e não «metalizada». Metalizado é o que sofreu um processo de metalização. Sim, já sei: se pesquisarmos no Google, aparecem-nos não sei quantas ocorrências. Tudo o que está certo e errado aparece. Ficamos siderados e não metalizados. Traduzindo do inglês, uma voz «brasslike» é, pois, uma voz metálica. É este o vocábulo. Sim, em inglês também se diz «metallic voice». Num estudo, «Voz metálica: estudo das características fisiológicas», da autoria de Eliana Midori Hanayama et alii, podemos ler: «O termo voz metálica veio sendo utilizado para caracterizar a voz estridente, irritante, penetrante, chorosa e fina, voz áspera, voz brilhante, limpa, aguda, picante.» A fazer lembrar uma fanfarra. Brass, os metais, como em solo brass, solo de metais, brass chorale, coral de metais… Sei lá, talvez a lembrar cowbells, hurdy-gurdies, merry-go-rounds e outras geringonças inglesas. I don’t know what to say.

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Nome da letra «g»

Imagem: http://multipolo.com.br/

Provocações


Júlio Machado Vaz, no programa da Antena 1 O Amor É…, de ontem, referiu-se ao Ponto G como «ponto guê». Não é por nada, mas a libido cai para níveis inimaginalmente baixos quando ouvimos alguém proferir guê em vez de gê, e então já não vale a pena pedirem-nos que exemplifiquemos (e muito menos para exemplificarem) onde fica o célebre ponto. Nem uma ida à Feira Erótica de Lisboa levanta o ânimo ou o que quer que seja. O Dr. Ernst Gräfenberg ia concordar, tenho a certeza.

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Tradução: «breech birth»

Imagem: http://www.livius.org/

Assim já percebo

O que é breech birth, em português? Será caso para dizer, como Santo Agostinho a propósito do tempo, se não mo perguntarem, sei? Talvez não, mas o certo é que em pouco tempo o vi traduzido de duas formas: «parto de nádegas» e «parto pélvico». E até, mas já numa pesquisa na Internet, «parto falhado». Estarão todos correctos? Apenas dois? Somente um? Nenhum?
Comecemos por este último. «Cerca de 97% dos bebés nascem saindo primeiro a sua cabeça. O esqueleto do feto é suave e flexível, o que ajuda a cabeça a passar pelo canal vaginal. No entanto, 2,4% dos bebés nascem primeiro pelos pés; isto é chamado de nascimento falhado (breech birth)» (Ver aqui.) Não se me afigura um termo técnico, e até o reputo equívoco. Em relação à primeira locução, «parto de nádegas», precisamos de ver a definição inglesa para a aferirmos. «Before birth, most babies are in a head-down position in the mother’s uterus. That’s why most babies are born headfirst. Sometimes the part of the baby that is head down is not the head, but the buttocks or the feet. When a baby is in that position before birth, it’s called a breech birth or breech baby» (in Familydoctor.org). Logo, se é «the buttocks or the feet», «parto de nádegas» não é correcto, pois só contempla metade da definição.
Finalmente, «parto pélvico». Foi num laudo médico, subsumido num acórdão, que encontrei, claríssima, a definição: «A referida parturiente compareceu no serviço de urgência, a conselho do seu médico assistente que lhe recomendara que o fizesse quando sentisse o momento do parto: o que fez levando consigo os exames que fizera anteriormente, tendo sido logo constatado pela enfermeira de turno de que tipo de parto se tratava (parto pélvico). O parto pélvico é um parto de risco e o médico tem que decidir, em primeiro lugar, se vai proceder a cesariana, que se apresenta como recomendada em situações como tais. E, respondida negativamente a esta primeira questão, necessariamente precedendo observação feita pelo médico, este, tendo em atenção que a apresentação se pode dar de “nádegas” ou de “de pés”, mas sempre com a “cabeça última”, com as dificuldades inerentes, com eventuais problemas com o cordão umbilical, dada a posição da apresentação, tem de acompanhar cuidadosamente a evolução da situação» (Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, n.º SJ199301070427473, de 7 de Janeiro de 1993).
Só conhecia, e há muitos anos, um termo relacionado com a questão e que nos veio directamente do latim: «Agripa, adj. 2 gén. (do lat. agrippa). Diz-se da criança que, ao nascer, apresenta primeiro os pés» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado). Entre os Romanos, alguns nomes comuns transformaram-se em prænomina, como este agrippa: veja-se, por exemplo, o general e político romano Marcus Vipsanius Agrippa (63-12 a. C.). Por circunstâncias ligadas ao nascimento, outros prænomina tiveram a mesma génese, como Caeso, que significava «cortado do útero», Posthumus, «nascido depois da morte do pai», Spurius, «protegido» (e depois, numa cambalhota semântica, «ilegítimo»), e muitos outros. Voltarei aos prænomina romanos, se os meus leitores acharem útil.


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Léxico: «celíaco»

Glutão?

      Actualmente, a maioria dos pais está familiarizada com a palavra «glúten» (embora uma parte a possa confundir com o glutão do Presto). Até os pedófobos que preferiam ver as criancinhas fora dos locais públicos a conhecerão. Contudo, já será uma minoria a conhecer a palavra «celíaco», com a qual se designa aquele que é intolerante ao glúten. Parece ter sido um médico grego do século II, Aretaeus da Capadócia, quem descreveu a doença e lhe deu nome: koiliakos (κοιλιακος) → coeliacus → celíaco. «Aquele que sofre do intestino». Isto porque um dos possíveis sintomas (sendo que também pode ser assintomática) é a diarreia. É curioso ver como a doença tem uma entrada própria (com remissão para «Fluxo do Ventre») no Novo Ministro dos Enfermos, um «Opúsculo Canónico, Moral e Apologético, em Defesa da Doutrina do Sumo Pontífice Bento XIV, Sobre a Repetição do Sagrado Viático», publicado pelos padres da Congregação de S. Camilo de Lelis em Lisboa, em 1817. «Fluxo do Ventre — Dejecção frequente de humores, ou materias liquidas pelo ano. Tem differentes nomes segundo a differença dos liquidos, ou materias: Quando são estercorosas, chamase Diarrhêa; sendo cruas, e indigestas, e sahem logo depois de comer, ou beber, chama-se Lienteria; se são chilosas, cinzentas, ou albicantes, Celiaco; sendo sanguinolentas, Fluxo de sangue, que he de especies, Dysenteria, Fluxo hemorroidal, e Fluxo hepatico

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Plural dos apelidos

Imagem: http://www.allocine.fr/

Os Simpsons e os Silvas

      Os colegas do Le Monde (excelente blogue, excelente serviço. Propus algo semelhante a um jornal português em Maio de 2006. Ainda não me responderam) publicaram um post sobre a pluralização dos apelidos, matéria já aqui tratada em duas ocasiões. Embora a regra não seja inteiramente coincidente com a portuguesa, creio que vale a pena conhecer o texto. Aqui fica.

«Le beignet des Simpson n’est pas une couronne

      Même si des considérations artistico-financières entrent en jeu pour donner une suite aux Simpson, cette famille moyenne(ment tranquille) n’est pas encore une dynastie : on écrit donc son nom sans “s” final. Mais chez les Bourbons, les Stuarts, les Tudors, les Gracques, les Curiaces (inséparables des Horaces)……, en voilà de l’illustre, du princier, de la suite dans les royales idées. Avec des histoires de famille tout aussi rock’n’roll.»


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